Marcas da Solidão
Kaline Bogard
Kiba respirou fundo. Estava tão confortável que não queria abrir os olhos. Coisa que acabou fazendo, eventualmente. Seu corpo parecia ter pisoteado por uma manada de elefantes em fuga. Tudo doía.
— Como se sente? — a pergunta direta atraiu seus olhos para a cabeceira do futon. Viu Aburame Shino sentado em uma almofada, o observando de volta.
— Péssimo — resmungou antes de bocejar — O que aconteceu?
— Essa casa esteve em desequilíbrio por muito tempo, o Feng Shui foi um paliativo que nos enganou. Quando seu chacra entrou em contato com o fluxo causado por todos os shifters que estavam aqui, foi absorvido de uma vez e seu corpo entrou em colapso.
— Caralho!
— A médica disse que pode ter sido uma combinação de fatores. O Wolfsbane camufla a essência Ômega mantendo-a presa ao seu corpo e vai acumulando o chacra. Você usou isso por muito tempo, não? Sem tirar o cordão de tempos em tempos para fluir a energia?
— Hn — acenou a cabeça de leve, sem animo pra mais nada — Médica? Quantas horas eu dormi?
— Dois dias.
— Dias...? — Kiba ajeitou-se melhor sobre o futon, fraco demais para movimentar-se. Começava a ficar sonolento de novo — Agora o rombo faz... sentido.
— Rombo? — Shino não entendeu.
— É. To varado de fome.
E não deu nem oportunidade para Shino oferecer alguma refeição. Dormiu de novo, ainda se sentindo exausto.
Shino suspirou. A culpa o perseguia, por ter pedido algo sem medir as consequências. Não era comum que tivesse um comportamento tão leviano. Apenas a forte vontade em fazer aquele Ômega ficar em sua casa podia ser usada como justificativa.
O primeiro contato com a essência dele foi intensa e marcante. Agora que a equação encontrou a terceira incógnita, Shino podia ver a grande diferença. Cada shifter que teve contato com o chacra parecia renovado, cheio de energia e animo. O Feng Shiu trazia falsa parcimônia, era como comer pouco apenas para não perecer de fome. A energia Ômega, ao contrário, ofertou um banquete que beneficiou a todos.
A natureza era tão sábia. Entendia agora a perfeição da coexistência entre Alphas, Betas e Ômegas. E compreendia, por fim, porque Konoha valorizava tanto aquelas criaturas que se tornavam mais raras a cada ano. De nada adiantava a força dos Alphas e o números dos Betas, se a balança não fosse estabilizada com a presença dos Ômegas.
Tentou viver sem eles e todo o seu feudo pagou o preço. Que péssimo Alpha era, amargando a perdas no passado e obrigando todos que viviam sob sua proteção a arcar com as consequências.
Ao menos não era tarde demais para mudar isso.
Apenas na manhã seguinte Inuzuka Kiba acordou completamente consciente, se bem que um tanto dolorido. Sem a sensação estranha de cansaço, observou melhor onde estava. O quarto grande, cercado por belos shojis decorados com flores.
Sentou-se no futon, sem saber o que fazer. O lençol que o cobria escorregou, revelando que suas roupas foram trocadas por um kimono leve de verão. Não levava o cordão no pescoço, mas isso não foi inesperado.
Deveria levantar da cama e ir atrás de Aburame Shino ou apenas esperar? A resposta veio em forma de uma mulher Beta, de longos cabelos loiros presos em um rabo de cavalo, cuja franja loira recobria um dos olhos verdes.
— Yo! — cumprimentou entrando no quarto — Aburame-sama acabou de sair daqui. Logo ele volta.
Por mais que Shino quisesse ficar naquele quarto, ainda tinha deveres a cumprir.
— Yo.
— Meu nome é Yamanaka Ino! Sou a responsável pela segurança do feudo e pelo treinamento dos guardas. Prazer.
— Inuzuka Kiba, prazer — sorriu pra ela. O jeito despojado conquistando-o logo de início.
Ino sorriu de volta. Estava desesperada para conhecer quem era o misterioso Omega que se infiltrou no feudo, enganou a todos e conseguiu a atenção de Shino. Não era algo que se via todos os dias! O acontecimento se tornou assunto preferido no feudo, a fofoca mais quente.
Ela sempre dizia a Shino que ele relaxava demais com os shifters que vinham ali. E se fosse um assassino treinado? Alguém com más intenções? Tentou falar com isso com o amigo de infância e senhor, mas não conseguiu reclamar por muito tempo. O descuido acabou trazendo algo bom, esse foi o argumento de Shino, ao qual Ino não pode rebater. E depois, ele deu uma polida em seu ego, garantindo que a guarda que ela treinava era habilidosa o bastante para lidar com invasores desagradáveis.
Nesse momento a barriga do Ômega roncou. Surpreendendo a ambos.
— T-to varado de fome — Kiba se explicou, sorrindo.
— Prefere comer aqui ou na sala das cerejeiras?
