Marcas da Solidão
Kaline Bogard
— Isso ajuda bastante! Pensei que não soubesse essa informação — Ino sorriu. Na experiência de espionagem já encontrou de tudo. Não era raro se deparar com vilas em que Ômegas muito maltratados sequer sabiam sua história, sua identidade — Descobrindo onde nasceu, estaremos muito perto de encontrar sua família!
Kiba distraiu-se um pouco da comida, lançando um olhar meio perdido para Shino e então para Ino.
— Você fala como se fosse fácil!
A mulher riu.
— Fácil não é. Mas com os recursos adequados se torna possível — Ino esclareceu, por fim pegando uma tchawan com arroz para si. Era difícil não se contagiar com o prazer que o Ômega demonstrava em fazer a refeição — Vou enviar dois ninjas para Soragakure, para se infiltrar e conseguir informações. Inuzuka Kiba e marcas vermelhas no rosto são pistas complementares que podem encurtar o caminho.
— Obrigado — o garoto lançou para Shino.
A satisfação pela gratidão fez os insetos se agitarem. Shino estava impressionado com todas as reações diversas que vinha tendo desde que conheceu aquele pequeno aventureiro. E o pior: gostava de cada uma delas. Esperava para descobrir qual seria a próxima.
— Não agradeça — depositou a tchawan vazia sobre a mesa — Não faço isso por mera bondade. Espero que cumpra sua parte do acordo e pense com seriedade em ficar aqui no meu feudo.
— Caralho! Você me oferece ajuda pra encontrar minha família e comida gostosa! Nem preciso pensar muito. Eu fico aqui sim, até a investigação descobrir algo. Mas... eu não quero ficar só comendo o dia inteiro, sem fazer nada.
Comer era bom, claro. Todavia Kiba não queria se sentir inútil ou um aproveitador. Vinha sobrevivendo e seguindo em frente com o próprio esforço. Parou naquele feudo para uma pausa, que se esticou um pouco mais, o que não significava que aceitaria se tornar um parasita.
— Shino costumava ser bom em combate ninja — Ino levou a mão ao queixo, pensativa — Ele podia te dar umas aulas sobre autodefesa. E umas aulas de etiqueta também, comer de boca fechada é a lição primordial!
Por desaforo, Kiba pescou o ultimo pedaço de carne e levou a boca para mastigar, fazendo questão nenhuma de ser educado. Recebeu uma careta de Ino, que resolveu levantar-se da mesa.
— É demais pra mim — exagerou no drama. Então voltou-se para Shino — E sobre a solicitação que recebeu hoje de manhã? Quer que eu te represente também?
Normalmente Yamanaka Ino ia às reuniões formais, representando Shino. O Alpha raramente saia de seu feudo, uma vez por ano ou menos. Cabia a Ino, como líder de sua segurança e braço direito, participar de reuniões com o Conselho de Konoha. Eventualmente, com o Conselho dos Cinco Países.
Mas ali, a questão era atípica.
Ino estava provocando o amigo. Shino recebeu um pedido do Hokage para que fosse apresentar o Ômega oficialmente. Ele não pediria que um representante acompanhasse um garoto ao qual sentia interesse!
— Não — Shino disse um tanto seco, sabendo-se pego pela brincadeira de Ino — Eu cuido disso.
— Quer que eu faça algo?
— Providencie roupas para ele. E tudo o que Kiba precisar para o dia-a-dia. Vou deixa-lo no quarto das acácias — limpou a garganta diante do sorrisinho torto que recebeu — Por hora é só isso.
— Claro, A-bu-ra-me-sa-ma. Vou cuidar de tudo e arrumar o quarto das acácias que, coincidentemente, é ao lado do quarto dos nadeshikos — nome do aposento de Shino.
O Alpha suspirou. Apesar das brincadeiras, podia sentir que a amiga de infância estava feliz. Traços de empolgação fluíam pelo vinculo, indisfarçáveis. Ninguém ali estava satisfeito em ver o Alpha abandonando tudo por uma vida de reclusão. Se conformavam, por falta de opção. Mas percebe-lo tão interessado em alguém era de renovar as esperanças!
Assim que Ino saiu da sala, as servas entraram novamente, cumprindo o papel de tirar o café da manhã e servir chá verde com doces de acompanhamento.
Cada vez que disfarçavam a curiosidade por Kiba ele, inconscientemente, estufava o peito, gostando de ser o alvo de tanto interesse. Passou muito tempo tentando passar escondido, temendo que o descobrissem... vivenciar o contrário, sem medo de represálias ou receio de pagar algum preço, era ótimo!
