O incidente no metrô foi notícia nos jornais. Não houve nenhuma menção a Masuyo e Dracomon. Por uma falha momentânea, as câmeras de segurança pararam de funcionar e não filmaram eles nem os outros Digimon que apareceram. Tudo que a mídia noticiou foi que um animal desconhecido apareceu e causou pânico nas pessoas. Especialistas suspeitam que seja um morcego que sofreu uma mutação e atingiu um tamanho maior do que o normal.
Ninguém conseguiu filmar também. Parece que nenhum aparelho eletrônico funcionou durante o incidente. Nenhum além daquele aparelho que apareceu na mão de Masuyo. O que ele era de onde ele veio Masuyo não conseguiu descobrir, e Dracomon não sabia também. Depois da luta, a tela ficou apagada e permaneceu assim. Havia três botões nele, que Masuyo apertou várias vezes, em várias sequências diferentes, para ver se algo acontecia. Mas o aparelho não deu nenhum sinal de funcionamento.
Masuyo desistiu de tentar entender, e também se manteve muito ocupado. Sua mãe percebeu que ele havia deixado a casa, e havia inventado uma forma mais dura de castiga-lo. Apenas os pais de Masuyo poderiam ter essa ideia: ele se viu obrigado a prestar trabalho voluntário. Assim, o tempo que ele tinha para passar com Dracomon se tornou quase nulo. Quando não estava trabalhando ou na escola, Masuyo tinha que fazer dever de casa. A vida não estava fácil.
O trabalho de hoje era limpar o depósito da associação de caridade. Ele tinha que esfregar todos os objetos sozinho, o que era muito chato. Estava fazendo o serviço quando ouviu algumas batidas. Parecia ter vindo da janela, então ele foi até lá para ver. Não viu nada, então abriu a janela e olhou para baixo. Dois enormes olhos vermelhos o encararam.
- Surpresa! – disse o dono dos olhos, fazendo Masuyo tomar um grande susto e se afastar. Para seu azar, a janela ficou no caminho e ele bateu a cabeça nela. – AH! Vocês está bem, Masuyo?
Levou um tempo para Masuyo se situar, sentar o mais confortável possível contra a parede enquanto sua cabeça parecia se rachar ao meio e ele perceber que o dono dos olhos vermelhos era Dracomon. O Digimon pulou a janela e entrou no prédio. Ele estava se sentindo muito culpado por ter feito Masuyo se machucar, o que fez com que o menino se acalmasse, apesar de ter ficado bravo inicialmente por causa do susto e por ele ter saído de casa.
- Bom, já que você está aqui você podia me ajudar a fazer o trabalho. – disse Masuyo.
- Nós não podemos brincar? – disse Dracomon, com uma cara que deu dó a Masuyo.
- Eu não posso brincar agora. Tenho que terminar de limpar tudo isso. Mas se você me ajudar nós terminamos mais rápido!
- Tá bem, eu ajudo!
- Ótimo! Pegue esse pano ali e esfregue assim!
Masuyo pegou um objeto e esfregou com um pano, para demonstrar a Dracomon. O Digimon imitou-o, e logo os dois começaram a limpar todo o depósito. Alguns poucos minutos depois, Dracomon colocou o seu pano de lado e reclamou, com uma cara de desânimo:
- Limpar é muito chato!
Masuyo começou a ouvir algo apitando. Então ele se lembrou que tinha trazido o aparelho que apareceu para ele no metrô, que estava agora no seu bolso. Intrigado, Masuyo pegou-o, e uma projeção holográfica saltou da tela. A projeção mostrava um dinossauro vermelho e uma palavra: Guilmon. Dracomon olhou para a janela de supetão.
- Ele está ali! – declarou.
Masuyo olhou, mas não viu nada. Porém, alguma coisa dentro dele fez ele acreditar em Dracomon.
- Apareça! – o menino inquiriu.
- Tudo bem! – disse uma voz grave.
Uma mão vermelha, parecida com a de um lagarto e com garras surgiu na janela, agarrando o beiral, seguida pelo resto do corpo do dinossauro que apareceu na projeção holográfica. Ele saltou para dentro da sala. Tinha quase o mesmo tamanho que Dracomon, mas era um pouco maior.
- Eu estou à procura de um oponente forte para uma luta! – disse Guilmon, apontando um dedo, ou melhor, uma garra para Dracomon – Você é o oponente ideal!
- Você sabe reconhecer Digimon poderosos. – disse Dracomon – Se quiser lutar, podemos fazer isso agora.
- O quê? – exclamou Masuyo – Você tem certeza?
- O que poderia dar errado?
- Bem...
- Chega desse lenga lenga! – disse Guilmon – Vamos lutar logo!
- Quando você quiser! – disse Dracomon, dando um passo à frente.
- Ah... Vamos lá para fora pelo menos! – disse Masuyo.
- Tudo bem. Mas não tente fugir! – die Guilmon.
Masuyo foi até a porta e abriu-a devagar. Olhou dos dois lados do corredor, e não vendo ninguém, saiu e deu espaço para Dracomon e Guilmon passarem. O menino guiou os dois até fora do edifício, numa área descoberta, mas dentro dos muros, ao lado da qual havia uma quadra de esportes. Não havia ninguém lá fora naquele horário. Eles entraram dentro da quadra, e Dracomon e Guilmon se posicionaram em lados opostos. Masuyo ficou atrás de Dracomon.
- Você não vai se machucar? – perguntou Masuyo.
