Marcas da Solidão
Kaline Bogard
A festa varou madrugada a dentro. Era perto de duas horas da manhã quando a euforia amainou e Kiba começou a ceder ao cansaço. Alguns servos já tinham se recolhido, algumas camponesas levaram os filhotinhos para dormir.
Shino decidiu que era hora de voltarem para casa. Dispensou qualquer oferta para novas montarias. Dali até a casa eram poucos metros. Por isso nem hesitou em tomar o companheiro nos braços, gostando de como o garoto se aninhou contra seu corpo, sonolento demais para reclamar, meio abraçado a Akamaru que também dormia.
Escolheu entrar em casa pela parte da frente. Kiba preferia a paisagem do outro lado, mas evitou dar a volta maior.
— Por aqui senhor, preparamos o banho! — Chiyo, serva que comandava as outras, indicou a sala dos banhos. Por isso saiu da festa antes.
Shino observou o Ômega em seus braços. Kiba estava quase adormecido! Seria maldade acordá-lo... por outro lado, estavam chegando de uma viagem exaustiva. O corpo estava grudado de suor.
Resolveu banhá-lo. Já teve a autorização para isso antes, em Sunagakure.
— Obrigado.
Chiyo reverenciou de leve e tomou Akamaru em suas mãos.
Shino rumou para a sala preparada. Diferente da vila da Areia, ali estava um clima agradável. Dispensava-se os fogareiros com óleo aromático, nos cantos os costumeiros ramos naturais que o Alpha apreciava.
Colocou Kiba de pé, para ajudá-lo a tirar as roupas. O garoto esfregou os olhos e despertou um pouco, recebendo feliz a oportunidade de se limpar. Foi o momento em que lavou o rosto com carinho, limpando-o das marcas vermelhas borradas durante os festejos. Instante em que o Ômega pareceu mais jovem do que realmente era. E Shino se perguntava onde estava com cabeça para se apaixonar por uma quase criança. Bem, pergunta boba, não é o cérebro que decide essas coisas. É o coração...
Tirou o cordão com acônito e jogou-o no canto. A essência Ômega, a pura presença de Kiba expandiu-se, livre das amarras e propagou-se pelo ambiente, indo além, alcançando longe no feudo. Era a energia renovadora que os camponeses ansiavam. Envolveu Shino como um manto invisível de carinho, acolheu o Alpha que tinha na alma, oferecendo aquela sensação de saciar a sede direto na fonte da vida.
Shino abraçou o corpo nu com força. Não podia mais seguir sem aquele garoto ao seu lado. Agora que provou o que era ter um companheiro reconhecido ao seu lado, estava viciado.
A custo separou-se. Culpa pesando por querer aproveitar algo que vinha de alguém exausto.
O pré-banho foi rápido. Shino esfregou-lhe as costas com cuidado, notando que a pele ganhou um saudável bronzeado, apesar dos trajes que cobriam praticamente o corpo todo. Diferente de si, que queimou unilateralmente, mas por sorte as roupas que trajava ajudariam a encobrir o tom quase bicolor.
Quando mergulhou na banheira com água morna, Kiba suspirou. Como aquilo era agradável! Relaxou os músculos quase no mesmo instante.
— Bom pra caralho... — sussurrou. Os olhos dando longas piscadas. Não apenas a água, mas o ambiente familiar, os cheiros, a sensação...
Shino não demorou demais no banho, por mais que o Ômega apreciasse a imersão. Logo decidiu tirá-lo da água e ajudá-lo a vestir roupas confortáveis para dormir. E o levou para o próprio quarto. Era ali que ele ficaria dali para frente.
O grande futon já estava arrumado. Quando ajeitou o garoto adequadamente nem se surpreendeu por ele estar adormecido. Admirou o rosto relaxado por alguns segundos, antes de ir tomar banho também.
Foi a melhor decisão que teve: lavar o corpo, banhar-se com o sabonete de ervas e sentir-se limpo e renovado.
Em pouco tempo foi deitar-se no futon, acomodando-se ao lado de Kiba. Tirou os óculos e o colocou sobre uma toalhinha que as servas sempre deixavam no chão próximo à cabeceira. Respirou fundo, fechando os olhos. Menos de um segundo depois sentiu um corpo se acomodando ao seu. Pelo vínculo sabia que Kiba estava dormindo, o gesto foi mais instintivo do que qualquer outra coisa. Aceitou o aconchego, estreitando-o junto a si. O grande futon pareceu, finalmente, ter o tamanho ideal.
A exaustão os fez dormir até depois do meio-dia. Horário em que Shino levantou-se, deixando Kiba ainda sonolento a cochilar entre os lençóis. Trocou-se em ajuda do servo, que não ousou entrar no quarto sem ser chamado, apesar de estar do lado de fora esperando.
— Bom dia, Aburame-sama — ele cumprimentou baixinho quando Shino saiu ao corredor — Precisa de ajuda com alguma coisa?
O Alpha capitou tracinhos de ansiedade no ar. O Beta queria ser útil.
— Esteja a disposição quando Kiba acordar. Ajude-o no que precisar.
— Sim, senhor! — o servo o agraciou com uma reverência perfeita de noventa graus. Shino nem precisava ter um vínculo para intuir o impacto que as palavras causaram no rapaz. Ele recebeu a chance de ajudar um Ômega! Logo ele, humilde servo do feudo! Que honra para a sua família.
