- Você se importa? – perguntou Saeko, após colocar a bandeja na mesa onde estava sentado o menino de cabelos castanhos.
- Não. – disse ele.
Saeko sentou-se.
- Eu sou Fujiwara Saeko.
- Eu me chamo Sato Seiji. Muito prazer.
- O prazer é todo meu.
Saeko começou a comer. O menino olhava para seu prato.
- Você é novo na escola, não? – Saeko perguntou.
Seiji olhou para ela.
- Me mudei de Fukuyama, onde morava com meus avós, para vir morar com meus pais. – disse ele, e depois levou um bolo de arroz à boca.
- Entendi. Deve estar sendo tudo novo para você aqui em Tóquio.
Seiji demorou um pouco antes de responder.
- Sim, ainda estou tentando me acostumar. Aqui é muito caótico.
- É, você tem razão. – Saeko disse, sorrindo. – Ah, você vai fazer alguma coisa hoje a tarde?
- Não... – ele disse, pensativo - Eu não participo de nenhum clube, nem tenho nada para fazer.
- Hoje à tarde eu jogo vôlei, você quer vir assistir?
- Eu... tenho um compromisso. Mas vou tentar.
Saeko riu. Ele não tinha acabado de dizer que não tinha nada para fazer? Seiji se levantou e pegou a bandeja, já vazia.
- Eu preciso ir. – ele anunciou, sem olhar para ela. – Tchau!
- Tchau...
Ele deixou-a. Saeko ficou se perguntando o que ele tinha. Ela terminou o seu almoço e partiu para a quadra. Era muito cedo, pois o treino só iria começar a uma hora, e era meio dia ainda. Não havia ninguém na quadra. Ao invés de ficar lá, ela rumou para o vestiário feminino. Kudamon a esperava lá dentro. Assim que ela entrou, a Digimon flutuou em sua direção e se aconchegou em seus braços. Assim que elas se separaram, Saeko sentou-se em uma banco de concreto e Kudamon pousou ao lado dela. Elas levantariam suspeitas se Saeko ficasse andando com elea pela escola, então elas aproveitavam o tempo entre as aulas da manhã e os treinos À tarde para ficarem juntas. Para todos os efeitos, as duas fingiam que Kudamon era um bicho de pelúcia.
Saeko e Kudamon jogaram cartas até próximo ao horário do treino de vôlei. Então Saeko se trocou e as duas ficaram esperando o horário. Logo as outras meninas chegaram, fazendo barulho com suas conversas.
- Oi Saeko! – disse Keiko, uma menina de cabelos castanhos da mesma sala de Saeko que estava sorrindo para ela.
- Oi Keiko! – disse Saeko, retribuindo o sorriso - Como foi a reunião do clube de fotografia?
- Foi muito boa. Mas temos muita coisa pra fazer! – ela demonstrou uma expressão de cansaço – Precisamos alugar painéis, comprar material de decoração, fora revelar todas as fotos da exposição.
- Você vai ficar muito ocupada a semana inteira, né?
- Ô se vou!
- Oi Kudamon! – disse Mizuki, uma menina de cabelo azul curto, passando por ela e Saeko.
- Às vezes eu acho que ela retribui o olhar. – disse Kin, uma menina de cabelo preto ondulado que usava óculos.
- É claro que ele retribui o olhar, ele gosta da gente, não é! – disse Mizuki.
As meninas se trocaram e foram para a quadra. Saeko levou Kudamon com ela. Para sua surpresa, Seiji estava esperando por ela. Saeko foi até o seu encontro e disse:
- Resolveu vir?
- Bem, sim, eu acho que fui um pouco mal educado. – disse o menino sem jeito.
- Esquece isso. Ei, você vai fazer companhia para a Kudamon!
Seiji olhou para a Digimon em silêncio, então sorriu.
- Olá, Kudamon! – cumprimentou.
Saeko deixou a raposa-serpente com o menino, e foi se juntar às outras garotas para o aquecimento. Seiji se sentou na primeira fila das arquibancadas e deixou Kudamon ao seu lado, com o rosto virado para a quadra. Sem que ninguém notasse, Kudamon piscou.
Após aquecer, a técnica, uma mulher exigente chamada Akemi, orientou as garotas a fazerem exercícios de jogadas especiais. Após meia hora de treino, as garotas se dividiram em times e começaram a jogar. Saeko era muito boa, Seiji pôde notar. Ela e Keiko eram as melhores, atrás apenas de uma garota de cabelos vermelhos e expressão fechada. Era Yasu, uma menina que não se misturava. Ela tinha seu grupo de amigas e não falava com mais ninguém. As suas amigas também jogavam vôlei, por pressão dela, era o que os outros diziam.
