Marcas da Solidão
Kaline Bogard
O descanso foi restaurador. Mas roubou de Kiba a vontade de dormir a noite. Acordou de madrugada, rolando de um lado para o outro no futon. Por fim, acabou se levantando e indo para a grande janela do aposento, abrindo-a para admirar a noite quente de primavera.
Estava no tal quarto das acácias, que tinha esse nome pelas lindas flores pintadas no shoji. Era um aposento amplo, arejado e elegante. Muito maior do que o quarto que tinha em Gin-Io e que dividia com mais catorze Ômegas.
A vida no distrito era menos do que miserável. Kiba não gostava de lembrar daqueles anos, ainda recentes, que traziam sentimentos contraditórios. Ter que crescer lá o fez mais forte e mais destemido do que a média da casta, mas isso não superava o lado ruim.
Seu jeito selvagem e bravio, somado à língua sem travas e personalidade intensa, garantiam brigas com constância quase diária. A comida era pouca e as bocas eram muitas. Os Ômegas mais velhos tentavam sobreviver tomando a parte dos mais novos, e Kiba não admitia que lhe roubassem seu alimento! Não poucas vezes acabava com um olho roxo ou a mão pisada, como castigo.
Fez dois bons amigos no distrito. Um deles mais velho, que começou a receber requisições bem antes do que Kiba. E um mais novo, que ainda não havia recebido nenhuma quando Kiba conseguiu fugir. Por incontáveis vezes, ele tentou convencê-los a escapar juntos, tentar a vida em outra vila. Tudo em vão. Os dois estavam conformados e satisfeitos com o destino, aceitavam a degradação imposta, com medo de sair de Gin-Io e descobrir que o mundo fora do distrito era ainda pior!
Kiba não entendia os argumentos que diziam.
Pior ou não, só de ser diferente já considerava uma conquista! A perspectiva de ficar ali até o fim da vida era lamentável. Poucos Ômegas alcançavam idade avançada e os que conseguiam, vagavam sem rumo pelo distrito, largados pela rua. Morrendo lentamente à mingua. Os requisitados em definitivo tinham mais sorte, mas não era um destino compartilhado por todos.
Não.
Inuzuka Kiba não teria esse destino! Preferia morrer tentando mudar do que se conformar com tal fado!
Sairia dali e encontraria sua família! Inuzuka, conforme bordado na manta que nunca viu, só soube através do Ômega que cuidou de si quando era criança, que teve a felicidade de ser requisitado permanentemente e nunca mais voltou para Gin-Io.
Kiba sabia seu próprio nome, tinha uma pista de sua identidade. Então se agarrou a isso para ter esperanças no futuro e não deixou a chance escapar, quando ela surgiu em seu caminho.
Isso o levou ao momento de agora.
Em sua mente, teria que vencer cada dia sozinho, sem apoio, sem ter ninguém em quem confiar. E Aburame Shino destruiu essa convicção com apenas uma ordem. Uma orientação para se apresentar no feudo do jeito correto. A ordem se desdobrou em uma oferta de ajuda e um pedido em retribuição.
Antes, Kiba teria fugido. Porque o contato era sempre com um Alpha que despertava seu instinto de proteção, que o deixava em alerta, pronto para lutar ou fugir.
Lutar ou fugir.
As duas únicas reações que aprendeu durante a infância.
Até que Aburame Shino entrou em sua vida. E lhe mostrou a possibilidade de novas opções. Kiba não queria lutar contra o Alpha, nem fugir dele. Pelo menos não depois que o conheceu um pouquinho melhor.
E o que ele queria?
Ficar ali? Talvez... descobrir mais sobre o shifter misterioso e recluso? Talvez...
Sentiu o rosto esquentar. Nunca, nunquinha mesmo, sentiu coisas como a que sentia quando estava perto de Shino. Não sabia lidar com aquelas cócegas engraçadas na barriga, nem com a facilidade que corava ou como baixou rápido as defesas na presença dele.
Então os pensamentos reflexivos foram cortados. Ele sentiu, pela primeira vez na vida, a presença de... Betas. Sim, Betas! Um, dois, dez... muitos! Sentiu como se estivesse ao lado de alguns dos camponeses com os quais trabalhou naqueles seis meses.
Curioso, prestou atenção na paisagem lá fora. Do quarto das acácias, não podia ver a maravilhosa entrada dos fundos, mas conseguia uma boa visão do jardim oriental que modelava a residência.
Não enxergou nada na noite quente e silenciosa, iluminada de modo místico pela linda lua cheia.
Mas sabia, com toda certeza do mundo, que vários Betas estavam no limiar da distância que conseguia captar, sem se atrever a chegar mais perto.
