Marcas da Solidão

Kaline Bogard

— Então corre o risco de eu nem ser "Inuzuka Kiba"? — o garoto perguntou quando Ino terminou de repetir o resultado de suas investigações. A Beta evitou narrar as desconfianças e intuições sobre a parte obscura. Revelou somente que encontraram uma Inuzuka que tinha laços de sangue com um garoto chamado "Kiba", morando no país distante, seguindo orientações de Shino.

— Sim — ela foi sincera — Você tem que se preparar para tudo, para boas notícias ou para uma verdade decepcionante. E nesse caso, pra recomeçar a procurar.

— Entendi. Se não der em nada, a busca continua — suspirou e virou-se para Shino — Obrigado. A vocês dois! Dando certo ou não, caralho, nem sei dizer como fico feliz em ver as coisas avançando!

O Alpha balançou a cabeça. Não fazia aquilo em troca de gratidão.

— De qualquer forma estarei ao seu lado — garantiu com simplicidade, de um jeito profundo que fez Kiba corar e desviar os olhos, assim como o assunto.

— Daí a gente vai até Sunagakure... tudo bem se no fim só perder tempo? — Kiba lançou a dúvida para Shino. Normalmente não ficava constrangido, mas com Ino de testemunha era um tiquinho diferente.

Os três estavam sentados na sala das cerejeiras, naquele momento dividindo uma rodada de chá e bolinhos recheados com pêssegos. Era a hora de decidir os próximos passos. Shino ofereceu uma viagem até Sunagakure, para desvendar a pista e acabar com qualquer brecha. Uma oferta tão generosa que deu um nó na garganta de Kiba. Ele percebia através do vínculo que Shino agia por pura generosidade e preocupação com seu bem estar. Porque é assim que um Alpha digno cuida do Ômega que escolheu, sem esperar nada em troca a não ser um tratamento justo e respeitoso. Tratamento que Kiba dispensava a todos que mereciam.

— Não é perda de tempo — o Alpha garantiu, interrompendo a torrente de pensamentos do outro — Usaremos a viagem para nos conhecer melhor. Já estive nessa vila, é um bom lugar. Tenho certeza que gostará de conhecer.

Kiba sorriu largo.

— Talvez eu não seja "Inuzuka Kiba", mas talvez eu encontre minha família! Caralho, Shino! Que emoção! To começando a ficar ansioso! Não vou nem dormir hoje. Acho que nem amanhã e nem depois... nossa! Que foda!

Ino riu. Shino ficou a um passo de pedir comedimento e que Kiba não alimentasse muitas esperanças. Porém calou-se sem dizer nada. Do pouco que o conhecia, já deduziu que era impossível pedir que ele não se empolgasse com as possiblidades mínimas de encontrar a família.

— Quando partiremos? — Ino se incluiu na conversa. Ficou óbvio que não permitiria que seu amigo de infância viajasse sozinho. Ela era seu braço direito e chefe da segurança. Tinha que garantir que ambos viajassem bem. Kiba recebia aulas de equitação e estava cada dia mais hábil no controle das rédeas. Ainda assim, percorrer a longa distancia seria cansativo. Exigiria dele, acostumado a sempre andar a pé. Exigiria de Shino, que mal saia de casa no decorrer de uma década.

Shino, entrementes, quase negou a companhia dela, parecendo mais sensato deixá-la no feudo tomando conta das coisas. Por alguns segundos colocou os prós e os contras na balança. Não pretendia demorar muito em Sunakure. No máximo um mês, ou pouco mais. O plantio mal começou, o tempo seguia promissor.

Seu contador podia tomar conta das coisas enquanto estivesse fora. Uma prática que acontecia no passado, quando Shino precisava viajar para fechar negócios em nome do feudo, papel relegado a Ino, desde o enceto de sua reclusão.

— Quanto tempo precisa para arrumar tudo?

— Três dias — Ino respondeu sem hesitar.

— Então partiremos em três dias.

Kiba sentiu o coração dar um salto no peito. As mãos suaram frio. Três dias... em três dias daria início a uma nova jornada, que poderia levá-lo a conhecer sua família verdadeira!

— Caralho! — exclamou mal cabendo em si de tantas emoções. Emoções tais que transbordaram em forma de energia, se espalhando pelo cômodo e por toda a casa. Alpha e Beta foram atingidos polo fluxo de chacra revigorante, jovial. Algo que tocou direto a parte shifter de suas almas e que, independente do resultado daquela viagem, deu-lhes a certeza de fazerem a coisa certa.

Com o fim da conversa, Ino despediu-se. Reclinou-se para bagunçar os cabelos de Kiba, cada vez mais a vontade perto do garoto. Acenou para o Alpha e saiu da sala. Queria aproveitar para descansar, antes de recomeçar os preparativos de volta à Sunagakure.

— Não acredito que tanta coisa boa aconteceu em tão pouco tempo! — Kiba levantou-se e começou a andar de um lado para o outro — Conheci você, encontrei um Hokage, a vida tem sido boa e agora isso! Não sei lidar.

