Capítulo 4
Santa Madre de Dios
Ana-Lucia cobriu Sawyer com um cobertor extra que tinha trazido da casa da avó. Agachou-se ao lado dele que ainda mantinha os olhos fechados e sussurrou em seu ouvido:
- Minha avó está aqui. Por favor, tente não tossir.
Ele assentiu levemente com a cabeça. Ana fez um carinho nos cabelos loiros dele e deixou-o para ir encontrar-se com a avó antes que ela descobrisse seu precioso segredo.
- Ana! Ana-Lucia, cariño, você está aqui?- perguntou Margarida utilizando uma lamparina para guiar-se dentro da escuridão.
Ana surgiu diante dela de repente. Margarida levou uma das mãos ao peito e iluminou o rosto da neta antes de baixar a lamparina no chão com a outra mão.
- Santa Madre de Dios, niña. Voce está bem?- ela tocou o rosto de Ana onde Daniel a havia machucado na noite anterior. Uma mistura de verde e roxo marcavam um profundo hematoma no rosto dela.
- Estou bem, abuela.- Ana respondeu sem emoção.
- Eu sabia que te encontraria aqui.- disse Margarida. – Eu mesma costumava me refugiar aqui quando ficava zangada há muito tempo atrás.
Ana ficou em silêncio.
- O Pedrinho ficou muito sentido depois que você saiu correndo daquele jeito.
- Como ele está agora?- Ana indagou com genuína preocupação pelo filho.
- Eu cuidei dele durante a noite e quando saí ele estava distraído brincando. Mas ele vai querer te ver logo, mi amor.
- Eu preciso de um tempo.- Ana-Lucia pediu. – Eu preciso pensar um pouco...
- Sabe que os teus pais vão fazer Daniel pedir perdão pra você.
- Eu não quero o perdão dele. Aliás eu não quero nada dele.
- Eu sei, mi cielo.- concordou Margarida. – Ele já tinha te batido alguma vez?
Ana balançou a cabeça em negativo.
- Ele não é muito gentil ou afetuoso, mas ele nunca tinha me machucado antes.
- O seu pai vai querer que você volte para casa com seu marido. O que vai fazer?
Ana suspirou.
- Como eu disse preciso de um tempo. Mas prometo levar o barco de pesca de volta mais tarde.- ela segurou as mãos da avó. – Abuela, posso te fazer um pedido?
- Sim, mi amor. É claro que sim. O que desejas?
- Eu e o Pedrinho podemos vir morar com a senhora por uns tempos?
Margarida segurou forte nas mãos da neta antes de responder:
- ¡Sí! Claro que pode.
- É só por um tempo até eu pôr as minhas ideias em ordem.
Margarida assentiu. Elas se abraçaram calorosamente.
- Qualquer coisa por você e o Pedrinho.
Nesse momento, um baurulho repentino as separou do abraço.
- Você ouviu isso?- indagou Margarida.
- Ouvi o quê?- disfarçou Ana.
- Um barulho estranho. Tem mais alguém aqui?- a velha senhora perguntou, desconfiada.
- Não tem ninguém aqui, abuela. Eu estou sozinha.
- E cadê sua lamparina? Está aqui desde ontem no escuro, menina?
- Não...eu apaguei a minha lamparina. A senhora sabe que essa caverna tem uma espécie de luz natural.
- Oh sim sim!- exclamou Margarida como se só agora tivesse se lembrado. – Também tem um lago maravilhoso. Vamos até lá juntas, minha querida?
- Agora não, abuela.- Ana disse um pouco mais ríspida do que pretendia.
Margarida franziu o cenho.
- Perdão, eu não quis ser rude. Eu só preciso de mais um tempo sozinha.
- Está bem, Ana. Vou respeitar a sua vontade.- prometeu a avó.- ela deu um beijo na testa de Ana-Lucia e recolheu sua lamparina do chão. – Eu vou indo.
