Marcas da Solidão
Kaline Bogard
No fim da tarde, Kiba se arrependeu amargamente de ter rolado tanto na grama com Akamaru. Tinha prometido que não tomaria banho para ir ao jantar na casa do Hokage, preservando assim o cheiro de Shino em seu corpo por mais tempo (e alimentando o ego do Alpha, diga-se de passagem). Um banho cairia muito, muito bem.
Mostrando solidariedade, Shino sugeriu que usassem toalhas úmidas para amenizar um pouco. E ajudou bastante. Não era o mesmo que aproveitar a banheira, mas contribuiu para fazer o garoto se sentir mais apropriado para o jantar. Se fosse ficar em casa, nem se importaria.
Aproveitaram o momento para tratar a ferida d'A Marca. Shino passou a medicação com cuidado por toda a base do pescoço de Kiba. A pele já não tinha aspecto sanguinolento, apesar de escurecer um bocado. O Ômega suspirou de alívio. A pomada de ervas refrescou e deu certo amortecimento ao inchaço. Não doía tanto quanto antes, só latejava um pouco.
Mais uma vez trocaram de roupa, colocando os trajes formais sem assistência dos servos. Um podia ajudar o outro com o tecido e o obi, um ato que aumentava a intimidade e os fazia se sentir mais próximos. Shino também o ajudou a pintar as marcas do Clã Inuzuka, caprichando para que ficassem idênticas e simétricas.
Foram de carruagem para a casa do Hokage. Dessa vez não havia motivo para desviarem do centro da vila. Na primeira vez precisaram mudar a rota pois acontecia o festival. Por olhar através da janela meio distraído, Kiba viu algumas janelas se abrindo e shifters espiando com curiosidade. Uns vários saíram à porta. Ele sequer imaginou que aconteceria, mas foi sua energia Ômega que fez o convite, a medida que chegava até Konoha e a presença entrava pelas casas, atingindo os Betas. Uma energia calorosa e receptiva, sendo enviada por alguém que só desejava o bem a todos, sem querer nada em troca, sem o requinte das interações sociais, quando a educação e a etiqueta exigem. Bondade pura, simples e selvagem. Selvagem como se colhida direto da natureza.
Nunca tinham experimentado nada assim antes.
A essa altura já sabiam que se tratava do Ômega que vivia no feudo Aburame. Graças às fofocas, claro. E a presença do Alpha dentro da carruagem que espiavam e que se expandiu tão subitamente, que a maioria dos curiosos voltou para dentro de casa depressa! Não foram ameaçados por nada agressivo, mas uma espécie de ordem para não chegarem perto demais. No fim das contas intimidou tanto quanto se fosse uma ameaça.
— Shino! — Kiba resmungou. O Alpha espantou todo mundo! Bem na hora que Kiba começava a gostar de tanta atenção!
— Me desculpe — pediu sem muita sinceridade. E Kiba capitou isso pelo vínculo.
— Meu momento de glória! — a reclamação apenas divertiu o outro.
O resto do percurso se deu sem grandes acontecimentos. A presença que Aburame Shino evidenciou serviu para afastar curiosos de plantão.
Assim se afastaram novamente do centro de Konoha. Em pouco tempo alcançando a residência onde Naruto residia com seu companheiro. Um servo veio recepcioná-los e levar a carruagem para o estábulo. Outro os guiou para dentro de casa.
Naruto estava na sala principal aguardando. E a expressão era das mais divertidas, se contendo a custo para não gargalhar assim que cumprimentou o amigo de infância com um aceno de cabeça.
— Shino... — queria rir. Nunca, naqueles quase quarenta anos, viu uma demonstração de possessividade tão contundente de Shino quanto a de agora a pouco, forte o bastante para incomodá-lo em casa. Não conseguia ver esse traço no outro. Prova que não deviam subestimar a essência de nenhum Alpha. Ainda que a parte humana fosse racional e contida, o lado animal preservava traços característicos da casta. E eles vinham a tona quando provocados.
— Naruto — o homem devolveu o cumprimento.
— Olá, Kiba.
— Yo!
Sasuke apareceu na porta de acesso, entrando na sala para receber os convidados. Diferente da primeira vez, não usava trajes tradicionais. Apenas um kimono formal no mesmo estilo dos outros três shifter. Não tinha a expressão arrogante parecida com a de alguém que chupou limão. Até a energia dele os recepcionou de um modo diferente da primeira vez, fazendo-os se sentirem bem-vindos à casa. Estava muito melhor, na opinião de Kiba.
— Olá — lançou. Ainda soou meio seco, e Kiba imaginou que tem coisas que nunca mudam. Talvez aquele homem fosse assim desde que nasceu.
— Sasuke — Shino falou cheio de formalidade.
— Yo — Kiba não perdia tempo com frescuras. Ele gostava assim: curto e simples. Mas sincero. Tão sincero quanto o sorriso que mostrou aos anfitriões e não tinha nada a ver com o cheiro bom de comida que seu nariz identificou. Nadinha mesmo. É.
— Venham comigo.
Naruto os levou para uma aconchegante sala, na que os recebeu da primeira vez. Cuja lareira acesa era a principal peça, iluminando todo o ambiente sem esquentar graças a um jutsu.
— Então você o marcou — Naruto lançou ao se sentar, com Sasuke ao seu lado — Não me surpreende.
Ainda se lembrava do jeito daqueles dois no jantar de apresentação do Ômega.
