Marcas da Solidão

Kaline Bogard

Não precisou de novo convite. Kiba deu a impressão de flutuar e foi sentar-se na outra cabeceira da mesa, a boca salivando só de sentir o cheiro agradável de comida.

Shino aprovou o gesto. Ambos esperaram até que toda a refeição estivesse servida, então o Alpha dispensou as servas, para que os dois ficassem novamente sozinhos.

E assim pudessem dar início a conversa.

Os olhos de Kiba passaram por todas as iguarias sobre a mesa, fixando-se por fim sobre uma travessa com carne. Carne!

Não podia reclamar do que ganhava trabalhando ali, havia arroz em abundância, legumes, frango e frutos do mar. Mas carne... daquele tipo: tenro, em grossas fatias assadas ao ponto e cobertas com um molho de aroma agridoce... a isso não estava acostumado!

Era a primeira vez que se sentava em uma mesa tão farta, ao menos por livre e espontânea vontade!

Olhou de relance para Shino, tentando calcular se o homem comia muito. Nobres costumavam ter modos refinados, embora Kiba já tivesse estado com Alphas de péssimos modos à mesa. Aburame Shino parecia do tipo elegante. Se fosse assim, talvez sobrasse um pouco de carne para ele.

Com o avançar lento dos segundos, Kiba tornou-se meio impaciente. Estava varado de fome e aquele shifter não fazia o menor movimento em intenção de se servir! Começou a bater a garrinha do indicador sob o tampo da mesa, causando um som repetitivo. Corria o risco de irritar o dono da casa, mas era algo que não conseguia evitar.

Shino compreendeu que teria que ser mais literal com aquele garoto. Acabou fazendo um gesto amplo com a mão.

— Sirva-se, por favor.

Ao invés de se alegrar com a frase, Kiba tornou-se desconfiado. De onde veio, um Ômega servir-se primeiro era impensável.

— Por que eu me serviria antes de um Alpha? — não ia cair em nenhum truque para ser acusado depois!

— Por que você é meu convidado...? — Shino devolveu a pergunta com outra pergunta.

Kiba olhou longamente para o homem, em dúvida. Ponderou sobre como proceder. Por fim relaxou, nada até o momento indicava que o Alpha agiria com algum engodo para enganá-lo. Desde a cena nos campos até aquele momento. O clima de calma era tranquilizador, clima que o envolveu desde que começou a viver no feudo. Deu-lhe confiança. E, na verdade, se fosse algum tipo de jogo, daria seu jeito para se livrar! Era o que vinha fazendo desde sempre...

Deixando de perder tempo, pegou uma tchawan preta com detalhes feitos a mão em vermelho e dourado e serviu-se de arroz. Depois, claro, serviu-se de carne. Foi o sinal para que Shino também pegasse para si um bocado de arroz e variados legumes. Evitava carne, pois o gosto forte incomodava seus insetos.

Ao dar a primeira mordida, Kiba vibrou. Teve que ser muito forte para evitar demonstrações mais eloquentes de alegria. A carne era maravilhosa! Tenra, no ponto certo e bem temperada, com um molho de sabor sobrenatural por cima! Parecia um sonho culinário que o fez salivar de puro prazer.

Acabou suspirando e levando a mão livre ao rosto, sem parar de mastigar.

— Pelo visto está do agrado.

— Hn. Está muito do agrado! — Kiba riu — Uma vez, no meu país, me obrigaram a assistir o jantar inteiro, pra me fazer comer as sobras. Mas só sobrou arroz.

Disse isso como se não fosse grande coisa, embora surpreendesse seu anfitrião.

— O quê? — quem tinha coragem de tratar um convidado com tanta maldade?

— Ué, acha que a vida de um Ômega é fácil fora de Konoha? Acho que você não sai muito dessa vila, não é?

Shino não compreendeu. Sabia que Konoha não era exceção no tratamento com Ômegas. Os anos afastados do convívio social teriam mudado isso? Parecia inconcebível a crueldade imposta ao garoto, algo que não teria coragem de fazer nem com um inimigo.

Tendo isso em mente, Shino não fez nada em sentido de começar a conversa, nem de pedir esclarecimentos. Não sentiu mentira naquela frase, fosse qual fosse o passado daquele garoto, ele enfrentou maus bocados.

Permitiu que Kiba continuasse comendo sem se preocupar em dar explicações. Por fim, o sentimento ruim foi substituído por diversão, a medida que o garoto atacava a comida com uma voracidade de meter medo. Não se fez mais de rogado: enchia a barriga com generosos nacos de carne, depois engolia algum arroz pra disfarçar. Atacava a carne com afinco. E um tiquinho de arroz pra completar. Agia como se nunca mais fosse provar aquilo na vida!

