Marcas da Solidão

Kaline Bogard

A viagem de volta foi tão tranquila quanto a ida. Fizeram a primeira parte em um silêncio tenso, pesado. Kiba sofria por ter que partir sem a irmã. O reencontro foi tão... breve! Não reclamava do resultado: descobrir que era realmente um Inuzuka. E ser tão bem acolhido pela irmã era melhor do que tudo. Bem, não do que tudo. O melhor mesmo seria ter a mãe com elas. Precisaria aprender a conviver com os ganhos e as perdas da família reencontrada.

Shino sentia cada fragmento do rodamoinho de emoções. Tristeza era sempre o mais forte, mais intenso. Não podia pedir que o garoto superasse. Ele tinha o direito de lamentar. Saiu de Soragakure há quase dois anos em busca da família das quais tinha apenas indícios, sem nenhuma prova de que realmente existissem.

Estaria ao lado dele para prover suporte, para dar forças. E ajudar a superar a tristeza. Em breve os dois irmãos poderiam se encontrar outra vez! E recomeçar a vida juntos.

Enquanto ganhavam terreno, lutando contra o calor escaldante do deserto, Shino percebia nitidamente a presença de seus Betas, mesmo os camuflados e longe do alcance dos olhos. Já dos supostos Betas de Suna, não sentia o menor vestígio. Não era de todo inesperado, os ninjas nascidos na Vila da Areia dominaram técnicas diferentes. A areia era o esconderijo perfeito para eles. Só tinha a palavra de Kankuro, garantindo que os enviou. E isso bastava.

Ao final do segundo dia, memorável como da primeira vez, foram recepcionados por uma visão de tirar o fôlego. Aquele belíssimo oásis encravado no seio da areia, a promessa de um pouco de descanso no avançar da caminhada.

Ino pediu que esperassem um pouco, enquanto os Betas verificassem a segurança do lugar. Os minutos pareceram mais longos do que na realidade, a tensão cresceu um pouco.

Ao perceber tudo calmo e silencioso, puderam se aproximar.

Kiba desceu do garanhão e soltou o filhote no chão. Akamaru vinha se sentindo inquieto nas últimas horas, cansado de ser levado no colo. O bichinho saltitou, dando uns pinotes no ar que fizeram Kiba rir. Depois disparou na direção do lago, provavelmente para beber a água fresca.

— Ele é engraçado!

— Não posso negar — Shino apeou do cavalo branco e permitiu que Ino o levasse pela rédea, junto com os outros dois para um lugar em que pudessem pastar e descansar. Os Betas que guiavam a carroça e a carruagem deram inicio a montagem do acampamento.

Ambos seguiram até o lago, comprovando que Akamaru saciava a sede.

— Hoje nem me atrevo a entrar na água — diferente da primeira vez, a noite já caiu por completo. O ar estava frio demais tal qual toda noite no deserto.

Shino concordou. O máximo que se atreveram fazer foi lavar as mãos e refrescar um pouco o rosto, gesto que lavou as marcas das bochechas de Kiba, voltando rápido para perto de onde uma fogueira foi acesa para preparar o jantar. Sentaram-se lado a lado, observando as chamas ganhando forças. Akamaru continuou brincando por aí, volta e meia sumia das vistas, mas Kiba sabia que o ninken estava bem, apenas se divertia.

— Eu cuido disso — Kiba disse para o Beta que veio com o braseiro e as panelas de barro com comida para requentar. Já meio cansado de não fazer nada. O Beta olhou em dúvida para Shino, que assentiu silencioso — Não sou nenhum mestre cozinheiro, só bom o bastante pra não morrer de fome, como já tá tudo meio pronto, não tem perigo.

O Alpha apenas observou, concentrado na melancolia que o rosto trigueiro mal escondia, perceptível pelo vínculo.

— Como você está? — perguntou, apesar de saber a resposta.

— To me sentindo meio culpado — Kiba virou água do cantil na panela com carne e legumes, para transformar em um ensopado — Eu devia ter insistido mais para Hana-nee vir com a gente hoje?

— Acha que ia convencê-la?

Kiba refletiu alguns segundos.

— Ela parece ser meio cabeça-dura como eu. Mas eu sou muito mais cabeça-dura, talvez vencesse pelo cansaço! — se vangloriou como se aquilo fosse uma grande qualidade! Shino divertiu-se.

— Talvez.

— Não, eu não ia convencer nada. Eu vim do leste pela força de conhecer mais sobre mim e sobre o nome Inuzuka. Se Hana-nee quer encerrar a vida aqui e manter a dignidade com seus clientes, ela não viria de jeito nenhum — suspirou — Mas... eu fico preocupado.

— Meus Betas vão cuidar dela. São todos treinados e experientes — Shino garantiu. Também deixou dinheiro o bastante para qualquer eventualidade. Afinal, não gastou nem uma pequena parte do que trouxe. Não tiveram tempo de passear, comprar especiarias e outros produtos de Suna.

