Capítulo 7

La Verdad

Margarida mexeu o cozido de peixe e verduras dentro da panela de ferro que borbulhava em cima do fogão movido à carvão. Ana-Lucia amassava algumas batatas sentada à mesa da cozinha enquanto cantava para o filho que pulava na frente dela.

- "Todos los patitos se fueron a nadar y el más pequeñito se quiso quedar..."

O menino ria e fazia a coreografia da musiquinha que sua mãe havia lhe ensinado.

- Ana, prova o caldo para ver se está de bom de sal.- pediu Margarida trazendo uma colher de pau fumegante aos lábios da neta.

Ana-Lucia assoprou o caldo primeiro e então o sorveu bem devagar.

- Ai, isso está muito gostoso, abuela.- ela disse com um sorriso enquanto lambia os lábios.

- Mami e o patito?- perguntou Pedro puxando-lhe a saia.

Ana voltou a cantar.

-Vai ver o seu amigo esta noite?- Margarida perguntou como quem não queria nada.

- Talvez.- Ana-Lucia respondeu evasiva e continuou cantando para o filho.

- Imagino que ele esteja com fome hoje também.- comentou ela. – Ele gostou dos cigarros?

Ana-Lucia sentiu borboletas no estômago ao ouvir a pergunta da avó. Olhou para ela e viu que Margarida tinha uma expressão muito séria no rosto.

- Eu encontrei o señor Eko na venda hoje mais cedo e ele me disse que tinha vendido uns cigarros pra você que supostamente eram para mim?

Ana engoliu em seco. Ela sabia que se mentisse seria muito pior por isso resolveu falar a verdade:

- Perdona-me, abuela. Eu não quis mentir para o señor Eko, mas se eu disesse para ele que os cigarros não eram para a senhora, ele nãos venderia para mim e eu comprei com o dinheiro que a senhora disse que eu podia ficar...

Margarida viu a angústia nos olhos da neta e suavizou sua expressão.

- Muy bién, cariño. No pása nada. Está tudo bem. Fico feliz em saber que os cigarros não eram para você. Não quero que comeces a fumar porque depois não tem mais volta.

- Perdón, abuela.- Ana-Lucia desculpou-se mais uma vez.

- Te perdono, mi nieta, se me deixares ir falar com teu amigo esta noite.- disse Margarida. – Eu posso levar o jantar para ele.

Ana ficou pálida de repente.

- Abuela, eu não posso fazer isso, eu prometi à ele que não contaria a ninguém sobre onde ele está.

- Por que?- retrucou Margarida. – Por acaso ele é tímido?

- Mami!- chamou Pedrinho.

Ana-Lucia levantou-se da cadeira e pegou o filho no colo.

- Ele... – Ana tentou dizer algo, mas não soube o que dizer. Concluiu que foi um erro falar para a avó de seu amigo mesmo que indiretamente.

- Ora vamos, niña, se não queres me contar sobre ele é porque ele está se escondendo de alguém.

- Ele está sem memória.- Ana disse rapidamente enquanto balançava o filho no colo.

Margarida franziu o cenho.

- Eu o tirei da água, abuela.- ela contou. – Ele tinha se afogado, mas não parecia morto. Eu o levei para a caverna...

- Eu sabia que ele estava na caverna!- concluiu Margarida. – Você agiu tão estranho naquele dia quando fui procurá-la na caverna...

- Abuela, por favor, não conta pra ninguém sobre ele. Ele é o meu milagre como naquela história que a senhora contava sobre o afogado que era tirado do mar, mas seu corpo nunca apodrecia porque ele não estava morto de verdade...

- Ana-Lucia...- Margarida começou a dizer mas foi interrompida por batidas na porta.

Ana trocou um olhar de medo com Margarida imaginando que poderia ser Daniel batendo na porta.

- Vai para o quarto, agora!- Margarida ordenou e Ana-Lucia correu para lá imediatamente com o filho.

As batidas continuaram.

- Já estou indo!- disse Margarida com irritação. – Isso é jeito de bater na porta de uma senhora idosa?

Margarida abriu a porta devagar e deu de cara com a nora.

- Teresa?

- Hola, mi suegra.- ela disse. – Será que eu posso entrar?

Margarida deu espaço para que ela passasse. Assim que a velha senhora fechou a porta, Teresa foi logo dizendo:

- Preciso muito falar com a Ana-Lucia, Margarida.