Aquilo o deixou intrigado. Não conseguiu dormir nem quando a madrugada avançou e as presenças enfraqueceram até desaparecer.
O que estava acontecendo ali?
No outro dia, assim que captou movimento na casa, Kiba saiu do quarto e foi investigar. Sem medo ou hesitação. Pois se fosse se deter por isso, não teria chegado tão longe!
Deixou-se guiar pelo olfato, por motivos óbvios, e quando deu por si estava entrando na cozinha, onde as servas, num total de seis, dominavam indo de um lado para o outro, preparando o desjejum. O sol nem nascera por completo ainda, mas a animação delas era de surpreender.
— Bom dia... — ele disse parado na porta, querendo um pouco de interação. Sociabilidade era uma de suas características mais fortes, nem a vida sofrida em Gin-Io evitou que crescesse assim.
— Bom dia! — apesar de todos os olhos se voltarem para ele, foi a serva mais velha quem respondeu — Deseja alguma coisa?
— Não. Eu acordei e aproveitei pra conhecer um pouco da casa — tentou não olhar para as travessas com frutas na mesa de centro da grande cozinha — Vim parar aqui e resolvi me apresentar.
As outras servas deram risadinhas. A maioria delas nunca tinha visto um Ômega tão de perto na vida! Muito menos sentido a energia de um deles com intensidade, aquela coisa boa, calorosa e generosa que envolvia o lado animal que existia nelas, algo que... fortalecia, um estado tal que era impossível descrever!
A mulher notou o olhar mal disfarçado de interesse. Desde que aquele garoto chegou, ela deu-se conta de que não havia frescuras na hora de encher a barriga! A velha mulher sorriu, foi até a mesa e puxou uma cadeira.
— Sente-se aqui, meu jovem. Meu nome é Chiyo. É um prazer conhecê-lo.
— Meu nome é Kiba. Inuzuka Kiba!
Ela sorriu antes de oferecer:
— Quer sentar-se e experimentar um petisco antes do desjejum?
A resposta de Kiba foi acomodar-se o mais depressa que pode, no rosto um sorrisão que punha em evidência as presas afiadas. Chiyo assentiu, satisfeita. Conhecia outro Ômega na vila de Konoha, mas um shifter que não tinha nada daquela simpatia juvenil.
Uma das outras servas, que não ficou parada enquanto Chiyo interagia, arriscou-se a chegar perto de Kiba, estendendo-lhe uma pequena vasilha cheia de morangos suculentos cobertos com leite batido em creme.
— Obrigado! — aceitou a oferta. Morangos eram sua fruta preferida. Que só foi poder apreciar devidamente depois de fugir de Gin-Io.
— Nós é que agradecemos — Chiyo fez um gesto de mão, que colocou as outras servas de volta no trabalho. As moças se dispersaram, pegaram panelas e mantimentos, ainda que as orelhas permanecessem atentas à conversa — As coisas mudaram bastante desde que chegou. Só posso agradecer pela oportunidade de aproveitar o que é estar perto de um Ômega.
— Meu prometido também sentiu — uma das servas não resistiu. Atreveu-se a entrar na conversa.
— Meu irmão também! — outra serva sorriu, colhendo imperfeições nos grãos de arroz em uma peneira de palha trançada — Ele veio com os companheiros até o limite da propriedade. Pra sentir a sua presença! Todos os camponeses já sabem que tem um Ômega aqui e se revezaram para poder experimentar mais de perto.
Essa terceira serva deu a impressão de ser uma tagarela.
Mas não foi a esse detalhe que Kiba se apegou. Ouvir isso fez a madrugada ganhar outro sentido. Aquelas presenças próximas à casa, então, eram os camponeses vindo fazer parte do novo fluxo de chacra, acordados na hora avançada, apesar do cansaço do plantio, apenas para captar um tiquinho da presença de Kiba, naquela distância que os separava.
Sem o cordão, Betas podiam senti-lo também. Ainda que de um jeito diferente de como acontecia com os Alphas.
Era bem-vindo por ali, verdadeiramente. Não apenas pelo senhor feudal, mas por todos os moradores do feudo! E não era uma apreciação de nível sexual ou devassa. Aqueles shifters estavam felizes apenas por estar ali e nada mais.
Kiba era forte. Era duro na queda.
Ele passou por maus bocados e sofreu o inimaginável, desde que podia se lembrar.
Mas aquela sensação de ser querido, apenas por ser ele próprio, era algo novo. E emocionante. Não se deu conta da primeira lágrima, nem da segunda. Quando percebeu estava chorando, e as servas não sabiam o que fazer!
