Marcas da Solidão
Kaline Bogard
A viagem de Aburame Shino deixou o feudo em polvorosa. Lançando a animação a níveis astronômicos.
Não por causa do velho ditado "quando o gato sai, os ratos fazem a festa". Mas pelo quanto de cura aquilo representava. Cura das feridas que não se podia ver, enraizadas na alma. Grilhões pesados que confinavam o Alpha em sua própria residência.
Os camponeses ouviam histórias inacreditáveis, sobre como Ômegas eram incríveis. A maioria não levava a sério, entendendo como causos de shifters que pretendiam se gabar. E ali, naquele feudo, vivenciavam que nada tinha de fantasioso em tudo que ouviram.
Um Ômega chegou às escondidas cerca de um mês passado. E em curto período de tempo fez o Alpha senhor das terras sair de casa, socializar com os camponeses e, naquela manhã, sair para uma viagem até o país vizinho.
Milagres. Milagres de uma casta ameaçada de extinção.
— Está tudo pronto, Aburame-sama — Ino aproximou-se do amigo para fazer o relatório. A caravana resumia-se a duas carroças carregando mantimentos, roupas e acessórios para montar acampamento com algum conforto. Enfrentariam trechos de deserto puro, sem civilização por perto.
Também seriam seguidos por uma carruagem. Para que pudessem revezar a cavalgada e não exigir demais das montarias. Dois ninjas iriam a paisana, e um grupo os acompanharia nas sombras, camuflados, para garantir que nada de ruim acontecesse.
Os Betas mais velhos de cada plantação vieram desejar boa viagem e um retorno breve. Gesto respeitoso que se refletia em todos que estavam ali. Infelizmente os demais precisavam cuidar dos campos. Já receberam folga depois do festival e não podiam se descuidar demais.
Shino aceitou os cumprimentos com um aceno de cabeça, sinal que serviu de permissão para partirem. Ele tomou acento no imponente alazão branco, esperou Kiba acomodar-se no cavalo castanho com manchas brancas. Ino cavalgaria no preto.
Então o Alpha lançou um breve olhar na direção da casa, seu refúgio seguro por anos. Ou talvez a alcova em que escondia os medos e o fracasso que enfrentou no passado. De um jeito ou de outro, aquela casa foi o que lhe fez sentir mais calmo e acolhido. Que agora era substituída por algo bem menor e muito mais inquieto. Algo de carne e osso. Vivo. Que não conseguia parar sossegado em cima do cavalo, já fascinado em pensar sobre tudo o que encontrariam naquela viagem. No final da jornada.
Uma pequena e frágil ancora, que enchia Shino de coragem e tornava sua parte Alpha ainda mais forte graças ao desejo de cuidar e proteger.
O ômega foi o impulso que precisava para abrir mão de sua solitária segurança, lançando-se numa aventura inusitada.
Shino lançou um derradeiro olhar ao lar e aos Betas que se despediam em silêncio.
E eles partiram.
A manhã toda foi usada para atravessar as terras do feudo. Shino ia a frente, com Kiba cavalgando ao largo da estrada. Ino cuidava do restante da caravana.
— Acho que aqui já posso colocar o colar de novo, não?
Tinham conversado sobre aquilo e concluído que ocultar a essência Ômega era uma medida inteligente. A presença acolhedora alcançava cada vez mais longe, talvez pelo nível de empolgação que Kiba sentia e podia atrair curiosidade e atenção indesejadas.
— Sim — Shino concordou.
O garoto tirou o velho cordão do alforje da cela e o passou pelo pescoço, tendo o cuidado de esconder bem por dentro do kimono. Imediatamente a presença desapareceu sem deixar vestígios. Ino resmungou lá atrás, mas sua manifestação de desagrado não chegou à ínfima parte da falta que Shino sentiu.
Se acostumou tanto a presença do companheiro. Agora não podia captar aquela essência Ômega a qual se apegou. Tudo o que sobrou foi... aquela sensação esquisita que chamou-lhe a atenção durante as bênçãos às plantações. Se não tivesse certeza que aquele garoto era um Ômega, ele podia bem passar despercebido, como um Beta de fraca energia.
— É a primeira vez que viajo acompanhado — Kiba falou de repente, ganhando a atenção de Shino — Já acho muito melhor do que ir sozinho.
— Eu costumava viajar bastante — Shino falou distraído.
A frase despertou a curiosidade do garoto, que puxou a rédea do cavalo e o levou para mais perto do homem. Quis agarrar a chance de ouvir mais sobre o passado dele.
— Para fazer negócios?
— Não. Eu fazia parte de um time ninja — revelou — Junto com Naruto e Sakura.
— O Hokage?!
Shino nem se surpreendeu com a reação exagerada.
— Ele já foi um ninja como os outros.
— Essa Sakura...?
— Tornou-se médica. Foi ela quem cuidou de você quando seu chacra saiu do controle.
— Ah... espero um dia conhecê-la. Mas sem ficar doente, claro! — quando recuperou a consciência, a médica já tinha voltado para suas obrigações no hospital — E por que saiu do time ninja? O que um time ninja faz? Posso entrar em um também? To ficando muito forte graças às nossas aulas!
