Marcas da Solidão
Kaline Bogard
As previsões de Ino se confirmaram. Se os Betas de Kankuro continuaram com eles depois do Oásis, jamais saberiam. Mas ela preferia não contar com eles.
Por precaução ditou um ritmo mais apertado para a reduzida caravana, tendo que pagar um preço por isso.
O dia seguinte ao da partida do Oásis, o tempo tornou-se mais agressivo. A umidade do ar caiu a praticamente zero, fazendo o simples ato de respirar doloroso. Tiveram que proteger os rostos com panos umedecidos. O calor fustigou inclemente, oferecendo uma sensação térmica muito acima dos quarenta graus.
Era difícil para um Alpha. Era duro para um Beta. Mas para um Ômega era tarefa irrealizável. Por mais que Kiba tivesse resistência acima da média e força de vontade inquestionável, acabou atingindo os limites.
— O tempo piorou assim... só pode ser um motivo — Ino, que cavalgava ao lado de Shino, comentou — Tempestade de areia.
— Não temos onde nos abrigar... — Shino olhou em volta: areia, areia, areia a perder de vista.
— Não estamos na rota da tempestade — a mulher o tranquilizou — Não tema. Apesar disso a pressão atmosférica muda, por isso está mais quente e mais seco. Não dá pra prever quando vai acontecer, mas o deserto envia esses sinais.
Shino olhou na direção da carruagem, onde seu companheiro viajava agora. Sem toda aquela animação de antes, prostrado e sem forças, vítima exausta da inclemência da natureza. Vinha naquele meio de transporte com Akamaru desde que começou a sentir tonturas e fraqueza. Kiba odiava admitir as próprias debilidades, por isso foi quase doloroso ter que dizer que não conseguia mais avançar a trote. Shino sabia disso, graças ao laço que tinham. Mas preferiu que o garoto decretasse quando chegasse ao limite, mantendo-se atento ao lado dele, para qualquer eventualidade. Ficava mais tranquilo que o bom senso vencesse a teimosia e seu companheiro estivesse agora mais confortável.
Quando Shino sentiu a presença de seus Betas o alívio foi grande. Eles vieram ao encontro do Alpha em um grupo de dez ninjas. Traziam montarias extras com barris de água fresca e mantimentos em conserva para substituir os que vinham consumindo.
Houve uma breve pausa para uma refeição e refrescar-se um pouco. Shino não permitiu que Kiba descesse da carruagem, dando um jeito para que ele se cuidasse lá dentro, na pouca sombra que ela proporcionava. Puderam trocar os panos molhados nas janelas, que davam umidade ao ar e facilitava um pouco para o Ômega.
Depois disso a viagem tornou-se mais amena. Graças aos deuses a tempestade de areia desabou em algum ponto longe deles, diminuindo a pressão no ar. O resto de deserto que atravessaram foi menos impiedoso.
Todavia, melhor sensação do mundo foi notar a mudança discreta na paisagem, quando a fronteira tornou-se mais do que uma promessa perdida na distância. Reconheceram os contornos do lar. O País do Fogo os recebeu de braços abertos. Finalmente estavam em casa.
Levaram ainda quase dois dias para alcançar Konoha, tomando o rumo do feudo de Aburame Shino. Ino calculou que chegariam por volta de onze horas da noite.
Kiba era outro shifter. Recuperou as forças e grudou na garupa do alazão de novo! Empolgado em ter superado a provação. Feliz por voltar para lá, depois de ter encontrado a irmã que lhe ofertou a promessa de um derradeiro reencontro. Em cerca de um mês ficariam juntos de novo!
Os laços estavam formados. Isso ficou claro quando o Ômega sentiu exatamente onde começavam as terras do feudo. Sim, Kiba passou seis meses incríveis ali, trabalhando com os Betas, cuidando dos charcos e se apegando a terra sem que se desse conta ou pudesse evitar. Seu lado Ômega acolheu o que seria seu lar definitivo, não consultou Kiba, não esperou que a racionalidade entendesse ou aceitasse. Apenas se apegou! Por isso foi tão fácil seguir Shino para a casa principal naquela manhã das bênçãos. Na época, lhe faltava experiência social para enxergar a situação como um todo. Um mês depois, mais ou menos trinta, quarenta dias depois passou por tantas vivências, descobriu a verdade por trás da visão de mundo que o perseguia, enchendo de medo de Alphas. Experimentou coisas boas que sequer imaginava ser possível.
Experimentou a sensação de voltar para casa.
O dia estava quase acabando. As surpresas não.
No trote moderado venceram terreno a terreno, plantação a plantação, onde as mudas de arroz ainda não surgiram, mas logo despontariam fortes a cobrir o charco por completo.
No horizonte, uma claridade alaranjada surgiu, competindo com o brilho da grande lua cheia no céu.
Shino percebeu a presença de centenas de shifters. Presenças familiares. Os Betas dos seu feudo.
E lá estavam todos, no terreno que separava as plantações de arroz da casa principal. Cada homem, mulher e criança, agrupados em volta de grandes fogueiras, porque eles também pressentiram o segundo exato em que os senhores daquela terra retornaram.
Senhores.