Satisfeito, Shino foi para a sala das cerejeiras. Deparou-se com Ino parada perto da janela, o aguardando.
— Bom dia, descansou? — ele indagou.
— O bastante!
— Já se alimentou?
— Sim, almocei agora pouco. Não se preocupe comigo.
— Você está tensa — Shino sentou-se a mesa. Uma serva parou a porta, perguntando se o senhor feudal desejava almoçar, mas ele negou. Pediu um pouco de chá, preferindo fazer a refeição quando Kiba estivesse consigo. Talvez não demorasse muito, o garoto logo viria pelo faro!
— Tenho más noticias para lhe dar — Ino sentou-se a mesa, de frente para o Alpha.
Ele ficou tenso. Preparou-se para o que iria ouvir.
— Diga.
Ino respirou fundo.
— Recebi uma mensagem dos espiões que foram para Soragakure. Eles sofreram uma emboscada enquanto tentavam invadir e ter acesso a Gin-Io. Um foi morto na hora, o outro escapou, gravemente ferido. E conseguiu enviar o pergaminho usando uma técnica de comunicação. Creio que não tenha sobrevivido também.
Shino levou um baque. Não era fácil ouvir que um de seus Betas foi morto. Provavelmente dois. Era sua responsabilidade.
— Lastimável. Não desampare as famílias desses homens.
— Não lamente, Aburame Shino. Eles morreram cumprindo o dever, com honra. Não se esqueça que a família dos ninjas desse feudo é você. E seu Ômega — disse aquilo sem afetação alguma. Não usava de bajulação ou pilhéria. Apenas apontava um fato. Uma das premissas para a guarda de um feudo é a possibilidade de arriscar-se em missões. Viviam anos de paz e tranquilidade, mas em outros tempos a violência era companhia constante. Todo ninja era treinado e estava pronto para morrer se necessário.
Shino sabia de tudo isso. Mas não diminuía o peso da responsabilidade que sentiu. Observou a mulher a sua frente, que aceitou o pesado fardo de ser seu braço direito e chefe da segurança do feudo. Teria Ino alguma vez se arrependido de aceitar o cargo e abrir mão de qualquer outro caminho? Talvez a opção de ter um companheiro, filhos? Bom, provavelmente não. Se Ino tivesse reconhecido algum companheiro, teria largado o cargo. Isso é fato. E aquela Beta não era mulher de se arrepender das escolhas que fez.
— Prepare um cerimonial. Eles pereceram em defesa do Ômega do nosso feudo. Merecem a gratidão de todos. Especialmente a minha.
— Considere feito. Precisamos discutir os próximos passos. Eles não descobriram nada a respeito do país. Mas a presença deles deve ter chamado a atenção dos inimigos. Se a Akatsuki está envolvida, todo cuidado é pouco. Talvez seja melhor entregar a mensagem às mãos de Naruto.
Ino nem precisava ter dito isso. Era a intenção de Shino no momento em que soube sobre as mortes. Seus ninjas eram Betas treinados e aptos para situações perigosas. Mas não eram como os ninjas do Conselho, que agiam em times especializados para investigar crimes e organizações ilegais. Pediria uma reunião com o Hokage, para resumir a viagem à Sunagakure e para compartilhar as ações de seus Betas na tentativa de espiar Soragakure.
— Reforce a segurança nas fronteiras da propriedade. Nenhum Beta desconhecido deve ser aceito no feudo sem uma verificação minuciosa.
— Aburame-sama — Ino riu — Quem você pensa que eu sou? Depois do festival eu já coloquei Betas a mais nas patrulhas. Estou pensando em ir ao vilarejo campes e recrutar alguns camponeses mais jovens para treiná-los. Nossa guarda tem um bom contingente para situações normais. Agora é recomendável pegar uns garotos a mais.
— Perfeito.
— Mandarei uma mensagem para Naruto... não. Vou lá pessoalmente. Faz tempo que não o vejo, nem o Sasuke. Aproveito para passar no centro de Konoha e repor algumas coisas.
— Me mantenha informado.
— B-bom dia — um bocejo esticou o "a" enquanto Kiba entrava na sala. Veio esfregando os olhos, sentando-se ao lado de Shino. O rosto sonolento estava limpo, sem as marcas Inuzuka — Dormi bem pra caralho.
— Bom dia — Ino e Shino responderam ao mesmo tempo.
— Depois quero ver o Akamaru. Precisamos montar uma casinha pra ele, também quero ir pro vilarejo perguntar se Danzo-san conhece uma casa desocupada pra minha irmã morar.
— Eu vou com você — Shino se prontificou mais do que depressa.
Ino disfarçou um sorriso. Notou como as narinas do Alpha se moveram de leve, como se captassem um aroma agradável. Muito provavelmente aquele Ômega danado usando sua essência para seduzir o Alpha. Quase certo que fosse sem querer, o que dava um ar de inocência tão grande, que a fazia querer apertar as bochechas do garoto.
Ela não sentia nenhum tipo de cheiro, era uma Beta.
— Aproveitem o resto do dia — ela falou, com uma insinuação distorcendo o sorriso largo — E a noite também!
Escapuliu no segundo em que as servas pediram licença para entrar com o almoço tardio. Kiba não entendeu a piada, mas Shino compreendeu muito bem! Não se irritou, nem se aborreceu. No fundo a Beta estava certa.
Aquela noite...
Aquela noite seria especial!
