Marcas da Solidão

Kaline Bogard

O jantar foi servido em uma sala pequena e aconchegante, que Naruto reservava para ocasiões mais íntimas. Os quatro shifters sentaram-se nas almofadas escuras ao redor da mesa baixa: Shino e Kiba lado a lado, de frente para Naruto e Sasuke.

Os pratos variados e apetitosos desprendiam um cheiro agradável, que fez o estomago de Kiba dar um salto por pura antecipação. Apesar disso, prometeu-se não ser esganado, porque até que o jantar estava indo bem. Não cometeu nenhuma gafe, nem fez Shino passar vergonha. Queria continuar assim...

Era dureza manter os olhos longe da carne, que parecia apetitosa cercada de batatas douradas. Desconhecia tal prato. Parecia o melhor de todos.

— Pedi um jantar oversea — Naruto explicou — São pratos trazidos por estrangeiros. Fiquem à vontade.

E serviu-se primeiro, porque era a tradição. Kiba não se fez de rogado, servindo-se em segundo. Tirou um pouquinho de arroz (pra não ficar muito feio), depois se concentrou na carne. Adorava comer, mas comer carne era maravilhoso demais! Quando imaginaria que teria tanto a sua disposição? Jamais!

Começaram o jantar em silêncio.

Naruto tentou pensar em um tema para conversarem. Algo que abrangesse os quatro de igual para igual. Enquanto sua mente trabalhava, Kiba acabou por roubar a cena:

— Isso aqui é muito bom — ele apontou a carne no prato, dessa vez se lembrando de engolir antes — Combinar carne assada com batatas foi brilhante.

Como se quisesse fazer questão de ser desagradável, Sasuke empurrou o prato para longe de si.

— Quanta besteira, a comida está intragável — mal tinha provado um pouco do arroz — Mande me trazerem algo melhor — a última ordem foi dada para Naruto.

Inabalável, Kiba alcançou o prato desprezado e o trouxe para si.

— O dia em que tiver que procurar comida no lixo pra não morrer de fome você para de pensar assim tão egoísta — resmungou sem paciência. Um desaforo ele aguentava, dois era pedir demais!

Sasuke fez um som de indignação e olhou para o companheiro, esperando que seu Alpha e Hokage da vila fizesse algo em sua defesa. Mas Naruto mordia os lábios, tentado segurar a risada. Então o Ômega levantou-se ofendidíssimo e saiu da sala pisando duro.

— Desculpem-me — Naruto suspirou — Eu mimei o Sasuke demais.

— Com certeza! — Kiba confirmou mais do que depressa.

Ao ouvir aquilo Naruto riu, sem se preocupar em ser discreto. Imitou o gesto de Kiba, pegando para si o prato de Sasuke na intenção de terminar de comer ele próprio.

— Sasuke é meu companheiro, eu me responsabilizo em não desperdiçar esse alimento. Ele não está acostumado a dividir a atenção com outro Ômega. Não guarde rancor dele — pediu com a humildade que faltava em seu companheiro.

Kiba sorriu largo. Compreendeu fácil que Naruto era dos seus.

— Não se preocupe, não vou ficar com raiva dele!

Naruto olhou rápido para Shino. O pedido tinha sido mais para o outro Alpha, sabia como Shino era rancoroso, mesmo na infância.

— Você deve ter ouvido sobre quão poucos Ômegas existem no mundo. A sua casta é fundamental para o equilíbrio, porque sem equilíbrio a raça shifter está condenada à extinção — Naruto falou pesaroso — Então acabamos tratando Ômegas com distinção e isso sobe à cabeça. Sasuke não é uma má pessoa, apenas infantil.

Kiba deu uma pausa, analisando friamente qual prato ia experimentar. Calculou que era melhor continuar na carne mesmo. A comida parecia ótima, mas... era carne! Voltou a encher o prato, antes de responder a Naruto.

— Tudo bem, Hokage. O Sasuke está agindo de acordo com o meio em que ele vive. Se ele é mimado e egoísta, é porque ele pode. Se eu estivesse na posição dele, talvez fosse assim. Mas eu nasci em um lugar diferente. Aqui em Konoha e em outros países vocês ficam dizendo que não existem muitos Ômegas, mas onde eu nasci tem. Demais até. Por isso precisamos ficar em um Distrito, pra melhor controle da natalidade. Não tem como ser mimado quando se precisa lutar para sobreviver.

Sinceridade era uma das características de Kiba que nem o sofrimento lhe tirou. Por outro lado, sabia que na infância foi um moleque arrogante e ainda mais impulsivo. Isso sim, mudou um pouco. Pior coisa da vida: aprender humildade no tapa.

— Me chame de Naruto — ele pediu, balançando a cabeça para o que ouviu. Simplesmente não existia um lugar no mundo em que Ômegas nascessem em abundância. Os cinco grandes países vinham se reunindo mais de uma vez a cada ano, ultimamente, para tentar resolver o problema que ameaçava a raça deles com o perigo de extinção. Se houvesse mesmo um país assim, saberia! Estava prestes a comentar isso quando a expressão de Shino tornou-se mais dura, quase um alerta. Naruto calou-se. Kiba, concentrado em comer, não percebeu.

