Capítulo 2- Noche de navidad (Noite de natal)

Ele voltara. Mas agora o que fazer sobre isto? Ana indagou a si mesma, sentindo-se emocionada e nervosa ao mesmo tempo. No fundo de seu coração sempre acreditara que a lenda fosse verdadeira, mas nunca havia pensado realmente no que faria se um dia Sawyer voltasse para a praia. Era um bom presságio, o melhor de todos, mas de repente sentiu-se muito egoísta. Além de sua mãe e a avó quem mais se importava com ela em Paraíso? Seu pai decerto deixara de se importar há algum tempo porque se fosse diferente não a teria feito se casar com Daniel.

Ela e o pai costumavam ser muito amigos. Manuel Rodriguez assim como os outros homens de Paraíso também era pescador. Ele ensinara a Ana tudo sobre a arte de manejar um barco, o que significava cada peça que o compunha e a levara várias vezes em suas incursões pelo mar. Talvez essa fosse outra razão pela qual Ana-Lucia desejava tanto ver o mundo lá fora além das histórias que sua avó contava. No entanto, quando ela chegara à idade de casar, ele não quisera ouvir sua opinião ou seus lamentos por ter de se casar com um homem mais velho e que não amava com apenas quinze anos de idade. Sendo assim, para Ana, seu pai deixara de se importar com ela desde o dia em que entregara sua mão no altar da igreja para Daniel.

Portanto, o afogado era seu. Ela ainda não sabia bem o que faria com ele, mas tirá-lo da água fria era um bom começo. Quem sabe depois que fizesse isso, e repetisse todos os procedimentos feitos por seus ancestrais, devolvendo-o ao mar por fim, Sawyer realizaria seu desejo de deixar aquela ilha com seu filho e ver o mundo.

Ana-Lucia pensou na melhor maneira de removê-lo da água, mas sabia que seria quase impossível fazê-lo sozinha. Quase. Era o bastante para ela. Respirou fundo, buscando toda a força que podia dentro de si, tentando não aspirar o ar gelado em demasia para dentro dos pulmões. Agachou-se cuidadosamente na água, um banco de areia se formava ali, o que o mantinha preso e impedia que seu corpo fosse levado de volta pela maré. Ela colocou suas mãos em volta dos braços do homem e conseguiu finalmente arrastá-lo para fora.

Ele era um homem alto e pesado, como descrevera sua avó. Não podia dizer ainda que era bonito pois a cor acinzentada e morta de sua pele não deixava entrever nenhuma beleza. Para um homem que estava há muito vagando pelo mar, suas roupas encontravam-se em bom estado. Não havia muito musgo, apenas algumas algas marinhas presas em parte da camisa e da calça. Ainda tinha os sapatos muito bem amarrados aos pés.

Se Ana-Lucia o queria só para si, pensou consigo mesma para onde iria levá-lo? A ilha não era muito grande, mas por certo tinha seus recantos escondidos. Levá-lo para a vila estava fora de cogitação se pretendia escondê-lo. Podia pedir ajuda à sua avó para removê-lo da praia e abrigá-lo, porém, relutava em deixar que alguém além dela soubesse que Sawyer retornara à ilha.

Acabou optando pela decisão que lhe pareceu a mais sensata. Não era necessariamente a melhor, mas era tudo o que tinha. Quando criança, brincando pela praia um dia, descobrira uma caverna aquecida que ficava ao longo da curva da praia, longe da vila, logo após o banco de areia. A entrada era escondida por algumas rochas e até aquele dia Ana tinha sido a única pessoa que estivera lá. Gostava de se refugiar naquela caverna e fingir que era o lugar mais longe da vila que já estivera.

Não seria nada fácil levar Sawyer para lá, mas sua vida nunca tinha sido fácil, aquele era apenas mais um desafio que teria de enfrentar. Ela não queria machucar o corpo dele na areia arrastando-o até a entrada da caverna, mas não havia outro jeito. Criou uma invenção engenhosa feita com pedaços de madeira seca que encontrou perto da praia oriundos da escassa vegetação da ilha e os atou aos braços do corpo. Arrastou-o então até seu refúgio escondido.

Quando finalmente conseguiu adentrar a caverna com o homem, seus braços doíam terrivelmente pelo esforço que tinha feito, mas tudo valeria a pena no final quando conseguisse ser abençoada por aquele ser mágico, tão plácido e bondoso em sua morte.

Dentro da caverna havia uma cama de folhas secas que ela tinha preparado para ela mesma na última vez que estivera lá e já fazia um bom tempo. Era de se admirar que as folhas não tivessem apodrecido. Ana fez um último esforço para colocar o homem na cama de folhas.

