Marcas da Solidão

Kaline Bogard

— E o que ele queria? — Ino perguntou quando se afastaram o bastante do conselho. Iam a pé, puxando as montarias pela rua. Havia certa dificuldade, pois muitos shifters transitavam de um lado para o outro. Dispensaram a companhia de Kankuro, quando ele se ofereceu para guiá-los.

— Saber porque viemos aqui — Shino respondeu.

Algo no tom de voz colocou Ino em alerta. Kiba notou algo errado, mas foi no fluir do vínculo.

— Também não entendi bem as intenções dele — o garoto suspirou — Eu cometi umas gafes lá, né? Me desculpa, Shino. Foi sem intenção. Não quero colocar você em maus lençóis.

— Não se preocupe, não foi nada irremediável. Mas... tem pontos na sua história que são realmente difíceis para nós acreditarmos. Por isso peço que não conte para desconhecidos.

Kiba ergueu os olhos para o companheiro hesitando em continuar a conversa. Tal hesitação não era algo a que Shino estivesse acostumado desde que o vínculo começou a ligá-los.

— Quer ir direto atrás dessa pessoa do seu Clã? — ofereceu desejoso de que a tristeza do Ômega sumisse. E sumiu, mas foi substituída por puro nervosismo!

— To meio suado, não seria melhor tomar um banho antes, arrumar as marcas do meu rosto e... respirar um pouco?! Eu... eu não to com medo! Só que eu tenha feito desse o objetivo da minha vida, desde que eu era um pirralhinho! Agora eu to a um passo de... é meio foda, sabe?

Shino aproveitou que caminhava ao lado dele e entrelaçou as mãos de ambos.

— Eu sei. Estarei ao seu lado o tempo todo. Está anoitecendo, se quiser podemos ir amanhã pela manhã.

— Obrigado! — a palavrinha não fez efeito algum, porque Shino sentiu-se entorpecido pelo brilho do sorriso que recebeu.

A hospedaria era boa, excelente na verdade. Eles foram recebidos e encaminhados para bons quartos, seguindo orientações do irmão do Kazekage. As roupas e pertences já estavam lá dentro, aguardando por seus donos.

Shino e Kiba dividiriam o mesmo aposento. Um quarto amplo, com duas camas e colchões macios, bem diferentes do padrão oriental. Mas Kiba adorou. Nos cantos, pequenos recipientes cheios de óleo aromático, que deveriam ser acesos durante a noite, para que o bom cheiro se espalhasse enquanto as chamas controladas aquecessem o quarto, protegendo-o das noites frias do deserto.

Uma porta conjugada levava a um banheiro, com uma grande tina de madeira, interligada a um fogareiro. Mas o fogo estava apagado. A intenção era usar a peça durante a noite, pois naquela hora ainda estava quente, água fria era mais aprazível. Ali também encontraram potes de barro com óleo.

Kiba tomou banho primeiro. Lavou-se bem, tirou as marcas do rosto e a areia dos cabelos. Adorou o sabão de ervas que foi disponibilizado. Fez tudo isso sem tirar o cordão do pescoço, claro. Já teve o bastante da conversa com o Kazekage pra ficar por aí exibindo sua essência.

Em seguida foi a vez de Shino. O Alpha aproveitou para tomar um longo banho, deliciado com o cheiro que Kiba deixou no banheiro, o aroma do corpo jovem envolto em ervas como camomila e sálvia.

Era um sentimento ambivalente. A parte Alpha se deleitava, mas seu lado humano se censurava pela conduta um tanto indecorosa. Todavia, era algo além do seu controle, era a parte irracional falando mais alto.

Saiu do banheiro e encontrou Kiba debruçado na janela. Àquela altura a noite já tinha caído por completo. A cena da janela era encantadora: todas as casinhas exibiam lamparinas de fogo iluminando tudo, vários pontos avermelhados ondulado a se perder de vista, ou melhor, até alcançar o alto muro.

No céu, um tapete negro perfurado por estrelas muito semelhante ao de Konoha. Igual ao céu que acompanhou Kiba por toda sua caminhada. Nostalgia emanava do Ômega, e algo que Shino não soube identificar.

Prostrou-se na janela ao lado dele, enviando ondas de consolo.

— O Kazekage é um Alpha legal, tipo... você e o Naruto. Tão diferente do que eu estou acostumado.

— Kiba...

— Os Alphas do leste não são assim. Não to mentindo.

Shino o pegou pela mão e o puxou para se sentar na cama.

— Sei que você está dizendo a verdade. Mas nós conhecemos Alphas do leste que são como a gente: se preocupam e cuidam bem dos Ômegas.

