Capítulo 3- Vivo

Ela teria continuado gritando por um longo tempo se ainda tivesse fôlego para isso. Mas continuar gritando não iria adiantar. Não iria mudar o que estava acontecendo diante dela naquele momento.

Ana fechou os olhos por alguns segundos na esperança vã de que aquilo tudo ia desaparecer e de repente ela acordaria em sua cama ao lado de Daniel após ter mais um de seus pesadelos. Porém, quando abriu os olhos novamente, Sawyer ainda estava lá. Vivo. Como podia ser?

Ele deu um gemido angustiado e abraçou o próprio corpo parecendo tentar se aquecer. A caverna ainda estava parcialmente escura e a luz bruxuleante produzida pela lamparina de Ana tornava o ambiente lúgubre, aumentando o reflexo da sombra do homem. Ela quis correr dali de volta para a praia de onde acabara de fugir, mas respirou fundo e procurou tomar coragem. Se aquele homem era mesmo o ser mágico de que sua avó tanto lhe falara em suas histórias seria bem provável que ele pudesse magicamente reviver. Mas dentro daquela caverna, nu, encolhido contra as rochas e tremendo sem controle, ele não parecia tão mágico assim.

O homem gemeu mais uma vez e então engoliu em seco. Fez um barulho tão alto com a garganta que o coração de Ana pulou dentro do peito. Então ele encolheu-se mais contra a rocha e chorou. Um pranto sofrido, extremamente doloroso.

Ana-Lucia viu-se estendendo a mão para ele, mas à distância, tocando-o apenas em seu pensamento. Ela queria ajudá-lo. Aliviar aquela dor que parecia estar sufocando-o. Mas não sabia o que fazer. Estava paralisada pelo terror diante do que estava acontecendo.

De repente, como se estar vivo não bastasse, o homem falou e dessa vez foi Ana quem engoliu em seco, profundamente.

- Help me...help me... (Ajude-me, Ajude-me).

O som da voz dele saiu abafado, quase rouco e numa frequência tão baixa que ela só escutou porque eles eram as únicas pessoas naquele lugar e porque ao redor da caverna nada havia além do som do mar batendo alto contra as pedras lá fora.

- Please, help me!(Por favor, me ajude) - o homem falou um pouco mais alto, mas Ana não conseguia decifrar o que ele dizia. Não falava aquela língua. Respirando fundo e torcendo as mãos nervosamente umas nas outras, ela tentou falar com ele:

- Quién es tu? Eres el ahogado? (Quem é você? És o afogado?)

A pergunta foi feita num tom de voz bem mais alto do que o do homem devido ao nervosismo que Ana sentia e sua voz reverberou dentro da caverna, o eco batendo nas paredes. O homem respirava muito alto e quando ouviu a voz dela ergueu seu rosto e encontrou seu vulto não muito longe. Não podia vê-la de fato porque seus olhos estavam turvos. Mas sabia que havia alguém ali. Pressentira quando a pessoa chegara e embora aquela língua não fosse a sua, esta não lhe pareceu estranha e ele conseguiu dizer:

- Yo no lo sé quien soy...- ele parou de falar e deixou escapar mais um soluço. Ana tremeu por dentro ao ouvi-lo. – Necesito ayuda, por favor. (Eu não sei quem sou. Preciso de ajuda, por favor.)

Ana-Lucia resolveu caminhar até ele. Estava morrendo de medo, mas sua curiosidade falou mais alto. Caminhou a passos lentos, olhando para a entrada da caverna vez por outra, seu corpo ainda querendo fugir, mas sua mente querendo permanecer naquele lugar.

- Por favor...- ele gemeu mais uma vez, ainda abraçando o próprio corpo.

Ela por fim colocou-se frente a frente com ele. O homem ergueu seus olhos novamente e desta vez encontrou-se com os olhos dela. Eram negros e exibiam um misto de coragem e medo tendo um efeito hipnótico sobre os olhos azuis lacrimejantes dele.

