Marcas da Solidão

Kaline Bogard

Tomando a dianteira da situação, Kankuro estendeu um pergaminho na direção da dona da casa.

Inuzuka Hana considere-se convocada a me acompanhar até o conselho de Sunagakure. O Kazekage exige que venha esclarecer sua ligação com um Ômega nascido no nosso país.

— O quê...? — a Beta soou atordoada. Aceitou o pergaminho e reconheceu o símbolo oficial do Kazekage.

Shino deu um passo a frente, pronto para intervir. Sua ação quebraria a dominação de Kankuro sobre Ino. Percebeu os demais Betas tomando posições estratégicas. Mas o outro Alpha sorriu.

— Isso não tem a ver com você, Konoha. É uma oficialidade de Suna.

Não era vantajoso para ele entrar em atrito com outro Alpha estando tão perto de um Ômega. Kankuro não queria a menor chance de feri-lo sem querer. Por isso seguiu o grupo sozinho, por isso manteve sua presença sempre clara e sem intenções agressivas. Só precisou ser mais rude com a Beta, porque ela dificultou que se aproximasse da residência.

— Eu vou com ela! — Kiba disse de forma determinada.

Shino não pensou duas vezes:

— Se ele vai, então Konoha está envolvida. Inuzuka Kiba tem registro de cidadão de Konoha e pode usufruir de todas as prerrogativas — escondeu apenas que era um registro temporário por enquanto.

— Claro que fizeram registro — Kankuro desdenhou — Ele é um Ômega e a sua vila já botou as garras sobre ele. Mas não pense que será assim tão fácil. Se puder me acompanhar, Inuzuka-san.

Hana respirou fundo.

— Jamais recusaria uma convocação dessas. Pra mim é uma honra ser recebida pelo Kazekage. Vou apenas fechar minha casa.

— Hana-nee — Kiba segurou-lhe a barra da blusa — Desculpa arrumar problemas...

A Beta sorriu para tranquilizá-lo. Teve o gesto de bagunçar os cabelos castanhos, naquele momento esquecida de toda a postura cultural de respeito aos Ômegas, enxergando apenas a tristeza de seu pequeno irmão.

— Não arrumou problemas! Mudou a minha vida, quantos shifters nesse mundo você acha que podem falar com uma autoridade do governo ou... — observou a própria mão — Tocar um Ômega como acabei de tocar você?

E entrou em casa para fechar tudo de modo adequado. Shino lançou um olhar cheio de rancor para Kankuro, culpando-o pelo desenrolar de um encontro que deveria ser respeitado. Kankuro deu de ombros, sem se abalar.

Ino aproximou-se de Shino, havia pesar em sua face. Fazia muito tempo desde que se sentiu tão inútil quanto agora. Treinava anos a fio, fortalecendo sua parte Beta, mas provou na pele que certos Alphas também fortaleciam a parte animal. Quis dizer para Shino o quanto sentia, mas o homem apenas balançou a cabeça. Não podia culpá-la por sucumbir aos instintos irracionais.

Por fim, Kiba seguiu Hana, como Kankuro imaginou desde o começo. Era parte do plano. Aburame Shino e a Beta foram também. Mas ela teve que ficar do lado de fora, proibida de participar da conferência. Apesar disso, a porta e as paredes não eram suficientes para impedir a tensão de chegar até ela. O atrito entre as presenças era tão intenso, que se penalizou por Hana e Kiba, em contato direto com a energia de três Alphas rivalizando. O coração bateu forte no peito, estava pronta para entrar naquela sala a força, caso a situação saísse do controle. Sequer queria pensar em todas as consequências de tal convocação. O resultado podia ser desastroso a nível de países. Não se tratava apenas de decidir que Alpha ficará com o Ômega. A questão agora se resumia a que nação ficará com o Ômega...

Dentro da sala, o clima era exatamente como Ino o captava.

Sabaku no Gaara sentara-se atrás da imponente escrivaninha, muito austero em seus trajes de Kazekage. Kankuro em pé ao seu lado, dava a impressão de tédio, mas não enganava ninguém. Sua parte Alpha estava atenta a cada figura que participava do drama.

A frente da escrivaninha, em pé; Hana, Kiba e Shino aguardavam, como condenados prontos para receber uma sentença.

— Então esse Ômega é seu irmão? — Gaara falou para Hana.

— Sim. É meu irmão caçula — ela respondeu sem hesitar.

— E você desconhecia a existência desse irmão? — voltou a perguntar.

— Caralho! Como é que ele sabe de tudo? — Kiba perguntou chocado. Ao sentir o olhar de todos sobre ele, estufou um pouco o peito, fingindo não sentir o rosto esquentar. Tentou remediar a situação — Não se ofenda, não quis interromper.