Ana saiu do quarto ainda com o filho no colo. Ao ver a avó, Pedrinho estendeu os braços para ela. Teresa sorriu e o pegou no colo.

- Mi nieto, que saudades!

- Saudades, abuela!- disse o bebê passando os bracinhos ao redor do pescoço da avó.

- Hola, madre.- Ana-Lucia disse e Teresa correu a abraçá-la ainda com o neto em seu colo.

- Mi hija, tens que vir comigo para casa agora mesmo.

- Por que?- Ana-Lucia perguntou. – Daniel fez alguma coisa? Ele machucou o papa?

- Não, hija, mas ele está te acusando de ter tentado matá-lo e se você não voltar para casa hoje à noite ele vai chamar a polícia pra vir te buscar.

- Não!- gritou Ana-Lucia. – Eu não posso voltar pra casa com ele, não depois do que ele fez...

- Mas você o atacou Ana-Lucia!- disse Teresa.

- Pra me proteger!- defendeu-se Ana.

- Você sabe que a polícia não vai acreditar em você. Ele é seu marido...

- Mas não é meu dono!- falou Ana-Lucia com pesar. Seus lábios começaram a tremer e algumas lágrimas escorreram por seu rosto. – Mama, se eu voltar ele vai me machucar.

- Mami, não chora.- disse Pedrinho tocando o rosto de Ana.

- Ele não vai te machucar, hija. E eu e o seu pai não vamos deixar.

- Mama, a senhora não pode me garantir isso.

- Eu acho que a sua mãe está certa, Ana-Lucia.- disse Margarida surpreendendo as duas.

- Abuela?- questionou Ana sem entender. Ela sabia muito bem que sua avó não aprovava a violência de Daniel.

- Se você ficar aqui vai ser pior.- Margarida continuou. – Mas eu acho que a Ana não deve voltar para casa com Daniel. Ela e o Pedrinho tem que ficar com você e o Manuel até as coisas melhorarem.

- Mas abuela... – falou Ana com incredulidade. - ...a senhora disse que a gente podia ficar aqui pelo tempo que precisássemos...

- Vem, vamos arrumar as suas coisas. Eu te ajudo.- disse Margarida puxando-a pela mão.

- Vai ser melhor assim, hija.- disse Teresa acalentando Pedrinho.

Assim que Ana e sua avó entraram no quarto, ela sentiu vontade de gritar mas controlou-se.

- Por que abuela?

- Shhhhiiii...- fez Margarida encostando o dedo indicador à boca. – Agora me escute com atenção!

Ana-Lucia ficou calada. Margarida se aproximou e sussurrou ao ouvido da neta:

- Fique na casa dos seus pais o máximo que puder e por nada nesse mundo fique sozinha com seu marido, me entendeu?

Ela assentiu silenciosamente.

- Eu vou cuidar do seu amigo de agora em diante. Você vai ficar quieta no seu canto até que eu a chame, me entendeu?

Ana assentiu novamente, mas ia abrir a boca para fazer uma pergunta quando Margarida a cortou: - Sem perguntas, niña. Você quer sair desse casamento não quer?

- Sim.

- Então faça o que eu estou mandando.

Alguns minutos depois Ana-Lucia tinha arrumado seus poucos pertences e os do filho em uma trouxa. Teresa a esperava com Pedrinho no jipe de Javier. Margarida acenou para o homem que a cumprimentou de volta.

- Nos veremos em breve.- disse Margarida.

- Gracias por tudo, abuela.- Ana-Lucia a abraçou antes de subir no jipe.

- Hasta luego, cariño.

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Depois que Ana-Lucia se foi com sua mãe, Margarida voltou para a cozinha e encheu uma cumbuca com peixe cozido, caldo e verduras. Tampou-a e amarrou um pano limpo ao redor da vasilha. Ela também encheu um cantil com água, cortou uma fatia de pão e lambuzou com um pouco de mel. Arrumou tudo em uma trouxa, pegou seu xale de lã, calçou os tamancos de madeira e deixou a casa.

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De carro a viagem de volta para a vila foi muito rápida. Quando Javier estacionou em frente à casa dos pais de Ana-Lucia, ela estremeceu. Estava com muito medo de que o marido a arrastaria de volta para a casa deles e de que seus pais não fariam nada para impedi-lo. Ela pensou no que Margarida havia lhe dito e tentou ser confiante de que tudo ficaria bem.