- Vocêeee... é um an-jo?- ele balbuciou as palavras na língua dela, parecendo completamente incerto sobre o que fazia ali.

- Não- respondeu ela estendendo sua mão para tocar o rosto dele. Estava suado e quente. Definitivamente seu afogado estava vivo. – Você é o meu anjo.- ela completou.

O homem tentou erguer-se, mas não parecia ter forças suficientes para isso. Suas pernas tremeram e Ana-Lucia o amparou.

- Calma!- pediu ela. – Devagar...vou te colocar de volta na cama.

Ele não discutiu, deixou que ela o ajudasse guiando-o de volta à mesma cama de folhas secas onde ele tinha acordado. Novamente foi difícil para ela levá-lo devido ao seu peso, mas dessa vez com o homem acordado e a ajudando a tarefa levou menos tempo.

Ana o colocou na cama com cuidado e em seguida correu para encontrar o cobertor onde o corpo estivera embrulhado antes. Assim que o localizou perto das rochas onde Sawyer estivera encolhido trouxe-o para ele, cobrindo-o dos pés à cabeça, cuidadosamente para que não sentisse mais frio. Mas o homem não parava de tremer. Estava em choque profundo.

Ela então foi buscar mais água morna na fonte. Encheu a cumbuca e mergulhou a tira que rasgara de seu vestido pela manhã na água. Passou o líquido naturalmente morno no rosto dele. Então foi erguendo o cobertor aos poucos e derramou mais em seu peito, pernas e pés. O homem continuava tremendo, mas aos poucos o ato contínuo dela de molhá-lo com água morna foi fazendo o efeito desejado e ele foi parando de tremer.

Porém, de repente, um acesso de tosse o acometeu e Ana pensou em dar-lhe água para beber, mas aquela água morna só serviria para deixá-lo mais sufocado. Ela precisava ir até à casa de sua avó e pegar água potável, assim como azeite para aliviar as dores na garganta dele. Talvez assim ele tivesse alguma chance de sobreviver.

Margarida jamais lhe falara sobre isso em suas histórias, que o homem afogado tivesse acordado e necessitado da ajuda de seus benfeitores, no entanto, Ana não tinha muito tempo para ficar pensando nisso.

- Preciso conseguir água pra você.- disse ela tocando-lhe os cabelos úmidos num gesto carinhoso e protetor. – Irei à casa de minha avó. Não é muito longe daqui.

- Não...- o homem gemeu durante mais um acesso de tosse. – Não me deixe...

- Vou voltar logo. Eu prometo!

Ele pareceu esboçar um sorriso, ainda que sofrido.

- Sim...você disse que voltaria.

Ana-Lucia sorriu também. Então ele a tinha escutado mais cedo enquanto ainda estava morto. Como aquilo podia ser possível? Ela se ergueu do lado dele relutante em se afastar, mas precisava ajudá-lo. Tinha medo que o sono eterno o tomasse novamente e dessa vez fosse irreversível. Ajeitando o cobertor outra vez no corpo dele, cobrindo cada pedacinho de pele exposta ao frio com a textura morna e reconfortante da lã, Ana o deixou e correu até a casa de sua avó nas rochas acima da praia.

Ao contrário do clima ameno da caverna, o tempo lá fora estava vários graus abaixo, podia-se sentir o cheiro da chuva que se aproximava, raios cortavam o céu e iluminavam a praia, trovões se seguiam aos raios anunciando a tempestade iminente. O mar estava ainda mais agitado do que quando ela chegara ali. O barco de pesca de seu marido balançava sem parar. Mas as ondas não o levariam. Ana tinha certeza que enterrara a âncora bem fundo na areia.

