Marcas da Solidão
Kaline Bogard
A casa era grande, imponente. Porém muito menor e impressionante do que a do feudo Aburame. Por outro lado, Kiba observou traços de modernidade que não encontrava na casa de campo. Era bonita, admitia.
Logo que saltaram à entrada, dois servos se aproximaram. Um deles convidou o cocheiro para segui-lo e ir acomodar os cavalos. O outro reverenciou de leve para Shino e Kiba, e fez um gesto para que viessem com ele.
— Sejam bem-vindos, senhores. Por favor, vou levá-los até Uzumaki-sama e Uchiha-sama.
No hall, uma serva ofereceu um par de surippas novos para os convidados. Kiba sequer disfarçou o interesse em analisar os móveis, a decoração... tudo muito inusitado e um tanto fora dos padrões de Konoha. Desconfiou que vinham de outro país, talvez importados de oversea.
— Por aqui, senhores — a serva indicou o caminho até uma sala aconchegante, não muito grande, fartamente iluminada graças a uma lareira. Um jutsu específico impedia que o fogo esquentasse a sala.
A presença de dois shifters logo foi notada por Kiba. O primeiro deles, que estava mais a frente, era um Alpha de cabelos loiros e curtos, e curiosas marcas na face parecidas com bigodes de raposa, quase tão alto quanto Shino. Usava um kimono cinza claro simples. Sorriu amplo ao avançar pelo local e ir cumprimentar o outro Alpha com um abraço apertado.
— Aburame-sama! — a felicidade na voz era inegável, assim como o tom de brincadeira.
— Naruto — Shino não apreciava aquele nível de contato físico, mas aceitou o abraço. O jeito Uzumaki de dizer que a distância naqueles quase dez anos afastados não influenciou a amizade deles. Aceitou o abraço, mas não retribuiu a brincadeira. Aí já era demais!
— Você escolheu o isolamento e nós respeitamos isso, mas nunca esqueci o que fez por Hinata — Naruto sussurrou para o amigo. Kiba só conseguiu ouvir porque estava prestando muita atenção (sem querer, claro) na interação.
Então os Alphas se afastaram. O outro shifter apenas acenou com a cabeça. Era um Ômega, claramente. Mas com uma presença muito mais... chamativa do que a do Alpha. Bom, "chamativa" não era bem a palavra certa. Pois o homem era praticamente da mesma altura que o Alpha, de constituição física semelhante. Os olhos eram tão escuros quanto os cabelos, a pele pálida parecia feita de mármore. O kimono que vestia era uma obra de arte a parte, branco estampado com pequenas flores de laranjeira com primor inenarrável. Devia ter custado uma pequena fortuna e combinava em tudo com o porte principesco. Estava ali uma das pessoas mais bonitas que Kiba viu na vida, não fosse os lábios retorcidos em visível mal humor. Ou como se tivesse um gomo de limão na boca dele. Fora isso, a energia dele estava irradiando de um jeito engraçado. Parecia enviar sinais cheios de "olhem pra mim". Kiba sentiu vontade de rir.
— Esse é o Ômega que conseguiu o grande feito de tirar você da toca? — Naruto aproximou-se do garoto e colocou as duas mãos em seus ombros, dando uma boa olhada — Prazer em conhecer.
Tinha recebido um relatório completo, claro. E isso não o preparou para o que viu. O Ômega parecia mais jovem do que esperava. E muito mais irrequieto, intempestivo. Notou que as mãos não paravam quietas, assim como os olhos afoitos. Já viu tal atitude em inúmeros Betas: a postura analítica de quem tenta sondar o ambiente e juntar elementos para se decidir entre fugir ou lutar ao se encontrar com inimigos. Nunca encontrou um Ômega assim.
— O prazer é meu — Kiba sorriu. Sentiu boas energias daquele Alpha. Ele não parecia nem de longe o que imaginou de um Hokage. Pelo contrário. Desde o primeiro instante sentiu-se a vontade. Konoha era um lugar engraçado, tinha mais Alphas de bom caráter do que se lembrava de conhecer em toda sua vida.
— Vamos nos sentar. O jantar está sendo preparado — indicou as poltronas — Este é Uchiha Sasuke. Ele é meu companheiro.
— Prazer em te conhecer — Kiba cumprimentou, sentando-se ao lado de Shino.
— Prazer — Sasuke devolveu pouco empolgado.
— Quer dizer que você ficou seis meses infiltrado entre os Betas do feudo Aburame — Naruto lançou como início de conversa, mostrando que a partir do momento em que se soube a verdade, poucos segredos seriam guardados. Kiba se indagou o quanto de sua história o Hokage já saberia. Lançou um olhar rápido para Shino, recebendo uma onda de conforto de volta.
— Sim, eu estava trabalhando para pagar minha estadia...
Sasuke fez um som engraçado com a garganta, não acreditando no que ouviu. Os Alphas compreenderam sua reação, mas Kiba não.
— Se tivesse se apresentado como Ômega, não precisaria pagar por nada — Naruto explicou — Seria bem recebido pelo Conselho e instalado com conforto em qualquer residência.