Sentou-se ao lado dele e observou-lhe o corpo como um todo. Sim, ele parecia ser o exemplo da virilidade descrito por sua avó. Em seguida concentrou-se em seu rosto e tocou-o. Estava áspero e frio. A cor cinza da pele dele definitivamente não a agradava. Pensou que poderia lavar seu rosto com água morna, vesti-lo com roupas limpas e quentes, e até mesmo envolvê-lo em um cobertor de lã. A cor então poderia retornar ao rosto dele.

"Mas ele está morto!"- exclamou uma voz em sua mente. Mas ele não era um morto qualquer, Ana concluiu por fim. Ele era especial e sua alma intacta realizava os desejos das pessoas. Tocou-lhe novamente a pele fria e estremeceu. Sim, um pouco de água morna não lhe faria mal, tornaria a pele de seu rosto mais agradável ao toque.

Sorrindo consigo mesma diante da descoberta tão fenomenal que tinha feito naquela manhã, Ana-Lucia resolveu deixar seu segredo escondido na caverna e ir ver a avó. Ainda era véspera de natal e ela precisava ter um bolo pronto para a ceia daquela noite. Não podia desapontar Pedro.

"Voltarei logo!"- sussurrou para Sawyer como se ele pudesse ouvi-la.

Ana seguiu então seguiu seu caminho até a casa da avó. Quando abriu a porta, Margarida espantou-se ao ver a neta do outro lado com a capa de lã mal colocada no corpo, os longos cabelos negros em desalinho e as barras do vestido cinza molhadas.

- Oh, meu Deus, minha menina! O que foi que te aconteceu?

Ela abriu um largo sorriso e disse apenas:

- Vim te visitar, vovó e te pedir um favor.- enquanto falava, Ana adentrou a cabana aquecida da avó e esfregou as mãos diante da lareira.

- Mas com esse frio todo?- insistiu Margarida, preocupada. – E por que o teu vestido está molhado, menina?

- Eu vim caminhando perto das ondas e acabei me molhando.- Ana mentiu.

Margarida deu um sorriso.

- Como sempre! Você faz isso desde criança, e o Pedro provavelmente vai puxar à você. E então, o que veio me pedir?

- Não tenho ingredientes suficientes para fazer um bolo de natal para a ceia desta noite.- ela contou. – Como estão suas galinhas? Preciso de ovos.

- Minhas galinhas estão ótimas como sempre. Tenho bastante ovos na despensa. Diga-me de quantos precisa e o que mais falta em sua casa.

- Apenas ovos e manteiga, vovó.

- Certo.- concordou a avó. – Ovos, manteiga, pão, biscoitos e carne seca. Pode levar tudo.

- Não, vovó.- protestou Ana ao ver a avó entregar-lhe uma cesta cheia de coisas. – Eu não preciso de tudo isso.

- Sim, precisa!- disse Margarida. – Além disso, meu bisneto anda muito magrinho.

Ana-Lucia sorriu, rendendo-se. Ela estava com muita pressa de voltar à caverna.

- Está bem, vovó! Muito obrigada.- agradeceu já buscando sua capa de lã com os olhos para ir embora.

- Não se preocupe. Josias me traz mantimentos das outras ilhas uma vez na semana. – Margarida explicou e então segurou as mãos da neta com olhar terno.

- Eu tenho um presente de natal para o Pedro, mas tenho algo para você também.

Ela virou-se para ir ao único quarto da casa e logo em seguida voltou com algo embrulhado em papel pardo nas mãos.

- O que é isso?- Ana indagou.

- Abra!- pediu a avó.

Ana-Lucia colocou o pesado embrulho sobre a única poltrona da sala e seus olhos se encheram de alegria ao visualisar o conteúdo do pacote.

- Meu Deus, vovó! Isso é lindo!

Era um vestido branco, todo feito de linha grossa com forro de delicada seda da mesma cor. No decote havia pequenas bolas brancas que imitavam pérolas de verdade.

- É perfeito!

Margarida sorriu e beijou a testa da neta.

- Feliz Natal, meu anjo.

Ana-Lucia a abraçou.

- Feliz natal, vovó. Eu gostaria de ter um presente como esse para dar à senhora. Mas prometo que vou tricotar-lhe um xale novo.

- Não precisa se preocupar, querida. Você é o meu presente!

- Obrigada, vovó. Quem sabe eu não possa retribuí-la muito em breve?

- Do que está falando, minha neta? Aliás, você parece tão feliz esta manhã. Diga-me tem algo importante acontecendo?

Ana-Lucia deu de ombros e falou, misteriosa:

- Quem sabe?

