Marcas da Solidão

Kaline Bogard

Sejam bem...

Calou-se. Kiba adiantou-se um passo, remexendo as mãos com ansiedade e angustia. Assistiu o sorriso do rosto bonito se congelar e desaparecer. Ficou confuso, assustado.

O-olá. Eu... — arriscou-se a tentar se apresentar, a voz falhando miseravelmente. Apenas para ser cortado pela mulher, que se aproximou em dois passos, colocando as duas mãos em seus ombros, enquanto o analisava.

Kiba? — ela perguntou — Você é Kiba?

Shino, que já estava pronto para interferir com aquela Beta que ousava tocar seu Ômega com o ímpeto repentino, parou no lugar. Mesmo Ino ficou confusa. Mas nada superou o choque de Kiba em ser reconhecido por uma mulher que nunca encontrou na vida.

— Sim, você é Kiba. Distinguiria sua presença em qualquer lugar!

Nem Shino nem Ino tinham irmãos, mas finalmente eles entenderam. O vínculo é algo que pode surgir desde o primeiro segundo de vida. Quando uma mãe gera um filho, o vínculo nasce forte nas semanas iniciais em que o pequenino desenvolve o chacra. No caso de irmãos, tal laço pode se criar nos primeiros meses. E foi isso o que aconteceu ali: a Beta que existia em Inuzuka Hana reconheceu o vínculo estabelecido há quase dezenove anos, porque certas ligações são impossíveis de se apagar.

— Não entendo! Não entendo! — Hana puxou o irmão para um abraço forte. Chorava. Só chorava menos do que o garoto que retribuiu o abraço, perdido com a sensação de reconhecimento por uma união de sangue, não o reconhecimento de aceitação que aconteceu com Shino. Mas a pálida sensação de reencontro, de reaver algo perdido e que um dia foi muito amado.

O reconhecimento de dois irmãos separados no espaço e no tempo.

Shino fez um gesto para Ino, que tomou a frente da situação. Ela tocou no ombro dos dois e os puxou para dentro da loja. Depois voltou para guardar todas as gaiolas e encostou a porta, ficando do lado de fora a vigiar.

O Alpha entendia a intimidade do encontro e da conversa que se seguiria, mas nada no mundo o impediria de ficar ao lado de seu Ômega, estando ele com as emoções tão fragilizadas quanto naquele instante.

— Você é o Kiba, não é? — Hana perguntou depois de um longo silêncio, secando o rosto com a palma das mãos e manchando as marcas em formato triangular.

O garoto apenas acenou com a cabeça, incapaz de falar alguma coisa.

— Sim, ele é Inuzuka Kiba. Viemos de Konoha atrás de uma pista — Shino explicou.

— Você é meu irmãozinho! Mas... esse tempo todo... pensei que estivesse morto! — um quê de histeria distorceu a voz de Hana. Ela lutava bravamente para compreender a situação, o impacto de ver seu irmão caçula surgir diante de seus olhos — Venham comigo.

Mostrou uma porta atrás do balcão, que levava para uma pequena casa anexa à loja. De acordo com as pesquisas, Inuzuka Hana era veterinária, possuía uma pequena loja que negociava animais e morava nos fundos dessa loja.

A casa era pequena, simples. Passaram por uma sala que tinha a função de servir o jantar e receber convidados e foram direito para a cozinha. O cômodo um pouco maior, com mesa e cadeiras ao estilo de Suna.

— Sentem-se — ela pediu e colocou um pouco de água para ferver e preparar chá, antes de sentar-se a mesa com os dois. Fitou Kiba choroso e os olhos também se marejaram — Estou atordoada!

Estendeu as mãos sobre o tampo da mesa e Kiba fez o mesmo.

— Hana-nee — arriscou-se a dizer antes que as lágrimas voltassem incontroláveis. Conseguiu realizar o sonho mais antigo que tinha. O único sonho que tinha.

Shino colocou uma mão sobre o ombro do companheiro e fez conforto fluir até ele. Não queria diminuir a emoção, Kiba tinha todo o direito de chorar até esgotar as lágrimas ao reencontrar a família que nunca conheceu. Queria apenas lembrá-lo que não estava sozinho.

— O que aconteceu? Onde esteve? Pensei... pensei que tinha morrido! — a Beta não conseguia focar as perguntas. A chegada inesperada trouxe uma onda de incertezas que lavou tudo em que sua vida se baseava — O parto se complicou, os médicos disseram. Nem mamãe nem meu irmãozinho sobreviveram.

Kiba não conseguiu responder. Acreditou que o sangue na manta que o envolvia; na manta que era realmente dele, era um sinal de que sua mãe lutou para mantê-lo consigo. A história não era bem essa, pelo jeito era um pouco mais triste.

— Ele estava no leste — Shino tomou a palavra, sucinto. Ousou explicar uma parte do que sabia, contando como Kiba chegou ao seu feudo em Konoha, sobre ele ter crescido no leste, sem detalhar a parte ruim da infância dele, narrou por alto a fuga do distrito e o objetivo que culminou naquele encontro em Sunagakure. Revelou sobre a manta e os triângulos, sinais gêmeos ao que Hana e Kiba usavam, agora borrados pelas lágrimas.