Shino concentrou-se na própria comida. Era tão contagiante ver a empolgação juvenil, que acabou comendo um pouco mais do que estava acostumado, desfrutando do arroz de qualidade colhido em suas terras, assim como dar verduras que plantavam.

— Obrigado pela comida! — Kiba agradeceu quando se sentiu saciado. Depositou a tchawan vazia sobre a mesa e passou uma mão pelo rosto, para limpar uns grãozinhos de arroz. Tinha um sorriso tão radiante, que Shino sentiu os insetos reagindo de modo positivo.

Também depositou seu vasilhame sobre a mesa.

— Obrigado pela comida — repetiu a frase tradicional.

— Comi demais — Kiba deu uns tapinhas de leve sobre a barriga — Não cabe mais nada.

Pois foi só ele dizer isso e as servas entraram no lugar, apressadas e pedindo licença. Estavam tão felizes em realizar seu ofício, que nem conseguiam disfarçar! Geralmente Aburame-sama nunca fazia refeições tão fartas ou uso dos shifters que protegia no feudo, o que dava certa sensação de inutilidade. Agora podiam não apenas preparar um ótimo almoço, mas também complementar com o chá!

Rapidamente tiraram as louças sujas e substituíram por um conjunto de chá fresco. As travessas com doces e biscoitos fizeram o garoto arregalar os olhos.

— Acho... acho que cabe sim — rendeu-se quando ficaram sozinhos.

Um som engraçado escapou da garganta de Shino. O mais próximo de uma risada que foi capaz de expressar em... muitos anos. Sentiu-se um tanto constrangido, embora a face continuasse indiferente.

Kiba não pareceu notar, admirando os petiscos, tentando se decidir por qual começar.

— Agora é uma boa ocasião para retribuir minha gentileza, não concorda?

A pergunta chocou Kiba. Teve um pensamento terrível, que o paralisou por completo.

— Não pago com se-sexo! — exclamou. Devia ter perguntado isso antes da refeição! Tinha baixado a guarda por completo! Como podia ser tão ingênuo?! Se preocupou demais em evitar uma cilada por um lado, que esqueceu-se de outra parte da questão.

Aburame ajeitou os óculos sobre o nariz, tentando não transparecer como aquilo o ofendeu. Captava traços de pânico e arrependimento emanando do Ômega, de um jeito tal que afastou qualquer repreensão que quisesse fazer.

— Eu ia pedir que retribuísse me contando sua história.

De pálido, o rosto de Kiba tornou-se completamente vermelho.

— Aa... entendi. Desculpa — gaguejou — Uma vez me... desculpa. Não quis insultar.

Para tranquilizá-lo, Shino despejou o chá quente em um kobati que combinava com o jogo de jantar e deslizou pela mesa até que estivesse ao alcance de seu convidado.

— Gostaria muito de ouvir suas explicações.

— Claro! — Kiba respondeu baixo. Estava alimentado e ainda tinha a parte da sobremesa! Foi bem tratado ali, apesar de ter mentido, se ocultado e causando uma falta de respeito ao senhor feudal. Se precisasse partir, seria triste. Mas por sua culpa mesmo, não por uma perseguição ou por algo ruim que queriam como retribuição.

Revelar sua história era o mínimo que poderia fazer pelo respeito que recebeu até então. Não um tratamento em exagero ou desprezo por sua condição de Ômega.

Apenas respeito, apesar de falar com um importante senhor feudal.

Inclinou-se um pouco para alcançar o kobati e ficou rodando o copo de chá entre as mãos, encantado com o calor e o aroma agradável. Pensou em como dar início à narrativa. Porém pensar não era seu forte. Suspirou.

— Eu venho do leste. Na vila onde cresci, Ômegas não são raros como em Konoha. Lá tem bastante, tantos, que os outros shifters dizem que somos piores do que baratas. Quando um filhote Ômega nasce, ele é tirado da família e levado para Gin-Iro, um distrito só de Ômegas, de onde a gente não pode sair. Mas eu fugi de lá. Um dos Ômegas que cuidava das crianças disse que quando cheguei no distrito, filhotinho, tinha aquelas marcas pintadas no rosto e meu nome escrito em uma manta suja de sangue. Ele também contou que eu não nasci em naquele país. Eu sei que a minha mãe não me entregou por vontade própria, então decidi encontrá-la!