Marcas da Solidão

Kaline Bogard

Não estou pronto para falar sobre isso. Talvez nunca esteja. Mas esse é o único ponto obscuro que guardo comigo, você pode perguntar o que quiser sobre o restante da minha vida. O dia em que ganhei essa cicatriz foi o dia em que perdi minha esposa e o bebê que tinha acabado de nascer.

— Shino!

O Alpha não disse mais nada. Retomou o abraço desfeito, apertando Kiba contra seu corpo. O calor envolvendo o Ômega junto com sentimentos pesados, que esmagavam seu coração como se fosse sua própria dor. Confirmou mais do que nunca que o passado de Shino trazia sofrimento e feridas não curadas. Remexer só faria mal.

— Tudo bem. Você disse que eu sou seu companheiro e eu aceitei, sem nem saber do seu passado. Quando for o momento certo, você me conta tudo.

— Aa — concordou.

— Agora eu te conheço um pouco mais do que conhecia antes, tá bom. De pouquinho em pouquinho eu gosto mais de você!

Shino sorriu. Aquele Ômega não tinha muita noção, porém às vezes acertava em cheio.

Fizeram o jantar no quarto aquela noite. O cansaço falando mais alto. As iguarias de Sunagakure conquistaram o estomago de Kiba! Os pratos exóticos eram bem diferentes dos típicos de Konoha, mas o Ômega não tinha nenhum preconceito cultural quando o assunto era comida.

Depois, cada um foi para a própria cama. E assim teriam terminado a noite, se Kiba não se esgueirasse de madrugada, sentindo frio apesar dos fogareiros com óleo aromático, e fosse se acomodar na cama de Shino que prontamente o acolheu em seus braços. O ato foi ousado, realizado sonolento, quando a essência Ômega de Kiba pareceu mais no controle do que sua parte racional, pois ele ainda sentia a tristeza do homem minando fraquinho. E confortar alguém que sofre é uma premissa da sua casta. Quando envolvia o companheiro reconhecido era uma súplica impossível de ignorar.

Pela manhã, depois de uma noite longa, Kiba levantou-se. Nem pareceu se dar conta de ter dormido na mesma cama que o Alpha. Naquele momento se mostrou um Ômega que era pura empolgação, ansiedade, receio, medo... uma miríade de sensações que deixou Shino tocado.

— Está tudo bem? — o Alpha indagou.

Kiba, que andava de um lado para o outro do quarto, agitou as mãos.

— Não sei. To tendo uns negócio esquisito na barriga, mas não é vontade de ir no banheiro. Acho que não é. Melhor tentar ir? Não! Não é vontade de ir no banheiro! Eu... eu não acredito que to pertinho assim de encontrar alguém da minha família, sabe? Tantos anos, desde que eu era um pirralho, tinha esse objetivo na cabeça: vou encontrar os Inuzuka. E olha onde eu cheguei!

Shino sentou-se na cama. Massageou o pescoço com as mãos, o corpo relaxado apesar de dividir o pequeno espaço com outra pessoa.

— Só posso imaginar como é isso.

— É foda! — Kiba sentou-se ao lado dele — Eu sei que pode dar em nada! E aí... nem Inuzuka Kiba eu serei mais. Mas... sei lá, meu coração tá ansioso. Shino, não aguento essa tensão!

O Alpha segurou-lhe as duas mãos.

— Não se preocupe, Kiba. O que você não aguentar, eu aguento por você.

O conforto não foi oferecido apenas nas palavras, mas fluiu pelo vinculo que os ligava. Kiba aceitou, feliz.

— Obrigado. Queria ter conhecido mais Alphas como você!

Depois de todos aqueles anos sofrendo nas mãos de Alphas, ele encontrava um que era gentil. Mais de um até. Seria tão bom se os Ômegas que ficaram em seu país tivessem oportunidade igual! Descobrir que nem todo Alpha era um monstro que gostava de judiar.

Mas Aburame Shino foi aquele que se tornou especial.

Acalmando-se visivelmente, Kiba sorriu. A barriga roncou, sinal de que estava com fome. Shino aproveitou a deixa. Era hora de pedir o café da manhã, refeição que fariam no quarto antes de ir se encontrar com a pessoa que os trouxe até Sunagakure. Ainda que tal pessoa não soubesse ser o alvo da longa viagem.