Javier levou a trouxa dela para dentro da casa enquanto Teresa o seguia carregando Pedrinho. Ana-Lucia andou devagar até a cerca de madeira, assim que passou por ela e pela porta da frente deu de cara com Daniel sentado no sofá ao lado de seu pai. Ele tinha acabado de pegar Pedrinho e posto o menino em seu colo.

- Mi amor... – ele disse com um sorriso quando viu a esposa.

- Hola!- foi tudo o que ela disse.

- Não vai dar um abraço no seu marido?

Ana-Lucia foi para trás da mãe que ainda estava de pé.

- Ana-Lucia, você me deve desculpas.- disse Daniel pondo Pedrinho no chão antes de se levantar do sofá.

- Você também deve desculpas à ela.- falou Manoel também se levantando.

- Tem razão, suegro.- concordou Daniel. – Brigas de casais acontecem o tempo todo. É o tempero do amor, não é, gatita?

Ele se aproximou de Ana e sua mãe ficando na frente delas.

- Vamos para casa, querida?

- Não.- Ana-Lucia finalmente falou. – Eu e Pedrinho vamos ficar com meus pais por enquanto.

- Como assim?- retrucou Daniel, surpreso. – Eu vim aqui para buscar a minha esposa e o meu filho e levá-los para casa.

- Ela precisa de um tempo.- disse Teresa. – Você sabe muito bem disso.

- Ela já está aqui, Daniel. Agora você já pode ir.- informou Manuel.

- Pois bem.- concordou ele. – Amanhã eu virei jantar com a minha família.

Teresa assentiu e disse:

- Pode vir às sete e meia.

Daniel se aproximou mais de Ana e deu-lhe um beijo na testa. Ela não se moveu. Ele a deixou e foi dar um abraço no filho, dizendo: - Papi, vai voltar amanhã, garoto.

- Mañana.- disse Pedro com um sorriso.

Daniel foi embora logo depois de desejar boa noite a todos. Ana-Lucia respirou aliviada quando ele se foi.

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Sawyer estava deitado olhando para o teto brilhante da caverna quando ouviu passos se aproximando. Seu coração se encheu de alegria e ele levantou-se de imediato, dizendo:

- Onde está a minha menina bonita?

- Aqui mesmo.- respondeu Margarida surgindo diante dele carregando uma lamparina e uma trouxa.

A garganta de Sawyer ficou seca. Margarida o examinou de cima a baixo e disse:

- Agora entendo os sumiços contantes de minha neta.

A expressão no rosto dela era muito séria e ele não ousou dizer nada até que pudesse compreender melhor a situação.

- Está com fome?- ela indagou estendendo-lhe a trouxa com comida.

- Sí.- Sawyer respondeu aceitando a comida das mãos dela, mas ao invés de começar a comer, ele ficou parado no mesmo lugar.

- Mas pra que tanta formalidade?- retrucou Margarida. – Ande, sente-se e coma, rapaz!

Sawyer a obedeceu.

- Minha neta me contou como foi que ela encontrou você.- Margarida falou.

- Onde ela está?- ele perguntou, mas Margarida ignorou a pergunta dele.

- Ela me disse que você é o milagre dela. Estou certa?

- Senhora, a Ana-Lucia salvou a minha vida.- disse ele. – Serei eternamente grato à ela.

- O quão grato você seria?- Margarida questionou.

Sawyer deu um sorriso.

- Agora estou entendendo aonde a senhora quer chegar.

- Exatamente.- disse Margarida. – Você gosta da minha neta ou se deitou com ela só para tirar vantagem?

- A senhora é bem direta.- disse ele.

- Sabia que ela é casada e tem um filho pequeno?

- Sabia sim.- Sawyer respondeu com sinceridade. – Também sei que o marido dela aparentemente não presta.

- E como você sabe disso?

- Porque ela me pediu para tirar ela e o filho desta ilha. Disse que conseguiria um barco.

- Pois bem.- disse Margarida. – Volto a repetir minha pergunta, você gosta da minha neta?

- Sim, muito.- ele respondeu. – Ela é o anjo que salvou a minha vida e eu dei a minha palavra a ela que a tiraria dessa ilha, então agora sou eu quem pergunto, a senhora por acaso veio aqui para me dizer que se opõe a isso?

- Não, vim aqui para saber se você seria digno de receber a minha benção.

- Senhora, sei que vai achar cedo para eu dizer isso mas estou apaixonado pela sua neta e quero levá-la comigo para a Califórnia, ela e o menino; prometo que irei criá-lo como se fosse meu.

