Marcas da Solidão
Kaline Bogard
Kiba acordou a segunda manhã nos braços de Shino, já acostumado àquele calor que o envolvia. Olhou de canto, garantindo que nenhum rastro de babo ia lhe tirar a dignidade. Preparou-se para exclamar um animado "bom dia!" para o Alpha que já estava acordado. Mas seu estomago se precipitou. Roncou alto, reclamando por estar a mais de vinte e quatro horas sem receber nada. O rosto esquentou, diversão veio a ele através do vínculo.
— B-bom dia — o cumprimento saiu bem mais moderado e tímido do que pretendia.
— Bom dia.
— Que tal um banho e um café da manhã no capricho? — insinuou.
— Podemos pular a parte do banho e ir direto para a sala das cerejeiras.
— Mas... — até tentou protestar. Sentia o corpo grudando de suor. O sêmen escorreu por suas coxas e secou, agora incomodava um pouco. Também queria cuidar melhor d'A Marca (porém admitia que as lambidas de Shino suavizaram bastante a dor). Imergir-se longamente em águas mornas seria perfeito naquela manhã que despontava quente.
Seu desejo por um simples banho foi varrido pela onda de possessividade que fluiu do Alpha e o envolveu por completo. Relutância e contrariedade. Engasgou de leve sem compreender porque o Shino ficou mal-humorado com a ideia de se lavar! Seria bom até pro Alpha que...
Então a luz se fez na mente do garoto. Claro. Alphas. Tomar um banho significava tirar muito do cheiro de Shino que estava em seu corpo.
— Caralho... — Kiba riu. Shino não tinha o perfil de ser assim tão possessivo. Lembrou-se de captar dois ou três momentos mais agudos. Aquela cena em Sunagakure, em presença do tal Kankuro... até entendia. Havia um Alpha estranho ameaçando o "território" de Aburame Shino. Seu Alpha reagir foi natural.
Entretanto ali, no próprio feudo...? Wow.
— Me desculpe... se faz questão...
— Não! — Kiba cortou rápido — Posso aguentar um pouco mais, sem problemas. Não é ruim ficar cheirando a Shino não.
Não dizia nenhuma mentira. O Ômega que havia em si apreciou a ideia.
— Obrigado.
— É hoje que a gente vai jantar com o Hokage, não é? Tudo bem se eu me lavar antes?
—... — o homem preferiu não responder.
— Caralho, Shino! — Kiba esfregou o rosto no peito largo, tentando não rir dos ciúmes do Alpha.
— Não consigo me controlar — ele explicou pesaroso — A Marca é muito recente. E nós vamos jantar com outro Alpha. Sei que é o Naruto, mas...
Kiba o abraçou meio desajeitado.
— Eu consigo fazer isso — garantiu. Durante sua fuga ficou incontáveis dias sem poder tomar banho, por motivos que não se comparavam ao de Aburame Shino.
— Obrigado — agradeceu retribuindo o abraço.
O novo ronco da barriga de Kiba quebrou o clima um tanto romântico, trazendo diversão a Shino e um pouco de vergonha ao garoto.
O repouso foi restaurador. Quando saíram do quarto, tudo parecia diferente. E nesse ponto Kiba entendeu que havia infuência da Marca, que dividia a força do Alpha. Não em censo estrito: eram apenas os cinco sentidos que pareciam mais vívidos. Os sons, os aromas, o ar tocando sua pele... tudo ficou mais intenso.
Lançou um breve olhar para Shino, que caminhava um passo a frente. Será que, para o Alpha, o mundo já tinha essa evidência? Será que pra ele, pontuou ainda mais? Shino recebeu alguma coisa boa por lhe dar a Marca?
Dúvidas que seriam respondidas na convivência, no diálogo. Pretendia perguntar tudo para Shino! Não agora, claro. Não um interrogatório. Mas na conversa do dia-a-dia, descobrindo um pouco mais sobre o misterioso homem a cada vez.
Entraram na sala das cerejeiras e o ambiente era agradável. Havia ramas de alecrim e valeriana recém colhidas, renovando o ar.
Shino sentou-se na mesa baixa. Kiba o imitou e, ainda que bem recuperado, gemeu ao sentar-se. E corou.
— Eu... — nem soube o que intencionava dizer.
Shino não ajudou. Se sentiu malvado, mas ficou quieto aproveitando as ondas de constrangimento quase pueril que fluíram pelo vínculo. Era... fofo.
Nesse momento uma serva surgiu à porta. Era Chiyo-san que pediu licença antes de entrar dois passos na sala. A mulher era toda sorrisos. Não conseguia nem disfarçar a animação.
— Podemos servir o café da manhã, Aburame-sama?
— Sim — ele deu autorização.
Ela inclinou-se numa reverência perfeita de noventa graus e saiu para buscar a comida.
E que refeição as servas prepararam! Um verdadeiro banquete para duas pessoas. Uma montanha de tempura e guioza, bolinhos de arroz, assim como arroz branco cozinho. Uma travessa cheia de gunkan fez Kiba salivar. Nunca tinha comido aquilo, parecia ótimo! Salada de alface roxa vistosa e repolho rasgado. No centro disso tudo, carne assada ao ponto.