Saeko e Keiko estavam no mesmo time, e Yasu estava no time oposto. O time de Saeko estava indo melhor, e alguns pontos foram feitos por ela. Toda vez que fazia um, ela acenava para Seiji e Kudamon na arquibancada. O menino retribuía o gesto.
Ao final do treino, Saeko foi até Seiji e pegou Kudamon.
- Obrigada por ter vindo! – disse ela ao menino.
- Foi divertido! – ele disse, então ficou sério.
- O que foi?
- Você tem certeza que quer andar comigo?
Saeko franziu o cenho.
- Por quê? – ela perguntou.
- Porque... pode afetar a sua imagem. Eu sou diferente. Eu... não gosto das mesmas coisas que os outros garotos gostam. Todos os outros garotos gostam de beisebol ou outro esporte. Eu não.
Saeko encarou Seiji em silêncio, então disse simplesmente:
- Ser diferente não é um problema. Eu quero ser sua amiga.
Um sorriso brotou no rosto de Seiji.
- Te vejo amanhã! – disse Saeko, e deu um beijo na bochecha dele e saiu correndo em direção ao vestiário.

Mais tarde, já trocada, Saeko caminhava até o metrô para voltar para casa. Ela ouviu o som de um estalo. Ela olhou ao redor, mas não viu nada de anormal. Instantes depois do barulho, ela sentiu um empurrão no ombro e ouviu outro estalo, dessa vez o da alça de sua mochila se partindo. O empurrão foi tão forte que ela perdeu o equilíbrio e caiu de bunda no chão. Uma idosa que passava por ali interrompeu sua rota e se aproximou.
- Você está bem? – perguntou a idosa.
Saeko estava atônita e de olhos fechados. Sentia uma forte dor nos quadris e nas nádegas e tinha perdido o senso de direção. Enquanto isso, o zíper de sua mochila se abriu e Kudamon saiu de lá. Ao ver a Digimon, a senhora ficou pálida.
- Uma kuda-gitsune!
Outro estalo soou. Desta vez, quem sentiu uma pancada foi Kudamon. O impacto jogou ela um metro para trás. Ela se recuperou e olhou ao redor.
A cabeça de Saeko parou de rodar.
- Você está bem? – a idosa perguntou.
- Sim, eu estou. Kudamon!
Kudamon estava voando ao redor dela.
- Seja lá o que for, ela sabe o que é! – disse a idosa.
- Como?
- A kuda-gitsune. Eu nunca imaginei que veria uma um dia. Você é uma menina de muita sorte!
Saeko não soube o que dizer. Aquela velha parecia doida.
O som do terceiro estalo soou. Kudamon virou-se. Dessa vez ela tinha conseguido ouvir de onde vinha.
- Tiro Divino! – a Digimon disse, antes de lançar uma flecha de luz de sua garganta. A flecha explodiu em pleno ar.
Neste momento, mais pessoas tinham parado para ajudar Saeko.
- Kudamon! – Saeko chamou.
- É um Digimon, Saeko! Ou mais de um! – Kudamon disse.
Outro estalo. Kudamon soltou outro Tiro Divino, que também explodiu em pleno ar.
- Ei! – disse um menino, puxando o cotovelo de Saeko.
Saeko ignorou-o.
- Ei! Moça! Sua mochila tá indo embora!
Isso chamou a atenção de Saeko. Ela olhou para o menino, que apontou numa direção. Saeko olhou e viu a sua mochila se arrastando pela calçada. Sem pensar muito, ela correu para pegá-la. Nesse momento, Kudamon notou seu movimento. No instante seguinte, ele viu a mochila.
- Ali! – exclamou, e mergulhou na direção da mochila.
Kudamon mordeu o ar na frente da mochila. Uma grande centopeia verde surgiu em sua boca. Kudamon soltou-a e pairou por cima dela.
- Um Dokunemon! Agora estou entendendo. – disse ela. – Eles podem ficar invisíveis e atiram ferrões, que também são invisíveis.
- Há outros por aqui? – perguntou Saeko.
- Ninguém tem uma câmera? – alguém gritou.
Quando Saeko viu, um aglomerado de pessoas estava parado ao redor deles. O trânsito havia parado por causa das pessoas na rua. Estavam todos olhando para a menina e Kudamon.
- Droga! – exclamou Saeko.
Todo o esforço que Saeko tinha feito para manter Kudamon em segredo tinha ido por água abaixo. Mas não tinha tempo para pensar nisso. Outro estalo soou.
- Redemoinho-Bala! – disse Kudamon.
