Marcas da Solidão

Kaline Bogard

Naruto os conduziu por corredores do interior da casa, que era maior por dentro do que dava a entender quando se via de fora. Entraram em um ambiente amplo, muito mais espaçoso do que uma simples sala. Havia várias almofadas alinhadas em fileiras em frente a um tablado de madeira que remetia a um improvisado palco. No centro desse tablado, jazia uma almofada mais elaborada e confortável.

— Escolha seu lugar — Naruto ofereceu para Kiba, que se apressou para pegar o assento da primeira fileira, no centro exato a frente do palco. Não fazia ideia do que ia acontecer, só queria acompanhar de perto.

Shino ia sentar-se ao lado dele, sendo impedido por um toque de Naruto em seu ombro. Os dois Alphas trocaram um breve aceno de entendimento e foram se sentar na última fileira. Mal se acomodaram e um jutsu especial diminuiu a iluminação do local.

Um Beta de meia idade entrou e caminhou até o palco, acomodando-se sobre a almofada. Reverenciou de leve e anunciou que contaria uma história chamada "O Lobo Branco". E lançou mão da palavra, no show de entretenimento que era o Rakugo. Um mestre da atuação contando um causo que envolvia vários personagens a quem dava vida: homens, mulheres, crianças e jovens; mudando a entonação da voz, a expressão facial e corporal.

Kiba ficou encantado! Nunca tinha visto algo assim, nas primeiras frases da narrativa já mergulhou no universo ficcional, se deixando levar.

Na parte de trás, Naruto e Shino não tinham interesse no teatro de um homem só.

— Dez anos, Shino — Naruto sussurrou — Acredita nisso?

— Hn.

— Às vezes parece muito mais tempo. Às vezes parece que tudo aconteceu ontem.

— Entendo perfeitamente o que quer dizer.

— Eu sinto que devia ter insistido mais, a gente se afastou tanto...

Naruto carregava aquela sensação, de ter abandonado o amigo de infância. Shino optou pelo isolamento, no começo Naruto entendia a dor. Ou o mais próximo disso que lhe era possível. Nos primeiros anos, foi várias vezes ao feudo Aburame. O chamou inúmeras vezes para que saísse de casa e não se rodeasse pela solidão.

E então veio a nomeação como Hokage, as obrigações praticamente o engoliram e os dois amigos se afastaram por completo.

— Não, você sabe que insistir não mudaria minha decisão.

Naruto riu baixinho.

— Eu não acredito, cara. Um moleque cheirando a leite te tirou da toca. Taí algo que eu nunca ia imaginar. O poder de um Ômega é de outro nível — a frase debochada terminou com um quê de carinho. Sim, estavam tantos anos afastados e um jovem desconhecido serviu de incentivo para que Shino desse um importante passo. Seria grato a Kiba por isso, pelo resto da vida.

— Você acha que eu acredito nisso? — Shino suspirou. Realmente já não esperava reconhecer um companheiro a esse ponto.

— E ele não percebeu. Seu Ômega é meio lento...

Shino olhou de lado para o Hokage, com a sobrancelha levemente erguida. Como era mesmo aquele velho ditado? "O sujo falando do mal lavado". Contudo, o pronome possesivo que veio antes do substantivo foi uma carícia ao lado Alpha.

— Ouvir você falando tal coisa é engraçado. E o Conselho? Como está reagindo?

— O Conselho está perdido — Naruto suspirou — Isso nunca aconteceu antes... um Ômega surgir do nada, escondido entre Betas. Lidar com isso é ter que pisar em ovos, mas senti uma esperança de que esse garoto resolva ficar por aqui, principalmente se ele não tiver ligação oficial com algum governo. Não podemos provocar um incidente entre nações dando a impressão de que tentamos tomar um Ômega para o País do Fogo.

— Não creio que tenha ligação oficial, pelo menos não por livre vontade. Kiba me contou que precisou fugir.

O outro assentiu de leve, preocupado.

— Shino, você sabe que a história dele não é verdade, não é? Essa conversa de distritos...

— Ino está investigando e descobriu que o País das Águas adotou uma prática dessas.

Naruto silenciou por um instante. Deu a impressão de ponderar sobre o que falar ou não. Em seu cargo, tinha acesso a todo tipo de informação. E nem todas deveriam ser do conhecimento de civis.

— Sim, eu estive por lá três anos atrás pra assinar um tratado de ajuda mútua — revelou — E existem quatro distritos, nas maiores ilhas. Eles mantem os Ômegas lá, em uma espécie de templo para a população fazer oferendas e adoração. A devoção deles é muito maior do que aqui em Konoha, eu visitei um dos distritos pessoalmente.

Shino voltou os olhos para Kiba, que ria de uma parte engraçada da história, completamente esquecido do que acontecia ao redor.

— Ele esteve em um lugar malfazejo. Posso sentir os resquícios do que Kiba passou, sempre que ele me conta alguma coisa. Foi uma experiência ruim, que deixou marcas. Não sinto mentiras vindas dele.

— Ah, não! Não acho que ele esteja mentindo, Shino! — Naruto virou-se para o amigo, requisitando-lhe a atenção que dispensou ao Ômega — Eu quis dizer que precisamos olhar essa história pelo outro lado da lei.

— Distritos ilegais? — Shino não teve certeza de entender a questão. De alguma maneira a fala de Naruto lançou nova luz sobre o caso — Kiba contou que foi levado pra lá quando era bebê. E que essa é uma prática comum no país, mas se ele viveu o tempo todo preso, teve que acreditar no que diziam.

