Marcas da Solidão

Kaline Bogard

Shino despertou primeiro. Acordou antes mesmo de o dia raiar, naquele espaço de tempo em que a madrugada cede espaço ao sol nascente, e os raios alaranjados se confundem com os do entardecer.

Respirou fundo, lento. Notou o peso sobre seu corpo acompanhar o movimento. Kiba ainda dormia, muito bem acomodado em cima do peito do Alpha, uma mão escapando de sob o lençol, junto a face.

A posição dava uma visão privilegiada dos cabelos castanhos desalinhados. Um convite que Shino não resistiu: em um gesto simples se viu acariciando os fios curtos, de leve para não acordá-lo.

O Alpha sentia-se muito bem. De um jeito que Shino não achava ser digno de se gabar. A Marca não era simplesmente uma mordida, um ferimento. A Marca era um sinal sobrenatural, a aliança que firmava compromisso entre dois shifters, daquele instante até que a morte os separasse. A Marca também era um aviso, um alerta indicando que aquele Ômega pertencia a um Alpha e não estava disponível para acasalamento. Algo bem possessivo, há que se concordar. Mas imposto pela natureza, nascia com os Alphas e os caracterizava. Nem alguém como Shino conseguia evitar a satisfação de encontrar um companheiro que o reconhecesse e aceitasse a sua Marca. Não se orgulhava do sentimento de posse, conquanto lutar contra ele era algo acima de suas forças.

O bem estar alcançava muito além da simples ledice em se obter sexo. Ou mesmo sexo com um Ômega, o que por si só já era premissa de satisfação absoluta. A questão ali transcendia o âmbito da compreensibilidade. Um ato de amor com um companheiro reconhecido.

A pele nua contra a sua. O coração batendo calmo. A saciedade fluindo pelo vínculo.

A Marca irradiando.

Seu cheiro mesclado com o cheiro do Ômega.

O sono relaxado, confiante. A entrega.

As roupas largadas pelo chão.

O potinho com o creme lubrificante, suave aroma que mal captava.

Intimidade.

Cada pequeno detalhe dentro daquele quarto, se somavam e colaboravam para que ele sentisse a diferença entre sexo e amor. A diferença entre saciar o apetite do corpo e satisfazer a carência da alma.

Pensou que nunca teria isso na sua vida. Acreditou que estava tudo bem caso assim fosse. Que não encontrasse alguém a quem amar. Ou com quem formar uma família. Pelo menos não dessa maneira. Já que uma vez, no passado, aceitou receber uma Ômega, amiga de infância, desgraçada diante da família por trair sua obrigação e as expectativas que seu sobrenome colocaram em seu caminho. Shino a acolheu e ao bebê que ela carregava, disposto a protegê-la e cuidar da criança. Mas falhou terrivelmente.

Não se sentia digno de uma segunda oportunidade.

Todavia ali estava ela, à sua porta. Então seguiu o conselho que deu a Kiba: algo bom surgiu em sua vida. Shino apenas aceitou.

Possessivo? Egoísta? Talvez.

Shino nunca foi assim. Mas em relação àquele garoto, não queria abrir mão.

Então foi tirado das reflexões por uma mão quentinha, que passou de leve por seu peito, em gestos lentos.

— Bom dia — Kiba bocejou — Babei em você...

A resposta foi automática. O Alpha passou os braços pelo corpo menor e mais frágil e o apertou com carinho. Era isso. Era esse jeito tão... tão... tão... "Kiba" que o havia conquistado, despertado o Alpha adormecido, com o bom e o ruim, e aceitado sem ressalvas.

— Vou entender... como... um "tudo bem" — o garoto gracejou — Caralho... to acabado... OE! Não se sinta tão... alegrinho... maldito.

Shino o soltou do abraço, pondo-se a acarinhar as costas nuas.

— É a Marca. Ela é um ato sobrenatural. Muda a estrutura da sua essência, muda seu corpo. A partir de hoje não será mais atraente para outros Alphas. Quando eles captarem seu cheiro, estará mesclado com o meu. Não é agradável para ninguém mais além de mim.

— Que foda — suspirou — E você... vai ser assim pros outros Ômegas...?

—... não... — Shino quase perguntou "que outros Ômegas"? Sasuke já tinha uma Marca. O segundo Ômega do País do Fogo vivia viajando, por isso estava longe da Vila da Folha, além de também já ser marcado por um Alpha.

Kiba voltou o rosto contra o peito de Shino e tentou morder, mas o mordisquinho das presas laterais fez mais cocegas do que outra coisa.

— Que injusto!

— Concordo — Shino não tinha como negar ou diminuir a injustiça. A natureza escolheu fazer os shifters assim. Não podiam remodelar a raça, ainda que melhorassem alguns comportamentos, o âmago de cada casta tinha características absolutas.

— Tá. Te perdoo só porque tá bom ficar aqui — bocejou de novo.

— Descanse.

Kiba balançou a cabeça, os olhos pesando um bocado. O corpo estava exausto, exaurido de suas forças. E a base do pescoço começava a latejar. Imaginou que a bendita dentada de um Alpha devia fazer um estrago. E o incomodo que vinha de mansinho só confirmava suas piores expectativas.

O garoto adormeceu de novo, com Shino vigiando seu repouso.