A refeição matutina foi tão bem apreciada por Kiba quanto o jantar. Diferente de Konoha, ali eles receberam muitas frutas, tâmaras e figos, assim como assados e pão recheado com variados grãos.

Kiba comeu até se fartar. De um jeito que Shino sempre se perguntava para onde ia tanta comida! Em seguida o Alpha se lembrava que o pequeno era um hiperativo quase incontrolável. Queimava fácil a gordura extra! E ele ainda era jovem, estava terminando a fase de crescimento. O corpo precisava se alimentar bem para amadurecer de acordo.

Mas, no fundo, Shino sabia que a gula de seu companheiro estava ligada à experiência de passar fome. Kiba jogou no ar e não detalhou a vida ruim em Gin-Io, mencionando várias vezes que precisavam lutar para sobreviver. No jantar com Naruto ficou óbvio que a situação era crítica. Se perguntava quantas e quantas vezes o menino foi dormir com fome...

— Vou tomar banho antes — Kiba disse. Então hesitou a porta do conjugado — Me ajuda?

A pergunta golpeou a ambos. O Ômega não soube dizer de onde veio o desejo de ter um Alpha junto a si no momento de intimidade. Foi como se a parte animal assumisse o controle e desse um passo importante. Porque o Ômega conseguia ver e sentir além do que estava diante dos olhos, com a percepção sobrenatural captava nuances que Kiba jamais veria. E ditava o próximo passo, ainda que a parte racional não compreendesse. Naquela curta existência, Inuzuka Kiba aprendeu a confiar na intuição. Por isso não recuou, mesmo que o pedido soasse estranho.

Shino sentiu a surpresa e relutância alheia, que culminaram em um convite não apenas verbal. Tudo no Ômega, de sua postura corporal ao cheiro que se desprendeu e se espalhou pelo ambiente. Um conhecido aroma de frutas agridoces, tão diferente do que estava acostumado. Toda experiencia que teve com Ômegas, inclusive com Sasuke, era marcado por cheiros doces, por vezes enjoativos ao olfato de Shino. Mas seu Alpha reagiu bem ao cheiro de Kiba, o cheiro daquilo que também viria a ser sua fruta preferida.

Morangos. Era um perfume tão extasiante que não lhe deu opção a não ser aceitar a oferta. Ou melhor, talvez o aroma diferenciado e sedutor tenha sido a desculpa perfeita para Shino dizer sim a algo que desejava secretamente!

Levantou-se da cama e foi ao banheiro, checar a temperatura da água. O braseiro estava apago, mas em Suna o sol castigava forte desde muito cedo.

— Prefere aquecer a água? — perguntou por via das dúvidas.

— Não, tá bom assim — seria ótimo para acalmar o corpo em brasas.

Tirar a roupa foi muito mais fácil do que imaginou! Kiba pensou que seria um momento constrangedor, mas agiu de forma tão natural que se sentiu até um pouco surreal. Podia adivinhar os olhos do Alpha presos em cada movimento seu, até que estivesse despido e pronto para o pré-banho.

Shino aproximou-se, lento. O Alpha mais no controle das ações do que sua parte racional, embora não tomasse a situação como algo meramente sexual. O que estava em jogo ali era muito mais profundo, muito mais primordial.

Era um ritual de fé. O Ômega arriscava tudo, apostando sua confiança no Alpha que escolheu como companheiro. Um passo ousado e corajoso que não seria ofertado a mais ninguém no mundo.

Perder o controle e atacar um Ômega, principalmente um que emanava o cheiro tão agradável era algo que um Alpha qualquer faria sem pensar duas vezes.

Menos Aburame Shino, emocionado com a entrega. Carinho e cuidado lhe eram pedidos naquele instante. E ele estava mais do que disposto a oferecer. Pois foi com gestos acurados que cuidou do Ômega, não apenas por ele ser um Ômega, mas por ser o seu Ômega.