Apesar do frio que sentia, Ana correu o mais rápido que pôde até a casa da avó. Se o tempo estivesse melhor, talvez ela pudesse tentar trazê-lo para ali, e usar a lareira de Margarida para esquentá-lo. Mas o estado debilitado do homem não permitiria tal coisa. Por isso, Ana-Lucia contentou-se apenas em pegar mais cobertores, colocar água potável em um velho cantil e encher uma pequena cumbuca com azeite fresco, mas quando já estava saindo lembrou-se que precisaria dar comida ao homem assim que ele se restabelecesse. Ela própria precisaria de comida, de roupas secas e de cuidados.

Ela sentiu os lábios arderem e olhou para o sangue seco que manchava o decote de seu vestido. Seu rosto e lábios estariam feios e inchados no dia seguinte. Pensou em Daniel. Ele não tinha o direito de bater nela. Nunca a tinha agredido daquela maneira antes, principalmente na frente do bebê. Mas aquela fora a primeira e última vez que o punho de seu marido a tocaria. Jamais permitiria que acontecesse novamente.

Pedro era sua maior alegria. E Ana-Lucia sempre se dedicara ao filho. Aquela fora a primeira vez em que o deixara daquele jeito. Mas estava tão transtornada que não conseguiu se controlar depois que o marido a machucara. No entanto, sentia-se culpada por tê-lo deixado aos prantos ainda que sob os cuidados de sua mãe e avó. Assim que pudesse voltaria para ele. Só não sabia ainda como explicaria às pessoas sobre Sawyer.

Todos conheciam a história, era verdade. Mas a maioria dos habitantes da vila acreditavam tratar-se de uma lenda e seria difícil convencê-los do contrário. Ela não. Sempre acreditara. Sempre tivera esperanças de que Sawyer viria ajudá-la.

Deixando as coisas que tinha pegado em cima de uma cadeira, Ana foi até o quarto da avó e retirou um velho vestido de lã e mangas de renda do meio das roupas dela, pegou também um par de meias. Tirou suas roupas molhadas e colocou a roupa limpa e quente de Margarida. Embora fosse uma mulher idosa, sua avó ainda mantinha os mesmos hábitos saudáveis da juventude, por isso possuía um corpo convervado. Suas roupas serviam em Ana sem problemas, ela só precisava fazer alguns ajustes na cintura. Amarrou um fio de couro no meio do vestido e já estava pronta.

Encontrou uma caixa de primeiros socorros na cozinha embaixo da mesa. Lá dentro havia gaze e iodo. Serviria para cuidar de seu machucado e dos machucados de seu mais novo amigo. Ela lembrava de ter visto algumas escoriações e pequenos cortes no corpo de Sawyer quando o tirara da água, no entanto, não checara o estado disso quando o encontrara vivo. Possivelmente porque ainda estava chocada demais com os últimos acontecimentos.

Depois, foi até a cozinha e pegou algumas batatas, alho, cebola e uns pedaços de carne seca. Sentiu-se culpada por estar pegando as coisas da avó, mas ela precisava ajudar Sawyer. Daria um jeito de recompensar Margarida depois.

Tendo tudo o que precisava à mão, Ana-Lucia retornou à caverna. Pingos de chuva grossos já começavam a cair e doíam ao cair em seu rosto. Ela envolvera suas provisões no cobertor de lã mais grosso que pegara para que não ensopassem na chuva.

Quando ela voltou à caverna e encontrou Sawyer lá, imóvel na cama novamente, por um segundo pensou que tivesse sonhado tudo aquilo e que ele ainda estava frio e morto, porém, logo uma nova crise de tosse acometeu-o e Ana sorriu, aliviada. Ele ainda estava vivo, embora não pudesse explicar como.

- Eu trouxe mais cobertores. Vai se sentir melhor.

- Onde...es-tou?- ele conseguiu perguntar enquanto Ana agachava-se ao seu lado e o ajudava a beber um pouco de água.

- Paraíso.- ela respondeu virando o cantil nos lábios ressecados dele e fazendo com que bebesse devagar. Ela tinha levantado um pouco a cabeça dele e a apoiara contra seu peito. Ele era quente, real, vivo.

- Estou morto então?- ele indagou com muita dificuldade.