— Se você insiste... eu não me preocupo com isso de título nem nada. Só não quero colocar o Shino em confusão, porque ele está sendo muito correto comigo. Eu vim pra Konoha por causa dos boatos e... — passou a mão pelo queixo para limpar um pouco do caldo da carne que escorreu — Meus planos eram de ficar só um mês, mas foi tão bom ficar ali. Os dias foram passando sem eu perceber.

Naruto sorriu suspeito, colocando Shino em alerta.

— Vocês se aproximaram bastante...

— Sim! Até me surpreendi, nunca fiquei tão a vontade com um Alpha antes. E eu também comecei a senti-lo melhor do que antes, sabe? Acho que reconheci ele como um líder e nem notei.

O sorriso de Naruto apenas aumentou. Tinha chegado no ponto em que queria!

— Vínculo de companheiros também é assim — insinuou para ver se Kiba mordia a isca.

— Jura? — o garoto parou com a mão no ar. Então apontou para Naruto com o hashi, expressando simpatia nas feições jovens — Tenho pena de você, não deve ser fácil ter um vínculo com aquele shifter.

Naruto engasgou com a comida. Shino fez aquele som engraçado de quem tenta conter a risada. Um clássico caso de "o feitiço virou contra o feiticeiro". Kiba não apenas não entendeu a indireta, mas a voltou contra o Hokage! Kiba olhou de um para o outro, sem compreender se tinha sido rude ou não. Decidiu que não, e continuou comendo!

Depois do farto jantar, que terminou com os três em silêncio, as servas entraram na sala e retiraram toda a louça suja, substituindo por um conjunto de xícaras de porcelana. Shino moveu-se inconsciente, estendendo a mão para tirar um grãozinho de arroz preso à bochecha de Kiba. Por sorte, se deu conta do quão íntimo tal gesto era e parou a meio segundo de cumprir seu objetivo. Kiba, entretido em lamber um fio de caldo que escorreu por seu dedo, nem percebeu. Mas Naruto se mantinha atento a tudo, captando o significado do comportamento. Somou tudo o que vinha presenciando, o resultado se mostrou muito claro!

Naruto preferiu engolir a brincadeira que veio na ponta da língua, afinal de contas, era adulto. O representante de Konoha! Não queria constranger um Ômega que o visitava, nem o amigo de longa data.

Em outros tempos... ah, sequer hesitaria!

Na verdade estava tentando se enganar. Não fez mais nenhuma brincadeira porque corria o risco do garoto não cair no truque o voltá-lo contra si. Melhor não arriscar!

Sua decisão só mostrava o quanto as pessoas mudam com o tempo.

— Essa bebida veio de um país estrangeiro. Experimentem com... — Naruto fez um gesto de encorajamento. Kiba pegou o líquido preto fumegante, farejou... não se sentiu muito animado a beber aquilo. Porém não resistiu e provou, terminando por exibir uma careta. O treco era horrível — Ah, eu ia dizer para colocar açúcar ou mel.

Naruto riu um pouco.

— Faz sentido, porque isso é amargo pra cara... ca.

— É café? — Shino resolveu provar um pouco. Já ouviu falar sobre aquilo, sem ter interesse em beber. Mas, ao contrário de Kiba, preferiu ingerir sem adoçar.

— Agora melhorou! — o Ômega soou satisfeito, enchendo a mão com biscoitos de ameixa que vieram junto do café — Diz pras neesan da cozinha que eu adorei tudo. Esse café aqui, bem docinho até que vai. Chá é melhor, claro.

— Pode deixar que eu transmito seus cumprimentos — esperava nada menos do que sinceridade crua daquele garoto, pelo pouco que já o conhecia — Depois do café, quero convidá-los para um entretenimento que preparei para vocês. Eu também queria muito ver, mas não tive oportunidade.

Shino concordou com um gesto de cabeça, captando a curiosidade que transbordou de Kiba. Não ia negar algo que o animasse tanto e... naquele segundo ele compreendeu os gestos que Naruto tinha com Sasuke. Fosse algo correto ou um comportamento desagradável, a vontade de agradar o companheiro era praticamente inegável. O vínculo forte meio que delineava as opções. Só de sentir como Kiba se animou com a sugestão, um garoto que conhecia a menos de uma semana, seu lado Alpha esqueceu a vontade de voltar para casa e se acomodar no aconchego da reclusão. Para proteger a alegria contagiante, Shino abriria mão de muitas coisas! Visualizar isso o fez se imaginar no lugar de Naruto, vinculado a Sasuke por tanto tempo. O laço entre eles devia ser muito mais profundo e poderoso.

— Obrigado — foi a única coisa que Aburame Shino disse, cheio de sinceridade. Desde que o Alpha reconheceu aquele Ômega como companheiro, passou a aceitar a alegria do garoto sendo sua própria alegria.

Finalmente a refeição completa chegou ao fim. Naruto se pôs em pé e indicou o caminho a seguir.

— Sejam meus convidados por mais algumas horas. Konoha recebeu um mestre do Rakugo, faço questão que assistam ao espetáculo comigo.