— Obrigado — Kiba tampou a panela. Só precisava esperar ferver e engrossar o caldo — Por tudo o que fez. Nunca poderei retribuir.

O Alpha estendeu a mão, um pedido mudo para que Kiba viesse para junto de si. O garoto obedeceu, meio arrastando-se pela gramínea, cobrindo o pequeno espaço que os separava, para aconchegar-se nos braços do companheiro.

— Amor não espera retribuição — Shino falou simplista.

— Amor? — Kiba espantou-se. Olhou para cima, mas daquele ângulo não podia ver-lhe o rosto direito. O vínculo confirmou qualquer dúvida que pudesse ter.

Shino ponderou. Seu lado Alpha caiu de amores no instante em que sentiu como aquele pequeno shifter era diferente, mal encaixado na fila de trabalhadores. E sua parte racional era conquistada aos bocadinhos, com a convivência, com cada nuance, cada revelação.

— Amor.

— Caralho — foi tudo o que Kiba disse, antes de abraçar Shino com força, desajeitado pela posição em que estavam. O aroma de morangos venceu a prisão de acônito, se propagando suave no ar gélido da noite. Fluiu até Shino e atiçou-lhe todos os sentidos, obrigando-o a expandir um pouco sua presença, não querendo que mais ninguém sentisse aquele perfume! Tão possessivo, que até esqueceu que era o único Alpha ali. Betas eram imunes a tal padrão que caracterizava as duas outras castas.

Era a forma que o Ômega encontrou de confirmar não apenas que aceitava os sentimentos do companheiro, mas que estava pronto pra o amor.

A refeição ficou muito melhor do que Shino esperou (talvez por que Kiba não a preparou realmente). Akamaru se mostrou um filhote bem voraz, devorando uma porção de ração especial que Hana entregou, dizendo que era mais adequado que comida shifter.

Kiba foi o primeiro a sucumbir, exausto da viagem. Aconchegou-se na cabana que vinha dividindo com Shino, levando o filhote junto, claro!

Ino aproveitou para aproximar-se do Alpha.

— Amanhã partimos sem os Betas de Kankuro — ela disse ao se sentar — Vamos percorrer cerca de um dia e meio antes de encontrarmos os Betas que saíram de Konoha. Vou pedir que um homem avance e faça a varredura, nós seguimos atrás dele, com uma distância de duas horas. Apesar disso não pegamos nenhum sinal de perigo.

— Nem de outros viajantes — Shino comentou. Estavam em um oásis. O único num raio de milhas. Era de se esperar que mais viajantes parassem por ali no tempo em que estavam.

— Meu palpite é que tem dedo de Suna nisso também — Ino sorriu — Acho que eles deram um jeito de isolar a área na vinda e agora na ida. Ah, se pensar bem quando paramos aqui foi o momento em que mais relaxamos. Talvez Sabaku no Gaara já tivesse descoberto nossa chegada e desconfiado do seu Ômega, mas aqui ele confirmou tudo.

Shino ajeitou os óculos no rosto. A teoria fazia sentindo. Sequer desconfiaram que seriam recepcionados pelo Kazekage e toda aquela negociação tensa no Conselho. Quando chegaram no Oasis, entraram no lago, se refrescaram, relaxaram na areia. Ainda que Kiba não tirasse o cordão com acônito em momento algum, era perfeitamente possível descobrir o truque.

— Você tem razão.

O sorriso de Ino se tornou maior.

— Pensei que ia morrer sem ver as reações do meu senhor e melhor amigo, que vi em Sunagakure. Quem diria...? Seu Alpha está mais vivo do que nunca!

Shino limpou a garganta. Ter reações tão irracionais e instintivas não era nada para se contar vantagem!

— Também pensei — Shino acabou por revelar.

— Nunca duvide do poder do primeiro amor! Faz até um quarentão como você ter crisinha de ciúmes — e dessa vez riu alto, incapaz de conter a reação exagerada.

— Não se esqueça que temos a mesma idade.

— Oe! — a risada morreu na hora. Yamanaka Ino acertou um soquinho irritado no ombro do amigo — Que grosseria pra dizer a uma dama.

Shino sabia que ela não estava ofendida de verdade. Ino nunca ligou para tais trivialidades. Observou-a levantar-se para uma última ronda de segurança. Então ele próprio tomou o rumo da cabana onde seu companheiro dormia.

Quem diria. A essa altura a vida lhe trouxe um primeiro amor. Alguém capaz de despertar sensações que nunca pensou sentir, por escolher abandonar o convívio social. Por preferir se afastar de todos quando foi incapaz de proteger a esposa e o filhote ao qual ela deu a luz.

Mesmo que tentasse fugir e se isolar, o amor chegou a ele.

O amor encontrou o caminho.