Marcas da Solidão

Kaline Bogard

Mais uma semana se passou, antes que Ino retornasse de Sunagakure.

Esse período serviu bem ao propósito de adaptação. Tanto Shino quanto Kiba precisavam se acostumar com a ideia de ter um companheiro, de agir de acordo com o relacionamento. O que não era fácil para alguém cuja primeira e única experiência nesse campo, foi algo que começou com uma requisição contra a própria vontade. Ou para alguém que viveu sozinho ano após ano, e de repente se vê preso ao outra pessoa por um vínculo inesperado.

Por isso iam devagar.

Quando Yamanaka Ino voltou, percebeu logo a mudança no ambiente. E não segurou a piadinha quando se encontrou com Shino no escritório dele, um dos locais que mais destoava da residência. Os móveis eram todos importados do estrangeiro. No centro, uma grande escrivaninha de mogno dava uma visão impressionante. Dos grandes arquivos às estantes repletas de documentos, tudo resplandecia seriedade. Apenas um quadro com o kanji que significava "Eternidade" remetia aos padrões de Konoha, um toque de orientalidade. A Beta já estava acostumada a entrar ali para resolver assuntos do feudo, embora ainda sentisse certo impacto ao entrar. O ar era tão impregnado da presença Alpha, que sua parte Beta lutava para não se retrair.

— Ah, não. Eu sei que você é um homem paciente, mas escolher aquele garoto como companheiro é um teste de virtude — Falou descontraída, ciente de que Shino captaria as reações shifter. Apesar da brincadeira e ignorando a dose de inquietação, Shino percebeu quão feliz ela estava — Parabéns!

Aproveitou para entregar uma garrafa cheia com uma bebida destilada, especialidade de Sunagakure.

Shino fez um gesto indicando que Ino devia se sentar à escrivaninha estilo oversea, enquanto ia abrir a garrafa e pegar dois pequenos copos do bar ao canto da sala.

— Como foi a viagem? — serviu primeiro a mulher, depois a si mesmo.

— Cansativa. A gente sai de Konoha e enfrenta cinco dias de travessia de puro deserto — ela bebeu um curto gole. A bebida era doce e suave — O país em si é agradável, foi bom retornar lá.

Shino bebeu um pouco. Na adolescência, durante a Academia, chegou a visitar Sunagakure durante algumas das missões que recebeu. Por algum tempo alimentou a ideia de seguir o caminho ninja, mas a realidade não era tão generosa. Ele precisou assumir o feudo quando seu pai faleceu. Os sonhos juvenis foram enterrados junto com o patriarca da família.

— E a investigação?

Ino moveu-se desconfortável.

— Verifiquei com cuidado. A mulher é uma Beta, se chama Inuzuka Hana e trabalha em uma clínica veterinária. De acordo com os registros; a mãe dela, Inuzuka Tsume e o irmão caçula, Inuzuka Kiba, morreram durante o parto. Serão dezenove anos exatos em sete de julho — suspirou.

— Mortos durante o parto...?

— Hn. O mais lógico é pensar que jogaram fora a manta. Ou doaram. E ela foi parar com outra família, com outra criança. Como tinha um nome bordado, assumiram que era o nome desse Ômega que fisgou seu coração.

Shino empurrou os óculos para o local correto.

— Então esbarramos em um beco sem saída.

— Eu disse "o mais lógico" — Ino estendeu o copo, pedindo um pouco mais de bebida — Mas esse caso todo me cheira mal, Shino. Ainda não tive resposta dos espiões que foram para o País da Água. E... não sei. A história parece plausível, caso encerrado. Apesar disso minha intuição não me deixa abandonar essa mulher em Sunagakure.

— Por isso ficou um pouco mais de tempo por lá?

— Sim. Confesso que poderia ter vindo mais cedo — ela passou a brincar com o copo, girando-o pensativa sobre a mesa — É quase certo que demos com uma pista falsa...

Balançou a cabeça, sem ter nenhum argumento a mais. Tudo se resumia a intuição e peças que não se encaixavam. Ou se encaixavam bem demais. Tinham uma mãe e uma criança falecidos há dezenove anos atrás, e outra criança nascida na mesma época, que herdou uma manta e um nome. Mas entre Sunagakure e o extremo leste haviam milhas e milhas de distância. E então, tal garoto surgia do nada, com uma história de distritos, de uma vida que basicamente descrevia uma prisão. E... a parte em que tudo ficava estranho: Ino chegou a indagar aqui e ali, como quem não quer nada. A maioria dos shifters com quem conversou, teve reações de acordo. Apenas um homem de negócios, que bebia tranquilamente em uma taverna, teve uma reação diferente.

Nos dias que pernoitou em Suna, Ino ia verificar a vida noturna do lugar. Estalagens, pubs, tavernas, restaurantes...

