- Criança burra! - Um novo grito foi ouvido, seguido do som de uma pancada e de coisas se quebrando.
Aya se encolheu, assustada. Era hora do jantar e, como de costume, tinha ido para o grande salão destinado às refeições a fim de alimentar-se. Contudo, ao chegar lá, encontrou a porta fechada, Shippou de braços cruzados em frente a ela, obstruindo a passagem, e aquilo que parecia ser uma briga.
- O que está acontecendo? - perguntou para ninguém em particular.
- Não sei exatamente - Sui Makishima, que Aya ainda não havia notado estar próxima de si, respondeu -, também acabo de chegar. Mas essa confusão parece já estar acontecendo há algum tempo.
Embora surpresa por não tê-la percebido antes, não estava realmente surpresa por encontrá-la ali. Tinha aprendido que, em Edras, reunir-se para desfrutar de uma boa refeição juntos era quase como um ritual, e, já que tinham passado definitivamente a morar ali, eles - os forasteiros humanos - deviam respeitar seus protocolos. Assim, já tinha virado rotina que cada um deles - incluindo os novos, trazidos como bagagem de sua última excursão ao lado de fora da fortaleza - se dirigissem àquele local durante horários específicos do dia.
- Nossa general deve ter aprontado uma das grandes - comentou um youkai aleatório que ouviu a conversa delas. - Essa é a voz de Jaken, aquele monstrinho verde. Não reconhecem? - Olhou-as como se fossem estúpidas por ainda não terem entendido o que estava acontecendo.
Aya e Sui trocaram um olhar significativo após as palavras dele. Embora já estivessem vivendo em Edras por um período considerável de tempo, tendo até mesmo conquistado a confiança e simpatia de muitos ali - o que lhes rendeu regalias como poder transitar pelo QG youkai sem alguém lhes vigiando o tempo todo -, às vezes ainda tinham que lidar com comentários como aquele, vindo de youkais que nunca aceitariam a presença de humanos em suas terras, embora se vissem obrigados a tolerá-los.
Sabendo que de nada adiantaria retribuir a má educação daquele sujeito, ambas apenas forçaram um sorriso para ele e então voltaram a prestar atenção à situação ao seu redor.
Os presentes estavam começando a questionar o que se passava. Um burburinho de especulações e perguntas cresceu entre os youkais - ainda que também curiosos, os humanos entre eles apenas assistiam a tudo em silêncio, pois sentiam que palpitar em um assunto interno seria abusar da boa vontade de seus anfitriões. Com exceção de alguns, como o youkai mal-educado de antes, ninguém entendia o que estava acontecendo. Quem estaria brigando? E por quê?
- Calem-se! - a ordem ecoou pelo corredor abarrotado de pessoas, alta e imponente, fazendo todos se calarem.
Aya estranhou o óbvio mau humor de Shippou. Conhecia-o há pouquíssimo tempo, mas sabia que aquele não era seu estado natural. O que teria acontecido para deixá-lo naquele estado de nervos?
- Sinto muito por atrasar o jantar de vocês, mas todos terão de permanecer aqui até que um pequeno problema seja resolvido - finalizou sua fala.
- De que "pequeno" problema estamos falando? - alguém mais ao fundo perguntou.
Shippou permaneceu em silêncio, provavelmente pensando se deveria ou não explicar. Entretanto, antes que ele chegasse a uma decisão, um novo grito foi ouvido, revelando quem estava envolvida no problema em questão.
- Pare já com essa merda!
Todos ali imediatamente reconheceram aquela voz como sendo a de Yuki e constataram também: ela não estava nem um pouco satisfeita com o que quer que estivesse ocorrendo atrás daquelas portas.
- Pare já com essa merda! - gritou, virando uma das várias mesas do refeitório enquanto o fazia.
Já estava de saco cheio daquilo! Assim que adentrara o local para realizar sua refeição noturna, fora atacada por Jaken, aquele youkai raquítico, lambedor das botas de seu pai. Ele nem sequer se dignou a explicar o motivo de sua fúria, já foi agredindo-a com seu maldito cajado de duas cabeças, forçando-a a desviar de seus ataques - era isso ou revidar, o que acabaria por causar a morte do pequeno ser esverdeado, o que, por mais que ele merecesse, não era o que ela queria fazer.
- O que deu em você?!
- Eu que pergunto! - ele exclamou, respirando pesadamente, claramente cansado. - Sua criança burra, inconsequente, estúpida! Para aonde levou a humana?! E não se atreva a me dizer que a matou! - Apontou novamente o cajado em sua direção, fazendo com que Yuki se afastasse por medo das chamas que o velho Ancião podia emitir.
Ah, então era aquilo...
Estalou sua língua, irritada. Algo naquela humana realmente a incomodava e não era apenas seu jeito ingrato de ser. Não entendia o porquê de tanta preocupação com ela, principalmente agora que haviam descoberto tratar-se de uma impostora!
Ela tinha os enganado! Tinha permitido que pensassem que era alguém importante, alguém que poderiam usar como escudo naquela guerra, quando na verdade não passava de uma ninguém! Por culpa dela, todo seu plano tinha ido por água abaixo! Agora já não poderia mais controlar o número de baixas daqueles pelos quais lutava! Pior! Havia feito papel de tola perante seu odioso pai!