- Não tem chance desse Digimon fazer eu me machucar. – disse Dracomon.
- Espero que não!
- Chega de enrolação e vamos lutar logo! – exigiu Guilmon.
- Agora! – disse Dracomon.
Então ele retesou o corpo, abaixando levemente a cabeça. Guilmon fez o mesmo. Os dois se encararam ferozmente, e então dispararam em direção um do outro. Guilmon acertou a barriga de Dracomon com uma cabeçada, fazendo o dragão recuar, aturdido.
- Dracomon! – chamou Masuyo, preocupado.
- Eu estou bem! – disse Dracomon.
Ele avançou contra Guilmon e deu um soco na cara dele.
- Agora estamos quites! – disse Dracomon.
- Eu vou acertar você de novo! – disse Guilmon.
O dinossauro vermelho tentou desferir um soco em Dracomon, mas este desviou, e revidou acertando sua barriga. Guilmon deu um passo para trás.
- Você vai ver! – disse o dinossauro, e avançou novamente contra Dracomon.
Dracomon permaneceu onde estava e parou Guilmon com as mãos. Guilmon passou a empurrá-lo, e ele empurrava Dracomon de volta. Os dois ficaram resistindo. Suas sobrancelhas estavam unidas e eles se encaravam olho no olho. Os músculos de seus braços estavam contraídos com o esforço que eles estavam fazendo. Era um teste de força.
Neste momento Masuyo sentiu o cheiro de algo queimando. Ele se distraiu da luta para olhar para cima. O cheiro parecia vir com o vento. Então ele viu uma figura negra surgir bem acima deles, a vários metros, e mergulhar numa velocidade impressionante. Quando ele pode ver o que era, a figura parou de repente e ficou pairando sobre a quadra. O aparelho que Masuyo levava apitou na mesma hora. Dracomon e Guilmon pararam de lutar para fitar a figura.
Era um pássaro com o corpo em chamas negras, mas era tão grande quanto um elefante. O aparelho eletrônico revelou seu nome: Sabirdramon.
Silenciosamente, o pássaro cuspiu uma bola de chamas pretas contra Dracomon e Guilmon. Os dois correram para lados opostos, logo antes da bola de fogo atingir o chão onde eles estavam e causar uma pequena explosão. No lugar ficou uma grande mancha preta.
- Vamos interromper nossa luta por um tempo! – propôs Dracomon, olhando para Guilmon.
- OK! – respondeu o dinossauro vermelho.
Sabirdramon virou seu olhar maligno para Masuyo e lançou uma bola de fogo.
- Chama Neném! – disse Dracomon, e lançou sua própria bola de fogo.
O fogo da Chama Neném atingiu o fogo negro de Sabirdramon, causando uma explosão no ar. Sabirdramon voltou-se novamente para Dracomon.
- Tiro Guil! – disse Guilmon, e lançou uma bola de fogo.
Dracomon atacou com sua Chama Neném também, e as duas bolas de fogo rumaram contra Sabirdramon. O pássaro negro bateu suas asas com vigor e saiu da direção dos ataques. Então o pássaro mergulhou na direção dos dois dinossauros.
- Espere! Não ataque! – pediu Guilmon – Agora!
Dracomon e Guilmon lançaram novamente bolas de fogo. Sabirdramon estava muito próximo e não conseguiu desviar. Os dois ataques o acertaram em cheio, fazendo labaredas voaram para todas as direções. O pássaro soltou um grunhido alto de dor.
Sabirdramon se lançou para o alto, batendo suas asas gigantescas. Ele voou mais e mais alto, até ficar bem pequeno.
- Será que ele vai voltar? – indagou Masuyo.
- Acho que não. – disse Dracomon.
Masuyo correu na direção do amigo.
- Como você está? – ele perguntou.
Dracomon estava ofegante.
- Estou ótimo! – ele disse.
- Ei! – eles ouviram Guilmon chamar. O Digimon estava em cima no muro do instituto, com uma perna para dentro e outra para fora – Vamos fazer uma pausa, mas outra hora eu venho ganhar de você!
- Vamos ver se você vai ganhar! – disse Dracomon.
Guilmon sorriu. Mesmo sendo um dinossauro ele podia sorrir, assim como Dracomon. Guilmon saltou, desaparecendo atrás do muro.
- Ah! Você precisa se esconder! – disse Masuyo – Logo os outros vão chegar!
Saeko estava saindo da aula para o intervalo.
- Ei, Saeko! – Keiko, uma amiga sua, chamou.
Saeko se virou para encará-la.
- Você vai no treino de hoje? – perguntou Keiko.
- Vou sim.
- Arrasou! Nós vamos mandar bem nos jogos escolares!
Keiko despediu-se de Saeko. Esta última suspirou e seguiu seu caminho habitual para o refeitório. Keiko costumava almoçar no clube de fotografia, enquanto fazia com os outros membros os preparativos para uma mostra. Então Saeko ia almoçar sozinha.
Após servir sua refeição ela começou a procurar uma mesa para se sentar. Entre os colegas barulhentos, ela viu um menino de cabelos castanhos sentado sozinho. Não era a primeira vez que ela reparava nele. Ele sempre estava sozinho.
Saeko tomou uma resolução. Andou até a mesa onde estava o menino e colocou sua bandeja em frente à dele. Ele levantou os olhos da sua comida, surpreso, e encarou Saeko.
- Você se importa? – perguntou a menina.