Os olhos dela então desviaram-se para alguns cobertores que estavam dobrados perto da mesa da cozinha conjunta à sala.

- Vovó, eu poderia levar um desses cobertores? Ainda não tive tempo de tricotar cobertores novos para este inverno.

- Mas é claro, minha querida. Pegue qualquer um.- disse Margarida suavemente.

Ana então pegou um dos cobertores, o que lhe pareceu de textura mais grossa e dobrou-o cuidadosamente, colocando-o por cima da cesta que iria carregar. Margarida entregou-lhe o presente que tinha feito para Pedro.

- É um trenzinho.- explicou mostrando o brinquedo esculpido em madeira, as rodas pintadas de cores diferentes.

Ana-Lucia nunca tinha visto um daqueles e não sabia direito como explicaria ao filho como aquilo funcionava. Mas estava feliz por sua avó ter um presente para seu bebê já que ela mesma ainda estava pensando no que dar a ele.

- É lindo! Obrigada, vovó. Onde a senhora conseguiu um desses?

- Pedi ao Josias que comprasse um quando fosse à cidade. Ele esteve lá há uns dois meses atrás.

- Vou dizer ao Pedro que foi um presente do Papai Noel.- disse Ana. Embora Pedro provavelmente jamais fosse ver alguma figura de Papai Noel em sua infância, ela gostava de contar-lhe a história do bom velhinho que dava presentes às crianças todos os anos no natal. História essa essa que um dia lhe fora contada pela avó. Assim como ela, Pedro também merecia sonhar.

- A senhora vai à festa de natal esta noite?- Ana indagou antes de sair.

- Vou fazer o possível com este tempo.- Margarida respondeu.

Minutos mais tarde Ana-Lucia estava de volta à caverna, carregava sua cesta de mantimentos, seu vestido novo, o trenzinho de Pedro e o cobertor que a avó lhe dera. Sawyer estava lá, ainda imerso em seu sono eterno na cama de folhas, os braços largados ao lado do corpo.

Ana procurou galhos secos do lado de fora e usando alguns gravetos iniciou uma fogueira dentro da caverna. Rasgou a camisa congelada do homem e sentiu pena ao ver o peito acinzentado dele. Naquele momento sentiu dúvida sobre se este homem era mesmo Sawyer. Ele parecia tão morto quanto outros afogados que ela infelizmente já vira chegarem até a praia.

Mas deixou aquele pensamento de lado e encheu uma cumbuca feita de casca de coco que deixara na caverna no laguinho de água do mar aquecida que havia lá dentro. Cobriu Sawyer com o cobertor de lã e então rasgou um pedaço da bainha do próprio vestido, mergulhando o tecido na água morna antes de colocar na testa dele.

Repetiu o ritual de molhar o pano várias vezes, passando-o pelo rosto, pescoço e lábios do homem. O tempo foi passando e Ana ficou surpresa ao notar que a pele dele parecia menos acinzentada e ela pôde vislumbar um pouco mais de seu rosto. A barba estava espessa e os cabelos longos e emaranhados, mas tinha algo de tão belo naquele rosto, algo que fez com que uma imensa ternura inundasse seu coração fazendo-a sentir-se leve.

- É uma pena que você esteja morto.- ela murmurou deixando escapar uma lágrima. – Eu gostaria de ter conhecido alguém como você.

Dizendo isso, ela pegou a mão fria dele e apertou entre as suas próprias tentando aquecê-las, embora soubesse que não adiantaria muita coisa.

- Eu preciso voltar pra vila.- ela anunciou. – Meu filho espera por mim e eu ainda tenho um bolo de natal pra fazer. Quem sabe eu não consiga um pouco de melado para colocar nele?- disse consigo mesma.

Antes de sair, Ana-Lucia avivou o fogo para que não se apagasse durante muitas horas e também manteve o cobertor ao redor do corpo de Sawyer. Não sabia bem o que pretendia com isso, pois nem o fogo, nem o cobertor seriam capazes de aquecer um corpo sem vida, mas sentiu que era o certo a fazer e então partiu para a vila.

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O tempo melhorou bastante naquela noite como não se via há pelos menos uns dez anos em Paraíso. Geralmente as noites de natal eram extremamente gélidas e chuvosas, mas esta noite tinha algo de diferente no ar. Ana conseguira retornar para casa a tempo suficiente de preparar o bolo e esconder o presente que sua avó comprara para Pedro.

