Masuyo estava de castigo, só saía para ir à escola e quando acabava a aula, ia direto para casa. Agora ele estava sentado em sua cama emburrado. Dracomon estava sentado no chão no meio do quarto jogando no PlayStation Portable de Masuyo.
- Não acredito que meus pais estão bravos até agora comigo! – disse Masuyo, de repente.
- O quê? - perguntou Dracomon, sem tirar os olhos do videogame.
- Eu disse que não acredito que meus pais estão até agora bravos.
- O meu é de presunto.
Masuyo foi até Dracomon, se abaixou e colocou uma mão na frente do PSP.
- Tira a mão, você está me atrapalhando! – disse Dracomon.
- Eu estou falando! Pare de jogar e preste atenção!
- Eu estava prestando...
Dracomon parou de falar, e sua expressão se tornou séria. Ele se levantou e deu um passo em direção à janela e parou, observando atentamente. Alguma coisa no jeito dele deixou Masuyo incomodado.
- O que foi? – perguntou o menino.
Em silêncio, Dracomon deu mais dois passos em direção à janela.
- O que foi? – perguntou Masuyo, começando a ficar impaciente.
- Di... gi... mon... – disse Dracomon.
- Digimon? Você está vendo um Digimon?
- Preciso ir.
Após dizer isso, Dracomon correu até a janela e pulou por ela. Masuyo soltou uma exclamação, e depois do susto, correu até a janela. Ele viu Dracomon aterrissando, batendo as asas. Elas devem ter amortecido a queda, pois ele caiu como se a altura não fosse nada, e logo recomeçou a correr.
- Dracomon! – chamou Masuyo, mas não foi respondido. Dracomon estava longe agora.
'O que eu vou fazer? Eu não posso sair!' Masuyo se indagou. 'Mas Dracomon pode ficar em perigo. Alguém pode fazer mal para ele. Eu tenho que ir atrás dele.'
Ao tomar essa resolução, Masuyo deu meia volta e foi em direção á porta. Saiu do quarto e desceu as escadas, pisando com cuidado para não fazer barulho. A porta da cozinha ficava perto das escadas, e a porta da rua ficava do outro lado. Masuyo foi até perto da porta da cozinha e parou ao lado dela. Escondendo o corpo, ele espiou dentro da cozinha. Ele viu sua mãe de costas, enquanto ela mexia em alguma coisa na pia. Barra limpa. Masuyo foi pisando de leve até a porta de saída. Ele pegou seus sapatos, que estavam perto da entrada, e girou a chave com o maior cuidado. Ela se abriu. Ele pegou na maçaneta e girou-a com o mesmo esforço para não fazer barulho e abriu a porta. Uma brisa suave bateu em Masuyo. Devagarinho, ele saiu e fechou a porta. Pronto, ele estava do lado de fora. Mas não tinha tempo para perder. Colocou seus sapatos rapidamente e saiu correndo na direção em que Dracomon havia ido.
Havia pessoas na rua, o que fez sua preocupação crescer. Ele corria o mais rápido que podia, para encontrar logo o Digimon.
...
Era perto das onze horas da manhã. Havia muitas pessoas no metrô, principalmente desembarcando, na estação em que Dracomon estava. As pessoas por quem ele passava ficavam olhando para ele, mas ele só tinha atenção para o cheiro que estava farejando ali. Era um cheiro muito diferente do cheiro das pessoas. Só podia ser um Digimon.
Masuyo conseguiu localizar Dracomon e segui-lo até o metrô. Ele estava a uma distância de quarenta metros, e havia muitas pessoas entre eles. Masuyo não conseguia correr, porque o lugar estava muito lotado. Ele tentava se aproximar rapidamente, mas tinha que desviar das pessoas, o que impedia que ele se deslocasse muito rápido.
Enquanto Masuyo via Dracomon de longe, ouviu-se um grito, seguido por outros. Um tumulto começou a se formar próximo do veículo que estava parado. Masuyo podia ver Dracomon muito próximo do lugar. Ele viu também um vulto, da mesma altura do Digimon, se mover rapidamente entre as pessoas. Mais gritos soaram. Então as pessoas próximas de Dracomon começaram a correr na direção da saída, e nisso foram empurrando as pessoas mais próximas, que foram empurrando as outras pessoas. Logo Masuyo se via sendo arrastado pela multidão em pânico na direção da saída, incapaz de cruzar na direção contrária para se aproximar de Dracomon.