Shinou virou-se para o lado do Ômega, analisando-o. Era empolgação demais para um garoto só! Como ele conseguia conter tudo isso, para não chamar atenção desnecessária? Teve uma pequena suspeita, talvez mais uma alimentação do próprio ego do que outra coisa. Mas Shino viu uma nova faceta da situação: talvez o vínculo que tinha, o elo que nasceu entre eles, passasse segurança o bastante para que Kiba não se preocupasse com discrição. Não conseguia explicar direito, apenas deduzia com base nos pressupostos.
Uchiha Sasuke, com sua personalidade difícil, agia ao máximo da arrogância permitida pelo apoio de Naruto. Porque a conivência do Hokage era o combustível que ele precisava.
Em um paralelo adaptado ao caráter de Kiba, agora ele podia ser todo expansivo e comunicativo, porque ter o apoio de Shino agia como esse mesmo combustível. Ou talvez fosse uma hipótese criada por seu lado Alpha apaixonado.
Apaixonado...
Apaixonado?!
— Shino? Perguntei algo que não devia? — a voz de Kiba veio um tanto insegura. Tirou Shino de seus pensamentos no momento mais conveniente possível.
— Não, não perguntou. Konoha é uma vila com foco militar. Mais importante até do que as plantações de arroz. Temos uma Academia que treina ninjas e os usa para resolver missões para Konoha, para o País do Fogo e qualquer outro que possa pagar. Fiz a Academia e me formei. Cheguei a realizar algumas missões, mas meu pai faleceu e tive que optar entre o feudo e o caminho ninja.
— Ainda bem que escolheu o feudo — Kiba sorriu. Então sentiu o olhar de Shino se intensificar por trás das lentes e compreendeu o que tinha dito. O rosto corou quase por completo — Não que... a outra opção... eu...
O Alpha deu um desconto. Desviou os olhos para a frente da estrada.
— Você não pode entrar em um time. Porque não fez os quatro anos de Academia. E pelas leis de Konoha, Ômegas não podem se tornar ninjas e sair em missões. Existe um Ranking de perigo e qualquer situação que arrisque a vida de um Ômega é proibido.
— Que injusto!
— Nem tanto. Vocês têm força física e resistência menor do que um Beta, isso é fato. Enviar um Ômega em missão, por mais habilidoso que ele seja, é permitir que o time tenha um ponto fraco.
— Então pra você somos a fraqueza da raça? — Kiba perguntou de mau-humor.
— Não. É o contrário: são tão importantes que o resto do time arriscaria a vida para defender. Você esteve a vida toda em um lugar ruim, por isso é difícil de acreditar. Mas os nascidos Ômega são cada vez mais raros. Sem vocês, os shifters serão extintos. Valorizar Ômegas é valorizar todas as castas.
Kiba refletiu por segundos, em silêncio. Embora o mau humor amainasse um pouco.
— Em Gin-Io as crianças sofriam mais, porque os mais velhos tentavam roubar a comida deles. Eu me metia no meio pra defender quem não conseguia, mas nunca pensei neles como um elo fraco. É isso que você quis dizer? É assim que os Alphas e os Betas se sentem em relação aos Ômegas?
— Sim, algo assim.
— Então porque nos tratavam tão mal no meu país? Não faz sentido.
Shino não tinha resposta para dar, e essa impossibilidade doeu um bocado.
Fizeram mais um pouco da viagem em silêncio, parando apenas com o sol a pino para preparar o almoço e descansar. Menos de uma hora depois retomaram a marcha e avançaram o resto do dia, sem que qualquer problema lhes cruzasse o caminho.
A primeira noite seria feita sob céu aberto, ainda em solo de Konoha, mas a boa distância do centro da vila. A previsão era deixar o País do Fogo ao alvorecer do dia seguinte. O clima mudou um pouco, a medida que o vento trazia resquícios do deserto para onde avançavam. E ficaria pior, cada vez mais quente.
Os dois ninjas a paisana e os cocheiros prepararam as barracas. Kiba ajudou Ino a preparar ambas as refeições, tanto no almoço quanto no jantar. Nada que surpreendesse Shino. Para sobreviver no mundo lá fora, saber cozinhar era um dos requisitos. Andaram bastante naquele dia, e apesar da resistência menor, o Ômega estava tão bem quanto os Betas e o Alpha, mostrando que se acostumou a viajar por tanto tempo que o corpo se fortaleceu mais do que o padrão de sua casta.
Na hora de dormir, Kiba puxou seu saco acolchoado para o lado do Alpha, sem precisar de convite. Quis dormir ao pertinho dele. E se não fosse a presença dos outros shifters, até arriscaria trocar algumas carícias.
Depois de dado o primeiro beijo, uma experiência tão boa, queria descobrir tudo sobre os meandres da intimidade entre duas pessoas. Queria que aquele Alpha, seu companheiro reconhecido, o ensinasse ainda mais.
