Marcas da Solidão

Kaline Bogard

Mas Aburame Shino teve tanta certeza quanto o fato de estar respirando: aquele shifter era um Ômega.

O primeiro Ômega que encontrava em mais de dez anos.

A diversão veio a ele. Leve, porém inegável. Tinha um Ômega "camuflado" trabalhando ao lado de dezenas de Betas, escondendo tal fato, pois se alguém soubesse da verdade, Shino já teria descoberto também.

Qual forma usaria para esconder a própria essência? Não podia negar que era inusitado, uma prática pouco comum. Pelo menos em Konoha. Mas... também não viviam em uma vila que desse tal liberdade àquela casta. Nunca que um raro Ômega ficaria trabalhando assim, exposto ao sol! Uma grosseria indelicada que...

Os pensamentos foram cortados. Shino viu claramente os movimentos naturais se tornarem estranhos, um tanto forçados. Aquele shifter percebeu-se sobre observação acirrada e ficou tenso.

Quase sentiu pena por ele. Quase.

Por sorte, era próximo da hora do almoço. O fim da canção deu início à pausa para a refeição.

À medida que o silêncio caia sobre o campo, os trabalhadores foram dando meia volta, sem surpreender-se com o senhor do feudo ali parado. Sua presença Alpha era inegável desde o momento em que chegou.

Enquanto se dispersavam, inclusive o infiltrado, o mais velho deles caminhou tranquilo até Shino, abrindo passagem pelo campo alagado. Ao sair em solo seco, parou a uma distância apropriada do alazão branco, sorrindo cheio de alegria e respeito, enquanto tirava o grande chapéu de palha. Não era todo dia que um Beta humilde como ele, da base da casta, tinha a chance de conversar com o dono das terras. Ainda mais um tão recluso!

— Aburame-sama — recurvou-se o máximo que pode — Agradecemos que venha abençoar as terras e o plantio. Uma boa colheita representa graças para todos.

Shino reclinou-se de leve, devolvendo o cumprimento com a medida que sua alta posição social permitia. Sabia que mostrar cordialidade demais seria insultuoso para alguém que apreciava aqueles rituais empedernidos.

— Quem é aquele rapaz? — Shino apontou o Ômega que escapulia um tanto apressado para longe.

— Ah! — o Beta riu, sem parecer surpreso com a 'fuga' — Aquele é Inuzuka-kun. Ele tem uma fome que não cabe no corpo, é um dos primeiros a sair pra pegar a comida.

Shino ajeitou os óculos no rosto. Apostou que naquele dia, a pressa tinha a ver com outra coisa.

— Gostaria de falar com ele.

O Beta pareceu chocado. Por alguns segundos, perdeu inclusive a pose orgulhosa por falar com o senhor.

— E-ele não se apresentou? Eu pedi que fizesse isso quando chegou aqui! — o rosto pálido voltou-se pela segunda vez na direção do campo, compreendendo o implícito por trás das perguntas — Inuzuka-kun! — gritou, já sem cordialidade alguma na voz ou na expressão facial — Venha aqui!

Aburame entendeu a reação. Em qualquer outro feudo, um descuido desses seria considerado uma afronta a se pagar com expulsão das terras. Talvez castigo pior. Receber alguém na propriedade desencadeava uma série de coisas, de gastos extras com moradia, alimentação, proteção... viver escondido era um crime grave.

O rapaz obedeceu à ordem raivosa com muito menos ímpeto do que tentou sair dali. Veio devagar, com os passos miúdos de um condenado que avança para a forca, a cabeça abaixada, com o chapéu de palha encobrindo-o dos olhos alheios.

Shino sentiu a raiva do Beta, atingindo níveis incômodos.

— Está tudo bem — garantiu — Só fiquei curioso.

— Pedi que ele se apresentasse, Aburame-sama — a raiva abrandou, mas a postura constrangida permaneceu, sem jeito, rodou o chapéu entre os dedos — Dei um voto de confiança, pensei que estava tudo certo.

— Está — Shino fez questão de reforçar. Mas precisava descobrir por que motivo tinha um Ômega escondido em suas terras. Não queria nada que destruísse a paz e a tranquilidade em que vivia. Ou que intervisse nas boas relações com os feudos vizinhos.

Finalmente o tal Inuzuka os alcançou, parando ao lado do Beta. Não teve tempo de dizer nada, antes que o homem o grudasse pelo pescoço e o obrigasse a reverenciar. O grande chapéu de palha foi ao chão, permitindo que Shino descobrisse os cabelos castanho-escuros bagunçados.

— Você não se apresentou! Pedi que fizesse isso quando chegou!

— Ah...eu ia me apresentar, mas... o tempo passou e eu esqueci! Desculpa — tentou voltar à posição ereta, mas foi impedido, o próprio Beta reclinou-se enquanto o mantinha na reverência.

