Marcas da Solidão

Kaline Bogard

Eu venho do leste. Na vila onde cresci, Ômegas não são raros como em Konoha. Lá tem bastante, tantos, que os outros shifters dizem que somos piores do que baratas. Quando um filhote Ômega nasce, ele é tirado da família e levado para Gin-Iro, um distrito só de Ômegas, de onde a gente não pode sair. Mas eu fugi de lá. Um dos Ômegas que cuidava das crianças disse que quando cheguei no distrito, filhotinho, tinha aquelas marcas pintadas no rosto e meu nome escrito em uma manta suja de sangue. Ele também contou que eu não nasci em naquele país. Eu sei que a minha mãe não me entregou por vontade própria, então decidi encontrá-la!

— Um distrito? — para Shino, a informação parecia tão surpreendente que era até difícil de acreditar.

Konoha, no extremo oeste, sofria com a escassez de Ômegas. Isso causava um desequilíbrio perigoso no mundo shifter que trouxe consequências a delinear a sociedade. Cada Ômega nascido era recebido com festa em honra aos deuses. E a partir desse momento acompanhando de perto por monges e membros do governo, para garantir que crescessem com saúde e pudessem ajudar a manter a harmonia da vila.

Mas isso punha um peso em seus ombros e restringia seus movimentos. Não podiam fazer tudo o que as outras castas faziam, de coisas simples como ir à escola ou trabalhar, a situações mais complexas, como decidir os próprios passos. O próprio destino.

— É — Kiba soprou o chá — Para controlar a natalidade. Você sabe, Ômegas são bem férteis. A vila é pobre, não tem comida pra todo mundo. Os Ômegas só podem ficar com um bebê se for um filhotinho Ômega. Quando um Ômega recebe uma requisição temporária, ele sai e... atende um Alpha — nesse ponto ele corou sem graça, dando a certeza a Shino do verdadeiro significado por trás do "atender" — Volta pra Gin-Io e fica sob observação. Se engravidou, passa por um procedimento quando dá a luz. Se não engravidou, é liberado para novas requisições.

Shino sentiu os insetos se agitarem por baixo de sua pele, expressando incomodo em um nível nunca experimentado antes.

— Estou surpreso com tudo o que me conta. É uma cultura muito diferente da minha.

Kiba deu de ombros. Como nasceu naquela situação, não era como se não estivesse acostumado, dia-a-dia vivenciando cenas inacreditáveis.

— É horrível. Se eu pudesse, voltava lá e libertava todos os Ômegas! Mas... sozinho não consigo fazer nada. E não é como se alguma outra vila fosse interferir e ajudar.

Shino concordou com isso. Cada nação era soberana em suas leis e decisões, mesmo se fosse um pequeno país com tradições diferentes dos demais. Tentar interferir tão a fundo poderia causar uma guerra. Injusto? Completamente. Mas o mundo nunca foi um lugar de justiça.

— Sinto muito.

— Tem coisas que não tem como mudar. Não tudo de uma vez, ao menos um por um. Eu não concordava com aquela vida, por isso fugi de lá. E eu já tinha planos de procurar minha família, só esperei o tempo certo.

— Tempo certo?

— Hn. Não tem como sair do distrito, só durante as requisições. Quando um Alpha me requisitou a primeira vez, eu bati nele e fugi — deu um longo gole no chá morno.

O anfitrião não soube o que era pior: ouvir que Inuzuka Kiba foi requisitado para "atender" um Alpha ou que ele conseguiu bater em um shifter da casta mais forte!

Notando a expressão que revelava choque, Kiba tratou de explicar:

— Ah, era um Alpha velho e nojento! E ele estava caindo de bêbado. Foi fácil quebrar uns dentes dele e sair fugido. Eu vivia aprontando em Gin-Io e acabava com a orelha ardendo. Ninguém tinha muita paciência comigo, não é como se eu fosse popular ou requisitado — riu — Depois disso me disfarcei de Beta, vim pra Oeste, e consegui chegar longe! Uso aquelas marcas no rosto e meu nome de verdade, pra nunca esquecer quem eu sou. E talvez eu encontre minha família! Quantos clãs por aí se pintam assim?

Shino balançou a cabeça.

— Não conheço nenhum.

— Eu não ia ficar muito tempo, sabe? No seu feudo. Pretendia ir embora logo. Foi divertido trabalhar com aqueles Betas, então os dias passaram, os meses passaram e... aqui estou eu. Não sei porquê... é bom ficar aqui. Não to querendo aliviar a minha barra por ter mentido! Só... parece que eu me encaixei no lugar certo — terminou a última parte num tom mais baixo, Shino quase não escutou.

Podia compreender bem o sentido das palavras. Desde que colocou os olhos sobre aquele Ômega, seu lado Alpha vinha reagindo de muitos jeitos inusitados. Primeiro, pensou que fosse culpa do longo período privado daquelas criaturas. A medida que a refeição avançou, que a conversa se tornou mais detalhada, ele foi percebendo que não era por nada tão genérico quanto qualquer Ômega. Pois conviveu um pouco com o Ômega Uchiha antigamente e a relação era normal, sem grandes nuances.

Havia alguma coisa naquele garoto, em Inuzuka Kiba, que foi bem aceito por seus insetos e pela parte mais animal que coabitava sua alma: aquele lado Alpha adormecido, que pensou nunca seria provocado.

