Marcas da Solidão
Kaline Bogard
Logo a entrada do Conselho, Kankuro foi recepcionado por funcionários a quem encarregou de levar os cavalos e os Betas, assim como o resto da bagagem de Shino para acomodações a altura de seu status social.
Ino continuou com o Alpha e o Ômega, assim como os ninjas infiltrados nos arredores. Kankuro nem pensou em impedi-la de estar ali. Primeiro, porque não era intenção dele ou de Gaara de um primeiro encontro cheio de tensão. Segundo, sendo da segurança de Aburame, conforme as investigações revelaram, aquela mulher não aceitaria que atrapalhassem sua função de braço direito. Assim dito, Ino ficou a porta da sala principal, junto a Kankuro; enquanto Shino e Kiba seguiam para serem apresentados ao Kazekage.
Uma figura bem diferente do que esperavam.
Parado perto da janela, estava um Alpha jovem para o posto, ruivo, de intensos olhos verdes contornados de preto. Uma figura de autoridade inquestionável. Muito diferente de Uzumaki Naruto.
— Por gentileza — indicou as cadeiras em frente a escrivaninha — Aburame-san.
Os visitantes obedeceram, Kiba fazendo questão nenhuma de disfarçar a curiosidade em analisar a sala, todas aquelas estantes cheias de livros e pergaminhos enrolados! Quanta formalidade!
Shino não estranhou mais o jeito selvagem. Quanto mais pensava no passado daquele garoto, mais se dava conta de que ele não teve a educação formal que socialmente se oferta às crianças. Não podia cobrar uma postura que nunca foi ensinada. Não que o Ômega agisse como uma besta irracional. Kiba era esperto, agia e aprendia rápido, além disso, tinha excelente visão do que era certo e errado, e do que precisava fazer para sobreviver. Só lhe faltava um pouco de sutileza.
Tudo isso foi desvendado por Shino durante a breve convivência. Não estranhou o olhar agudo que Sabaku no Gaara lançou para o Ômega, a sobrancelha levemente erguida, único sinal perceptível em sua face que revelava como ele se sentiu.
— A recepção que nos enviou me surpreendeu — Shino comentou enquanto se sentava.
— Aa — Gaara voltou-lhe os olhos com certo custo, intrigado com o jeito de Kiba, que agora estava bem quietinho no lugar, sentado ao lado de Shino — Não é comum vermos uma comitiva tão pequena acompanhando um Ômega. A bem da verdade, não é comum vermos um Ômega cruzando fronteiras sem um motivo oficial.
— Não é uma viagem formal ou de negócios.
— Por isso o acônito? — Gaara recostou-se contra a cadeira.
— É contra as leis de Sunagakure? — Shino perguntou. Sabia que não era, mas ainda não entendia porque foram chamados ali.
— Não — Gaara respondeu seco, compreendendo o jogo e aceitando rebater à altura — Claro que não é. Quero saber porque um senhor feudal como você, Aburame Shino, viajaria para minha vila acompanhando um Ômega escondido por acônito, depois que sua Beta andou investigando alguns moradores de Sunagakure.
— Ca-caralho! — Kiba exclamou olhando para Shino — Ele sabe de tudo! — apontou para o Kazekage.
— Kiba... — Shino respirou muito fundo.
O queixo de Gaara caiu de leve, deixando-o com um engraçado ar abobado que não combinava a com a postura rígida.
— Eu não devia ter falado "caralho"? Desculpa, não quis soar ofensivo. Eu... hum... você não descobriu nada, Kazekage-sama. Não sei nem quem é essa Beta que veio investigar aqui, me confundi com um livro que estava lendo.
Shino se perguntou como aquele garoto conseguiu sobreviver tanto tempo incógnito! Ele chegou bem longe, precisava reconhecer o mérito. Ou talvez proteção divina. É. Kiba entrar em seu caminho era um sinal do além, que explicação daria para algo que soava como obra dos deuses?
— Este é Inuzuka Kiba, um Ômega do leste que agora mora em meu feudo. Estou ajudando-o a encontrar a família. Minha Beta veio atrás de uma pista — Shino não viu necessidade de esconder essa parte da história. Se fosse bem sincero, não era recomendado esconder nada. Porque as chances de Kiba estragar algum disfarce sem querer eram grandes, a mente dele não parecia apta para melindres elaborados demais. E Gaara deixava bem claro como sua rede de informações era eficiente.
— Do leste? E a família dele vive aqui? — obviamente algo não se encaixava na história.
— Sim — Shino respondeu.
— Mas não é certeza. Pode ser alguém da minha família. Desse Clã — apontou as marcas vermelhas no rosto — Inuzuka. Conhece? Espero que seja minha família, mas to tentando não ficar muito empolgado, sabe? Se não for, terei que começar do zero! A hipótese é eu ter nascido aqui e ter sido separado da minha mãe contra a vontade dela.