- Não, você está vivo!- Ana respondeu com um sorriso. Os olhos dele se fecharam. O coração dela deu um pulo. Pousou o cantil de lado e colocou sua mão por baixo do cobertor de lã, sentindo o peito dele com seus cabelos loiros ralos, porém sujos e emaranhados. O coração do homem batia, fraco, mais ainda batia.

Ana suspirou pousando a cabeça dele de volta na cama de folhas. Aquela noite seria difícil, pois Sawyer estava tão fraco que ela temia que seu milagre não chegaria a ver a luz do dia.

Olhou para ele outra vez. Aparentemente estava melhor. Sua pele tinha uma cor mais saudável e os tremores em seu corpo tinham parado. Naquela noite ela cuidaria dele. Ficaria em vigília, mantendo-o aquecido, dando-lhe água e esperando que ele resistisse àquelas terríveis horas e que pudessem conversar pela manhã. Deixaria para se preocupar depois com os habitantes da ilha de Paraíso.

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Enquanto Ana-Lucia deixava suas preocupações com a comunidade de lado, o povoado inteiro e seus convidados se preocupavam com ela. Mesmo depois de Manuel ter garantido às pessoas que estava tudo bem e que Ana retornaria à vila pela manhã, os comentários sobre o ocorrido durante a festa de natal correram soltos até que por volta das duas da madrugada, a chuva e o frio expulsaram as pessoas da praia fazendo com que todos procurassem ficar abrigados e aquecidos.

Um casal e seus dois filhos iriam pernoitar na casa de Daniel e Ana, porém após o incidente eles preferiram se ajeitar na casa de Manuel e Teresa. Margarida também refugiou-se na casa do filho e levou o bebê de Ana com ela. Não deixaria a criança ficar perto do pai naquela noite. O homem estava tão bêbado que nem mesmo um café forte feito por uma das anciãs do povoado fora o suficiente para torná-lo totalmente sóbrio. Depois de ingerir o café, Daniel foi deixado em sua casa sozinho com a lareira crepitante, que Josias teve a bondade de preparar para que seu companheiro de pesca não sucumbisse ao frio.

O barulho da chuva forte na janela fez com que o pequeno Pedro se encolhesse na cama e começasse a chorar outra vez.

- Mamãe! Mamãe!- ele chamou.

Margarida que dormia junto dele o acalentou em seus braços, dizendo:

- Sua mamãe está bem, querido. Ela voltará logo! Ela só precisa de um tempo.

- Mamãe... – o menino continuou gemendo e choramingando. Margarida beijou-o na testa e pôs-se a lhe dar tapinhas suaves nas costas. No quarto ao lado, Manuel e Teresa conversavam baixinho, mas ainda assim ela conseguia ouvi-los. As paredes das casas em Paraíso infelizmente tinham a textura muito fina.

- Não gostei que me chamou de covarde na frente de todos esta noite, Teresa.- Manuel resmungou. Ele não conseguia dormir por causa da fuga intempestiva da filha. Teresa tampouco conseguia conciliar seu sono.

- Você foi um covarde!- ela repetiu sem remorso. Não tinha medo do marido. Manuel podia ser autoritário e teimoso, mas nunca fora violento. – Devia ter interferido antes que Daniel machucasse Ana-Lucia.

- Eu não pensei que ele fosse machucá-la. Não pensei que chegaria à tanto. Ele é marido dela e eu não podia interferir enquanto Daniel não passasse dos limites.

Teresa balançou a cabeça em negativo, sentindo-se frustrada. Estava deitada de lado, com as costas voltadas para o marido. Virou-se para encará-lo.

- Manuel, eu sempre soube que Daniel não seria um bom marido para Ana-Lucia.