Ao invés de parecer irritado, Gaara tocou uma ampulheta que estava sobre a mesa e a inverteu, fazendo a areia acomodada no fundo voltar a pingar.

— Existe areia em cada canto de Sunagakure. E onde há areia, não se fazem segredos para mim.

Shino franziu as sobrancelhas, talvez o homem dominasse algum tipo de jutsu semelhante ao dele, que usava os insetos para vários fins, entre eles o de espionagem.

— Exato, Kazekage-sama — Hana respondeu — Por um infeliz infortúnio pensei que meu irmão tinha falecido ao nascer, pois minha mãe não resistiu a complicações no parto. Só descobri sobre Kiba hoje pela manhã.

Gaara anuiu. Sabia desses detalhes, precisa confirmar por mera formalidade.

— Desejo que esse reencontro traga bons frutos a vida de ambos. E me alegro que tenha ocorrido aqui em Sunagakure — empurrou um pergaminho sobre o tampo da mesa, como se indicando que Hana deveria lê-lo — Confirmar o laço entre vocês era fator determinante para o passo seguinte. Pela Lei da nossa Vila, Ômegas nascidos aqui devem estabelecer moradia aqui, sendo vetada qualquer ausência além das fronteiras. Quero colocá-los cientes disso, pois nossos Betas receberão ordens para não deixá-lo partir, Inuzuka-kun.

O queixo de Kiba caiu. Hana pareceu surpresa com a velocidade que o Alpha tomou todas as providências em seu próprio favor. Shino sentiu raiva pelo que ouviu. Anos e anos recluso em sua casa, a salvo de fortes emoções o fizeram esquecer de como era sentir a ira fria deslizar por cada fibra.

Ele deu um passo a frente, nem um pouco preocupado com respeito ou etiqueta. Sua presença tornando-se maior, a ponto de descompensar o ar dentro da sala. Seu Alpha tomou conta quase por completo ao ouvir outro Alpha falar com tanta propriedade sobre o seu companheiro.

Kankuro também deu um passo a frente. Respondeu a altura, liberando intenções agressivas com a finalidade de intimidar Aburame Shino, mas só conseguiu torná-lo mais irritado. Insetos começaram a aparecer no ambiente, evocados pela fúria silente do Alpha que os controlava.

A rivalidade entre os dois Alphas foi tão intensa e veio tão poderosa, que estática brilhou em pontos aleatórios do escritório, dando a impressão de que pequenos raios lumiavam intermitentes.

Mesmo Gaara chegou a levantar-se. Agora eram três Alphas numa disputa silenciosa por poder, por dominância. Ino, lá fora, não conseguiu levar a termo sua intenção de botar a porta abaixo se as coisas saíssem do controle. Suas pernas simplesmente não obedeciam! Nunca sentiu energias tão devastadoras antes! A presença Alpha de alguém como o Kazekage e a presença de um Alpha como Aburame Shino, instigado pela ameaça ao seu companheiro.

Hana sentiu o suor minar em bicas, umedecendo os trajes típicos de Suna. A fraqueza nas pernas dava a entender que podia cair a qualquer momento, mal suportando o peso do próprio corpo. Se aqueles três Alphas entrassem em confronto direto... se eles começassem a brigar... lágrimas fizeram seus olhos marejarem. Nunca sentiu tanto medo quanto naquele momento.

E Kiba, bem... Kiba perdeu alguns segundos admirado com a atitude dos três. Olhou para Shino, então para Kankuro e, por fim, para Gaara. Nesse breve espaço de tempo, em que ficou inerte, os ânimos atingiram o ápice.

Quando tudo parecia a ponto de seguir um rumo irremediável, Kiba fez algo que merecia entrar para os registros históricos dos Cinco Grandes Países. Ele venceu a pouca distância que o separava da escrivaninha do Kazekage, pegou o pergaminho com a referida lei e picou em pedaços minúsculos, jogando-os todos contra o rosto de Gaara.

O tempo deu a impressão de parar diante da ousadia sem precedentes.

— Se acalmem aí, caralho — ele exigiu num tom que Aburame Shino nunca o ouviu falando antes, que foi como um golpe de chibata em seu peito — O jeito do Shino eu até entendo, porque ele é meu companheiro. Mas vocês dois aí se impondo assim eu não aceito. Passei a minha vida inteira tentando fugir de Gin-Io e ser livre para decidir o meu destino. Se eu ficar em Suna, será por uma escolha minha! Não por uma lei estupida dessas. E se acha que pode me obrigar, só tenta. Porque eu vou fugir, quantas vezes for preciso. Ou vou morrer tentando. Nunca mais... nunca mais vou deixar um Alpha me dizer o que tenho que fazer!