Marcas da Solidão

Kaline Bogard

Shino acordou de madrugada. Um segundo antes que o Ômega no quarto ao lado despertasse também.

Então acompanhou um desfile de emoções conturbadas, de nostalgia e tristeza a alívio e esperança. Captava cada uma delas, tentando imaginar que tipo de pensamento causou tal sentimento no garoto.

Arriscava palpites: talvez Kiba avaliasse tudo o que aconteceu e tudo o que aconteceria. E isso mexeu com ele. Pois uma coisa ficou clara, aquele Ômega não era de rodeios ou ações calculadas. Ele... fluía.

Sim, fluía tal qual a energia Chacra que equilibrou a residência.

Por estar alerta, Shino captou a chegada dos camponeses. Assim como notou que Kiba também sentiu. Aqueles shifters Beta, humildes, quase broncos, estavam fascinados em ter um Ômega no feudo em que moravam. Fato incomum em Konoha e em todo o País do Fogo. Pelo que sabiam, Ômegas estavam em extinção em todo o continente.

E agora uma dessas criaturas morava ali!

Só conseguiam acreditar chegando perto da casa (o máximo que a audácia permitia, não queriam ofender Aburama-sama, não, jamais!) e sentindo de pertinho a presença renovadora!

E isso era algo com o que Shino não sabia lidar. Precisava aceitar: sua paz e tranquilidade acabaram no momento em que os insetos que comandava deram sinal de interesse.

Adeus paz.

Adeus tranquilidade.

Adeus solidão.

Com tal estado de espírito, Shino viu a madrugada sucumbir em seu ponto mais escuro, antes que o sol pudesse surgir no horizonte. Captou quando Kiba saltou da cama e saiu explorando a casa. Não se importou, pelo contrário.

Tê-lo tão à vontade pela residência lhe era afável.

No momento em que Kiba chegou a cozinha, o servo pessoal bateu a porta e entrou, para ajudar Shino a se vestir. Trocou o traje noturno por suas roupas costumeiras, o casaco cinza que cobriu seu corpo por completo. Era o servo quem lhe fazia a barba, manejando a lâmina da navalha com perícia invejável.

Em dado momento sentiu a tristeza do Ômega, intuindo as lágrimas que ele não pode conter. Sem hesitar, fez fluir consolo pelo vínculo que nascia entre eles, cada vez mais forte. Não relutou, conformado em ceder à sua parte animal.

Vínculos assim só nasciam quando um Alpha reconhecia um Ômega como seu companheiro.

E se Kiba o sentia de volta, significava apenas uma coisa: o garoto talvez nem tivesse consciência ainda, mas o Ômega que existia nele também viu em Shino um pretenso companheiro.

Os dois se encontraram na sala das cerejeiras para fazer o café da manhã. Kiba estava meio empanturrado de morangos com creme, biscoitos de gengibre e ameixas em conserva, que as servas usaram para ajudar a parar o choro. Então acabou não comendo muito da primeira refeição.

Os olhos estavam um tanto vermelhos e o nariz inchado, imagem que derretia o coração do Alpha. E o fazia se sentir perdido, meio idiota e sem reação. Tinha o quê? Quase o dobro da idade daquele Ômega, acreditou que nunca encontraria um shifter que reconhecesse como companheiro. Já viveu o bastante para não alimentar fantasias românticas e pueris.

E, apesar disso, ali estava aquele garoto, balançando tudo o que tinha como certo, provocando sua parte Alpha e tirando-o do recanto calmo e pacífico no qual se isolou.

Estava perdido.

— Não sente fome? — a voz curiosa de Kiba o tirou de seus pensamentos.

— Hum?

— Não está comendo! — para ele parecia inconcebível que alguém não comesse as coisas deliciosas que estavam à mesa. Exceto, claro, se tivesse comido antes — Eu fui meio guloso e comi umas frutas. Se pudesse eu socava esse arroz e aquele salmão ali. Mas não vai caber. Culpa dos morangos, sabe? Estavam ótimos.

Shino quase sorriu. Vinha sentindo o aroma de morangos desde que Kiba entrou na sala. Aquele cheiro acabaria como sendo marca registrada dele, que não resistia ao sabor da fruta preferida.

— Sinto fome sim — acabou cedendo e voltando a se alimentar.

— Não pode desperdiçar comida — Kiba falou com seriedade.

— Entendi. Não vou desperdiçar — Shino soou condescendente.

— Acho que eu assustei as neesan da cozinha — falou pensativo — Me deu uma vontade de chorar... mas você sentiu isso, não sentiu? — perguntou desviando os olhos.

— Senti.