O ajudou a tomar o pré-banho, usando sabonetes que em nada diminuíram a essência propagada pelo ambiente, ínfimo perto do aroma que encantou o Alpha. Assim como ajudou a entrar na grande tina de madeira, para a parte final do banho.

Por um breve instante sentiu a presença conhecida da Beta se aproximar do quarto, mas isso sumiu tão rápido quanto veio. Só então se deu conta de que seu cérebro focava no cheiro de Kiba, mas o Alpha emanava intenções agressivas para fora daquele banheiro, na intenção de proteger o território e assustar qualquer rival! Imaginou como estaria incomodando os demais hóspedes... não que fosse parar por causa disso. Não se importou nem um pouco! Só achou divertido, ter uma reação quase imatura por causa do companheiro. Bem, essa parte não podia controlar, paciência!

Depois do banho, Kiba vestiu-se e foi pintar as marcas do Clã Inuzuka. Talvez em breve não tivesse mais direito de usar aquilo. Pensar que corria o risco de ser a última vez o entristeceu um pouco.

Shino, que também se trocava, sentiu a desolação. Queria apagar a tristeza do menino, mas isso estava além de suas forças. Concentrou-se apenas em enviar consolo através do vínculo, gesto bem aceito pelo companheiro.

Abriu mão da opção de tomar banho. O cheiro do Ômega mexia com seus instintos, resolveu aproveitar um pouco mais. Começou a sentir os braços doloridos. Vencido o momento ritualístico, tornou-se mais consciente das outras coisas. A presença do Ômega e seu cheiro mexeram tanto com o Alpha, que os insetos se tornaram inquietos sob a pele, chegando a machucar os músculos do corpo que os hospedava. A verdadeira prova de fogo.

Seguiram para o local onde a suposta família de Kiba trabalhava. Uma única mulher.

O Ômega estava inquieto, nervoso. Apenas quando Shino segurou-lhe a mão gelada se acalmou um pouco. Atrás deles, vinha Ino, com uma expressão impagável. Ainda não recuperada do choque de ir verificar se estava tudo bem com os dois e se deparar com um muro intransponível de hostilidade. Enquanto voltava para o quarto, entendendo bem o recado, ouviu resmungos de dois ou três quartos, de outros Alphas hospedados na pousada. Ficou grata por ser uma Beta, pois se aquilo tinha lhe causado a reação adversa, para os demais Alphas devia ser algo insuportável!

Todavia, mais forte do que a diversão pelas reações de seu amigo e senhor, havia a preocupação. Desde que saíram da pousada havia uma presença Alpha os seguindo, que não fazia questão nenhuma de ocultar isso, apesar de não deixar claro quais as intenções. Não sentia hostilidade daquela presença. Era apenas como se o Alpha quisesse que soubessem que ele estava ali. E o pior: era a presença do irmão do Kazekage.

Os Betas ninjas estavam espalhados, em lugares estratégicos. Mas a situação era delicada.

Kiba só parecia consciente do Alpha ao seu lado. A mente completamente tomada pela ansiedade e pelo medo. Nem mesmo atravessar a rua principal, tomada pela feira, por seus produtos exóticos e comidas deliciosas, distraiu o garoto.

Foi acompanhando um Omega de coração acelerado que a discreta comitiva desviou o caminho e seguiu para o lugar investigado por Ino, uma casa pequena, encravada entre as demais, com diversas gaiolas de animas a entrada, em exposição.

Colocando uma gaiola no suporte, pois a loja acabou de abrir, estava uma jovem Beta de longos cabelos presos em um rabo baixo. Inuzuka Hana, a proprietária. Ela sentiu a presença dos recém-chegados e virou-se com um sorriso na face de inesperados traços nobres, marcados com triângulos vermelhos.

— Sejam bem...

Calou-se. Kiba adiantou-se um passo, remexendo as mãos com ansiedade e angústia. Assistiu o sorriso do rosto bonito se congelar e desaparecer. Ficou confuso, assustado.

— O-olá. Eu... — arriscou-se a tentar se apresentar, a voz falhando miseravelmente. Apenas para ser cortado pela mulher, que se aproximou em curtos passos, colocando as duas mãos em seus ombros, enquanto o analisava.

— Kiba? — ela perguntou — Você é Kiba?