Finalmente a sós, Kiba voltou os olhos para Shino. Havia um bocado de coisas que queria perguntar, não apenas sobre o futuro. Sobre o passado também. Vivendo ali nos seis meses, ouviu conversas, rumores. Sabia que aquele Alpha não se tornou recluso sem um motivo muito forte.
Ninguém dava detalhes. E Kiba não podia cavar demais, estava escondido. Qualquer coisa que chamasse a atenção, podia acabar com seu disfarce. O que acabou acontecendo, de um jeito ou de outro.
Apesar de toda a hospitalidade, poderia perguntar? Não, concluiu fácil. Ele próprio só contou partes de sua história às quais já superou. Era jovem, mas passou por situações e sufocos que não queria nem pensar. Que ainda machucavam. Por isso não se sentiu no direito de perguntar nada a Shino, ainda.
Um fato era inegável: aquele era um dos primeiros Alphas que não o intimidava. Que não o fazia se sentir desprezado ou alguém insignificante apenas por nascer shifter da casta Ômega. E Kiba teve contato com Alphas o bastante em Gin-Io para saber do que falava.
Desde que se encontraram naquele campo de arroz, quando precisou decidir entre fugir ou enfrentar o destino, o instinto não alertava para nenhum perigo, para nenhuma necessidade de lutar pela vida ou pela dignidade. Convivendo com os camponeses ou conversando com Aburame Shino, experimentou pela primeira vez a sensação de igualdade.
E algo mais.
Algo quase animal, proporcionado pelo Ômega que carregava na alma, que relutava em simplesmente dar as costas, agarrando-se a promessa de ajuda para encontrar a família como uma boa ancora que o manteria naquele feudo. Por pouco tempo, talvez. Mas um tempo ao qual já valorizava.
— Está tudo bem? — Shino indagou. Recolheu uma gama impressionante de sentimentos fluindo até ele, terminando com uma espécie de aceitação tocante.
— Sim! Eu só tava pensando em como é bom ficar aqui. Vir pra Konoha foi a melhor decisão que eu tomei. Eu já tinha ouvido falar que tratam Ômegas melhor por aqui, só não fazia ideia de que seria quase como outro mundo.
Shino anuiu pelo que ouviu, atingido no peito pela sinceridade das palavras. Não conseguiu responder de igual para igual, pois não era de sua personalidade agir assim. Era mais reservado, sobretudo sobre os próprios sentimentos.
— O Hokage quer conhecer você — desviou completamente o assunto, explicando, assim, porque não estava no quarto quando Kiba acordou — Aceitei um convite para jantar depois de amanhã.
Kiba quase engasgou com o biscoito de gengibre. Precisou tomar um gole de chá para se aliviar.
— O Hokage?! — sabia que aquele titulo era dado a maior autoridade da vila.
— Hn.
— Isso é bom?! — sentiu o coração disparar de apreensão.
— Pode-se dizer que sim — Shino suspirou. Dependendo do ponto de vista era bom. No seu caso, já imaginou que passaria uma saia justa. Por uma boa causa, mas...
Estaria preparado? E que opção tinha? Não podia manter um Ômega escondido das autoridades. Boatos se espalham rápido, provavelmente toda a vila deveria estar sabendo sobre Inuzuka Kiba e seu envolvimento com Aburame Shino.
— Por isso pediu que Yamanaka-san me comprasse roupas?
— Pode chama-la de Ino — Shino terminou o chá e colocou o kobati vazio sobre a mesa — Em partes sim. Quero que tenha uma boa estadia em meu feudo, e não me importo em comprar o que precisa para se manter. É meu dever, como Alpha e senhor.
Kiba inclinou a cabeça de leve para o lado, esquecendo momentaneamente o chá em suas mãos.
— Faria isso por qualquer um, não é? — quis tirar a dúvida, por alguma razão incapaz de explicar.
— Não — Shino respondeu sem hesitar. Ajudaria shifters necessitados? Sim, a qualquer instante. Mas não com tal disposição e nível de comprometimento e interesse — Recomendo que descanse um pouco. Posso sentir que está ficando cansado. A médica foi clara ao dizer que precisa descansar bastante, enquanto seu corpo se adapta aos níveis de energia dessa casa. Depois podemos conversar um pouco mais.
Kiba concordou com um aceno de cabeça, fingindo não sentir o rosto quente por corar sem jeito. Sentiu alguma coisa fluindo pelo vinculo, algo que já viu refletido nos olhos de muitos Alphas e do qual fugiu todas as vezes.
Mas, naquele momento, não quis fugir.
Posse.
Aburame Shino sentiu um tiquinho de posse em relação a si, um desejo profundo de que estivesse sempre ali. Desejo que, se fosse bem sincero consigo, Kiba poderia identificar como algo semelhante ao que começava a nascer em seu coração.