— Marquei — Shino respondeu sentando-se também. Quando Kiba se acomodou ao seu lado, ajeitou a gola do kimono do garoto, para que escondesse o sinal da mordida.
— Somos companheiros oficiais — Kiba abriu um sorrisão — Pensei em muitos futuros possíveis, mas em nenhum isso acontecia. Eu nem gostava de Alphas antes, queria mais é manter distância — emendou no falatório, sincero como sempre.
— Parabéns — Naruto sorriu — Quando conseguiu tirar Shino de casa eu já criei altas expectativas a seu respeito.
— Sou do tipo foda mesmo — modéstia não era a qualidade mais forte de Kiba. Mas os Alphas se divertiram com o jeito. Não era um delírio completo. Aquele garoto tinha seus méritos. Muitos méritos.
— Você está usando pomada a base de calêndula — Sasuke parecia desinteressado do assunto, assistindo a dança das chamas na lareira, mas mostrou que estava atento — Erva baleeira funciona melhor na mordida desses trastes.
— Obrigado — Kiba agradeceu, surpreso em receber uma dica do outro Ômega. Naquela noite, Sasuke parecia mais natural. Sem fazer esforço para ser desagradável.
Terminou olhando para Shino, que fez um discreto sinal de cabeça. Pegou a dica, mandaria que fizessem o novo tipo de pomada para aplicarem n'A Marca.
— Eu fico feliz de verdade, Shino — Naruto falou para o amigo — Todo mundo tem o direito de ser feliz. Você estendeu seu luto por tempo demais, eu entendo. Mas tive medo que... não segurasse essa chance que a vida lhe trouxe.
Kiba sentiu leve tristeza, mesclada com certa culpa e pesar o atingir através do vínculo. Soube que o companheiro lembrava do passado doloroso, do qual não conseguia falar ainda. O Ômega tomou o controle de seus gestos, e ele colocou a mão por cima da de Shino, que descansava sobre a perna do homem. Transferiu confortou e carinho no toque carregado de simbolismo. Tanto Naruto quanto Sasuke notaram aquilo, preferindo não comentar o gesto.
— Eu encontrei a minha irmã — Kiba falou mudando de assunto de um jeito tão brusco que todos notaram que ele queria tirar o foco de Shino — Ela mora em Sunagakure. O nome dela é Inuzuka Hana. Ela vem viver em Konoha. Ela pode, né? Precisa se registrar como eu fiz? Minha irmã é uma Beta, ela é muito legal. E me deu um cachorro. Ele se chama Akamaru. Mas é branco que nem uma bola de neve.
A enxurrada de palavras desnorteou Naruto e Sasuke, mas Shino já estava acostumado com jeito "Kiba" de ser daquele Ômega. Só pôde sentir ternura pela preocupação do garoto em preservá-lo da tristeza.
— Sim, Shino me avisou que ia viajar para lá. Que bom que tocou no assunto...
— Ela tem uma loja de animais — falou com menos eloquência.
— Loja de animais em Suna — Naruto sussurrou. Seu rosto se iluminou — Ah, a veterinária! Sim. Me lembro agora, eu sabia que essas marcas eram familiares! Estive em Suna uns três anos atrás, participando de um congresso para acordos de ajuda mútua. Tive que ficar um pouco mais do que pretendia, porque meu cavalo contraiu influenza equina e eu precisei tratá-lo. Me recomendaram essa jovem veterinária.
Naruto sorriu. Sim, na época não quis trocar de alazão, pois gostava muito do seu. Já eram companheiros há dois anos quando viajou para Sunagakure. Então os anos passaram e ele guardou o acontecimento em sua mente até aquele momento.
— Foi a minha irmã! — Kiba estufou de orgulho.
— A prática era sacrificar animais doentes, mas a fama de sua irmã era de não desistir de nenhum até o fim.
— Hana-nee é demais. Viu, Shino? Quando ela chegar será muito bom!
— Sim, será.
— Ela não precisa de registro — Sasuke explicou, querendo participar da conversa — O registro é só para Ômegas. Você é um caso que não tipifica a lei. Não nasceu em Konoha nem cresceu aqui. Por isso pode viver no feudo do Shino e receber a Marca dele.
Era uma verdade. Se Kiba tivesse nascido na Vila da Folha, quase certamente, Naruto teria que enviá-lo para algum lugar do País do Fogo para ajudar no desequilíbrio. Sasuke ajudava ali, principal vila ninja. Havia outro, Iruka Umino, companheiro de um dos melhores ninjas da atualidade, mas Iruka precisava ir para outras vilas, espalhar sua energia. A falta de Ômegas trazia consequências pesadas para todos.
— Você é como se fosse um visitante que resolveu ficar. E a lei não prevê isso. Não posso tratá-lo como um Ômega nascido aqui. Só foi possível oferecer nosso registro temporário, o que garante algumas regalias.
Kiba não soube o que responder. Olhou para Shino, tentando imaginar como seria se não pudessem ficar juntos. Só de tentar imaginar tal situação, o Ômega ficou meio desesperado. Doeu. Acabou inclinando-se um pouco e recostando-se no companheiro. Tão pouco tempo ao lado daquele homem e já não se via sem ele.
Por sorte uma serva pediu licença e anunciou que o jantar estava pronto para ser servido. O anúncio varreu a tristeza de Kiba. Na sua mente, a única coisa melhor do que Shino, na atual situação, era comida!