Sentiu um gosto amargo na boca. Naruto tornou-se sério.

— Não existe um país que trate Ômegas como Kiba deu a entender — o Hokage massageou a base do pescoço.

Shino ficou em silêncio, avaliando as questões implícitas ali. Falavam de rapto de bebês Ômegas? Mas tantos que viviam em Gin-Io, se fossem raptados, chamariam atenção mais cedo ou mais tarde, não? Dois anos fugindo em direção a Oeste não seriam suficientes para Kiba perceber que viveu em um lugar contra a lei? Bom, ele não podia sair perguntando certas coisas para não chamar atenção. Mesmo ao chegar em Konoha, ouvindo boatos que era um lugar bom, preferiu continuar ocultando sua verdadeira natureza. Talvez o medo de arriscar, ser descoberto e mandado de volta para o distrito nublasse sua percepção da realidade.

Tantas hipóteses, tantas lacunas!

— Ele disse que dividia o quarto com mais catorze Ômegas — Shino confessou, a voz distante mal alcançou Naruto — Acho que esbarramos em um grande problema.

— Vou enviar algum time para lá, talvez o time de Kakashi — Naruto não era considerado um ótimo Hokage por acaso, a intuição e rapidez de atuação o colocaram no caminho de se tornar tão forte e reconhecido — Esse garoto tem o quê? Uns quinze anos?

— Nem ele sabe. Kiba acredita que completou vinte.

— Vinte anos, Shino! Calculando no mínimo. Um distrito ilegal não duraria tanto tempo sem um esquema elaborado e muitas pessoas envolvidas.

Aburame Shino não tinha analisado a questão por esse ângulo. Foi impossível não observar seu companheiro mais uma vez, sentado na primeira fila, se deleitando com o teatro como uma criança encantada ao ver o primeiro truque de mágica.

— Sexo com Ômegas é bom — Naruto sussurrou, os olhos fixos no palco sem assistir ao espetáculo de verdade — Muito bom.

—Sim, é parte da premissa da casta.

— A história de distritos com Ômegas confinados cheira mal. É horrível só de pensar. Se for um esquema duradouro, envolvendo muitas pessoas, significa que... — o tom de voz alertou para o quão grave era a situação — Isso significa que estamos perto assim de agitar um vespeiro. Tenha cuidado, alerte Ino. Me informe sobre qualquer coisa que descobrir, mas não cave fundo demais. Deixe-me tomar a frente a partir de agora.

Shino não respondeu, mas Naruto sabia que ele levaria seu alerta a sério. Aquele homem não era de ações levianas.

No palco o Rakugo chegava ao fim, como anunciou as palmas animadas que Kiba bateu.

Os Alphas estavam tão concentrados na conversa que não acompanharam sequer uma linha do teatro.

Na hora de se despedir, Kiba estava cansado, todavia eufórico! Agradeceu Naruto pelo jantar, pelo café e pelo Rakugo. Incrível existir algo como a atuação do mestre ator.

— O prazer foi meu — Naruto era todo sorrisos — Venham sempre que quiser. Mais umas três ou quatro visitas assim e quem sabe o gênio do Sasuke não abranda um pouco?

Shino ajeitou os óculos na ponte do nariz, deslizando-o para cima.

— Ou talvez piore... — debochou.

— Vai tomar no cu, Shino! — Naruto riu — Amanhã é o último dia do festival. Venham visitar!

Kiba abriu a boca de espanto. Seus companheiros de feudo comentaram sobre isso, mas como Shino era recluso, eles sentiam-se na obrigação de respeitar o Alpha e não participar também. Seria tão divertido se...

Sentiu relutância vindo do Alpha. Um festival com muita gente era demais para ele, tão acostumado a solidão.

— Obrigado pelo convite — Kiba reverenciou de leve — Mas acho que seria apropriado terminarmos o festival do jeito que o começamos: ficando no feudo — a frase trouxe alívio a Shino, assim como certa dose de remorso. Sentimento que logo passou quando uma ideia inusitada surgiu-lhe na mente...

Naruto aceitou a recusa sem insistir. Acenou em despedida, no momento em que o cocheiro estacionou o veículo na frente da casa. Os visitantes entraram na carruagem e partiram, seria um longo caminho de volta para casa.

— Esse foi um dos melhores dias da minha vida — Kiba falou pensativo, olhando a noite estrelada através da pequena janela — Obrigado. Sei que você prefere ficar em casa, mas mesmo assim me acompanhou.

— Não me agradeça — Shino falou simplista. Suas razões eram mais egoístas do que o Ômega desconfiava. Não sentia vontade de entregar o garoto aos cuidados de nenhum representante, nem mesmo a Ino, amiga em quem confiaria a própria vida. Pois isso significava ficar longe dele e tudo o que Shino desejava era aproveitar o quanto pudesse da companhia.

Kiba bocejou, sem rebater a pseudo ordem de Shino. Os olhos pesaram de cansaço. Não queria, mas acabou cochilando com a carruagem embalando através do lento avançar.

Shino respirou fundo, admirando o Ômega que a vida lhe trouxe de presente, embalado em dose incontável de complicação. Provavelmente em medidas iguais de perigo. Um segundo Ômega a quem oferecia proteção e abrigo.

Dessa vez, Shino prometeu a si mesmo, a história terminaria diferente. Não permitiria que destino semelhante ao de Hinata e da pequena bebê fossem impostos a Inuzuka Kiba.

Dessa vez, Shino não chegaria tarde demais.