Ela se deslocou no ar ao mesmo tempo que girava como uma roda. Ela atingiu alguma coisa, que explodiu. Kudamon surgiu imune da fumaça gerada pela explosão, rodando na mesma velocidade. Ela foi até o topo de um poste, onde atingiu outra coisa invisível. Outro Digimon como o primeiro surgiu do nada e caiu lá de cima.
- Se você estiver aí, eu vou te pegar! – Kudamon ameaçou, olhando ao redor.
Outro estalo. Kudamon girou de novo com o Redemoinho-Bala, destruiu um ferrão e atingiu o terceiro Digimon, na janela de uma loja. Ela voltou flutuando até Saeko, e esperou. Não se ouviu nada mais.
- Acho que estamos seguros. – ela disse a Saeko.
- Agora vamos para casa...
- Tem certeza que está bem? – um homem perguntou a ela.
- Estou, só preciso ir para casa.
- O que é esse bicho aí? – outra pessoa perguntou.
- Deixem ela em paz, ela está assustada! – disse o homem.
- Obrigado... – Saeko balbuciou.
Saeko seguiu seu rumo, enquanto Kudamon entrava de novo da mochila.

Masuyo estava deitado de barriga em sua cama, fazendo o dever de casa. Dracomon estava tentando ajudá-lo, para que ele terminasse mais rápido, mas sem muito sucesso. A tranquilidade dos dois foi interrompida por um pio tão alto que fez o quarto todos chacoalhar. O aparelho eletrônico especial de Masuyo, que estava na cama ao lado dele começou a apitar. Ele e Dracomn correram para a janela. Um vulto gigante passou voando por sobre os telhados. Do vulto saiu outra mancha escura, que atingiu o telhado de uma das casas. No ponto atingido pela sombra, o telhado começou a pegar fogo.
Masuyo pegou o aparelho na cama e olhou para a projeção que saía da tela, algo que ele só tinha visto antes em filmes de ficção científica. A projeção mostrava o pássaro de chamas negras que eles encontraram de manhã: Sabirdramon.
- Dracomon, você não vai atrás dele! – Masuyo disse ao amigo.
- Não! Eu prometo! – respondeu o dragão, muito sério.
Eles se voltaram para a casa em chamas.
- Mas ele vai colocar muita gente em perigo né? – disse Masuyo.
O menino lembrou-se de Dracomo junto com o outro Digimon Guilmon espantando a águia naquele mesmo dia, de manhã.
- E nós somos os únicos que podemos detê-lo. – disse Masuyo.
Ele encarou Dracomon, que lançou-lhe um olhar confiante.
- Vamos? – o menino perguntou.
- Vamos!
Dracomon bateu suas asas e saiu pela janela, ficando parado em frente a ela. Masuyo subiu no parapeito e segurou nos braços do Digimon. Masuyo deu impulso e Dracomon alçou voo carregando o menino. Sem dificuldade, o dragão levou-o pelo céu noturno, seguindo Sabirdramon.
O pássaro de chamas negras voava causando terror por onde passavam. Seus piados altos faziam as pessoas saírem nas janelas e sacadas em pânico. Ele lançou penas em chamas como projéteis, que explodiram na rua embaixo. Seguia, aparentemente guiado apenas pelo objetivo de causar destruição quando se deparou com uma menina e um Digimon: Saeko e Kudamon.
Sabirdramon mergulhou em direção às duas. Kudamon lançou uma flecha de luz contra o pássaro de fogo, que arrematou para cima. A flecha passou bem próxima de sua asa direita.
Nesse meio tempo, Masuyo conseguiu identificar Saeko e Kudamon. Dracomon voou direto para a águia e lançou uma bola de fogo de sua boca. A chama atingiu o peito de Sabirdramon em cheio. Ela deu um piado dez vezes mais alto e arrepiante que os anteriores, que deixou os pelos dos meninos e Digimon em pé. Sabirdramon abaixou a cabeça e começou a bater as asas sem sair do lugar como numa dança.
Kudamon foi a primeira a perceber o que isso significava.
- Ela ficou enfurecida! – gritou a raposa – Fuja, Dracomon! – gritou num tom bem mais alto.
- Sombra Sônica! – bradou Sabirdramon.
O pássaro ergueu a cabeça e investiu contra Dracomon e Masuyo numa velocidade difícil de acompanhar com os olhos. Masuyo nem teve tempo de pensar. Para ele era o fim.
Um brilho surgiu no seu bolso. Era o aparelho misterioso.
Dracomon também começou a brilhar, como se fosse uma lâmpada, e crescer rapidamente. Masuyo absorvia tudo devagar e não sabia se ainda estava em perigo, mas Dracomon não era o mesmo de um instante atrás.