O sorriso abandonou os lábios de Kiba. Shino captou a contrariedade e não fez nada para impedir as palavras que sabia que seriam ditas pelo outro. Era o jeito direto dele, uma das coisas que o conquistava mais a cada dia.
— Konoha pode ser a terra dos sonhos pra vocês, mas lá fora não é assim tão bom ser Ômega não. Eu só tenho uma vida, prefiro cuidar bem dela. E se eu tivesse me apresentado, não tinha conhecido o Shino. Só por isso já valeu a pena.
Foi a vez de Shino limpar a garganta, um tanto surpreendido. Naruto sorriu ainda mais, vendo na postura de seus convidados coisas além do óbvio.
— Alphas te fizeram mal? Que atípico — Naruto falou e esperou um segundo, como Kiba não disse mais nada, prosseguiu: — Sim, você não teria conhecido o Shino. E admito que escolheu bem. O feudo Aburame é um lugar próspero para se viver. Apesar de ter se afastado de tudo, as plantações são as melhores, Shino cumpre com seus deveres e trata bem seus servos — suspirou — Várias vezes pensei em insistir e ir até lá. Mas Sasuke me fez entender e respeitar a sua decisão.
— Falemos sobre isso em outra ocasião — Shino desviou o foco. Não queria que a conversa fluísse por seu passado, pelas decisões que tomou e as consequências delas.
— Tem previsão de quanto tempo pretende ficar? — o Hokage perguntou para Kiba.
A sutileza não era forte de Naruto.
— Algum tempo. Eu estou tentando encontrar minha família. Acho que o Clã Inuzuka usa essas marcas — apontou a própria face — Shino está me ajudando a investigar. Até ter uma resposta sobre isso, não pretendo partir.
Naruto franziu as sobrancelhas.
— Essa pintura me é familiar, não é, Sasuke? — tentou integrar o companheiro a conversa, para que o clima ficasse mais amistoso. Não teve sorte.
— Como é que eu vou saber, maldito? — o shifter fez uma careta — Não conheço muito de... da classe mais baixa.
Naruto girou os olhos. Tinha pedido para Sasuke que ele não fosse muito agressivo durante o jantar! Teve esperanças que o companheiro o atendesse, mas foi querer demais. Shino ficou um tanto tenso. Não era sua intensão sair de casa para o primeiro jantar social em anos e ouvir o Ômega que reconheceu como companheiro (mesmo que esse Ômega sequer soubesse ainda) sendo ofendido.
Todavia Kiba não fez grande caso das palavras de Sasuke. Aquilo soou suave pra alguém que cresceu em Gin-Io e viveu ouvindo ofensas muito piores. Além disso, conviveu seis meses com camponeses Beta, daquela tal "classe baixa", shifters que o trataram bem. Ser comparado com eles era até agradável. Podia ter rebatido a clara intenção de Sasuke em lhe ofender? Podia. Mas não era para tanto, não queria colocar Shino em uma situação ruim durante aquele jantar, principalmente porque não precisava ser inteligente para entender que o encontro era o reatar de uma amizade antiga. Por fim, notou a tensão do Alpha sentado ao seu lado. E o desagrado expresso na face do próprio Hokage, fatos que iam contra a postura do outro Ômega. Sentiu-se satisfeito com isso.
Kiba não era do tipo que levava desaforo pra casa, até que aprendeu as regras da vida. Por muito tempo, rebatia tudo em igual velocidade e proporção. Porém, a experiência mostrou que ser um pouquinho mais contrito evitava situações complicadas. E sempre, sempre mesmo, era melhor opção do que acabar levando uma surra de Alphas. Provocando-os, ao não baixar a cabeça, e assim usassem o argumento de "colocar o Ômega atrevido em seu devido lugar" ou tentassem lhe ensinar a "fazer coisas mais uteis" com a língua sem travas, como desculpas para machucá-lo e saírem impunes.
Sabia que não era o caso ali. Se quisesse, poderia devolver a ofensa de Sasuke.
Mas lições aprendidas na dor são difíceis de se esquecer.
— Não tenho conseguido resultados — comentou apenas — Esses dois anos que andei por aí, não me levaram para mais perto da minha família. Então aceitei a ajuda do Shino, tenho esperanças.
Naruto sorriu com certo alívio. Simpatizou com o garoto, não queria vê-lo chateado. Lançou um breve olhar de alerta para Sasuke, antes de continuar a conversa.
— Posso perguntar informalmente no Conselho de Konoha. Tenho certeza que já vi essas marcas antes, mas não me recordo onde.
— Obrigado.
— Caso precisem de ajuda, é só me falar. Como está prestes a se tornar um cidadão temporário de Konoha, como Ômega, pode usufruir dos mesmos direitos ao fazer o registro em caráter provisório — o papel de Hokage exigia que Naruto falasse das leis, apesar de ser um jantar informal — Não hesitem em procurar o Conselho.
— Claro — Shino respondeu por ambos.
Nesse momento uma serva pediu licença e anunciou que o jantar estava pronto.
— Vamos continuar essa conversa durante a refeição.
Naruto anunciou, ficando em pé. Talvez a boa comida quebrasse mais do gelo que sentia no ar, envolvendo três dos quatro shifters, amigos que se conheciam desde a tenra idade.