Se Kiba sentia aquele como o lugar certo, Shino entendeu seu paralelo: aquele parecia o Ômega certo.

O que era assustador, desanimador. Estava mesmo tão tocado por um moleque? Quase um adolescente ainda?! Ele, um homem experiente e vivido?

— Quantos anos você tem? — foi impossível não perguntar.

Kiba, que enfiava um mochi inteiro na boca. Por pouco não se engasgou com a pressa em engolir.

— Pelos meus cálculos tenho uns dezenove — lambeu os dedos — Só prestei atenção nisso quando criei o plano de fuga, queria crescer pra alguém me escolher logo. Se bem que demorou uma eternidade pra alguém me requisitar, eu tava contando com isso conseguir uma brecha, sabe? E eu estou vagando faz uns dois ciclos das estações... talvez eu tenha uns vinte anos!

Então ele era mais velho do que parecia! Não que isso aliviasse o incomodo que bicava Shino na nuca. Nunca teve paciência pra crianças! Não entendia como alguém tão jovem conseguiu a proeza de despertar seu interesse.

Talvez fosse a bravura explicita naqueles olhos de íris selvagem. Ou o jeito despojado e audacioso. Ou a língua sem travas... uma coisa era certa: Inuzuka Kiba era totalmente diferente dos Ômegas que conhecia.

Embora não conhecesse tantos assim.

— Quer que eu vá embora agora? — Kiba perguntou alcançando mais um mochi. Encontrou dois com recheio de morango, seu preferido! Continuou de boca cheia: — Aburame-sama?

— Pode me chamar apenas de Shino. Não, não quero que se vá — Shino respondeu distraído, ganhando um olhar surpreendido em troca. Deu-se conta de como suas palavras soaram. Enfim, não era como se tivesse dito alguma mentira.

— Mesmo eu te enganando, Shino? — corou um pouco. O primeiro nome de um homem importante saiu com mais facilidade de seus lábios do que esperava.

— Teve seus motivos. Não fez para trapacear e tirar vantagem. Não vejo razão para te expulsar — era bem o contrário. Só de pensar em dizer adeus para aquele garoto, vinha uma pontinha sombria de desespero. A tal ponto que se viu oferecendo: — Fique, aceite a proteção do meu feudo. E eu usarei todos os recursos disponíveis para encontrar sua família.

O mochi escapou das mãos de Kiba e amassou-se de encontro o tampo da mesa.

— O... quê?

— Tenho shifters treinados o bastante para enviar em uma investigação sem que isso prejudique a proteção das minhas terras — se Kiba tivesse nascido em Konoha, pelas leia atuais, não seria algo tão simples. Mas ele vinha do estrangeiro, era uma situação atípica.

— E por que faria isso? Se quiser algo em troca não posso dar! — era difícil aceitar a bondade sem desconfiar. No país em que cresceu, tudo tinha um preço.

Shino terminou o chá, que a essa altura já estava frio, antes de responder:

— Me mostre sua verdadeira essência. Meu lar não recebe um Ômega há muito tempo, atualmente uso técnicas de Feng Shui para ajudar no equilíbrio, mas a presença de um Ômega traria resultados muito melhores.

Kiba tornou-se sério.

— Só isso? Talvez eu deva continuar trabalhando nos campos.

— Não — Shino foi categórico — Um Ômega trabalhar é contra as leis de Konoha. Não posso correr riscos de ser punido, agora que sei da verdade.

O garoto desviou os olhos para a janela, ponderando sobre o que fazer.

— Posso pensar? Aprendi que não é bom tomar decisões no impulso. Não as importantes.

O pedido pareceu sensato aos olhos de Shino. Era algo que ele apreciava.

— Leve o tempo que precisar.

— Combinado — Kiba sorriu largo — Então a gente faz assim: eu penso se fico ou não. Enquanto isso, eu uso o meu chacra pra equilibrar o fluxo da sua casa! Nunca fiz isso antes, mas deve ser fácil.

Enquanto ia dizendo, enfiou a mão dentro do kimono e puxou um longo cordão que terminava em um saquinho de pano. Shino sabia que era aquilo que ele usava para camuflar sua condição de Ômega: o saquinho estava cheio de acônito, erva venenosa para Alphas e Betas que, entre outros efeitos, interferia em seus sentidos. Apesar de Ômegas serem imunes a planta.

O efeito foi imediato.

Tão logo passou o cordão pela cabeça, energia Ômega fluiu veloz pelo cômodo todo e foi além, se dispersando por toda a residência.

Aburame Shino se viu envolvido em algo sem precedentes. Um chacra afável, que trespassou cada fibra de seu ser. Algo que jamais seria capaz de descrever, ainda que vivesse mil vezes.

Foi caloroso. Foi aprazível. Foi acolhedor.

Remetia a qualquer coisa primordial, superior a própria consciência. Nublou-lhe os sentidos e cunhou-lhe a alma com uma impressão tão poderosa que o deixou inebriado.

Foi vida fluindo como água cristalina na pureza de uma nascente. E o Alpha que existia em Aburame se conveio, saciando uma sede que sequer tinha ciência existir.

Poderia ficar imerso nesse estado contemplativo por eras, não fosse um som abafado e o instinto alertando ao perigo.

Shino foi trazido a realidade e a primeira coisa que notou foi Inuzuka Kiba desacordado, caído no assoalho da sala.