A segunda vez que Kiba despertou, já estava bem mais recuperado. Era noite, as horas divididas entre seu sono pesado e as cochiladas ocasionais do Alpha. Notou três coisas ao mesmo tempo: babou de novo em Shino, sentia uma fome de lascar e o pescoço doía tanto que parecia em brasas.

— Caralho do inferno _ gemeu — To varado de fome, Shino. Mas meu pescoço tá me matando.

Para Kiba reclamar mais da dor do que da fome, a coisa devia estar feia.

— Vamos cuidar disso.

Shino levantou-se do futon, muito ciente do olhar apreciativo que Kiba deu ao seu corpo desnudo, as marcas deixadas pelas garras de Kiba já se curavam, em breve se tornariam meras cicatrizes, graças à aceleração sobrenatural da casta.

Adorou a admiração que fluiu através do vinculo. Precisava aprender a lidar com tais reações da própria parte Alpha. Vestiu a yukata de tecido leve branco e amarrou o obi com um nó simples. Colocou os óculos escuros, ajeitando-os de modo a proteger a cicatriz.

Sua intenção era sair do quarto para buscar medicamentos, mas assim que correu o shoji de flores, havia uma pequena bandeja perto da porta, com um potinho medicinal tampado, gazes e ataduras. Ele ergueu as sobrancelhas. Teriam os servos deixado ali quando estavam dormindo? Não sentiu a presença de nenhum deles! Agradeceu a discrição e afabilidade do gesto. Não por si próprio, mas por preservar a intimidade do Ômega.

Pegou a bandeja e levou para o futon. Sentou-se atrás de Kiba, que já estava sentado, o lençol escorregara até descobrir o baixo-ventre, sem que ele se importasse.

— Tá doendo... — reclamou sem afetação. Os dedos terminando em garrinhas tocaram de leve a própria pele, logo se afastando — Caralho!

Shino deu uma boa olhada na Marca. Quase praguejou. Aquilo estava feio! Contudo, um tanto fascinante. Ele conseguiu cravar a circunferência perfeita da própria arcada dentária na curva do pescoço de Kiba, fileirinhas de pontos na pele trigueira, com os caninos causando chagas mais profundas. A tez inchada ao redor da ferida já escurecia, ainda que em alguns pontos as feridas ainda tivessem um tom sanguinolento. Ia demorar um bocado para curar! Mas... convenhamos, a Marca representava um compromisso sem deixar de ser, em essência, a ferida imposta por um Alpha. E Ômegas não tinham cura tão rápida quanto as demais castas.

Meio impressionado pela visão, nem se deu conta de quando largou o potinho de volta na bandeja, desinteressado daquilo. Então Shino inclinou-se um pouco e fez a língua deslizar sobre a Marca. Sentiu, mais do que viu, Kiba se arrepiando todo, enquanto um gemido languido escapava-lhe pela garganta.

O som provocante serviu como incentivo para que o Shino continuasse lambendo a Marca, o Alpha assumindo o controle por completo, oferecendo o melhor jeito que conhecia para cuidar do companheiro.

Kiba continuou gemendo, enquanto o corpo ia inclinando para frente, de modo inconsciente, fazendo com que o garoto se prostrasse de quatro sobre o futon. Shino acompanhou o movimento, levando-se também pelo familiar e adorado aroma de morangos, que se propagou pelo ambiente, inebriando seu olfato.

Saiu da posição apenas para resgatar o potinho com o lubrificante feito a base de ervas. Restava pouco e teria que bastar.

Besuntou dois dedos no restinho do creme, cobrindo-os tanto quanto conseguiu. Endireitou-se, uma mão segurando o companheiro firme pela cintura. A outra, usando os dedos para penetrar o corpo do Ômega e prepará-lo. Não gastou muito tempo nisso. Kiba fitou-o por cima do próprio ombro, os olhos brilhando na penumbra do quarto.

Foi o sinal para que Shino consumasse o ato. Sequer tirou a yukata. O tecido leve e largo foi apenas afastado, libertando o falo duro de excitação. O cheiro do seu Ômega era o melhor afrodisíaco.

Encostou o pênis na entrada que pulsava e forçou passagem. Kiba gemeu ao ser empalado, a dor inicial trazendo-o um pouco para a realidade. Cedeu, mas o amante o segurava firme pela cintura, ambas as mãos ajudando na tarefa. Segurava nos quadris do garoto com tanta força, que a pele ganharia o contorno de seus dedos. Ao mesmo tempo ele empurrava o corpo para frente, até ser engolido por completo. Os movimentos involuntários do canal estreito massagearam seu falo e o fizeram ofegar. Não esperou muito para mover o quadril, saindo e entrando quase em seguida. Kiba tremia, gemendo baixinho com os lábios entreabertos. Mas seu cheiro se fortaleceu, atiçou o Alpha de um jeito tal, que ele não pode se conter. Entrou e saiu com força, fundo. Notou vagamente o parceiro vir de encontro a si, ajudando nos movimentos de vai-e-vem, buscando maior contato entre os corpos. Pouco havia da candura da noite anterior. Agora saciavam a parte animal de suas almas.

A fome foi esquecida, o incomodo e o cansaço sumiram. Havia apenas o Alpha e o Ômega se perdendo ou, talvez, se encontrando e se descobrindo nos caminhos do amor.