Marcas da Solidão

Kaline Bogard

Kiba vai voltar para Konoha, junto com o companheiro a quem reconheceu — ela falou com suavidade e segurança impressionantes. Olhou fundo nos olhos do caçula, sentado ao seu lado — E não vai me abandonar aqui. Você saiu do leste em minha procura, abriu mão de tudo para tentar me encontrar. Agora é a minha vez. Eu vou deixar Suna e partir para Konoha. É a minha vez de seguir você, irmãozinho.

— Hana-nee! — o garoto arregalou os olhos de incredulidade.

— Depois discutimos isso — pelo visto, ela também era dada a impulsividades, traço marcante entre os Inuzuka. Ela teve a inspiração ali, ouvindo mais do passado do irmão recém descoberto. Decidiu a mudança radical, sem sombra de arrependimento — Agora temos algo mais urgente a tratar.

A expressão de Gaara continuava indiferente, mas a postura corporal não enganava, revelando contrariedade.

— Não posso burlar as leis de Sunagakure — ele afirmou. Estavam falando de um Ômega. Que poderia ajudar no bem estar de seu povo. Permitir que ele voltasse para Konoha era sobrepor os interesses de um a toda uma vila — O País do Fogo tem dois Ômegas. Um deles vive na Vila da Folha.

Citou os fatos como se fossem determinantes por si só.

Kiba olhou para Shino com pesar escurecendo seus olhos. Estava indo tudo muito fácil. Devia ter desconfiado que sua sorte acabaria mais cedo ou mais tarde. Obviamente não desistiria da liberdade sem lutar, só não queria colocar o companheiro em complicações. Muito menos sua irmã. Estava a um segundo de pedir que Shino partisse, a mente já calculando as possibilidades de usar um plano de fuga similar usado em Soragakure, quando Kankuro interferiu:

— Irmão, a aplicação da lei não pode ser tão literal aqui — ele cruzou os braços. Não era usual falar contra o irmão mais novo. Na verdade, seria a primeira vez. Kankuro também desejava que mais Ômegas vivessem em Suna, claro. Mas desde a demonstração de Kiba na outra sala, quando sua essência o envolveu e o acalmou, seu interesse mudou de foco. Não teve contato direto com a pureza Ômega, pois ele usava acônito para se proteger. E, ainda assim, o pouquinho que o tocou causou um efeito fulminante.

— Que quer dizer? — a voz de Gaara soou seca como uma chicotada.

— Quero dizer que Inuzuka é um Ômega que já saiu de Suna. Se for aplicar essa lei que está clamando terá que ir direto para a punição — nem Kankuro compreendia direito porque falava a favor de Konoha. Só não conseguia parar, a esperança que viu surgir no sorriso do Ômega o instigou — Tem fatores atenuantes e agravantes. Ele não saiu porque quis ou porque a família decidiu. A literalidade da lei sempre foi usada para quem nasceu e cresceu aqui.

— Kiba é mais do que um Ômega de Suna. Ele tornou-se uma peça chave aos Cinco Países — Shino incomodou-se com a interferência de Kankuro. Acabou ampliando sua presença um pouco, de modo a envolver Kiba ao seu lado — Quantos Ômegas vivem em Gin-Io?

O garoto, a quem a pergunta foi dirigida, piscou tentando se focar. A presença de Shino o envolvendo foi inusitado. Foi bom. Foi a garantia de que não precisava lutar sozinho, não naquela vez. Nem nunca mais. Assim como a certeza de que não adiantaria pedir que voltasse sozinho para a Konoha. Pela primeira vez podia sentir algo assim. Foi tocante.

— Só no meu quarto tinha quinze contando comigo. Mas tinha um monte de quarto lá. E a gente ficava só no distrito dos meninos. Eu sei que também tem o distrito das meninas, Momo-Go. Não podia misturar. Machos de um lado, fêmeas do outro.

A nova informação arrepiou os demais.

— Temos que investigar Soragakure — Kankuro sussurrou — Se todos esses Ômegas... pensa em quantos mais foram tirados de Suna, irmão. Isso é grande.

Gaara enxergou as implicações da questão.

— Podemos recuperar todos — ele falou pensativo.

— Konoha está investigando, mas toda ajuda é bem vinda — Shino deixou aquilo bem claro. Além do mais, já tinham indícios de algo mal explicado acontecendo em Suna. Parecia natural que o Kazekage somasse forças à resolução daquele mistério — São Ômegas demais para ter procedência apenas de Konoha ou de Sunagakure. Isso pode envolver pessoas em todos os outros países.