Jogava no ar algo como "ah, aqueles garotos de Gin-Io". E a frase não surtia efeito, como se quem estivesse por perto não soubesse do que falava ou não se importasse com conversa de bêbada. Exceto por um Beta, melhor vestido do que a média, a desfrutar uma caneca de vinho seco a olhou através do grande espelho detrás da estante de bebidas. Breve, fugiu ao contato visual tão logo Ino se percebeu observada. Então o homem se levantou, sem terminar a bebida e saiu do lugar, após jogar moedas no balcão.

Ino esperou meio minuto, sem querer despertar suspeitas. Levantou-se e foi atrás dele, cometendo assim um derradeiro erro.

Ao sair na noite fria, o Beta já havia desaparecido.

Só isso, o rápido e significativo olhar que durou menos do que um piscar das pálpebras. E colocou todos os instintos de Ino em alerta.

— "Quase" certo — a voz de Shino soou pensativa — Você tem dúvidas.

Ela balançou a cabeça em clara concordância.

— Não acredito em coincidências. Mas acredito em outras coisas, em erros. Alguma coisa que a gente sequer imagina está acontecendo, Shino. Algo grande. E esse garoto escapar foi o erro que vai fazer tudo desmoronar feito um castelo de cartas. Não me pergunte o que é "tudo". Não faço a menor ideia. Mas é feio. É muito feio. Envolve crianças Ômega e uma prisão. Minha intuição diz que a ponta do fio da meada está em Sunagakure, apesar de não parecer. E se estende até o leste, ligando fatos graças àquela bendita manta.

Shino recostou-se na cadeira. As palavras de Ino deram forças a teoria de Naruto, que acreditava que nos bastidores algo de ruim acontecia, que as pessoas comuns não tinham nenhuma desconfiança.

Seria coincidência demais pensar que a manta de um bebê nascido morto em Sunagakure foi dada a outro bebê que, por razoes desconhecidas, acabou em um "distrito" só de Ômegas? Distrito que obrigava esses mesmos Ômegas, raras criaturas, a prestar favores sexuais a outros shifters? Qual a ligação entre esses dois bebês?

— Vou para Sunagakure — Shino acabou dizendo — Junto com Kiba.

— Acha prudente? — decidir-se pela viagem foi tão fácil e natural, que a certeza fluiu pelo vínculo entre Alpha e Beta, impedindo Ino de perguntar se ele estava pronto para sair do feudo em uma viagem tão longa. Além disso, estando pronto ou não, ela apoiaria o fantástico passo que Shino estava prestes a dar.

— É tudo a respeito dele, a respeito do passado e do futuro. Kiba tem direito de participar da investigação. E eu já não posso deixá-lo partir sozinho — impedir o Ômega de ir atrás dessas respostas seria imoral. Iria junto, não como senhor feudal, mas como Alpha e companheiro.

— Tem jutsus que comprovam laços de sangue. Não sei se houve tempo de configurar o vínculo após o nascimento — Ino deu de ombros — Podemos testar se são realmente irmãos.

— Depois do jantar faremos uma reunião com ele. Vamos contar tudo o que descobriu. Antes eu não queria dar falsas esperanças, mas é inevitável. Não posso decidir sozinho o futuro de Kiba.

Ino sorriu. Shino era bem assim mesmo. Nada de subterfúgios nem de rodeios. Ele gostava de tudo preto no branco, as claras e de modo justo.

— E como foi o festival? Não tive tempo de conversar com os camponeses ainda, mas senti uma mudança impressionante no ambiente. Parece que um peso saiu dessa casa, nem consigo acreditar. Até respirar está mais fácil.

Shino ergueu uma sobrancelha.

— Não sabia que era tão ruim antes...

— Nem eu! — Ino riu — Só me dei conta quando voltei e peguei a diferença. Um Ômega muda tudo, não é?

— Sim. Muda.

— Você vai marcá-lo? — perguntou a queima-roupa.

Shino encheu o copo de ambos mais uma vez. A bebida era realmente agradável.

— É minha intenção — a marca em um Ômega era o laço mais profundo que podia receber de um Alpha — Não sei se num futuro próximo. Kiba está maravilhado demais com a sensação de liberdade.

— A marca não é uma prisão — Ino desdenhou — É um compromisso entre dois shifters. Você não precisa ter medo, Shino. Apenas explique direito, Kiba não parece entender tudo como a gente. Só vai assustar o moleque se resolver mordê-lo enquanto estão lá no... meio da... festa!

E riu da própria brincadeira.

Shino respirou fundo, com enfado. Estava acostumado com o jeito escrachado da amiga de infância, mas ela tinha razão: precisava conversar com Kiba antes de cada passo daquela relação, para não colocar tudo a perder. O que não diminuía o peso de sua responsabilidade: eles falavam de Ômegas usados para fins sexuais. Não queria reforçar a ideia de que tudo se baseava apenas nisso: sexo.

O maior problema era ele mesmo não ser muito bom em relacionamentos. Estar com alguém mais jovem... alguém tão cheio de vida, e com tão pouca vivência saudável era um desafio. Talvez até mesmo assustador.

Fazia Shino sentir como se não saíssem do lugar, apesar de terem dado um grande avanço em pouquíssimo tempo, aceitando o vínculo que os tornava companheiros.