— Na sala das cerejeiras! — Kiba respondeu radiante. Estava cansado de ficar deitado, sentia falta de exercício.
A Beta aproximou-se do futon, disposta a ajudar o garoto a se levantar. Ficou feliz que ele parecia bem. Apesar daquele gasto inicial de chacra, já estava recuperado, com um bom aspecto.
A natureza era espetacular.
Assim que se acomodaram na sala das cerejeiras, Aburame Shino veio juntar-se a ele. O homem hesitou um pouco a porta, sempre que estava perto demais de Kiba, seu lado Alpha reagia com aprovação. Ainda não se acostumou com a situação!
Por fim foi sentar a ponta da mesa.
— Como se sente?
— Bem melhor! Ontem eu estava um bagaço. Foi ontem, né? — soou duvidoso, esperando confirmação — Mas hoje me sinto recuperado.
— Ótimo.
Algumas servas entraram a sala e foram colocar as louças cheias de comida para que o café da manhã tivesse inicio. Era quase cômico como tentavam disfarçar o interesse no Ômega, sem conseguir. Alguns risinhos empolgados escaparam, deixando a sala em um silencio engraçado quando saíram de vez.
Naquela vez Kiba nem se fez de rogado. Aprendia rápido, principalmente se o assunto era comida.
Não esperou convite para se servir do mingau de arroz encorpado e do ensopado de carne com legumes. Shino imitou o gesto, satisfeito com a desenvoltura despreocupada. Já Ino dispensou a refeição. Estranhou; não a atitude de Kiba, mas o gesto de Shino em resolver comer. Ora, ora, foi o que ela pensou. Aquele pequeno Ômega já era uma excelente influência. Sentiu uma pontinha de carinho por ele.
— Aburame-sama — Ino começou a dizer, mas recebeu um olhar de estranheza por parte do Alpha, que a fez rir — Desculpa! Eu uso esse título em ocasiões formais. Vai que... tá querendo impressionar o moleque?
Shino limpou a garganta, um tanto sem jeito. Kiba estava envolvido demais em mastigar os grandes pedaços de carne cozida para se preocupar com o que ouviu. Prioridades.
O gosto do ensopado era ótimo. Aqueles dias desacordado cobraram um preço, esgotaram suas forças.
— Agora eu to bem — ele disse mais pra si mesmo do que para os outros dois shifters — Eu sinto a energia fluir, é esquisito. Mas me sinto bem. Também consegui sentir você, Aburame-sama.
— Pode me chamar de Shino.
— Shino guarda essas oficialidades para ocasiões formais ou para pessoas que se sintam livre para usa-las. Por exemplo: os servos deste feudo cresceram aprendendo que deveriam usar "Aburame-sama" para se dirigir ao Shino. É uma prática tão enraizada neles, que nenhum conseguiria agir diferente — ela comentou.
Já Yamanaka Ino, todavia, cresceu brincando com Shino, o via como senhor do feudo? Com certeza. Mas também o via como seu grande amigo. Sentia-se a vontade para tratá-lo mais intimamente.
— Você pôde me sentir? — Shino voltou ao que Kiba tinha revelado, de modo tão despreocupado. Sentir outros shifters era uma premissa Alpha, que o ajudava a chefiar o feudo e controlar melhor quem vivia sob sua proteção.
Betas não tinham tal capacidade. Nem Ômegas. A não ser...
Shino e Ino se entreolharam, permanecendo em silêncio.
— Tipo agora — Kiba fisgou um pedaço de cenoura com o hashi e abocanhou — Você está meio feliz. Engraçado. Antes eu não sentia isso. Eu nunca senti isso.
— Tem a ver com vínculos — Ino explicou com uma careta. Aquele Ômega podia ter cativado Shino, mas seus modos a mesa eram questionáveis. Então mudou de assunto, vínculo era algo que Alpha e Ômega deveriam discutir em particular — É interessante, porém prefiro comentar sobre os avanços na investigação.
— Tem alguma novidade? — Shino questionou.
— Manter distritos para Ômegas é uma prática comum de Mizuno Kunin. Mas esse país é caracterizado pela geografia insular, não parece ser o caso da terra natal desse moleque. Então descobrimos um país pequeno que faz fronteira com o País da Água, não reconhecido por Godaikoku, mas com certa autonomia. Minha teoria é que a proximidade os fez agregar hábitos, como a questão dos distritos.
— Eles se referiam a vila como Soragakure — Kiba revelou, surpreso com as rápidas deduções da Beta. Só tinha passado três dias desde que contou seu passado para Aburame Shino! Não disse o nome do lugar em que cresceu por pura falta de tempo.
— Isso ajuda bastante! Pensei que não soubesse essa informação — Ino sorriu. Na experiência de espionagem já encontrou de tudo. Não era raro se deparar com vilas em que Ômegas muito maltratados sequer sabiam sua história, sua identidade — Descobrindo onde nasceu, estaremos muito perto de encontrar sua família!
