Marcas da Solidão
Kaline Bogard
Aburame Shino era um homem de hábitos. De rotina. Vivia um cotidiano tão enraizado na mesmice que, em sua mente, acabaria seus dias assim.
Até que um jovem apareceu em seu caminho. E mudou tudo o que tinha por certo.
Pois era um Ômega. E o Alpha que levava na alma reconheceu o garoto como companheiro. Nos segundos iniciais do primeiro encontro um laço se formou entre eles. Não totalmente consciente de ambas as partes. Pelo menos ainda.
Mas laços entre companheiros tem o poder de um milagre.
Aquele segundo extraordinário criou a rachadura que esmaeceu pouco a pouco a sólida decisão de Shino, de se afastar de todos, levando-o por caminhos difíceis de acreditar. O senhor feudal mais próspero da vila se tornou professor de autodefesa. Professor de etiqueta. Professor de shodo.
E não se arrependia.
Era impossível se arrepender de ensinar alguém com tanta sede de aprender. Não a parte formal da educação. Tentou ensinar coisas simples como o alfabeto e as operações matemáticas mais básicas, mas Kiba odiou. Resmungava o tempo todo, cochilava e ficava de péssimo humor. Comida serviu como estímulo por um tempo, depois nem isso.
Mas a parte de praticar a arte ninja o conquistou, demorou menos do que um piscar de olhos para se gabar que se tornaria o shifter mais forte da casta. A aula de etiqueta era divertida. Shino focou-se mais na parte de bons modos durante as refeições, o que significava comer para treinar. Kiba nunca reclamaria dessa parte.
Surpreendentemente, se mostrou melhor na arte do shodo. Ao final da tarde, estendiam os rolos de papiros na varanda dos fundos, muito perto do lago cristalino, com pinceis e tinta preta. Kiba fazia como Shino lhe mostrou: dobrava as mangas do kimono para que não atrapalhassem, e mantinha o pincel firme na mão direita. Se concentrava tanto que uma ruga se formava entre as sobrancelhas.
Então usava movimentos rápidos e precisos para traçar as letras do próprio nome. A caligrafia ficava rebuscada e selvagem, tinha personalidade, um bom trabalho para um leigo na arte da escrita. E era tocante o amor que ele tinha pelo próprio nome, quase o único elo que poderia levá-lo a conhecer a família. O quarto dele já tinha vários papiros colados na parede, todos pintados com "Inuzuka Kiba" ou "Aburame Shino". Tinha até um "Ino" perdido no meio deles.
E tornar-se professor não foi tudo.
Shino não conseguiu esquecer a animação de Kiba com o convite para o festival. Seu lado Alpha tornou-se inquieto, querendo conceder aquele mimo. Mas a parte racional não conseguia simplesmente aceitar sair de casa e ir festejar no meio de muitas pessoas, muitos desconhecidos. Ainda não se sentia pronto para uma mudança tão grande.
Mas... sentia-se preparado para algo em menor escala.
Deu uma série de orientações para Ino, que a surpreendeu. E alegrou. Algo que tomou um pouco de tempo e valeu a pena.
Ino se reuniu com os responsáveis de cada campo e juntos organizaram uma versão caseira do festival de primavera, antes de sair em uma viagem com objetivo secreto.
Quando Shino contou para Kiba, os olhos do Ômega brilharam. Alegria fluiu pelo vínculo e foi a melhor sensação do mundo.
— Eu não acredito que você fez isso! — Kiba repetiu pela terceira ou quarta vez, enquanto andavam pela área descampada perto da casa, que a separava das plantações. Era a noite escolhida para a comemoração. O festival oficial tinha acabado há tempos, mas não importava de verdade.
Todos os camponeses que viviam no feudo estavam ali naquela noite, para comprovar com os próprios olhos que Aburame-sama estava mesmo realizando um pequeno matsuri.
A lua cheia ajudava a iluminar a noite, trabalhando em conjunto com grandes barracas espalhadas em pontos estratégicos. Quatro mulheres tocavam biwa, de um jeito principiante, embora encantador.
