Marcas da Solidão
Kaline Bogard
A promessa de Shino teve efeito semelhante a sol nascendo numa manhã enevoada. Dissipou a confusão em que Kiba se via preso nos últimos dias. E ele compreendeu tudo sobre as reações de sua parte animal, que influenciavam seu corpo e não sabia bem o motivo até então. A princípio, pensou que fosse uma ligação simples entre Alpha e Ômega se reconhecendo nos papéis de líder e liderado. E tentou agir assim.
Não era como se tivesse alguém para lhe explicar todas as nuances de relações entre os shifters, ao crescer em Gin-Io. Claro, os Ômegas conversavam, teciam teorias, tentavam achar respostas para as dúvidas... e quando um deles não voltava, por recebido uma requisição permanente, os mais velhos ficavam em polvorosa. Kiba ouvia a palavra "companheiros" com mais frequência.
Não era o garoto mais esperto do mundo, mas começou a juntar farelos de informação. E concluiu que ter um companheiro era bom, algo que os outros shifters desejavam para si. Na maioria esmagadora dos casos, se esperava que o companheiro de um Ômega fosse um Alpha, mas boatos sugeriam que Alphas e Betas também se vinculavam eventualmente. O laço entre companheiros durava a vida toda. Em alguns casos, ia além. Pois dizia-se que certas pessoas ficavam viúvas e nunca mais reconheciam outro companheiro.
Então veio a fuga.
A necessidade de sobrevivência atingiu outros níveis. Evitar se aproximar demais (principalmente de Alphas) tornou-se a prioridade do dia, todos os dias. A chance de encontrar a família mostrou-se real. E a tênue investigação começou.
Kiba deu as costas ao país em que vivia, sem olhar para trás. Seguiu direto para o Oeste, porque quando lavava pratos nos fundos de um restaurante, ou varria a frente de um pub, ou alimentava os cavalos de uma estrebaria; realizando serviços no qual ninguém prestava atenção a quem fazia, podia escutar os mais variados diálogos. E uma coisa era comum na fala de cada desconhecido: o Oeste era um bom lugar.
E era.
Kiba comprovou por si só.
E descobriu mais. Encontrou alguém a quem chamar de companheiro. Porque Aburame Shino revelou como se sentia. Algo gêmeo ao que ia no coração de Kiba, mas que o garoto não sabia nomear.
Se viu preso numa dúvida terrível nos dias anteriores ao festival. Aquela dor de buscar por algo e ainda não encontrar, enquanto encontrou algo que não estava procurando. O dilema nasceu quando, em sua inocência, Kiba acreditou que teria que escolher entre essas duas opções. Teria que abandonar o feudo para reencontrar a família. Ou abandonar o sonho de conhecer sua família.
Nunca imaginou que Shino lhe daria a terceira opção. Logo um homem recluso, que abdicou da vida fora de suas propriedades, disse as palavras que mudaram tudo. E disse em um tempo verbal que fundiu o cérebro de Kiba.
"Você é meu companheiro".
Não "você será meu companheiro" ou um famigerado "você quer ser meu companheiro?" com um belo ponto de interrogação ao final.
Sabendo-se não muito inteligente e sendo uma pessoa impulsiva e direta, Kiba decidiu que diálogo era a melhor opção. Tentou várias vezes puxar assunto nos dias que se seguiram, durante as refeições ou durante os treinos. Mas... teoria era uma coisa, prática era outra!
Quem disse que conseguiu levar adiante o assunto? Acabava gaguejando e corando e se enrolando e mudando o tópico para algo totalmente aleatório.
Até que uma bela tarde, uma semana depois do incrível festival, Shino resolveu por fim na situação que incomodou até a ele. Decidido, foi até a varanda dos fundos, notando Kiba sentado muito perto do lago, observando as carpa-comuns que nadavam na água límpida.
— Posso sentir sua confusão, mas se não me disser nada não saberei ajudar — foi direto, sentando-se no assoalho ao lado do Ômega.
— Tentei disfarçar, mas o vínculo entrega, né?
Shino ergueu uma sobrancelha. Onde, pelo amor dos deuses, aquele garoto disfarçou alguma coisa? Estava tudo escrito no rosto dele, com letras maiores do que as que ele escrevia nas aulas de shodo.
— Sim — preferiu ser condescendente — O vínculo entrega.
— É que... é que... — e lá estava a vergonha atrapalhando — Eu... só... aquele dia... eu andei pensando...
— Sobre o que eu disse? Sobre você ser meu companheiro?
— Argh! — Kiba bagunçou os cabelos — É! Caralho. Não sei como reagir!
