Marcas da Solidão
Kaline Bogard
— Eu não sou um Beta — Kiba disse com simplicidade, revelando algo importante e desviando a mente do beco sem saída em que se viu preso — Sou um Ômega.
E mostrou o cordão que levava no pescoço, fazendo menção de tirá-lo. Shino moveu a mão e o impediu com um gesto delicado.
— Fique com isso — não podia esquecer a presença de Kankuro os seguindo até ali. Queria ser cuidadoso nas próximas ações.
O rosto de Hana tornou-se lívido. Ela não estava sentindo nenhuma presença Alpha, a não ser a de Shino. Logo deduziu que Kiba era um Beta. A opção de estar frente a frente com um Ômega sequer passou por sua mente.
— Meu irmão está vivo e é um... — mal acreditou. Terminou por observar Shino atentamente — Por isso você está aqui com ele?
Não foi fácil digerir a revelação. Em trinta e um anos de vida o contato que teve com Ômegas se resumia aos passeios semestrais que o companheiro do Kazekage fazia por Sunagakure, para abençoar a vila. Ocasiões em que tantos shifters se reuniam para seguir o cortejo e sentir um pouquinho mais forte a presença dele, que Hana desistia de tentar participar. Recolhia pequenos fragmentos que a faziam se sentir renovada por algumas semanas, invejando as pessoas que convivam com o rapaz todos os dias e dividiam os benefícios em tempo integral.
Agora tinha um Ômega sentado na simplicidade da sua cozinha, bebericando um humilde chá verde, revelando que eram ligados por laços de sangue.
Um Ômega. Levado embora ao nascer.
— Pelos deuses — ela sussurrou, um tanto sem folego, o coração se comprimindo. Aquilo mudava tudo de figura. Absolutamente tudo.
— Shino me reconheceu como companheiro — Kiba explicou — Eu reconheci ele também. Mas ele prometeu me ajudar mesmo se não fossemos, não é, Shino? Graças a ele te encontrei mais rápido do que pensava.
— Sim, eu ajudaria.
A face triste tocou Alpha e Beta. Mesmo sem sentir a essência Ômega, o instinto de proteção de ambos pulsou pela cena: apenas alguém muito jovem, diante de um impasse doloroso. Impasse que sentiram na pele. Shino, como companheiro, jamais abriria mão de seu reconhecimento. Mas e o feudo? Poderia largá-lo de modo leviano, dando as costas a todos que sempre estiveram ao seu lado e recomeçar a vida em Suna?
Hana exultava por dentro. Não havia palavras em qualquer idioma que descreveriam a sensação no instante em que recuperou o vínculo de sangue, um vínculo que pensou ter se extinguido na morte. Reencontrar o caçula que julgava morto trouxe de brinde uma onda de sentimentos tão fortes quanto um tsunami. Queria conversar com ele, saber tudo sobre a vida dele, os sufocos que passou, cada detalhe! Todavia, as entrelinhas do caso gritavam mais forte do que o resto. Um Ômega, criatura tão valiosa, desaparecido; tendo esse desaparecimento encoberto com o corpinho natimorto de outra criança, e sendo levado para o extremo oposto do continente? Não. Não era um mero erro hospitalar.
Hana não pertencia a nobreza, nem recebeu educação elaborada. Podia dizer que estava na média populacional. Como parte da massa, claro, aprendeu a se virar, a pensar rápido para dar conta dos negócios e não ser feita de boba. Precisou desenvolver a intuição e ser esperta, porque o mundo não é gentil com os fracos. Mas não era necessário ser um gênio para entender que algo estava mal explicado com o "erro" do hospital. Talvez até com a morte da sua mãe. Um único olhar para a face séria do Alpha, meio encoberta pelos óculos de sol, deu certeza para as desconfianças de Hana.
E pra piorar (ou melhorar) seu irmãozinho voltava dos mortos com um companheiro.
Para certas coisas não existe nada que amorteça o impacto.
O Alpha não desistiria de estar com quem escolheu para si. E ela, ainda que em posição diferente, não poderia simplesmente deixar que seu irmão voltasse para Konoha! De jeito algum! Precisava ouvi-lo, vê-lo, senti-lo. Conhecê-lo.
Era o caçula a quem acompanhou durante nove meses, a quem se vinculou ainda na barriga da mãe criando um elo profundo. Durante meses dividiu sonhos com a mãe, sobre como a criança seria, como cresceria. Juntas escolheram o nome, Kiba, uma menção às presas afiadas que todo Inuzuka possuía.
E então, foi por esse garoto que Hana chorou. Por ele e pela matriarca, lamentando que o pequenino nunca teria oportunidade de experimentar a vida, os dissabores e alegrias, de estar no mundo junto com a família.
Não.
Hana não podia deixá-lo partir uma segunda vez.
E Kiba entendeu isso. Ele correu atrás do objetivo e fez o possível para encontrar os Inuzuka, para confirmar que era um deles. No meio dessa busca, de modo não planejado, ganhou um companheiro a quem já respeitava e considerava o bastante para permitir que conhecesse seu corpo, uma prova de confiança que desafiava o instinto mais primordial de um Alpha. Companheiro de quem começava a gostar, conforme essa mesma prova de confiança era confirmada. Se não fosse assim, não teria coragem ou o atrevimento para convidá-lo como naquela manhã.
Queria ouvir sua irmã contar tudo sobre ela. Sobre a mãe deles. Queria conhecê-la, tão bem quanto os irmãos podem se conhecer!
Mas isso significava se separar de Shino e morar ali em Sunagakure?