Afinal, se o Alpha Aburame reconheceu Inuzuka Kiba como companheiro, seu passado misterioso e humilde deixou de ter qualquer importância. Ele foi aceito pelos Betas e visto como parte da família, ligado a eles por algo tão forte quanto o sangue.
Então correram para fazer a festa. Não um festival como o que Shino ofereceu. Uma comemoração muito mais modesta, ainda assim, calorosa o bastante para mostrar o quão felizes estavam. Prepararam grandes tinas de arroz, bolinhos de milho e guisado de frango com legumes. Para receber seu Alpha e seu Ômega.
Eles fizeram um retorno as raízes shifter. Eram Betas e ofereciam a força dos números a um Alpha, homem que agia como um farol, um ponto mostrando a direção. Ano após ano, seus pais, seus avós e os pais de seus avós, serviam a família Aburame, sobrevivendo as intempéries da vida com as ferramentas que possuíam.
E então, sem que ninguém pudesse prever, um Ômega apareceu. E trouxe luz ao farol. Luz forte e quente, que mostrou aos Betas a diferença entre ser um barquinho a deriva, sem nunca ousar perder o farol de vista e assim perder o caminho, e ser um barco com uma referência poderosa, a garantia absoluta de que nunca errariam e se perderiam de casa.
O círculo perfeito se completou.
Alpha, Beta e Ômega.
O conceito literal de Pack. Que transcendia "família" e "amizade". Um conceito perdido no tempo, ameaçado graças à gradual extinção dos Ômegas.
Quando Aburame Shino e Inuzuka Kiba se ausentaram para a viagem, impuseram ao feudo um vazio abismal. A ausência de seu farol e da luz que abençoou suas vidas. Um sentimento de incompletude visceral, inenarrável. Como se cada um deles, até as crianças, incapazes de compreender de forma racional; se desse conta de faltar partes. De ser um indivíduo perdido do grupo, porque o grupo agora é um Pack, mas o Pack só existe com a presença de Alpha, Beta e Ômega.
Por isso não puderam se conter. Os Betas sentiram o avançar a trote através dos minutos, das horas, até que os viajantes percorreram todo o terreno e isso lhes deu tempo para preparar a festa.
Kiba não acreditou. A sensação de boas-vindas varreu o cansaço por completo. O fez até esquecer um pouco da tristeza pela ausência provisória de Hana. Ele olhou para Shino, cuja expressão indiferente camuflava como se sentia, mas não escondia de Kiba. O Alpha estava igualmente feliz, emocionado até.
Sem perder mais tempo, Kiba apeou, Akamaru saltou de seus braços, pulando e latindo daquele jeito de filhote. As crianças vieram cercar o Ômega e puxá-lo pela mão até as mesas improvisadas, cobertas de comida.
Shino desmontou também. Alguém levou os alazões para o estábulo, quando ele se deu conta, estava sentado em volta da fogueira, cercados pelos responsáveis de cada plantação. Tinha uma garrafinha de sake nas mãos e um pequeno copo, ouvia relatórios sobre como aqueles Betas se esforçaram para manter tudo de acordo. Kiba estava na fogueira ao lado, as mãos cheias de bolinhos de milho, que jogava na boca de tempos em tempos, se vangloriando paras as crianças sobre os feitos que Akamaru um dia realizaria. Akamaru que estava bem acomodado sobre a cabeça do Ômega!
Se Shino tivesse dado ordens para tal recepção, talvez não conseguisse uma atmosfera com tanta harmonia.
Foi bom ter saído de casa e enfrentado o exílio auto imposto, Shino sentiu uma vitória. Mas voltar para casa foi incrível por não ter o peso de antes. Não era simplesmente uma fuga, seu esconderijo inviolável. Era, agora, um lar. A casa que o acolhia e acolhia seu companheiro.
Nesse momento o lado Alpha reagiu, instigado. Voltou o rosto na direção do Ômega. Kiba o mirava de volta, meio alheio das crianças que contavam suas aventuras. Os olhos de íris peculiar estavam presos nos de Shino, capturando-os por baixo das lentes escuras. Pareciam brilhar de forma sobrenatural.
Ergueu o copinho de sake na direção do garoto, um brinde silencioso que selou um compromisso entre ambos. Agora que voltaram para casa, poderiam oficializar o vínculo. Torná-lo definitivo. Pois, conforme ambos bem sabiam, Kiba já não planejava partir daquele feudo.
Ino providenciou que tudo fosse cuidado de acordo: os cavalos, os Betas que vieram de Suna e os que encontravam a caravana no meio do caminho. Só então se permitiu participar da festa de boas vindas. Assistiu a alegria dos Betas, divertiu-se com a tentativa pueril e inexperiente do Ômega de seduzir o parceiro com o olhar. Suspirou com enfado, vendo Shino cair fácil nos encantos do menino.
Permitiu que se distraíssem com a culminância da bem-aventurada viagem.
Guardaria as notícias que recebeu para o dia seguinte, para o novo amanhecer.
Mal entregou a rédea dos alazões para o cavalariço, um Beta se aproximou para mostrar-lhe um pergaminho lacrado com jutsu.
O papel trazia uma mensagem em código, enviada pelos ninjas que investigavam Soragakure e Gin-Io.
E as notícias não podiam ser piores...