As pessoas estavam contentes com a mudança no clima e preparavam a tradicional festa de natal entre as ilhas com mais alegria do que nos anos anteriores. As mulheres capricharam em suas vestimentas enquanto os homens trouxeram mais mantimentos do que o usual para que todo o tipo de pratos fossem preparados para o jantar. Uma enorme mesa de madeira com bancos de correr coberta com uma toalha vermelha tinha sido colocada na praia e a árvore mais frondosa que ficava na entrada da vila havia sido decorada com fitas verdes e vermelhas, além de bolas de natal coloridas.

Ana-Lucia estivera ansiosa por aquela festa o ano todo. O natal era sua festa favorita. Embora ela nunca tivesse visto o natal fora de Paraíso apreciava aquele momento em que toda a vila se reunia com as comunidades das outras vilas para celebrar o nascimento de Cristo e pedir por dias melhores.

Daniel ainda não tinha voltado do mar, mas ela não se importou muito com isso. Sabia que ele estava bem. Ele era um pescador muito experiente. De fato, Ana até preferia que ele estivesse longe enquanto ela se arrumava para a missa. Ele não aprovaria o vestido que sua avó havia costurado para ela. Ao colocá-lo no corpo, Ana mal reconheceu-se. O vestido era tão bonito e delineava seu corpo bem beito à perfeição. O branco realçava a cor negra de seus cabelos e o bronzeado natural de sua pele. Ela completou seu visual com um ramo de flores cor-de-rosa feitas de tecido prendendo parte de seus cabelos, por fim calçou seu único par de botas.

- Bonita!- Pedro exclamou ao ver a mãe terminando de se arrumar.

Ana sorriu e disse ao filho:

- Você é tão cavalheiro, Sr. Pedro!

O menino deu sua risadinha infantil e estendeu os braços na direção da mãe para que ela o carregasse.

- Dessa vez não, querido.- ela disse suavemente. – Você já está um rapazinho e pode ir caminhando.

- Mamãe... – ele choramingou.

- A mamãe tem que levar o bolo!- disse Ana indo até a mesinha perto da porta de entrada da casa e levantando com cuidado o bolo de natas que preparara mais cedo.

- Mamãe...colo...colo...- Pedro continuou choramingando, mas Ana-Lucia apenas estendeu sua mão para ele. – Ande, filho, venha com a mamãe. Segure a minha mão.

O garotinho não obedeceu, ao invés disso fez cara de zangado para a mãe e cruzou os bracinhos diante do peito. Ana sentiu vontade de rir, mas controlou-se porque o filho estava muito sério e ficaria mais zangado se ela risse.

- Ah, então quer dizer que o mocinho está zangado comigo?

Pedro balançou a cabeça assentindo.

- É uma pena porque hoje mesmo fui falar com uma pessoa muito importante. Um tal de Papai Noel. Você conhece ele?

Os olhinhos de Pedro brilharam. Há dias que ele não parava de falar no Papai Noel e no natal.

- Eu tenho certeza que o conhece.- disse Ana pegando algo do pequeno guarda-roupa de madeira que dividia com Daniel e Pedro. – Se você vier aqui com a mamãe agora mesmo, vou te mostrar o que ele te mandou.

Pedro obedeceu. Estava curioso para saber o que o Papai Noel tinha mandado para ele. Caminhou depressa até a mãe com seus pequenos passos e estendeu-lhe os braços. Ana o pegou no colo, abraçando-o e então entregou-lhe o pacote que sua avó lhe entregara de manhã.

- Mamãe!- o menino exclamou erguendo o pacote no ar porque não sabia como abri-lo. Ela o ajudou.

- O qu`issu, mamãe?- perguntou Pedro segurando o trenzinho de madeira entre os dedos.

- É um trenzinho que pode te levar para passear onde quiser.

- Láaaa nu máh?- ele retrucou fazendo um gesto largo com as mãos indicando a grandeza do oceano que conhecia. O único meio de transporte que já tinha visto eram os barcos de pesca que ancoravam na praia.

Ana olhou as rodinhas do brinquedo. Ela também nunca tinha visto um trem de verdade, mas não conseguia imaginá-lo flutuando no oceano, por isso respondeu:

- Não, na terra.

Pedro sorriu, embora não tivesse compreendido como um trem poderia andar na terra. Em sua mente só conseguia vislumbrá-lo no ar, flutuando como o barco de pesca de seu pai.

- Você gostou?- Ana indagou diante da expressão maravilhada do filho.

- Gotei!- ele respondeu em sua linguagem infantil.

- Nós podemos ir agora? O vovô e a vovó esperam por nós na igreja.

Ele balançou a cabeça concordando e Ana-Lucia o colocou no chão, estendendo sua mão para ele depois de equilibrar o bolo de erguer o bolo e equilibrá-lo na outra mão.