— E agora? — ele perguntou um tanto perdido, olhando de Shino para Hana.
A Beta estendeu as mãos e segurou as do irmão.
— Agora você fica pra almoçar comigo — ela sorriu, os olhos brilhantes de lágrimas — Pra provar minha comida e ouvir sobre a mamãe! Podemos começar assim? Devagarzinho?
— Claro! — Kiba fungou emocionado — Eu vou ficar muito feliz, Hana-nee.
— E você, senhor Alpha? Sem pressões?
— O convite me inclui? — Shino perguntou. Ninguém soube se era uma brincadeira pra descontrair ou não. Nem o próprio Shino saberia dizer.
Hana preferiu levar como uma piada séria.
— Com certeza, faço questão que fique aqui também. E sua Beta, que está lá fora. Se é o companheiro do meu irmão, é bem vindo. Eu... estou muito feliz, Kiba. Muito feliz mesmo. Não sei por em palavras! Mas... ainda não sei lidar com tudo isso, meu falecido irmão que volta, vivo e saudável. Um Ômega. Eu... é muita coisa para a mente processar. Não sei lidar.
— Você acha que é bom eu ter voltado?
— Sim. É confuso e surpreendente. Mas é muito bom descobrir que você vive.
Kiba sorriu, fechando os olhos e inclinando a cabeça para o lado, ato que expulsou as lágrimas em seus olhos, fazendo-a deslizar pelas manchas que até pouco tempo foram triângulos.
— Coisas boas a gente só aceita. É assim que me ensinaram a lidar — e reabriu os olhos, voltando-os para o Alpha.
Os pertences eram poucos. E estavam sobre a mesinha da sala que servia tanto para recepção quanto para fazer as refeições. Kiba se percebeu ouvindo sobre uma mulher de temperança forte, selvagem. Hana descreveu o cabelo repicado que dava impressão de mais bagunça que os seus, o sorriso enorme que conquistava a primeira vista.
— O nome dela era Tsume — Hana estendeu uma caixinha de chá para Kiba — Ela estava empolgada com a gestação, mas não foi nada planejado. Não fique chateado, mas mamãe botou seu pai para correr de casa, porque ele era meio folgado e eles brigavam bastante. Um tempo depois descobrimos que ele nos presenteou com um filhotinho.
— Meu pai está por aí? — Kiba surpreendeu-se.
— Provavelmente. Não aqui em Suna, nunca me encontrei com ele. Não tenho reclamações, ele me tratava bem, era divertido. Por um tempo cumpriu o papel de pai, porque o meu faleceu em uma missão. Ele era do time ninja de Sunagakure.
— Que foda! Seu pai era um Alpha?
— Não. Ele era um Beta, assim como o seu — Hana sorriu nostálgica para Kiba. Pensava em Tsume com um barrigão, segurando uma manta com as extremidades rendadas, irradiando felicidade — Mamãe gravida de você é minha lembrança mais forte.
Shino, sentado ao lado de Kiba, captou a emoção do garoto. Ele não chorou, mas o nó na garganta tornou a respiração mais pesada. Hana notou isso, num impulso ofereceu:
— Pode ficar com ela para você — apontou a caixinha de chá, um dos poucos pertences pessoais que Tsume deixou.
— Tem... tem certeza, Hana-nee?
— Claro! — a mulher sequer hesitou — Mamão não gostava de delicadezas assim, essa caixinha foi uma das poucas que ela comprou. Tive como um tesouro por duas décadas, agora é a sua vez. Já volto, com licença.
Levantou-se para ver as panelas no fogo, deixando Shino e Kiba sozinhos na sala. Ino recusou o convite, preferindo ficar vigilante na porta da loja, observando o pouco trafego de pedestres naquela rua lateral, ainda captando traços da presença de Kankuro por perto. Ficou mais do que óbvio que ele os seguia. E Ino não gostou nada disso.
— Está tudo bem? — Shino perguntou para Kiba.
— Sim — o garoto respondeu depressa antes de estender a caixinha para Shino — Olha! Era da minha mãe!
— Tenho certeza de que ela foi uma mulher incrível — ele pegou a peça desbotada pelo tempo, admirando as estampas clarinhas, quase não conseguindo identificar o desenho de flores da tampa — Tão incrível quanto você é.
— Obrigado! — Kiba inclinou-se um pouco de lado, encostando o rosto no ombro de Shino. Queria sentir mais do calor dele, de sua presença. Da segurança que captava emanando dele — To muito feliz em encontrar minha irmã, obrigado, Shino! Você prometeu e cumpriu.
— Hn.
— To feliz pra caralho — repetiu baixinho. Demorou meio segundo pra Shino perceber que ele estava chorando — E agora? Eu encontrei a minha irmã, ela é tão legal! Não quero me separar dela! Mas também não quero me separar de você! Eu... eu... não sei o que fazer...
Shino suspirou, passou a mão pelos ombros do companheiro e o amparou. Da soleira da porta, Hana assistiu a cena, ouviu a confissão sofrida. Voltou para a cozinha sem revelar sua presença, ainda que soubesse que Shino a tinha visto.
Descobrir a existência de Kiba foi a maior felicidade que teve em quase dezenove anos, desde quando recebeu a triste notícia. Ouvi-lo chamá-la tão naturalmente de "Hana-nee" fazia sua parte Beta se encher de carinho. Mas a alegria trazida pelo reencontro não diminuía a complexidade de toda a situação.
Nenhum dos três sabia o que fazer para sair do impasse.