- Obrigada, abuela.- disse Ana. – Prometo que voltarei para a vila mais tarde com o barco.
- Sim.- concordou Margarida, se retirando. Ana caminhou de volta para o lago e não viu a expressão inquisidora da anciã enquanto ela deixava a caverna.
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Quando Ana-Lucia retornou para perto do homem ele estava tossindo novamente. Ela se acercou dele e ofereceu-lhe um chá que estivera preparando previamente antes da entrada de sua avó na caverna.
- Eu...tentei ficar...quieto.- disse o homem com a voz afetada pela tosse.
- Está tudo bem.- falou Ana ajudando-o a bebericar o chá.
Ela ficou em silêncio enquanto ele tomava a bebida quente e se recuperava da tosse. Então de repente, ela perguntou:
- Você está mesmo vivo?
- Eu espero que não.- respondeu ele esboçando um sorriso. – Porque se eu não estiver vivo significa que o paraíso realmente existe e é habitado por anjos como você.
- Mas nós estamos em Paraíso.- Ana contou a ele. – É como essa ilha se chama. Você não se lembra?
Ele balançou a cabeça negativamente.
- Não consigo me lembrar de nada.- disse, honestamente.
- Talvez tenha que ser assim.- disse Ana.
- O que quer dizer?- indagou ele.
- Pro milagre funcionar, você não pode se lembrar.
- Do que está falando?
Ana-Lucia suspirou.
- Talvez eu não devesse te contar, mas há muito tempo atrás, eu não sei precisar quando, você esteve aqui em Paraíso mas estava morto.
- Morto?- ele retrucou. – Moça...
- Você esteve aqui e trouxe um milagre para Paraíso.
Ele sentiu-se tonto de repente. Ana-Lucia percebeu e o amparou.
- Me desculpe, eu não deveria estar te contando essas coisas. Eu acho que não funciona assim.
Ele tossiu mais uma vez. E Ana fez com que ele se deitasse novamente.
- Moça, você não está pretendendo me matar, está?- ele indagou tentando controlar a tosse.
- Não sei nem se você está de fato vivo, Sawyer.
O homem piscou os olhos várias vezes.
- Do que me chamou?
- Sawyer.- ela repetiu. – É o seu nome não é?
Ele pensou por alguns instantes e repetiu:
- Sawyer.
- Não sabe o seu nome?
- Eu não consigo me lembrar de nada. Onde me encontrou?
-Na praia.
- Você disse que estamos em uma ilha?
- Sim.- ela respondeu. – Paraíso.
- Você está falando em espanhol. Eu também, mas espanhol não é a minha língua nativa..- ele concluiu. – Eu aprendi a falar espanhol. Moça em que país estamos?
- Chile.
- Em que ano?
- 1968.- ela respondeu.
- Não, estamos em 1967 e eu devia estar na Califórnia.
- Califórnia?- ela perguntou estranhando a palavra. Não sabia onde ficava a Califórnia.
- Estados Unidos.- ele disse. – Como posso ter perdido um ano?
- Do que está falando?- Ana questionou começando a sentir-se preocupada. Talvez ele não fosse o milagre que ela esperava.
- Moça você tem que me ajudar.- ele pediu. – Preciso sair dessa ilha!
- Não você não pode!- lágrimas começaram a escorrer pelo rosto de Ana sem controle. – Você é o afogado!
- Afogado?- ele retrucou. – Moça eu estou muito vivo e posso garantir-lhe isso!
- Como?- ela indagou com a voz trêmula.
Ele não respondeu. Ao invés disso ele puxou o corpo dela contra si fazendo com que ela se deitasse no chão ao seu lado e tomou-lhe a boca em um beijo que Ana-Lucia nunca tinha experimentado. Ela sentiu os lábios macios dele nos seus e o gosto de chá na ponta da língua dele. Quando ele a soltou, a respiração de Ana estava entrecortada. Ela levou a mão ao peito e exclamou: - Santa Madre de Dios!
Continua...
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