- Mamãe?- Pedro chamou enquanto caminhavam para fora da casa.

- Sim?

- Onde o Papai Noel mola?

- No pólo norte.- respondeu Ana bem humorada lembrando-se das histórias da avó.

- Onde é issu?

- Longe!

Assim que chegaram à praia, Ana avistou sua mãe e a avó conversando. Ficou feliz que Margarida tivesse realmente vindo para a festa.

Ana caminhou até elas obedecendo o ritmo dos passos curtinhos de seu filho.

- Vovó, que bom que veio!- disse ela quando chegaram perto das duas

- Eu não podia perder essa festa por nada.- disse Margarida já pegando Pedro nos braços. – Ah, menino! Você está crescendo tão depressa!

- Tenzinho!- disse ele, alegremente.

- Nossa, que lindo! Quem foi que te deu esse trenzinho?- Margarida perguntou.

- Papai Noel!- Pedro respondeu com um sorriso enorme.

Teresa avaliou o vestido de Ana e disse:

- O vestido é lindo, mas talvez seja um pouco demais. Deveria colocar um xale, Ana. Da próxima vez costure um vestido de mulher casada!

Margarida soltou um som de escárnio e disse à Teresa:

- Ora, Tetê, quando foi que você ficou tão careta? Seus vestidos costumavam ser mais decotados do que este e além do mais, fui eu quem fiz o vestido para ela.

Teresa sorriu e observou o bolo que Ana trazia nas mãos.

- O bolo ficou bonito.- elogiou. – E você também está linda! Vai causar muitos ciúmes em seu marido. Ana-Lucia não respondeu ao comentário, apenas entregou o bolo à mãe.

- Quem se importa com os ciúmes dele?- debochou Margarida quando Teresa se afastou. – Você é jovem, meu bem, deve exibir-se!

Ana-Lucia riu e observou a praia. No natal tudo ficava tão diferente. A ilha que era sempre tão triste e fria se tornava calorosa, radiante. Uma família de cinco pessoas passou por Ana e sua avó e as cumprimentaram com abraços e desejos de feliz natal. A mesa armada no centro da praia já começava a ser servida para a ceia que aconteceria depois da missa. Estava repleta dos pratos típicos da região, preparados principalmente com frutos do mar como corvina na manteiga e mariscada, além de empanadas chilenas recheadas com carne e queijo e o tradicional pastel feito de milho conhecido como Choclo. O bolo de natas coberto com melado feito por Ana-Lucia foi colocado no centro da mesa, o que a deixou orgulhosa.

Se Sawyer era mesmo capaz de realizar desejos, ele já estava realizando os desejos dela. Tudo parecia tão perfeito naquela noite de natal. Ela não se sentia feliz assim em anos. Daniel não estava ali para vigiá-la ou dizer-lhe o que fazer, assim como seu pai já não detinha mais poderes paternos sobre ela por ser uma mulher casada. Portanto, naquela noite Ana sentiu-se livre para se divertir e fazer o que quisesse.

Depois de cumprimentarem mais pessoas, Ana e sua avó juntaram-se aos pais dela na igreja. Ao ver a filha, Manuel perguntou-lhe:

- Onde está seu marido?

- No mar.- Ana respondeu.

- Até este horário?- Manuel retrucou. – Hoje é noite de natal.

Ana-Lucia falou baixo para que Pedro não ouvisse:

- Daniel não liga para o natal.

A missa celebrada pelo padre Estebán comoveu a todos os fieis presentes. Ele falou de esperança, de sonhos e de fraternidade. Ana não conseguiu deixar de pensar em Sawyer que estava agora na caverna. Ela pretendia providenciar o quanto antes seu novo sepultamento, atirando seu corpo ao precipício e fazendo suas preces para que ele as atendesse como instrumento do Criador que era.

Pensou também em sua avó Margarida, sentada ao lado dela ainda com Pedro em seu colo. Ana achava que sua avó tinha sorte de um dia ter vivido em outro lugar que não fosse a ilha de Paraíso. Se perguntava como por que ela tinha voltado. Sabia que Margarida nascera e fora criada na ilha, mas ela fora embora um dia antes que seu pai a forçasse a se casar com um homem que não amava. Depois voltou para Paraíso muitos anos depois, viúva e com cinco filhos para criar, dentre eles Manuel. Se tivesse a chance de sair daquela ilha, Ana pensou que jamais voltaria para aquele lugar.