Havia uma barraquinha preparando takoyaki. Outra para oden e lamen. Também tinham um espaço para omelete de arroz e tempura de verduras.
Kiba queria provar de todas! Por isso iam de barraca a barraca, recebendo cumprimentos. A felicidade daqueles camponeses só era menor do que a de Kiba. Os mais jovens ali, nunca chegaram tão perto de um Ômega! Agora existia um que caminhava entre eles, devorava a comida com mais voracidade do que qualquer um deles! Ria sem modos, gesticulava demais, falava alto e dava a impressão de adorar receber atenção. Muito, muito diferente do garoto que chegou ali, pouco mais de seis meses passados.
A princípio, os shifters ficaram tímidos. Olhando de longe, impressionados por ver Aburame-sama passear entre eles e estupefatos por sentir a presença exótica e acolhedora de um Ômega. Porém, não era um Ômega qualquer. Era Inuzuka Kiba, um jovem sociável e aberto às amizades. Antes, precisava se reprimir porque sua vida dependia de ser discreto.
Ali, entre aquelas pessoas, ao lado de Shino, Kiba sentia-se livre para ser ele mesmo. Talvez pela primeira vez desde que se deu por gente, podia ser expansivo de acordo com a personalidade carismática sem medo de represálias, de castigos ou de chamar despertar o interesse dos shifter errados.
Livre, Kiba brilhava. E a luz sempre atrai as pessoas.
Atraiu primeiro as crianças, que chegaram tímidas e receosas, circulando Kiba. Inexperientes no contato com Ômegas, não sabiam que palavras usar para descrever o que estavam captando.
Mas essa hesitação respeitosa durou até Kiba berrar que era um Oni, ou melhor, o Rei Oni e sair correndo atrás dos pequeninos. A criançada gritou de susto, logo se espalhando pelo campo gargalhando.
Shino assistiu de longe, sentado perto de uma fogueira. Nas mãos, uma garrafinha de sake que, volta e meia, abastecia o copo pequeno. Ele também estava cercado, pelos Betas mais velhos de cada terreno, lideres de grupos de camponeses. Danzo-san, que conviveu mais tempo com Kiba, foi o primeiro a se sentar ao lado de Shino, as costas eretas e as mãos tremendo um pouco. Aceitou um gole de bebida ofertada pelo Alpha. E isso foi o sinal para que outros Beta-líderes se aproximassem.
— Não acredito que dei bronca em um Ômega — o pobre homem confessou. Era algo que vinha martelando sua cabeça. Talvez Inuzuka Kiba tivesse guardado algum rancor e...
Pois o referido em pessoa respondeu a questão. Passou gritando para ele:
— Danzo-san! Já me apresentei pro Aburame-sama! Sou um homem de palavra! — claro que berrou com a boca cheia de onigiri. Foi arroz pra todo lado. Nem esperou resposta, um bando de crianças estava correndo atrás dele. Não queria ser pego e virar Oni de novo — SOCORRO!
O grupo assistiu aquilo pasmado.
— Eu não sabia que Ômegas eram assim — um homem comentou, o queixo meio caído.
— Nem eu — outro revelou a surpresa pelo que viu.
— Ômegas não são assim — Danzo-san bebericou o saque, tentando passar uma imagem de sabedoria — Temos o melhor Ômega, para o melhor feudo — nem parecia aquele Beta irritado com a descortesia do garoto que vivia escondido.
Os outros Betas murmuraram em assentimento. Shino ouviu a conversa, satisfeito em ter cedido aquele pequeno capricho. Não foi difícil sair de casa para se encontrar com seus servos. Conseguiu sentar-se, quietamente, os outros respeitando seu espaço mas, ao mesmo tempo, perto o bastante para que não estivesse isolado. Os Betas mais jovens olhavam de longe, encantados, pois era honroso que seus lideres tivessem direito de sentar-se ao lado de Aburame-sama. E que suas crianças pudessem brincar com um Ômega, quando a grande maioria dos shifters passava a vida toda sem sequer chegar perto de uma dessas criaturas.
