Marcas da Solidão
Kaline Bogard
— Caralho — Kiba resmungou assim que colocou os pés dentro da loja de sua irmã e a seguiu para a residência em que vivia — Quanta emoção um shifter pode ter em uma tarde?
Nem podia acreditar que estava livre mesmo da imposição do Kazekage para permanecer ali. A reunião sendo cortada de forma tão brusca quanto foi convocada. O nome "Pain" encerrou qualquer continuidade para a conversa e fez Gaara os dispensar imediatamente. A tarde estava chegava ao fim quando saíram do prédio do Conselho.
Kiba não sabia, mas aquele nome estava ligado a uma das piores organizações criminosas dos últimos tempos, a Akatsuki. Esforços conjuntos entre os grandes países conseguiram inibir suas ações maléficas e a máfia sumiu no ar. Ou pelo menos foi o que todos imaginaram.
Saber que o grupo continuava operando nas sombras e algo tão grandioso, foi um baque. E não dizia respeito a civis. Gaara entendeu que teria mesmo que entrar em contato com o Hokage, talvez outros governantes, e estudar melhor aquele caso.
— Pelo jeito, bastante emoção! — Ino estava de péssimo humor. Era a Beta mais forte, a responsável pela segurança de Shino e fez um papelão! Odiava sucumbir diante de um Alpha, por isso treinava concentração e fortalecia seu lado animal. Claro, a situação entre os três shifters da casta mais alta era atípica e fora do normal. Nunca seria possível se preparar para algo assim de antemão. Todavia saber disso não diminuía sua amargura.
— Kankuro continua nos seguindo — Shino não conseguiu esconder a irritação. Não era de mostrar emoções, mas naquela tarde exibiu uma miríade de reações que não podia mensurar! Seu lado Alpha estava mais vivo do que nunca! Por culpa de Inuzuka Kiba! Bom, não culpa, não era certo acusá-lo disso. Suspirou.
— Irmão, eu estou muito feliz pelo nosso reencontro — Hana o segurou pela mão e o puxou para sentar-se à mesa da pequena sala — Mas meu conselho é que parta de Suna o mais breve possível. Essa noite mesmo.
— O quê?! Por quê?! — Kiba se surpreendeu.
— Porque esse assunto não vai ficar em segredo. O Conselho de Sunagakure não vai permitir que o Kazekage assine essa licença especial que ele prometeu. Acredite em mim, tenho vivido aqui por todo esse tempo. Confie no que te digo — ela terminou a frase olhando para Shino, parado na porta de acesso — Partam enquanto podem.
O que a preocupava era a participação da Akatsuki naquilo tudo. Se Kiba voltasse para o feudo de Aburame Shino, Hana sabia que ele seria melhor protegido do que ali em Suna. O companheirismo representava uma defesa inigualável.
— Não! E você? Não vou deixar Hana-nee para trás!
A Beta sorriu e bagunçou-lhe os cabelos com carinho.
— Preciso de um mês pelo menos. Pra finalizar todos os meus negócios, acertar tudo. E então vou me encontrar com você em Konoha — ela sorriu.
— Não! — Kiba tornou-se sério.
— Faça isso por mim — Hana pediu — Vá na frente, procure uma casa que eu possa morar e montar o meu negócio, hum? Assim posso chegar e começar a trabalhar!
— Vou expandir o feudo — Shino revelou — Começar com agropecuária. Uma veterinária será mais do que bem vinda para ajudar.
Kiba olhou para o Alpha. Não era um gênio, porém entendeu no mesmo segundo que ele só fez aquilo para lhe agradar. Provavelmente nunca pensou em trazer gado para suas terras. Com essa desculpa, poderia oferecer casa e abrigo para Hana. Assim como um emprego seguro.
— Obrigado — Kiba disse com toda sinceridade possível. Então encarou a irmã — Porque não vem com a gente? Agora mesmo?
— Não posso — ela passou os dedos de leve pelos fios de cabelo curto e rebelde, tentando ajeitá-los, os olhos tornaram-se distantes, enquanto analisava a face de seu irmão caçula — Não posso fugir e abandonar todos os compromissos que tenho aqui. É o nome da família Inuzuka que está em jogo. Da nossa família. Quero encerrar tudo direitinho antes de partir. Você entende isso?
— Sim, mas... eu nem visitei o túmulo da mamãe...
Hana sorriu de leve e o puxou para um breve, porém apertado abraço.
— Mamãe foi cremada. E suas cinzas espalhadas na natureza. Liberdade, irmãozinho. Até depois da morte. Mas ela sempre estará aqui comigo. E com você — terminou a frase tocando de leve o lado esquerdo do próprio peito.
Kiba lacrimejou, mordendo os lábios para segurar o choro. Acabou de reencontrar a irmã! Teve um princípio de conversa com ela, aprendeu um tiquinho sobre a mãe e até ganhou uma foto! Não parecia justo ter que partir assim de repente! O que fez de errado pra ter tanto azar na vida e...
Sentiu todo o carinho e preocupação de Shino aconchegá-lo, prometendo que tudo ficaria bem, pedindo um pouco mais de confiança.
Sim, teve muito azar na vida. Mas também tirou a sorte grande quando o destino colocou aquele Alpha em seu caminho. Fugiu tanto de Alphas, os evitou com todas as forças. E aquele homem, aquele senhor feudal que se isolara da sociedade, conseguiu destruir sua determinação sem esforço algum.
— Metade dos Betas ficará aqui, para acompanhá-la e protegê-la o tempo que for necessário — Shino determinou. Ino nem pensou em protestar.
— Vou aceitar a oferta — Hana sorriu — Só pra tranquilizar meu irmãozinho.
— Hana-nee! Promete que vai pra Konoha o mais rápido que conseguir?