Depois da missa, todos se dirgiram à mesa na praia para ceiar. Uma oração em conjunto foi feita e logo as pessoas começaram a se servir da variedade de iguarias expostas. Com o passar das horas a noite começou a esfriar e para aquecer o ambiente a fogueira acesa na praia foi alimentada com mais lenha, alguns homens se posicionaram com seus tambores, violões e maracas. As mulheres se aproximaram com suas saias de cores vivas e rodadas, os pés descalços para dançar mesmo na areia fria. Suas mãos seguravam as tradicionais castanholas feitas de madeira, influência dos antigos colonizadores espanholes.

Toda aquela agitação mexeu com Ana-Lucia. Fazia muito tempo que não dançava. Sabia que não seria de bom tom participar da dança com seu marido ausente, apenas as solteiras tinham essa liberdade, entretanto, ela não se importou e tirou as botas. Margarida sorriu ao perceber que a neta ia dançar.

- Ana!- ralhou o pai dela ao vê-la dirigindo-se para a roda de dança.

- Deixe-a, Manuel!- pediu Teresa. – Deixe a menina se divertir!

O homem resmungou, balançando a cabeça em negativo:

- Se Daniel a vir na roda de dança não vai gostar nada disso. Vai querer mandá-la para casa!

Mas ela já estava lá, pegando um par de castanholas para si mesma. Podia sentir seus tenros e verdadeiros dezessete anos outra vez.

- Mamãe!- Pedro chamou e Margarida balançou-o em seu colo usando as pernas.

- A mamãe vai dançar, meu menino. Veja como ela está linda!

O menino riu e bateu palmas quando a música começou. Ana colocou-se em posição reta e austera, segurando a ponta da saia. Um rapaz da idade dela colocou-se à sua frente na clássica posição do toureiro que persegue seu opositor. Ela riu satisfeita e dançou, rodopiando a saia e o corpo, batendo as castanholas com vontade. O rapaz a acompanhou, seguindo o ritmo dos tambores com as mãos no próprio peito, batendo-as alternadamente.

Ana-Lucia jogou os cabelos para um lado e para o outro de forma sensual, sem parar de sorrir. Os jovens ao redor não paravam de olhar para ela. De repente Ana não era mais apenas uma senhora casada, ela era jovem, livre e cheia de vida como eles. Animada, Margarida entregou Pedro à nora e juntou-se à roda, remexendo sua saia longa, fazendo-a farfalhar. As pessoas bateram palmas e deram gritos de aprovação quando ela começou a entoar a letra de uma canção em sua voz forte e dramática.

"Gracias a la vida, que me ha dado tanto. Me dio dos luceros que cuando los abro perfecto dinstingo lo negro del blanco e en alto cielo su fondo estrellado, y en las multitudes al hombre que yo amo."i

(Graças pela vida, que me deu tanto. Me deu dois olhos que quando os abro perfeito distinguo o negro do branco e no alto seu fundo estrelado, e em na multidão o homem que eu amo)

Todos estavam se divertindo tanto que não notaram a chegada de mais um barco pesqueiro no pequeno porto que havia na praia. Era o barco de Daniel Cortez retornando depois do longo dia no mar. A pesca não tinha sido muito produtiva, apenas algumas lagostas e uma corvina. Ele estava chateado e ficou ainda mais aborrecido ao ver Ana-Lucia dançando com os rapazes solteiros da praia, chacoalhando a saia e mexendo os quadris ao som dos tambores e castanholas.

- Ele está aqui!- disse Manuel observando a chegada do genro e o olhar de ódio que ele dirigiu à filha dele.

Daniel estava com frio, cansado e irritado com a pescaria infrutífera do dia, mas nada podia ser pior do que ver sua esposa tão bonita, a mulher de quem ele tinha tanto ciúme, dançando com os rapazes da vila mais jovens do que ele. Homens que ainda não tinham perdido o brilho da esperança em seus olhos. Homens que ainda não tinham se dado conta de que não havia nada mais para eles além daquela ilha sombria e uma vida no mar.

Ele não pensou nem por um segundo no que estava prestes a fazer. Tinha tomado vários tragos de aguardente no barco para espantar o frio e acabara se embriagando. Enquanto bebia pensava que as coisas ficariam melhores. Ele tinha uma família. Uma bela mulher e um filho. Ela o estaria esperando em casa quando chegasse com uma refeição pronta e uma cama quente. Mas ela não estava e Daniel sentiu-se traído por isso.

- É melhor dizer à sua filha para parar de dançar!- disse Manuel à Teresa.

- Ela é sua filha também!- disse Teresa com irritação erguendo-se com Pedro no colo.