Só de lembrar-se da expressão de deboche que dominou o rosto daquele sujeito quando relatou-lhe sua descoberta, seu sangue começava a ferver devido à humilhação que sentia... Tinha sido durante esse ataque de nervos que dirigiu-se ao quarto de Yi-Min - ou seja lá qual fosse seu verdadeiro nome -, exigindo respostas e, quando ela não as ofereceu, permitiu que sua impulsividade lhe dominasse. Sentindo-se desafiada, tirou-a daquele quarto luxuoso e levou-a para o lugar aonde ela deveria ter estado desde o início: o calabouço reservado especialmente para a tortura de seus inimigos. O sangue do último youkai que atreveu-se a zombar dela, chamando-a de hanyou, ainda manchava o chão e as paredes do lugar quando deixou-a lá, devidamente presa, dois dias e meio atrás.
Ao contrário do que eles estavam pensando, não tinha realmente machucado-a. Nunca passou por sua cabeça matá-la, apenas gostaria de dar-lhe uma lição para que ela aprendesse seu devido lugar. Justamente por isso prendeu-a em um local tão afastado: não queria que a boca grande dela tirasse-a novamente do sério ou poderia acabar mudando de ideia.
Entretanto, toda essa desconfiança, ataques e ameaças começavam a fazer com que desejasse ter sido um pouco mais cruel em seu castigo. O que tornava aquela humana diferente de todos os outros que sua raça odiava?
- Por que de repente todos estão preocupados com o bem-estar daquela garota?! Vocês nem sequer gostam dos humanos! - acusou.
- Não interessa! Ela é uma prisioneira de Edras! Você não tem o direito de decidir o destino dela!
- Como é que é? - perguntou, ultrajada. - O que quer dizer com não tenho direito?! Eu tenho sido a verdadeira líder desse lugar por anos!
- É o que você pensa... - rebateu ele, abaixando o tom de voz e assumindo uma expressão ainda mais séria. - Saiba, sua criança burra, que cada um de seus passos é observado e se você nunca antes foi impedida de realizar algo, foi porque suas decisões e atitudes nunca conflitaram com as de seu pai, Sesshoumaru-sama, o único Lorde de Edras - alfinetou, deixando-a frustrada por aquela inconveniente verdade. - Mas não pense que essa sua atitude não lhe renderá uma severa punição caso persista em seu erro.
- Aquele cara odeia humanos, tenho certeza que ele não perderia seu sono pela morte de um deles - afirmou, mas já não estava tão convicta do que dizia, afinal, quem conhecia seu pai melhor do que Jaken?
O velho youkai olhou-a estranhamente, como se decepcionado com o que via.
- Você realmente não sabe nada... - lamentou, negando com a cabeça. - Ainda tem muito o que aprender sobre seu pai, Yuki-hime.
- Pena que me falta interesse para tal - debochou, tentando fazer a conversa retornar para o clima hostil de antes. Qualquer coisa era melhor do que sentir que estava levando um sermão de seu "avô".
- Então diga logo para aonde a levou e poupe-se do incômodo de ter de descobrir quem realmente é Sesshoumaru-sama - alertou. Embora sério, o olhar que direcionava a ela tinha um quê de pena que lhe era extremamente irritante.
Desconcertada por suas palavras e súbita mudança de comportamento, Yuki apenas lhe disse o que ele queria ouvir, louca para livrar-se logo de sua companhia:
- Junto aos dragões.
Jaken desejava muito poder dar algumas boas cajadadas na cabeça daquela criança burra! Encarcerar a humana já tinha sido algo estúpido e desnecessário, mas colocá-la no mesmo ambiente que os dragões?! Insano! Sorte dela que ele não tinha tempo para reiniciar uma briga!
Entre maldições, saiu porta afora, não parando para dar explicações à kitsune ou a qualquer um dos outros youkais amontados no corredor. Ordenando que todos saíssem da frente, seguiu o caminho que o levaria até o viveiro dos animais de estimação favoritos dos youkais: os dragões.
Quando Sesshoumaru permitiu que saísse da sala do trono com vida, não hesitou em procurar a segunda das únicas duas figuras que impunham respeito em Yuki: Jaken. Ao ser informado do que a general tinha feito e do que seu mestre recusou-se a fazer, o youkai ficou em um silêncio incômodo por alguns instantes, como se meditasse, e então decidiu ajudá-lo a encontrar e libertar a reencarnação de Rin.
Como o esperado, bastou trancá-lo em uma sala junto à general e ele fez com que ela revelasse a localização de Rin mais rápido do que qualquer outro - com exceção do pai dela - poderia. Infelizmente, vendo o modo transtornado com o qual deixou a sala, a resposta que conseguiu não era nem um pouco agradável.
Seu palpite mostrou-se certeiro quando, ao segui-lo - ainda que não tivesse sido chamado, não ficaria para trás sem saber o que foi descoberto -, o viu encaminhar-se para uma área que lhe era muito conhecida.
- Não é possível...