— Mas e os do meu país? Por que são diferentes?

— Não tenho essa resposta, Kiba. Mas estou investigando. Você fugiu do distrito e investigou Gin-Io?

A pergunta fez o garoto balançar a cabeça muito rápido. Uma onda de vergonha atingiu Shino de modo inesperado.

— Não sou covarde! Mas... fugi pela floresta e evitei todo tipo de contato. Fiquei com medo até dos Betas! Andei pra caralho e andei mais! Acho que... vaguei por meses sem sair da floresta ou chegar perto de alguém, pescando e comendo só frutas! Daí tive coragem de entrar em uma cidade, mas não falei com ninguém. Foi assustador — suspirou — Eu só via Alphas e Betas, nada de Ômegas! Tive medo que estivessem em distritos e alguém tentasse me levar pra um, se descobrissem a verdade. Mas pra sobreviver eu consegui um emprego lavando pratos. Eu estava sujo, desgrenhado, mas mesmo assim me contrataram em troca de comida. E foi mais ou menos assim que consegui sobreviver. Longe dos Alphas, com pouco contato com Betas.

— Então você não teve contato com Alphas fora do distrito? De fora do seu país?

— Só o que não dava pra evitar! Nem queria. Até encontrar você. Em Gin-Io eu era teimoso e burro no começo, me encrencava direto com eles. Acabava com a orelha quente ou com o nariz partido. Dai fui crescendo e aprendi um pouco de juízo. E parei de apanhar tanto, porque é melhor ficar na minha, dá raiva mas não machuca.

Shino teve certeza que aquela era mais uma peça que confirmava a hipótese de Naruto. Ele acreditava que o distrito podia ser algo fora da lei. Os Ômegas permaneciam presos lá dentro, a mercê da vontade dos Alphas e ignorando a realidade, a tal ponto que fez Kiba acreditar que todos os Alphas eram maus daquele jeito.

Pessoas comuns se transformavam quando a oportunidade aparecia. Talvez o distrito reunisse ilegalmente Ômegas e, de algum jeito, Alphas tinham acesso e liberdade de fazer o que quisessem com aqueles pobres shifters.

Se Kiba não tivesse fugido, passaria a vida toda daquele jeito...

Os insetos se remexeram sob sua pele com rancor. Sentiu vontade de descontar a raiva que o acometeu se vingando de quem cuidava daquele distrito.

— Como conseguiu o acônito?

— Não sou muito inteligente. Mas sou bem esperto. Um dia um Ômega foi castigado por estar com um pouco dessa planta — pescou o cordão de dentro das roupas — Não sei como ele conseguiu, mas eu entendi que não fazia bem pros Alphas e pros Betas. Não foi fácil conseguir um pouco e eu arrisquei a vida! Valeu a pena.

Depois disso o silêncio caiu entre eles. Kiba ficou meio cabisbaixo, refletindo sobre tudo que enfrentou, enviando os sentimentos conturbados para o Alpha, através do vinculo.

— Kiba.

— Desculpa, coloquei você no mesmo patamar dos Alphas que eu conheci, mas eles eram minha única referência. Não acho mais que todos da sua casta sejam maus. Você, o Naruto, até o Kazekage me trataram diferente do que eu esperava. É confuso.

Shino passou um braço pelos ombros do garoto e o puxou de encontro ao próprio corpo.

— Não podemos mudar o passado, mas o futuro será muito melhor.

Kiba aconchegou-se no calor e no cheiro de Shino, encostando o rosto no peito do Alpha no ponto certo para sentir o coração bater tranquilo.

— Passado. Ainda não sei nada sobre o seu passado... — o corpo de Shino ficou tenso, Kiba captou a relutância — Não quero te pressionar.

A resposta de Shino foi quebrar o abraço e se afastar um pouco.

— Tem razão. Eu não sou bom em enfrentar o passado, pode comprovar isso pelo fato de ter me escondido e fugido do resto do mundo — Shino foi dizendo isso ao mesmo tempo em que tirava os óculos escuros do rosto.

Kiba entreabriu os lábios de choque. Uma cicatriz vertical revelava o corte de uma lâmina afiada, que correu por sobre os olhos daquele Alpha. O olho direito não enxergava mais, a íris totalmente branca, destruída pelo ferimento. A esquerda ainda realizava sua função, parcamente, já que também havia sido ferida.

— Shino!

— Não estou pronto para falar sobre isso. Talvez nunca esteja. Mas esse é o único ponto obscuro que guardo comigo, você pode perguntar o que quiser sobre o restante da minha vida. O dia em que ganhei essa cicatriz foi o dia em que perdi minha esposa e o bebê que tinha acabado de nascer.