Mas antes que ela pudesse falar com Ana-Lucia que estava tão distraída se divertindo que sequer notara a chegada do marido, Daniel acercou-se dela primeiro e sem nenhum aviso agarrou-a pelo braço e a arrastou para longe da roda de dança. Margarida parou de cantar imediatamente. A música também parou e todos que estavam longe da roda de dança se aproximaram para ver o que estava acontecendo.

- Então é isso?- Daniel gritou com Ana-Lucia diante de todos ainda agarrando seu braço.

- Me solta!- Ana gritou de volta tentando se desvencilhar dele.

- Quando os gatos saem os ratos fazem a festa!- Daniel gritou para todos.

Ana lutou tanto para se soltar que acabou caindo no chão.

- Mamãe!- Pedro gritou, chorando. Ele estava assustado com a atitude do pai.

- Manuel!- Teresa chamou. – É melhor você intervir.

- Ele é marido dela, Teresa. Não posso fazer nada!

Os lábios dela tremeram quando ela voltou-se para o marido e disse com fúria:

- Você sempre foi um covarde!

- Vagabunda!- berrou Daniel olhando para Ana-Lucia que se erguia do chão. – Vamos agora mesmo para casa que eu vou te dar uma lição!

- Fica longe de mim!- disse Ana-Lucia entre dentes.

No entanto, em sua raiva e ciúme desmedidos, Daniel bateu em com um punho certeiro em seu rosto com tanta força que ela caiu ao chão outra vez. Sentiu seu rosto arder dolorosamente e dos lábios um fio de sangue escorria. As pessoas na praia balançavam suas cabeças e cochichavam entre si, reprovando o comportamento do pescador. Manuel finalmente reagiu diante daquela cena. Agora Daniel estava exagerando e nenhuma mulher seria machucada naquela ilha, principalmente sua única filha. Correu ao encontro dos dois e antes que Daniel pudesse machucar Ana novamente, empurrou-lhe para longe dela.

Daniel caiu para trás cambaleante. Estava completamente bêbado. Ele tentou revidar contra o sogro, mas seus companheiros de pesca o seguraram.

- Para com isso, Daniel!- gritou Josias segurando-o por trás. Outros dois pescadores também se aproximaram.

O homem se debatia e tentava derrubar os dois homens que o seguravam.

- Pare agora!- exigiu Manuel, mas Daniel continuava se debatendo. Margarida não aguentou mais ver aquela cena, então se aproximou de Daniel e diante do olhar perplexo de todos estapeou-o no rosto fazendo com que ele parasse de empurrar os homens que o seguravam.

- Levem ele para dar um bom mergulho e esfriar a cabeça!- ela disse aos homens que levaram Daniel para mergulhar no mar gelado para que se acalmasse. Manuel os acompanhou. Margarida foi então ver como Ana estava. Teresa tinha acabado de ajudá-la a se levantar.

Ana tremia e soluçava. Seu pulso ardia devido à força com que Daniel a segurara. Ele era um homem rude e frio, mas jamais batera nela. Aquela tinha sido a primeira vez. Ele estava totalmente fora de controle.

- Venha aqui, querida!- disse a avó querendo abraçá-la.

- Você está bem, minha filha?- Teresa perguntou com Pedro ainda chorando em seu colo.

Mas Ana-Lucia não disse nada para nenhuma das duas, apenas olhou para o filho e acarinhou-lhe os cabelos dizendo:

- Perdoe-me, Pedrinho.

- Mamãe!- o menino choramingou, mas Ana já estava se afastando deles. Ela precisava sair dali o mais depressa possível.

Então ela correu até onde estavam suas botas e as calçou depressa.

- Ana!- Margarida a chamou.

Mas Ana não quis saber de nada e nem de ninguém. Apenas calçou suas botas o mais rápido que pôde e correu até o porto diante de todos, pulando no mar e nadando a curta distância até o barco do marido que estava ancorado ali.

- Ana-Lucia!- Teresa gritou e os rapazes que antes dançavam com ela se prepararam para correr atrás dela e impedi-la de zarpar, no entanto, Margarida os chamou:

- Carlos! Juan! Deixem-na ir!

- O quê? Margarida, estás louca?- protestou Teresa. – Ela está machucada e nervosa, o mar está bravio e escuro, ela não vai conseguir ir muito longe. Além disso, para onde iria?

- Deixem-na!- insistiu Margarida e os rapazes permaneceram no mesmo lugar.

Quando Manuel, Josias e os outros homens voltaram com Daniel que agora tossia e se debatia de frio, ele perguntou à mãe e à esposa:

- Onde está Ana?

- Ela saiu no barco do marido.- Margarida respondeu despreocupadamente.

- Como assim saiu no barco?- Manuel retrucou, surpreso.