- Se é assim, a partir de hoje, você virá se hospedar em minha casa. Direi a todos que é um andarilho que veio da América do Norte para conhecer a América do Sul e que vai ficar aqui por algum tempo e por isso precisa de trabalho.

- Olha, dona...

- Margarida.- disse ela.

- Dona Margarida, aprecio muito a sua ajuda e embora eu não tenha muitas memórias do meu passado no momento, sequer me lembro o meu nome, imagino que eu não tenha ido parar na água por acidente, se é que me entende?

- Eu concordo.- disse ela. – Por isso mesmo não faz sentido que você fique aqui escondido nessa caverna mais tempo. Eu preciso que você saia daqui e me ajude a resgatar minha neta dessa vida tão infeliz que ela vive. Estamos de acordo?

Sawyer pensou suas opções por um momento. A velha senhora tinha razão. Se ele quisesse mesmo ir embora daquele lugar precisava começar a trabalhar nisso. Resolveu aceitar a proposta de Margarida.

- Tudo bem, eu topo.- disse a ela estendendo-lhe a mão direita.

Margarida apertou a mão dele.

- Sei que está desmemoriado, mas preciso chamá-lo de alguma coisa.

- Ana-Lucia me chama de Sawyer.- contou ele.

- Como no conto.- comentou Margarida. – Muito bem, seja oficialmente bem-vindo à Paraíso, Sawyer.

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No dia seguinte, Ana-Lucia ainda estava preocupada com o que Daniel faria a ela quando tivesse chance, mas tentou passar um dia normal, embora sua mente estivesse em Sawyer na caverna. A avó prometera a ela que cuidaria de seu amigo, mesmo assim queria muito vê-lo e explicar porque não aparecera na noite anterior.

Naquela manhã ela estava no porto com duas outras mulheres da comunidade catando mariscos quando uma visão repentina deixou-a completamente atordoada. Sawyer estava ali na praia a apenas alguns metros de distância dela arrumando as velas do barco de Nonato, um dos pescadores amigo de Daniel. Ele estava sem camisa e descalço, usando apenas um par de calças curtas enquanto trabalhava atentamente no barco. Ana mal podia acreditar naquilo.

- Hey, Ana-Lucia.- disse uma das mulheres sorrindo maliciosamente ao ver aonde o olhar de Ana estava perdido. – Você acabou de vê-lo também?

- Hã? O quê?- disse ela finalmente percebendo que alguém conversava com ela.

As duas mulheres deram risadinhas.

- A gente ficou assim também quando o viu chegando hoje mais cedo.- explicou a mulher. – Ele é um princípe!

- Quem é ele?- Ana ousou perguntar.

- Ele é novo aqui em Paraíso.- respondeu a outra mulher. – Precisava de trabalho e a velha Margarida o trouxe para o porto esta manhã. Seu nome é Sawyer.

Ana-Lucia piscou os olhos o observando, ainda muito surpresa em vê-lo ali.

- Ei, não olha muito não que vai cair o pedaço.- disse a primeira mulher com uma risada.

- Verdade.- concordou a outra. – Além do mais você é casada, Ana-Lucia. Eu sou solteira, posso tentar a minha sorte.

- Você é assanhada, Evelin. Isso sim!- disse Ana voltando a se concentrar nos mariscos, mas o coração dela não parava de bater forte.

Algum tempo depois de ter finalizado sua tarefa, Ana-Lucia se desvencilhou das duas mulheres, lavou as mãos com um punhado de água de limão para retirar o cheiro de frutos do mar de sua pele e subiu no barco de Nonato sem ser percebida.

Sawyer estava dando nó em algumas cordas quando ela surgiu diante dele dentro da cabine do pescador. O rosto dele iluminou-se ao vê-la.

- Menina bonita...- ele murmurou.

Ana-Lucia se aproximou dele e o beijou com vontade. Saywer a agarrou e a encostou na parede de madeira do barco beijando-a com a mesma paixão.

- Muito bom te ver...- ele disse entre os beijos.

- Sim.- ela respondeu. – Eu estava morrendo de saudades.

Ele tomou a boca de Ana na sua novamente. Naquele momento passos foram ouvidos no convés seguidos de uma voz masculina que arrepiou os pelos da nuca de Ana-Lucia.

- Ana-Lucia, você está aqui?- indagou Daniel procurando pela esposa.

Continua...

Nota: Sera que o Daniel vai descobrir que Ana esta com outro? Sera que ela e Sawyer vao conseguir fugir da ilha?

Proxima atualizacao: Pecados Secretos