- E por que não?- retrucou ele. – Eu penso que o que aconteceu esta noite foi um fato isolado. Daniel nunca agrediu Ana antes. Estava descontrolado e com ciúmes. Ana-Lucia é uma mulher casada, mãe de um garoto. Ela não devia participar da roda de dança com os solteiros, ainda mais sem o marido por perto. Além disso, eu escolhi Daniel para se casar com ela porque ele é da família. É neto do meu tio Ariovaldo. Sempre foi um rapaz trabalhador. Ele me disse que estava apaixonado por Ana e que nunca deixaria faltar nada a ela. Eu só quis o melhor para nossa filha.

Teresa suspirou.

- Aí é que está, homem! Casá-la com Daniel não foi o melhor para ela. Você sabe que Ana-Lucia não é como as outras moças da ilha. E o culpado disso é você! Ensinou-a pescar, a manejar um barco, a ser indenpendente e a ter opinião própria. Depois disso casou-a com um homem rude, sem nenhuma instrução. Ana deseja mais! Eu sinto isso. Ela quer ver o mundo.

- Eu só quis fazê-la feliz, Teresa e prepará-la para a vida caso um dia ela fique viúva e que ela não venha a depender de homens mal intencionados que só estão interessados em levá-la para suas camas. Minha filha é uma mulher bonita, tem fibra e um bom coração. Eu quis protegê-la. Por isso casei-a com um homem digno.

- Pelo que estou vendo, Daniel não têm se mostrado digno dela. Depois do que ele fez, Ana terá todo o direito de repudiá-lo.

- Eles irão se entender.- Manuel afirmou. – E ele nunca mais voltará a agredi-la. Eles tem um filho para criar e eu gostaria de ter mais netos já que não pudemos ter mais filhos.

Um certo ar de tristeza apossou-se momentaneamente dos olhos escuros de Teresa. Ela quase morrera quando dera à luz à Ana-Lucia e jamais engravidara novamente.

- Eu entendo você, Manuel.- disse ela. – Eu também gostaria de manter nossa filha conosco para sempre, mas não é o que ela quer. Ela é como sua mãe. Você é quem não consegue ver. Já conversou com Margarida alguma vez sobre como foi a vida dela fora desta ilha? Sua mãe teve a oportunidade de ver um pouco do mundo lá fora. Talvez Ana-Lucia merecesse o mesmo. Então ela voltaria para nós e entenderia que seu lugar é aqui. Assim como sua mãe fez um dia.

- Não diga bobagens, Teresa. Ana não vai a lugar nenhum. Ela não deixaria o próprio filho. Esqueçamos isso! Amanhã cedo juntarei alguns homens e iremos atrás dessa menina. Conversarei então com Daniel e farei com que eles se entendam. Isso é o certo a fazer. Agora vamos dormir, mulher.

Ele ergueu-se da cama e assoprou a única vela acesa que havia no quarto. Teresa virou-se para o outro lado e fechou os olhos.

- Nunca mais me chame de covarde.- Manuel sussurrou antes de fechar os olhos também e tentar dormir.

Margarida suspirou no outro cômodo. Teresa estava certa. Ana-Lucia precisava sair da ilha e descobrir seu próprio lugar no mundo, como ela mesma fizera um dia. Ela só esperava que o milagre que desejava para que a vida de sua neta pudesse mudar não chegasse muito tarde.

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Ana-Lucia acordou de repente. Tudo estava escuro ao seu redor, exceto por uma fresta de luz que vinha de algum lugar remoto. Então Daniel não consertara o vidro quebrado da janela? Por que ele nunca fazia nada?

Ela resmungou e sentiu o braço do marido preso à sua cintura. Aquilo não era comum. Daniel não costumava abraçá-la daquele jeito. Ana tentou se mexer, mas o braço dele era pesado. De seu corpo exalava um cheiro de terra e mar. Mas não era ruim como costumava ser. Não havia o cheiro de peixe que ela sempre sentia. Pelo contrário, dessa vez a proximidade e o cheiro de Daniel a fizeram sentir uma sensação de paz e conforto como há tempos não experimentava.