- Tem que encontrá-la! Ela vai acabar se afogando!- berrou Daniel que agora parecia mais controlado depois do banho forçado no mar. Parecia até mesmo arrependido do que fizera.

Margarida olhou para ele com desprezo e disse:

- Tirem esse traste da minha frente antes que eu bata nele de novo!

Josias e um dos companheiros que o tinham tirado da água o levaram em direção à casa dele enquanto Daniel gritava em desespero:

- O que foi que eu fiz? Meu Deus, o que foi que eu fiz? Ela vai morrer afogada!

Depois de toda aquela confusão, Manuel apaziguou os ânimos e pediu desculpas às visitas pela cena que tiveram de presenciar, assegurando que Ana sabia velejar e que ela ficaria bem. Ela era muito boa com barcos, ele ensinara tudo o que sabia à sua filha desde que ela era pequena. Mas aquela noite que antes parecera agradável, agora se tornara fria e tristonha. O vento aumentara fazendo com que a festa de natal não demorasse muito. Logo todos estavam buscando abrigo. As pessoas que moravam nas outras ilhas passariam a noite em Paraíso e partiriam pela manhã.

Hospedada na casa do filho, Margarida observou Teresa ajoelhar-se diante do altar montado para a Virgem e rezar pela filha que agora se encontrava no mar. Pedro dormia depois de muito chorar chamando por sua mãe.

- Ela vai ficar bem, Teresa.- disse ela tocando o ombro da nora em um gesto de conforto. – Ela é imtempestiva como todos os Rodriguez. Ana teve a quem puxar. Estava muito zangada para permanecer aqui.

- Mas a noite está tão escura e o vento tão forte.- disse Teresa segurando seu rosário de madre-pérola entre os dedos.

- Ela sabe velejar. Meu filho a ensinou muito bem. Ana só precisa de um tempo e quando ela voltar, não creio que as coisas entre ela e Daniel serão as mesmas.

Teresa assentiu, mas mesmo assim começou a rezar pedindo para que a Virgem protegesse sua filha e a trouxesse logo de volta para casa. Enquanto isso, Ana rodeou a ilha no barco pesqueiro de seu marido. Seu pai tinha razão. Ela era uma excelente velejadora e sabia exatamente como operar um barco. O mar não estava fácil e a embarcação balançou várias vezes, mas ela manteve as velas firmes e procurou não se afastar muito da ilha seguindo os instrumentos de navegação do barco para não se perder. Havia também uma lamparina a óleo acesa para ajudá-la a ver no escuro e se manter nas coordenadas certas. Deveria haver um farol em Paraíso. Isso guiaria melhor os barcos do que suas lamparinas.

Ana sabia exatamente aonde queria ir e quando chegou à praia perto de sua caverna particular, ancorou o barco no mesmo banco de areia onde o afogado estivera preso naquela manhã. Lá, o barco estaria seguro.

Por causa de sua ira, Ana se esquecera de pegar sua capa de lã antes de partir e seu corpo doía tanto por causa do frio que parecia que ela congelaria até os ossos. Precisava se aquecer dentro da caverna. Ergueu as saias quando desceu do barco no banco de areia para que pudesse caminhar com mais facilidade. Suas roupas encharcadas pioravam a situação e a faziam tremer de frio ainda mais. Carregava consigo a lamparina do barco.

Ela respirou aliviada quando entrou na caverna e sentiu o aquecimento natural das rochas naquele lugar. A fogueira que acendera pela manhã tinha se apagado, restando apenas cinzas. Mas havia pequenos troncos que ela tinha deixado lá antes de ir embora que serviriam para acender uma nova fogueira. Procurou o corpo do afogado com os olhos, mas antes que pudesse vê-lo, sua lamparina apagou-se.

Ana-Lucia a deixou de lado e caminhou um pouco mais dentro da caverna escura. Tirou as botas e sentiu a areia morna em seus pés aliviando um pouco o frio. Suspirou. Estava tão cansada. Conhecia aquela caverna tão bem que não precisou de luz para encontrar o lago aquecido e usar um pouco da água para reavivar a chama da lamparina. Ela queria encontrar os galhos que tinha deixado separado naquela manhã para fazer uma nova fogueira quando um barulho chamou-lhe a atenção. Um som estranho de algo que se encostara contra as rochas. Haveria algum animal ali?

Ana então virou a lamparina na direção da cama de folhas onde deveria estar o corpo e teve uma visão que a deixou perplexa. Encostado contra a rocha, nu e encolhido, tremendo, estava o homem afogado que ela tirara da água. Ana-Lucia gritou.

Continua...

i Canção de Mercedes Sosa, Gracias a la vida.