— O país que eu cresci anda roubando os outros — Kiba julgou-se muito azarado, nascer como um Ômega e passar por tantas desventuras — E tudo o que acontece lá é errado. Por isso vocês ficam tão surpresos quando eu falo e não acreditam. Caralho, o pessoal que cresceu comigo nem desconfia que aqui nos outros países é bom. Tem uns que tem medo que seja pior. Uma vez... um menino voltou tão mal que ele não aguentou, morreu sem saber que existe uma vida melhor. Não é triste?

A pergunta não foi feita para ninguém em especial, apesar da atenção dele estar toda focada em Shino. Cada vez mais o via como um ponto de segurança, um farol que dava a direção quando se sentia perdido.

— Temos que elucidar isso — Kankuro mirou o irmão de modo significativo — Gaara?

O Kazekage podia estar acostumado a tratar com Ômegas. Sobretudo quando tinham reações histéricas, alimentadas pelo jeito mimado com o qual eram tratados. Encontrou Ômegas infantis, arrogantes, egoístas... já precisou lidar com acessos de raiva por besteiras e explosões por contrariedades cotidianas. Mas a tristeza, a infelicidade que minou de Inuzuka Kiba, suplantando inclusive a proteção de Aburame, nunca havia sentido. Ainda que o acônito inibisse a real essência de se propagar, foi intenso o bastante para desarmar os três Alphas. Foi como tocar a manifestação quase física de um sofrimento a nível ancestral. Provocou-os na função da casta que menos vinham executando: proteção.

Gaara balançou a cabeça de leve, tão comovido com a questão quanto jamais se viu comovido com algo antes. Por mais que fosse seu dever, por mais que a lei determinasse a permanência de Kiba em Sunagakure; compreendeu que não seria capaz de exigir aquilo.

— Em raras ocasiões posso assinar uma licença especial para a ausência de Suna — o Kazekage revelou, respirando muito fundo — Creio que se aplica nesse caso.

Só quis livrar o garoto da tristeza.

— Então posso voltar pra Konoha com o Shino sem causar confusão? — quis confirmar claramente para ter certeza.

— Sim — Sabaku no Gaara consentiu, já sem ter condições de dizer como se sentia. A única certeza que teve foi a parte Alpha regozijando a decisão, inebriada pelo sorriso que um Ômega lhe ofereceu. Nem era companheiro daquela criaturinha e sentia-se assim! O poder da casta desafiava qualquer racionalidade.

Hana, que até então se conformou com o papel de observadora, suspirou. Sua parte Beta recolheu-se a certo momento, tanta emoção transbordando na sala a tornou incapaz de interferir ainda mais. Reaver o vínculo com o irmão despertou um lado que desconhecia, algo que não era simplesmente ligado a proteger um Ômega. Foi similar a época que sonhava com o filhotinho na barriga da mãe, quando se imaginava no papel de irmã mais velha! Todavia, estar ali com a figura maior da Vila, dois outros Alphas e um Ômega, inibia esse instinto, mantendo-a paralisada. Só não passava angústia maior porque sentado ao seu lado estava um garoto que tivera coragem de afrontar o Kazekage e desafiá-lo sem temer as consequências. Seu irmão seria o orgulho de Tsume.

— Obrigado! Quem dera o Sorakage fosse assim também! — Kiba riu exibindo as presas afiadas.

— Sorakage? — Shino e Kankuro perguntaram ao mesmo tempo.

— Sim, o Alpha que comandava o meu país... quer dizer, o país em que eu cresci. Nunca vi ele fazendo nada de mau pra um Ômega, mas eu não tinha coragem de ficar dando bobeira perto quando ele estava em Gin-Io. Não sou covarde, só... sei lá. Me dava uma sensação ruim — quis dar ênfase a não ser simplesmente um medroso. Precaução inútil, ninguém ali catalogaria um Ômega capaz de rasgar um pergaminho oficial e arremessá-lo contra o rosto de um Kage como "covarde". Inconsequente? Sim. Imprudente? Talvez. Covarde? Em absoluto.

— E como se chama o Sorakage? — Gaara perguntou com certa gentileza. Percebia que aquele não era um shifter articulado como todos os demais. Ele ia soltando informações quebradas, algo aqui. Então algo ali, não um discurso montado, bem organizado que partilhasse as informações com sentido e estrutura lógica. Como a maioria das pessoas faz em resultado do convivo social e diálogo. Não soube dizer se era algo da personalidade peculiar ou resultado de ter mesmo crescido no que, aos olhos do garoto, era um distrito corriqueiro para Ômegas, e que para o restante do mundo parecia mais como cativeiro. A informação como o nome de um shifter no comando era a primeira coisa que devia ter dito! Só não se irritou porque sentiu e viu que o jeito singular não era proposital. Aquele Ômega agia naturalmente atrapalhado.

— Pain — Kiba respondeu estremecendo — Todo mundo chama ele de Pain.