— Foi uma confissão desagradável? — Shino também se sentia um tanto perdido, era a primeira vez que lhe acontecia algo assim.
— Não! — Kiba rebateu depressa — Não foi desagradável. Mas você disse que eu sou seu companheiro, não que serei um dia... então... eu fiquei meio... sabe?
Shino finalmente compreendeu o ponto. Ficou aliviado.
— Você é meu companheiro, porque reconheci você como companheiro. Sua aceitação ou não, não mudará o fato. Se me corresponder e aceitar o vínculo, me sentirei honrado. Se não aceitar, ainda assim, continuará sendo meu companheiro. Pois não acredito que irei reconhecer outro. E eu quero o seu bem, vou oferecer ajuda qualquer que seja nosso destino.
— Obrigado! — Kiba respirou fundo, satisfeito com a explicação. Viu a situação pelos olhos do Alpha e fez sentido o que ele dizia, apesar de ser uma decisão drástica. Mas falavam sobre Aburame Shino, um homem que se recolheu na solidão sem esmaecer através dos anos. Só dando fim à reclusão quando uma força externa o obrigou a isso. A força de um vínculo poderoso — Eu pensei pra caralho esses dias. Acho que ontem espirrei e saiu até um pouco de cérebro junto, de tanto que eu refleti. Eu fiquei tentando decidir se era melhor ir embora ou ficar. Só de ter essa dúvida já entendi que ir embora seria uma opção difícil pra mim. Mas eu nunca ia desistir de procurar minha família. Aí você me disse que sou seu companheiro... e eu fiquei feliz, apesar que a confusão aumentou na minha cabeça.
Shino ouviu o discurso desarticulado com uma felicidade atípica. Que não sentia em muito, muito tempo.
— E planejou conversar sobre isso — acabou deixando escapar, apenas para emendar em seguida — Você tentou disfarçar, mas o vínculo...
— O vínculo não guarda segredos! — Kiba desviou os olhos para o lago — O que você gostou em mim? Eu sei que sou tipo foda, só não pareço o tipo foda que combina com você.
— Comigo? Por eu ser mais velho?
— Não. Você é todo sério e calado. Ainda te acho esquisito com essas roupas e esses óculos. E não sei nada sobre o seu passado! Hum... pensando por esse lado, também não sei porque meu lado Ômega te reconheceu. Tem coisas que não é pra entender, né? A gente sente e lida com isso.
— Sobre o meu passado...
— Espera. O vínculo não guarda segredos, lembra? Consigo sentir que não quer falar sobre isso. Eu tenho... eu fiz o que foi preciso pra sobreviver, finjo que certas coisas não aconteceram porque pensar nelas dói demais. Um dia prometo te contar tudo, quando eu estiver preparado. E você me conta seu passado, quando sentir que é a hora.
— É uma promessa.
— Então temos uma promessa. E um vínculo — Kiba estendeu a mão. Shino aceitou entrelaçar os dedos de ambos — Não vá se arrepender! Eu adoro comer e falar. E tenho praticamente a vida toda para tirar do atraso — deu uma risadinha. Lembrou-se que em Gin-Io até seus dois amigos se irritavam, porque ele conversava até consigo mesmo! Às vezes atrapalhava a concentração dos outros sem querer.
— Eu adoro escutar — Shino disse — Está quase na hora do chá. Podemos ajudar a tirar um pouco do seu atraso em comer. O que acha?
— E ainda pergunta?!
Kiba ficou de pé, só então soltando a mão de Shino. O Alpha também se ergueu, ajeitando o longo casaco que vestia.
— Recebi uma mensagem de Ino — o homem foi contando ao seguirem para a sala das cerejeiras — Ela está voltando pra cá. Espero que traga boas notícias.
— Faz mais de uma semana que ela foi, não é? Nem conseguiu participar do primeiro "festival Aburame".
Shino assentiu, silencioso. Não quis entrar em detalhes ainda. Pois a questão era delicada. Tão delicada, que mandou Yamanaka Ino em pessoa verificar a autenticidade dos fatos. Não queria erros ou alimentar falsas esperanças.
Dos dois espiões que mandou para o País da Água, ainda não teve notícias. Mas dos que espalhou em busca de informações adversas, o resultado foi positivo.
A verdade é que os ninjas esbarraram em uma pista. Descobriram, com facilidade até, que as marcas vermelhas em forma de triângulos pertenciam a um Clã que morava em Sunagakure. Então mandou Ino verificar com os próprios olhos, na viagem que durava mais de uma semana. A pista era concreta, valia a pena arriscar.
Os espiões encontraram uma mulher particularmente interessante...