— Bom apetite — Chiyo desejou, colocando uma porção de chirashi a frente de Shino e prato igual a frente de Kiba. Saiu espantando as servas com gestos de mão, irritada por ainda estarem saltitando curiosas perto da porta, para espiar o casal. Era a primeira vez em... uma década que podiam preparar a refeição farta e festiva, caprichando e inovando nos pratos. Dia após dia viviam sem sair do básico: arroz branco e legumes. Eventualmente ousando cozinhar carne, rapidamente descartada pelo Alpha.
Festa, depois de um longo período de luto. Festa para Aburame Shino e festa para o seu feudo.
— Obrigado pela comida — Kiba agradeceu meio desesperado. O cheiro apetitoso o lembrando que estava sem comer a mais de um dia! Diferente da primeira refeição que fez ali, não esperou permissão! Atacou a comida com voracidade tal, que Shino quase riu. Quase. Ao invés disso pegou a porção de chirashi, desejoso de provar os frutos do mar com arroz, sentindo apetite. A necessidade de repor as energias usadas para marcar o Ômega como seu, assim como a desprendida durante as rodadas de sexo. Bem, Shino não era mais tão jovem. Não possuía o pique de seu companheiro... fato que não era exatamente lisonjeiro para um Alpha.
— Obrigado pela comida — agradeceu, mudando o rumo dos próprios pensamentos.
Depois do café da manhã, as servas trouxeram chá de ervas e biscoitos de ameixas e figos. Havia mel puro para acompanhar e uma travessa cheia de suculentos morangos.
Kiba se viu obrigado a arrumar um lugar na barriga para acomodar aqueles tesouros. E conseguiu facinho, facinho.
— Preciso me ausentar um pouco — Shino informou a Kiba, enquanto o garoto mordiscava um último morango. Queria ver Ino e conversar sobre as novidades, se é que existia mais alguma. Também negligenciou o feudo por praticamente um mês. Nem bem voltou de Sunagakure e assuntos íntimos demandaram sua atenção. Tinha que colocar seus deveres como senhor feudal em dia.
— Tudo bem. Vou ver como Akamaru está. Nem dei atenção pra ele, coitado.
E o "coitado" fez uma grande festa quando reencontrou seu dono. Os dois rolaram pela grama por um tempo, para matar as saudades. A certa altura, Kiba descobriu que tinha um servo pessoal. Ele foi na direção da casa, para beber um pouco de água, quando pôs o pé na varanda, um rapaz apareceu na porta, com uma bandeja. Sobre ela, um jarro de barro e uma xicara.
— Ah... — Kiba exclamou — Não precisa se preocupar. Eu me viro!
A dispensa fez o Beta se entristecer um pouco. Ser escolhido para servir o Ômega foi a maior honra que sua família recebeu em gerações. Seu pai ficou tão feliz! A mãe não cabia em si. Estava por perto, pronto para mostrar como era digno, não previu que o companheiro de Aburame-sama não o aceitaria.
Kiba notou a decepção na face do rapaz que tinha quase a sua idade. Coçou a nuca.
— Mas já que está aqui, por que não aproveitar? — sentou-se na beirada do assoalho, com as pernas balançando sobre a grama. Akamaru mordiscava o dedão do pé direito, fazendo um pouco de cócegas com os dentinhos afiados.
Bebeu a água fresca, com o servo sentado a moda oriental afastado curta distância, em expectativa. Encheu o copo uma segunda vez, quando Kiba lhe estendeu.
— Obrigado — o Ômega agradeceu. Não estava acostumado a esses luxos! Sempre viveu por seu próprio esforço. Bom, ao menos depois que fugiu de Gin-Io. Era esquisito ter pessoas fazendo quase tudo por ele.
Compreendeu que era o companheiro de um Alpha, um senhor feudal. Era esperado que tivesse servos, que fosse bajulado.
— O senhor não quer que eu o sirva mais? Prefere outro Beta? — ele até tentou soar neutro, mas a voz triste traiu a decepção.
Amoleceu o coração de Kiba.
— Qual o seu nome?
— Kimimaru.
— Muito bem, Kimimaru. Conto com você pra me ajudar — sorriu, aceitando que a partir dali não faria muitas das coisas. Não por estar em um distrito, prisioneiro. Mas por ser parte das obrigações que vieram junto, quando aceitou o vínculo e a Marca de Aburame Shino.
— Sim, senhor! Estou a disposição, Inuzuka-sama.
Kiba estufou o peito. "Sama".
"Inuzuka-sama".
Aquilo soou muito bem! Mas não combinava com ele.
— Me chame de Kiba. Esse negócio de "sama" é tratamento mais pra Alphas — e com Ômegas mimados, completou em pensamento.
Kimimaru acenou com a cabeça, sorrindo. Sua honra e a honra da sua família preservadas. Conquistou um lugar almejado por muitos servos, estar sempre ao lado de um Ômega.