O viveiro dos dragões era, como o próprio nome sugeria, o lar dos dragões de Edras. Ficava para além da cabana de Yuki - a que ela usava para passar algum tempo com suas amantes - e era enorme como precisava ser. O lugar era delimitado por enormes pinheiros que serviam apenas para dificultar a passagem de desavisados, já que tentar manter criaturas tão poderosas cercadas seria estupidez. Antes mesmo de adentrar o território deles, os sons ameaçadores que emitiam já podia ser ouvido, ao adentrar, então, tornaram-se ensurdecedores.
- Kitsune! Faça-os obedecerem! - Jaken, que não havia dito palavra alguma durante todo o trajeto até ali, exclamou, medroso, ao ver-se alvo de uma das enormes criaturas.
- Ele só está feliz por receber visitas! - explicou.
Provando o que dizia, andou calmamente até o filhote de três metros de altura e esticou sua mão. Imediatamente, ele caiu com um estrondo no chão, abaixando sua cabeça à espera de um carinho que logo veio. Stark era o mais dócil dos dragões dali.
- Viu? - provocou.
O youkai, que antes quase borrava suas calças, reassumiu sua postura arrogante, dizendo:
- Não há tempo para essa estupidez, kitsune! Diga logo aonde fica o calabouço que aquela criança burra construiu!
- Eu temia que dissesse isso...
Assim que percebeu para onde rumavam, soube exatamente em qual lugar Yuki tinha aprisionado Rin. Ele mesmo tinha ajudado-a a construir o terror de seus inimigos. Na época, a barreira tinha acabado de ser erguida e Sesshoumaru tinha deixado-a responsável por fazer aquilo funcionar. Como o esperado, nem todos os youkais souberam demonstrar a devida gratidão por terem sido acolhidos ali e passaram a causar problemas - não respeitar a posição de Yuki, apenas por tratar-se de uma hanyou, era o mais comum deles. Para corrigir esses erros e evitar que outros aderissem a eles é que aquele calabouço foi construído. O número de vezes em que a autoridade da general foi contestada após o desaparecimento dos mais rebeldes caiu drasticamente, provando mais uma vez que o medo era sim um grande aliado.
No entanto, nunca pensou que chegaria o dia em que veria Yuki levar um inocente para lá! Ela realmente havia enlouquecido!
- Por aqui - disse, afastando-se do filhote de dragão e seguindo a passos largos para dentro do viveiro, Jaken às suas costas.
Enquanto abriam caminho por entre os moradores daquele lugar - estes apesar de os olharem fixamente e agitarem suas asas, um tanto nervosos, mantinham-se em seus lugares, sabendo que não deviam atacar aquele que montava um dos seus -, desejava mentalmente que a reencarnação de Rin fosse tão resistente quanto sua ancestral ou eles teriam problemas. Afinal, se não enganava-se em suas contas, ela não era alimentada há três dias inteiros.
Suspirou, temendo que já fosse tarde demais.
Descendo mais um barranco, ouviram o barulho de um rio que por ali corria. Seguindo à sua margem por alguns minutos, não demoraram a encontrar: a enorme rocha, coberta por camadas de musgo, em cima do que Shippou sabia ser a entrada do calabouço.
Foi preciso afastar a fêmea de dragão que dormia tranquilamente próxima à rocha - o que era um trabalho difícil considerando que as fêmeas eram as mais agressivas -, mas finalmente puderam remover a pedra, revelando a porta que, ignorando a fechadura, Shippou quebrou com uma sequência de chutes. Sem perder mais tempo, pulou para dentro, deixando Jaken para trás. Apesar do receio de pular para a escuridão, o velho youkai não hesitou por muito tempo e o imitou. Mas, diferente da kitsune, ele não teve um pouso tão elegante.
- Yuki, aquela maldita! - A exclamação vinha de Shippou.
Um pouco zonzo pela queda, Jaken demorou um instante a mais para focar no que o outro estava vendo, mas, quando o fez, prometeu para si mesmo que daria mais algumas cajadadas na filha de seu mestre para ensiná-la uma lição.
Em meio à podridão daquele lugar, estava a humana, amarrada pelos pulsos a uma viga no teto, seu corpo suspenso, praticamente imóvel. Ela dormia ou já... Não! Seu coração batia! Ainda estava viva! De qualquer forma, estava em péssimas condições. Não tinha sido torturada, mas humanos eram tão frágeis que isso não se fazia necessário. Teriam que ser rápidos se quisessem salvar a vida dela.
Shippou deve ter chegado à mesma conclusão, pois avançou em direção à humana, segurando seu corpo, e com um só puxão, arrancou as cordas que a prendia. Pegando-a no colo, virou-se para Jaken, dizendo:
- Talvez tenhamos de levá-la até ela...
Sabendo muito bem quem "ela" era, o youkai respondeu:
- Se você for rápido o suficiente não será necessário! Corra! Eu os alcançarei!
Mesmo que soubesse que seria difícil para Jaken sair dali sem sua companhia, Shippou não hesitou em obedecê-lo e saiu imediatamente do calabouço, carregando Rin em seus braços. Naquele momento, ela era sua única prioridade.