— Peço perdão por essa ofensa, Aburame-sama. A responsabilidade é minha, eu devia ter supervisionado melhor os trabalhadores desse campo.

Shino suspirou. Interações hierárquicas eram cansativas demais pra ele. O camponês claramente esperava uma punição e se deixasse passar em branco, seria tão ofensivo à honra dele quanto ter cometido o erro.

— Pegue metade da porção de arroz essa semana — decretou por fim. Qualquer castigo físico estava fora de cogitação, algo pior nem passou pela mente de Shino — Para você. Para a sua família recolha o mesmo.

— Obrigado, Aburame-sama. Juro pela honra dos meus pais que isso nunca se repetirá.

Só então voltou a posição correta, libertando o rapaz ao lado dele.

Shino pode dar uma boa olhada no shifter. Era mais jovem do que esperava, quase um adolescente. Tinha triângulos engraçados pintados em vermelho na face, algo nada discreto para quem vivia escondido. Os olhos selvagens espiaram Shino rapidamente, para logo se desviarem para outro ponto. Era uma criaturinha interessante, que moveu um tanto as mãos sem saber o que fazer com elas. Parecia irrequieto.

— Qual o seu nome, garoto?

— Inuzuka Kiba, senhor — respondeu depressa — Eu ia me apresentar, sabe? Sou uma pessoa normal, como pode ver, tipo Beta e tudo o mais. Desculpa ser meio esquecido.

Deu tanta ênfase na parte do "pessoa normal", que até o Beta estranhou. Shino sentiu uma onda de preocupação eclodir da direção do pobre homem. Com certeza ele ponderava as chances de ter permitido a entrada de um criminoso procurado ou alguém perigoso nas terras de um proprietário tão generoso quanto o herdeiro dos Aburame.

Antes que dissesse qualquer coisa, Shino achou melhor intervir:

— Quero que venha comigo. Pode se apresentar agora — então voltou-se para o outro shifter — Pode dar início a sua refeição, eu resolvo daqui para frente.

— Obrigado, Aburame-sama — fez uma derradeira vênia, antes de ir se encontrar com os companheiros, que assistiam a cena de longe, já partilhando do almoço.

Inuzuka Kiba olhou brevemente, intuindo que ficaria sem comer. Então olhou para Shino. A postura de quem sabe que foi descoberto e calculava as chances antes de tomar alguma decisão.

— Vamos conversar — Shino respirou fundo — Quero saber por que tem um Ômega trabalhando no meu feudo, sem que eu saiba disso.

Assistiu a pele trigueira de sol se empalidecer ao ouvir aquilo.

— N-não...

— Não adianta negar. Pode enganar os Betas. Até Alphas desatentos, mas o seu azar é que eu não sou desatento. Venha comigo.

Valeu-se de sua voz de comando, na certeza que seria obedecido. Mesmo que não usasse a premissa Alpha para esse fim em anos, certas coisas não mudavam. Betas e Ômegas, quando reconheciam um Alpha como alguém em posição de liderança, jamais iam contra sua voz de comando.

Sem opção, o garoto abaixou-se para pegar o chapéu caído e ajeitou sobre a cabeça, então avançou pela trilha, seguindo na direção de onde sabia ficar a casa principal, apesar de nunca ter sequer chegado perto da construção.

Shino assistiu enquanto o garoto avançava, e pôs o alazão branco a trote, caminhando alguns metros atrás dele. Observou descuidado o jeito irrequieto de andar, alguém que dava a impressão de estar sempre em alerta. Os pés descalços iam firmes, meio sujos de barro.

Queria saber que mistérios envolviam aquele shifter. Qual história acompanharia seus passos e explicaria como chegou ali? Reconheceu mais um sentimento que não o acometia há muito tempo: interesse.

A frente dele, Inuzuka Kiba caminhava amargando sua falta de sorte. Estava infiltrado ali fazia quase seis meses! Seis meses aproveitando do abrigo, da proteção e de bons companheiros. Nunca ninguém desconfiou da verdade. Nunca ninguém o tratou diferente. Já esperava por isso, desde que sua jornada trouxe os primeiros rumores sobre o feudo Aburame em Konoha. Um lugar em que valia a pena arriscar viver.

E foram seis ótimos meses.

Suspirou.

Sabia, desde que sentiu a presença de um Alpha se aproximando, que seu disfarce estava em risco. Não fugiu por dois motivos: o primeiro seria por levantar suspeitas demais! Como deixaria a linha de trabalhadores e sairia do campo? E, em segundo, já tinha ludibriado outros Alphas no passado! Kiba não funcionava bem sob pressão, não queria estragar tudo, por isso escolheu a opção menos complicada: continuou quietinho, trabalhando no plantio.

E agora precisava arcar com as consequências.