Ela estendeu o dedo mindinho.
— Promessa de dedinho!
Kiba nunca tinha feito uma promessa assim com alguém. Enganchou o dedo mínimo depressa, nem um pouco preocupado em parecer infantil.
— Promessa de dedinho!
Hana levantou-se, satisfeita. A mente já calculando o quanto poderia adiantar das coisas e em quanto poderia encurtar aquele mês de prazo. Kiba levantou-se também, queria ficar feliz, mas a separação inesperada quebrou seu coração. Recebeu um abraço apertado, o qual retribuiu com igual força, segurando com as duas mãos na blusa dela, sofrendo demais com a nova separação.
O abraço durou o bastante para que lágrimas caíssem e secassem. Todavia, para os dois irmãos, deu impressão de se passar menos de um segundo.
Ao sair pela parte da frente, a loja em que ela vendia e tratava de animais, Hana teve uma súbita inspiração. Foi até uma das gaiolas e a abriu, tirando um filhote de cachorro que mais parecia uma bola de pelo branco.
— Não somos "Inuzuka" a toa, sabia? Nosso clã tem feito pactos com cães desde que foi fundado. Meu ninken faleceu há alguns anos e ainda não me sinto pronta para ter outro. Agora é a sua vez, irmãozinho. Fique com ele.
Kiba não acreditou! Pegou o cachorro com cuidado, notando que ele estava sonolento.
— Posso ficar mesmo com ele? — indagou resplandecendo de alegria.
— Claro. Faça um pacto com ele, sejam bons amigos. Ah, e também escolha um nome.
— Akamaru! — Kiba respondeu sem titubear.
Shino limpou a garganta e Ino riu. Akamaru?!
— Tem certeza...? — Hana exibiu um sorriso amarelo — Talvez Shiromaru...?
— Não. Akamaru. Foi ele que me disse o nome — Kiba falou sem parar de sorrir ou olhar para o filhote, seu novo amigo.
Hana ergueu as sobrancelhas, impressionada com a velocidade de comunicação. Normalmente, demorava mais tempo para que a confiança entre shifter e ninken se estabelecesse. Raramente acontecia assim, quase de imediato! Nem tentou entender, aquele devia ser o "Omega" nas pessoas. Ou, talvez, efeito "Efeito Kiba"?
— Está bem. Seja bem-vindo a família Inuzuka, Akamaru — gracejou enquanto coçava atrás da orelha de um satisfeito filhotinho.
Na pousada, Ino tomou a frente das negociações. Foi fechar a conta e organizar os Betas que ficariam com Hana e os que seguiriam de volta para Konoha. Shino e Kiba arrumaram as poucas coisas que tiraram da mala.
Akamaru passeava pelo aposento, cheirando tudo com curiosidade. Era uma visão que animava Kiba e diminuía a tristeza da despedida. Encontrou sua família e já precisava deixá-la para trás! Por pouco tempo, mas o bastante para doer.
— Tomara que passe logo — ele disse baixinho.
Shino fez mais do que fluir consolo pelo vínculo. Aproximou-se do companheiro e o abraçou. Nesse caso, o contato físico funcionava muito melhor do que o elo.
Partiram pouco mais de vinte e quatro horas após a chegada à Sunagakure. Uma viagem que durou mais do que o dobro de dias na vinda e duraria na volta.
Fizeram o percurso em silêncio. Era noite, mas as ruas seguiam animadas, com a rua principal tomada pela feira e turistas, negociantes e moradores locais a toa. Atravessaram a pé, na intenção de montar os alazões quando chegassem nos portões da cidade.
E lá tiveram uma derradeira surpresa. Kankuro, que os acompanhou o tempo todo nas sombras, já estava parado ao lado da única saída da Vila. Shino ficou tenso, e expandiu sua presença Alpha, um alerta para os Betas que seguiam.
Porém Kankuro sorriu e ergueu as mãos em um sinal amigável. No mesmo instante um pássaro de plumagem cinza e preta assentou em seu braço.
— Calma, Konoha. Vim em missão de paz. Pegue esse pombo emprestado. Os pombos-correio de Suna são os melhores que existem. Mandarei meus Betas escoltarem vocês até o Oasis. Use esse pássaro para orientar os seus Betas — e moveu o braço com um gesto brusco, que fez o animal voar direto para o de Shino, que o estendeu e aceitou a oferta.
Entendeu a estratégia. O pombo-correio chegaria antes a Konoha do que a comitiva. Assim avisaria os Betas e daria instruções para que viessem de encontro ao senhor feudal, garantindo proteção reforçada por toda a viagem.
Shino apenas acenou com a cabeça. Era o máximo de agradecimento que podia ofertar ao outro Alpha. Isso e diminuir um pouquinho a ostentação de sua presença, claro.
Aquele também serviu de sinal para montarem os alazões, Kiba levando Akamaru com cuidado a sua frente, e partirem. Iam passando por Kankuro, apoiado displicente no muro, com os braços cruzados, quando ele soltou mais uma de suas gracinhas.
— Voltem com tempo para turismo! Será um prazer recebê-los! — riu — Ah, e venha sem acônito, garoto. To doido pra sentir a sua essência!
A ousadia fez Shino rosnar baixo, sem que pudesse controlar. Sua parte Alpha se sentiu ultrajada. Chegou até a parar o cavalo, mas quando se voltou, Kankuro não estava mais lá e sua presença sumiu por completo, restando apenas o eco da risadinha atrevida.
— Ele é esquisito — Kiba deu de ombros.
Seu companheiro meneou a cabeça. Por fim deu-se início a viagem de volta. No coração de Shino a certeza inquestionável: se dependesse dele jamais pisariam em Sunagakure outra vez!