— Não sei o que dizer. O que pensar — Hana deu um apertão nas mãos de Kiba — Eu tinha doze anos na época, sofri muito por perder mamãe e meu irmãozinho. Eu... nunca...

— Fiquei com medo que não fosse minha família — finalmente Kiba encontrou a própria voz — Que a manta fosse um engano! Mas eu tinha que vir te encontrar.

Hana sorriu. Levantou-se para desligar a água que fervia e preparou o chá que serviu aos três.

— Desculpe se minha reação não foi melhor — Hana segurou a grande caneca com as duas mãos — Nunca me passou pela cabeça que você estivesse vivo. Eu jamais o procurei, aceitei que meu irmãozinho tivesse falecido. E você estava no leste! Como...?

— Não sei — Kiba balançou a cabeça. O conforto do Alpha lhe dando mais estabilidade — Pensei que encontrar minha família me daria as respostas.

— Você se tornou um homem! — Hana exclamou, mas então se deu conta que o bebezinho sem vida que lhe foi apresentado não era seu real irmão. A única imagem mental que tinha dele era equivocada — Os médicos erraram de um jeito inacreditável! Um hospital não pode fazer isso!

Kiba balançou a cabeça concordando. Por culpa do hospital ficou separado da família! Entretanto, como justificar o sangue na manta? E ter sido levado pra tão longe? Nem tudo estava bem explicado naquela história.

O mais importante era ter encontrado sua irmã! Tinha tanto para conversar com ela! O resto não lhe interessava. Shino remexeu-se na cadeira. A nova descoberta lançava tons ainda mais sombrios para a trama. Não podia acreditar que um hospital trocasse bebês assim, facilmente e encobrisse o desaparecimento de um Ômega como resultado. Entendia o lado de Hana, pois quando um shifter morre, sua essência desaparece. Não é possível dizer a que casta ele pertencia. Alguns raros casos, tinham presença tão forte, que a sensação perdurava algum tempo após s morte, coisa que só acontecia com adultos. A manta provava que o bebê era esperado, querido a ponto de ter seu nome bordado com carinho em algo levado para seu nascimento. E a morte da mãe? Onde se encaixava? A troca foi depois que o parto se complicou? Ou a "complicação" foi justamente a camuflagem usada para encobrir tal troca?

Um recém-nascido ainda não viveu o bastante no mundo para impugnar sua marca. Se o hospital apresentou o corpo de outra criança para a jovem Hana, somado a dor de perder também a mãe, seria improvável que ela conseguisse dizer que não era o seu irmão. Já não haveria laço os ligando. Então ela só aceitou o que lhe disseram.

Erros acontecem? Com certeza. Em Konoha aconteciam também. A questão ali eram todas as incógnitas da equação. Havia a complicação de um parto, a morte de uma mãe, a troca de bebês e um Ômega sendo levado para longe. Tinham o caso do distrito, os outros Ômegas obrigados a ficarem aprisionados e só poder sair para satisfazer Alphas, uma rede de mentiras interligadas, sem que conseguissem achar a ponta que desfaria os nós. Quanto mais Shino pensava, mais acreditava que Naruto tinha razão: estavam rodeando algo grande. Que envolvia muitas pessoas, algo tão perfeito e organizado que durou anos. E duraria incontáveis anos mais, não fosse a ousadia de um Ômega que não se conformou com o destino e lutou para se libertar. Um Ômega que percorreu a distância tentando viver em paz, com medo de se socializar, atormentado pelo que passou desde tenra idade. O Ômega que escolheu como seu companheiro.

— Não acredito ainda — Hana disse. Os olhos cheios de candura admirando o rapaz que descobriu ser seu irmão — Temos tanto o que conversar! Mamãe vivia contando vantagem sobre como o caçula seria especial, o primeiro Alpha Inuzuka! Vejo direitinho as reações dela e o que diria ao ganhar um Beta! Mamãe era o tipo de pessoa que daria um jeito de se vangloriar disso muito mais do que qualquer um.

Nesse momento tanto Kiba quanto Shino se deram conta que Hana não podia sentir que seu irmão era um Ômega! Ele ainda usava o cordão com acônito! Shino ocultou essa parte dos relatos, a vontade de proteger tudo sobre o companheiro foi forte demais para que contasse seus segredos.

Sim, a mulher tinha razão: havia muito o que conversar.

— Você veio até aqui para ficar? Vai morar comigo em Suna? — ela perguntou, subitamente animada — Sabia que a minha casa está aberta para você. Quero conhecê-lo! E recuperar todo esse tempo perdido!

Doeu. A questão atingiu tanto a Kiba quanto a Shino. Eles não conversaram sobre aquilo. Se Kiba encontrasse a família ali, precisaria fazer uma escolha dolorosa: ficar com Hana, sua irmã mais velha ou voltar para Konoha com Shino.

Shino não se sentiu capaz de ir embora sem Kiba. Se ele escolhesse ficar, como aceitar a decisão? Aburame não podia simplesmente se mudar para Sunagakure. Tinha obrigações em Konoha, um feudo que dependia da sua proteção!

Aquele entrave não previram chegando.