A lua estava linda no céu, o clima abafado castigava um pouco. Era primavera, e isso prometia um verão bem quente.
As mulheres continuavam tocando biwa, um rapaz tinha aparecido com um rustico shakuhachi (com certeza feito por ele) e uma senhora, mais alegre pelo sake, cantava uma bela canção enka. Uma música conhecida que agradecia a todos os deuses pelas graças recebidas.
Pouco a pouco as crianças foram se cansando, procurando o colo dos pais. Mesmo com a madrugada avançando, nenhum dos adultos queria arredar pé dali. Não quando comemoravam o início da boa plantação, com a presença de um Alpha e de um Ômega, e daquelas... quase cem famílias que compunham um dos feudos mais prósperos de Konoha.
Ou melhor.
Cem famílias não.
Uma única família. A composição perfeita que a mãe natureza criou: um Alpha. Um Ômega. E seus Betas.
Shino sentiu o laço. Sentiu "família". E emocionou-se ainda que não demonstrasse em seu rosto. Todas aquelas pessoas, sob sua proteção e cuidado. Que confiaram dia após dia, mesmo sendo um recluso solitário. Betas que trabalharam debaixo do sol inclemente, plantando e colhendo aquela que seria chamada de melhor safra de Konoha.
Sim, shifters fieis a própria origem.
Uma grande família unida por laços tão fortes quanto o sangue.
Naquela noite enluarada, Shino tomou uma resolução: faria o festival no ano seguinte. Comemoraria unindo todos. Junto com todos.
— As respostas vêm, Aburame-sama — Danzo-san falou divertido, pondo-se em pé com certa dificuldade — As respostas sempre vêm. Não no tempo que a gente quer, mas no tempo em que a gente está pronto.
Shino observou o homem se afastar cambaleante. Não teve certeza se o comentário foi algo sábio ou apenas conversa de bêbado.
Não pensou na questão por muito tempo. Kiba aproveitou o espaço e sentou-se ao seu lado. Estava com a maquiagem borrada, pois suou de tanto correr. E o rosto corado era algo encantador de se olhar. Trazia um pratinho cheio de takoyaki ainda quente!
— Que noite incrível, Shino! Se for um sonho não quero acordar nunca!
— Não é um... — a frase foi cortada. Kiba espetou um bolinho e enfiou na boca do Alpha, sem que ele tivesse tempo de recusar.
— O seu feudo é um bom lugar — o garoto sussurrou. E comeu um takoyaki.
Dividindo os bolinhos, assistiram as pessoas começarem a debandar, rumo as suas casas. Tinham instruções para manter tudo como estava. Ganhariam o dia seguinte como descanso, depois as barracas seriam desmontadas e a vida voltaria ao normal.
Sentado muito perto de Shino, Kiba suspirou.
— Eu... eu não entendo o que está acontecendo comigo. Quero ficar aqui, sabe? Eu sinto como se tivesse descoberto o meu lugar no mundo, mas... ao mesmo tempo... eu preciso encontrar minha família. Se eu tiver uma pista, se eu precisar partir... desculpa, Shino, mas eu...
O dilema em que o garoto se encontrava era perceptível. Shino logo compreendeu que ele vinha pensando naquilo há algum tempo, confuso com o rumo que as coisas tomavam. Era um Ômega jovem, privado desde sempre de algo que deveria ser normal.
E a angústia dele lhe era insuportável.
Por isso, tendo o festival atípico como cenário e a grande lua como principal testemunha, a parte Alpha de Shino tomou o controle de seus atos. Ele segurou na mão livre de Kiba, com carinho e firmeza; e fixou os olhos escondidos pelos óculos escuros naquele rosto trigueiro. Confessou com toda a sinceridade de que era capaz:
— Não se preocupe. Quando tivermos uma pista sobre seu passado, vamos juntos investigar. Eu estarei ao seu lado, Kiba. Porque você é o meu companheiro.
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