A multidão estava tão aglomerada ao redor dele que ele não conseguia mais ver Dracomon. Ele não pôde fazer nada a não ser se deixar levar até fora da estação. Na rua, ele conseguiu se afastar da multidão e ficar de lado. Ele esperou até boa parte das pessoas sair da estação, e se tornar possível passar por elas novamente, o que demorou uns bons minutos. Assim que foi possível, ele passou por entre as pessoas no fluxo contrário e entrou novamente na estação.
Lá dentro ele conseguiu ter uma visão ampla. Ele viu Dracomon, e também outros Digimon. Todos se pareciam com garotos, porém tinham pele azul e garras nas mãos e nos pés. Estavam por todos os lugares, e peseguiam as pessoas que ainda estavam lá. Dracomon estava encarando um deles com um olhar feroz e as costas arqueadas, como um gato prestes a começar uma briga.
O coração de Masuyo pulou no peito. Ele estava com medo, mas além disso, sentia uma excitação tão forte quanto o primeiro sentimento. Sentia a adrenalina correr pelo seu corpo. Mas logo a empolgação murchou, e deu lugar a sentimentos de pesar.
Dracomon e o outro Digimon avançaram um contra o outro, mas a briga não durou muito tempo. O Digimon adversário arranhou o peito de Dracomon, que caiu no chão em seguida.
Masuyo chamou pelo nome do seu Digimon. Sentiu uma dor estranha, como se sua alma tivesse sido ferida assim como o corpo de Dracomon. Suas pernas a princípio pareciam petrificadas, mas em seguida o ímpeto de ir atrás de seu amigo tomou conta dele, e ele correu em sua direção. O Digimon que atacou Dracomon deu uma risada e se afastou. Masuyo alcançou Dracomon e se ajoelhou ao seu lado, então segurou-o e virou o seu corpo. Havia três cortes e seu peito estava manchado de sangue.
- Diga que você está bem! – implorou Masuyo.
- Ele me pegou de jeito, Ma... suyo! – disse o Digimon.
- Me diga como você está!
Masuyo percebeu alguns Digimon se aproximando dele. Todos eram como o primeiro. Havia três vindo pela frente, e, ele reparou, um aproximando-se por trás. Eles tinham sorrisos perturbadores. Masuyo estava motivado a proteger Dracomon, mesmo que ele se machucasse bastante para isso.
- Afastem-se! – disse o menino – Ou vocês vão se ver comigo.
Os Digimon começaram a rir.
- Ora, você está bastante convencido! – disse um dos Digimon. Sua voz era esganiçada.
Eles deram mais um passo.
- Eu estou avisando! – disse o menino.
- Vamos ver se você consegue nos deter! – desafiou um dos Digimon.
Assim que o Digimon terminou de falar, todos saltaram sobre Masuyo e Dracomon.
Antes que eles os atingissem, Masuyo sentiu sua mão direita aquecer com um estranho calor. Uma luz o envolveu. Os Digimon que o estavam atacando pararam em pleno ar, e em seguida foram arremessados de volta na direção que tinha vindo, caindo a vários metros de Masuyo. A fonte da luz parecia estar na sua mão, e ele olhou para ela. Na sua palma havia um aparelho eletrônico, em que todas as partes estavam emitindo aquela luz.
- Masuyo... Me mostre isso que está na sua mão... – Dracomon murmurou.
- O que? Isto? – perguntou Masuyo, olhando de Dracomon para o aparelho.
- Rápido, Masuyo.
- Está bem.
Masuyo mostrou o aparelho para Dracomon. As suas feridas começaram a se fechar sozinhas, o que fez Masuyo soltar uma exclamação de susto.
- O que é isso? – o menino indagou.
Os Digimon que os atacaram começaram a se levantar. Um deles soltou um grito raivoso:
- Que ódio! Você vai ver!
Este Digimon correu em direção a eles. Dracomon se pôs de pé de um salto.
- Chama Neném! – disse, e soprou uma rajada de fogo contra o outro Digimon.
As chamas envolveram o corpo do Digimon, e ele se desintegrou, não antes de soltar um guincho.
- Droga! – disse um dos seus companheiros, recuando.
Ele fugiu, e o mesmo fizeram os outros. Todos os outros Digimon também fugiram, desaparecendo nas esquinas e nas sombras.
Masuyo olhou para Dracomon. Não havia nem sinal do ferimento em seu peito. Muitas perguntas pululavam na cabeça dele.
- Você me salvou! – disse Dracomon, olhando para Masuyo – Eu estou em dívida com você para sempre!
- Eu não podia abandonar você! E foi muita sorte ter aparecido esse... "tamagotchi". – disse Masuyo, e olhou para o dispositivo em sua mão – O que é isso?
- Eu não sei, Masuyo...
- Bom, temos que ir para casa agora.
Masuyo olhou em volta. Havia várias pessoas paradas olhando para eles.