Murmurou satisfeita. Talvez estivesse sonhando. Em seu sonho Daniel era o que ela esperava de um marido. Alguém carinhoso, compreensivo e que a fazia sentir-se muito bem. Ana quis continuar dormindo para manter aquele contato tão bom e não ter de acordar e encarar a realidade de que Daniel a tinha agredido na noite anterior na frente de todos que ela conhecia.

Agredido? Sua mente gritou. Sim, seu marido tinha batido nela e nunca, desde o primeiro dia em que dormira com ele achara que era reconfortante estarem na mesma cama. Então por que se sentia assim agora?

Ana abriu os olhos novamente e então seu corpo foi sacudido pelo acesso de tosse do homem que a abraçava tão languidamente, buscando seu calor a noite inteira para aplacar o intenso frio que sentia. Instintivamente, ela se afastou, o sono cedendo lugar à realidade. Recordou rapidamente de todos os fatos que aconteceram e percebeu que estava certa. Não era Daniel quem a abraçava, mas sim Sawyer.

Ele tossia como se não fosse mais conseguir parar. Ana correu a procurar a cumbuca de água que tinha trazido e ajudando-o a se sentar despejou o líquido em sua garganta sedenta. Sawyer bebeu devagar e umedeceu os lábios ressecados com a ponta da língua.

A cor no rosto dele estava bem melhor que na noite anterior. Mas seu corpo ainda se encontrava muito fraco.

- Como se sente?- ela perguntou afastando uma mecha suja de cabelos loiros do rosto dele. Sua barba estava tão espessa que a impedia de ver o rosto dele totalmente. Mas os olhos eram de tirar o fôlego.

- Ainda não sei.- ele respondeu com dificuldade e tossiu mais um pouco. – Você disse que estou vivo, mas por que me sinto morto?

- Você vai ficar bem.- disse ela sorrindo, adorando o som da voz dele ainda que a rouquidão na garganta não permitisse definir muito bem o tom. – Eu vou cuidar de você. O que precisa?

- Anjo...- começou ele. – Se puder me fornecer um bom ensopado e uma dose de água ardente então eu poderia dizer que estou vivo. Há algum tempo que não faço uma boa refeição.

- Não tenho água ardente aqui, mas posso conseguir depois. Por enquanto posso lhe oferecer um pouco de cozido de carne seca com batatas.

Ele tossiu mais uma vez e esboçou um sorriso.

- Isso seria maravilhoso, meu querido anjo.

Ana-Lucia ajudou-o a se deitar novamente e prometeu que o cozido estaria pronto em alguns minutos. Ela começou a picar depressa os legumes que trouxera da casa da avó para misturar com a carne seca e refogar o cozido, no entanto, um barulho vindo da entrada estreita da caverna chamou-lhe a atenção.

Ela colocou os legumes na panela e se afastou de perto do fogão que improvisara com a fogueira de gravetos da noite anterior. Sawyer permanecia deitado, de olhos fechados. Mal tinha forças para respirar. Mesmo assim Ana não queria que ninguém o encontrasse. Ela queria cuidar dele sozinho, principalmente agora que de algum jeito o trouxera de volta à vida. Por isso ficou preocupada com o ruído na entrada da caverna. Eram definitivamente sons de passos arrastados, alguém tentando chegar no nível onde ela estava. Em sua entrada a caverna era mais estreita.

Ana se preparou para afastar o intruso, quem quer que fosse antes que esta pessoa pudesse ver Sawyer, porém, outro acesso de tosse incontrolável do homem fez com que ela esquecesse o invasor e corresse para perto dele. Agachou-se ao seu lado e segurou-o como pôde, tentando ajudá-lo.

Enquanto isso, os passos dentro da caverna se intensificaram ecoando por entre as paredes de predra. Eram tamancos de madeira. Impróprios para a areia da praia, mas a pessoa que os calçava sempre gostara de usá-los assim mesmo.

Ana-Lucia suspirou. Agora sabia exatamente quem adentrava a caverna.

Continua...