— Caralho. Nem eu sou tão besta assim — comentou com o rosto corando; visão que Shino descobriria, seria uma das suas favoritas — Não sei o que fazer com esse vínculo. Nunca passou pela minha cabeça que ia acontecer tão rápido!

Shino ajeitou-se sobre a almofada vermelha, arrumando os óculos no rosto. Era ótimo que o Ômega pudesse falar sobre aquilo com tanta facilidade.

— Foi inesperado, admito.

— Então eu reconheci você como líder. Eu nunca tinha reconhecido um Alpha como líder. Precisamos conversar sobre isso, porque eu vou ficar aqui equilibrando a casa, mas eu odeio que mandem em mim — Shino quase caiu pra trás. Líder? Líder? O reconhecimento era muito mais profundo e íntimo do que isso.

Mas foi salvo de aprofundar o assunto. Yamanaka Ino entrou na sala, pedindo licença, com sua presença despojada e um tanto incondizente com a situação, a qual só era possível graças a amizade de longa data com Aburame Shino.

Trazia vários trajes nos braços.

— Aqui estão! Kimonos para o dia-a-dia. Um kimono formal, para jantares com o Hokage e roupas para treinos de autodefesa. Coloquei uma geta no seu quarto, não pode andar por aí descalço. Aqui, põe esse surippa — estendeu o calçado para o Ômega, tão logo se aproximou da mesa — Precisa provar as roupas. O alfaiate estava louco para vir fazer os ajustes. Acredita que Konoha inteira está sabendo que um Ômega caiu dos céus no colo do Alpha Aburame? É a fofoca da vez — riu.

Kiba sorriu, sem poder se conter. Não era ruim estar no centro das atenções. Não ali, sem precisar se esconder ou mentir sobre sua identidade. Isso poderia prejudicá-lo caso um dia fosse embora do feudo. Mas pensar não era seu forte. Se surgissem obstáculos, os enfrentaria no momento certo. Por hora, aproveitaria a sensação desconhecida para si: de ter pessoas se importando e cuidando dele, sem esperar favores caros demais em troca. Só energizar a casa e aceitar a admiração dos Betas era algo que poderia lidar bem.

— Aqui — Ino estendeu um pequeno frasco arredondado — É pintura, pra voltar a desenhar as marcas do seu Clã. Shino fez questão que eu trouxesse isso. Manter a identidade é importante. Passei pelo alojamento que dividia nos campos de arroz e não encontrei nada que pudesse trazer.

— Ah, eu estava sem! Ia pedir para Danzo-san, mas nem tive tempo. Fiquei uns dois dias sem lavar o rosto direito pra não desmanchar — sorriu, feliz — Já tive que ficar com a cara meio lavada por uma semana pra economizar a pintura. Isso não é barato não. Obrigado! — agradeceu os dois, pelo cuidado.

Em Gin-Io, fazia as marcas com fuligem, mas as cinzas não ficavam por muito tempo. Nunca teria condições de comprar o produto certo, então fazia suas gambiarras.

Ino aproveitou que estava perto e beliscou-lhe a bochecha de leve.

— To começando a entender. Esse estilinho "não preciso que me salvem, eu me viro meu jeito" até que é fofo — riu.

— Quê?

— Planos de hoje? — ignorou a confusão expressa na face do Ômega e perguntou para Shino.

— Podem experimentar as roupas e ajustar o que for necessário — então virou-se para Kiba — Caso esteja se sentindo bem, daremos uma volta pela propriedade antes do almoço. E começar as aulas de auto-defesa a tarde.

— Ótimo! — Kiba concordou mais do que depressa. Temeu que o Alpha fosse sugerir mais descanso. Não ia aguentar dormir outro dia inteiro e morcegar de madrugada. Sentia-se mais do que recuperado, obrigado.

Ino sorriu. Adorou que, nas entrelinhas, Shino deixou o garoto aos seus cuidados naquele primeiro momento. Poderia conversar melhor com ele, explorar mais o passado e pegar novas informações que ajudassem a investigar sobre a família dele.

Já tinha dois excelentes espiões a caminho de Soragakure.

A prioridade agora era focar naquele pequeno e irrequieto cara de pau. Estava ansiosa para se aproximar do Ômega que conseguiu driblar o destino que Shino escolheu, protegendo-se atrás da solidão, incapaz de superar a dor pela perda da esposa e da bebê recém-nascida. Algo que aconteceu no passado, mas que ainda aprisionava Aburame Shino e seu feudo.

Ômega que agora vinha romper uma decisão enraizada, presença jovial e marcante que afetaria não apenas o rumo escolhido pelo senhor da propriedade, mas por todos que estavam sob a proteção dele.