Gaara apoiou os cotovelos sobre a mesa e cruzou as mãos a frente do rosto.
— Você é um Ômega bem peculiar — não escondeu o interesse.
— Ouço bastante isso — Kiba olhou em volta — Vocês esquecem que eu cresci no leste. Ser Ômega no leste é muito diferente do que aqui. Lá a vida é dura e massacra a gente. Claro que os Ômegas de lá são diferentes dos de cá. Assim... ai!
Levou a mão ao pescoço, acertando um tapa de leve. Algum bichinho o picou!
— Está tudo bem? — Gaara perguntou.
Shino se mexeu inquieto na cadeira. Teve que usar um de seus insetos, antes que Kiba revelasse demais.
— Ta tudo bem sim — o garoto resmungou — Desculpa, eu fico falando e falando. Mas só quero saber se a pessoa que vive aqui é mesmo minha família ou não. Kazekage-sama conhece esse Clã?
Gaara olhou de Kiba para Shino e de Shino novamente para Kiba.
— Inuzuka. Sim, conheço o clã.
— Jura?! — Kiba quase saltou da cadeira.
Shino estreitou os olhos por trás das lentes escuras. Que conveniente...
— Sim — Gaara respondeu mais para Shino, cuja postura corporal tornou-se quase imperceptivelmente mais tensa — Uma Beta de Konoha andou perguntando sobre o Clã. Chamou minha atenção e eu fui pesquisar. Descobri que esse Clã veio de Konoha.
— Os Inuzuka vieram de Konoha pra Sunagakure? — Kiba surpreendeu-se — Mas Naruto, digo, o Hokage não reconheceu as marcas. O Shino também não... — virou-se para o companheiro, com uma clara interrogação em suas feições.
— Isso foi há muito tempo — Gaara continuou a explicação — Depois da grande guerra, antes mesmo dos nossos avós terem nascido. Vieram ajudar na reconstrução de Sunagakure e acolheram essa vila como novo lar.
— Ah... entendi. Então não tinha como o Shino ou o Naruto reconhecer as marcas.
— Hn. A essa altura sua investigação já descobriu onde a pessoa mora, presumo? — Gaara perguntou para Shino.
— Sim. Sabemos para onde ir.
— E é só isso? Uma busca familiar? — Gaara soou neutro. Tentou pegar alguma mentira no ar, sobretudo quando o suposto Inuzuka Kiba falou sobre a vida difícil de um Ômega no leste. Um absurdo impossível de se acreditar. Norte, sul, leste ou oeste; em qualquer direção, os governos shifters acertaram a decisão unanime: a existência das três castas era fundamental para a preservação da raça. Se Ômegas estavam desaparecendo, então a prioridade era protegê-los! Não o contrário.
— Sim — foi Kiba quem respondeu — Pra mim já tá de bom tamanho. Eu... eu não quero soar rude, Kazekage-sama, mas eu queria mesmo ir investigar minha família. Você convidou a gente pra te conhecer e é uma honra mas... será que a gente pode ir agora e continuar se conhecendo um outro dia?
O pedido foi tão sincero e tão ansioso, que Gaara percebeu que não se tratava de engodo ou de algum esquema escuso. Claro, desconfiou que havia muito por baixo daquela história esquisita. O Alpha de Konoha claramente pisava em ovos. Numa postura atenta, quase defensiva. Talvez, quem sabe, uma conversa de Alpha para Alpha fosse mais produtiva?
— Não vou retê-los mais. Espero que antes de partirem Aburame Shino-san me dê a honra de uma conversa em particular.
Shino concordou com um aceno de cabeça. Mas, como ambos os Alphas sabiam, ele não estava em posição de recusar o convite.
Os três se levantaram e o governante de Suna os acompanhou até a porta, abrindo-a em um gesto cortes.
Ino observou atentamente seus amigos, dando-se por satisfeita. Não sentiu nada hostil durante a conversa, quando Alphas se irritam e se confrontam, é perceptível a longa distância. Por sorte, nem Shino nem Gaara possuíam perfil assim inflamado.
— Kankuro fez a gentileza de me passar o endereço da pousada e me explicar onde fica — ela foi dizendo, sem saber se queriam ir direto para lá ou procurar a família Inuzuka.
— Não foi nada! — Kankuro desconversou, cruzando as mãos atrás da nuca — Em troca a convidei para beber algo, mas fui recusado! Vou acompanhá-los até a saída, venham comigo.
Fez um gesto indicando que os convidados deveriam ir na frente, lançou um olhar significativo para o irmão caçula, antes de sair também.
Gaara cruzou os braços e assistiu até que dobrassem o corredor. Tinha curiosidade e expectativas para o encontro, mas o resultado era muito melhor do que esperou! Havia a possibilidade daquele Ômega ter nascido em Sunagakure. E Ômegas eram considerados o maior tesouro da vila.
Pois; pela lei, os tesouros de Suna deviam permanecer em Suna...