Shino observou a movimentação ansiosa. Seu lado Alpha logo desejando acalmar o companheiro, sem diminuir a felicidade que ele sentia. E também... conseguir um pouco mais de intimidade, o maior problema de Shino, obviamente.

— Quer ajuda? — a pergunta tinha segundas intenções, mas Kiba nãos as notou — Para lidar...?

— Quero! — o garoto respondeu mais do que depressa.

— Venha aqui — Shino tocou o chão ao lado da almofada em que estava sentado.

Kiba pegou a própria almofada e foi sentar-se ao lado do Alpha, conforme pedido. Estava curioso e fervilhante, com mil pensamentos na cabeça. Bons e assustadores. Alcançar a chance de conhecer uma família era incrível! Embora houvesse o lado ruim de encher-se de esperança e descobrir que, talvez, aquela manta não fosse sua.

Que aquele nome não fosse o seu.

Estava há alguns dias de distância de ganhar alguém com quem compartilhava laços de sangue ou perder a identidade que acreditava ser a sua.

Shino estendeu uma mão, dando a entende que Kiba deveria lhe dar a própria mão. Foi obedecido a segunda vez. O calor da pele trigueira despertou coisas no Alpha que ele pensou ter esquecido, coisas em intensidade e proporções esmagadoras, porque ali envolviam um companheiro reconhecido.

Kiba assistiu em silêncio, o coração batendo descompassado, tão rápido quanto o sangue atingiu-lhe as bochechas, aquecendo a pele e todo o seu corpo. Shino estava perto, invadindo seu espaço pessoal, mas de um jeito que não sentiu intimidação ou receio. Pelo contrário. Ele estava perto, mas Kiba se viu desejando que o Alpha chegasse ainda mais para junto de si.

Então a outra mão de Shino estava em seu rosto, tocando com carinho. Quase com reverência, acariciando-o com os dedos dobrados, indo e voltando.

— É assim que se lida com isso — o Alpha falou baixinho — É assim que eu estou lidando: quando recebemos coisas boas, nós apenas aceitamos.

Fechar os olhos foi uma reação natural para Kiba. Em segundos a mão que acarinhava sua face deslizou para segurar-lhe a nuca. Gesto que serviu para puxar o garoto um pouco mais para frente. Lábios se tocaram ao mesmo tempo em que o Alpha se debruçava sobre ele, fazendo com que inclinasse as costas um pouco para trás. A diferença de alturas era significativa, mas desde que aceitou o laço de companheirismo, Kiba se acalmava pensando que ainda ia crescer um pouco mais, estava na fase de desenvolvimento.

A postura obrigou Kiba a também segurar na nuca de Shino, em busca de equilíbrio.

O segundo ato instintivo foi o gesto do Ômega de entreabrir os lábios. Nunca fez aquilo antes, mas parecia que era o certo. Shino sentiu a aceitação fluir pelo vínculo, muito mais contundente do que tudo. Aceitou o convite para aprofundar o contato, a intimidade.

Línguas se tocaram, e foi inenarrável. Kiba estremeceu de leve, as garrinhas arranharam a nuca de Shino, causando uma ardência ignorada na hora, embora dolorice bastante depois. E se o garoto aprendeu rápido as técnicas básicas de defesa, aprendeu ainda mais rápido como corresponder um beijo de língua.

— Ca-caralho — ele sussurrou quando se separaram, ainda tremendo de leve, a respiração toda bagunçada. Encarou Shino com os olhos semicerrados, sem enxergá-lo de verdade, entregue por completo as sensações novas e reações que seu corpo descobria.

O Alpha observou a face corada, sentindo o coração do companheiro batendo descompassado. Fez menção de puxá-lo para um abraço, apertando-o contra si.

De novo experimentou aquela intensa sensação de posse. Não como se Kiba fosse um objeto a ser possuído. Mas naquele sentido de tê-lo ao lado, construindo um futuro junto a si. No fundo sabia que era uma faceta egoísta de se nascer Alpha, que não podia controlar. Todavia, sua maturidade ajudava a agir com ponderância.

Quis acalmá-lo, mostrar que não precisavam ir com pressa. Mas Kiba impediu o gesto, movendo-se depressa e colocando as duas mãos espalmadas contra o peito de Shino, que não compreendeu o gesto.

Envergonhando, Kiba desviou os olhos para o lado.

— Eu entendi — falou baixinho, fingindo não sentir até as orelhas esquentar — Quando a gente recebe algo bom, apenas aceita.

Foi dizendo isso e movendo as mãos, para segurar o rosto de Shino, ao mesmo tempo que em voltava a encará-lo. O Alpha acenou muito de leve, pegando o que estava nas entrelinhas. Foi a vez dele fechar os olhos e aguardar que Kiba esticasse um pouco o pescoço e lhe retribuísse o beijo. Mãos de dedos fortes prenderam o Ômega pela cintura e o trouxeram para mais perto.

Retomaram o beijo, que foi o segundo daquela noite. Mas não o último.