Marcas da Solidão
Kaline Bogard
Kiba era um garoto animado. Não era de ficar remoendo o passado e amargurando coisas que não podia mudar. Preferia pegar a experiência e usar para melhorar.
Mas a reunião com Hokage foi um baque e tanto. Todas as respostas que encontrou e os novos enigmas que surgiram foram como um buraco negro, sugando suas forças. Ficou por dois dias sem interesse nas aulas, permitindo-se apenas sentar na varanda, admirando o lago das carpas. O leque presenteado por Shino sempre na mão, ainda que não o usasse.
O Alpha respeitava esse isolamento, mas não resistia a intensificar sua presença o tempo todo, para mostrar que, apesar de tudo, Kiba não estava sozinho. Ambos já enfrentaram momentos de solidão o bastante, não precisavam de mais.
Os segredinhos entre os servos perderam forças. A tristeza do Ômega contagiou a todos, embora os demais shifters não tivessem certeza de nada. Havia boatos, claro. Ouviam coisas difíceis de acreditar, inquietantes...
A comemoração de aniversário quase foi cancelada. Quase.
Na manhã do dia sete de julho, novamente, sentou-se à varanda, o sol nascendo forte com a promessa segura de um dia quente. E nem isso animou o garoto, cuja postura entristecida contagiou até o filhote Akamaru, que não corria para fazer festa ao redor do lago, latindo para chamar a atenção, preferindo ficar quieto na casinha.
Aquela manhã, entretanto, foi diferente. A casa principal recebeu Inuzuka Hana, que veio visitar seu irmão caçula.
Ela foi recepcionada por Shino, e guiada até a varanda dos fundos, onde o Ômega estava acomodado em uma almofada, com o leque que ganhou do companheiro sobre o colo. Às vezes usava para se refrescar do calor, mas a maior parte do tempo o objeto ficava esquecido.
— Olá, irmãozinho — a Beta se anunciou e foi sentar-se ao lado do garoto. Shino preferiu ficar na sala contigua aguardando.
— Hana-nee! — ele estava tão distraído que não notou sua aproximação.
Hana já sabia das informações divididas na reunião. Kiba tinha lhe contato tudo no dia seguinte, quando a visitou. Isso dois dias atrás. Depois o menino não apareceu mais no vilarejo.
— Vim ver como está — sorriu.
— Eu... — ele desviou os olhos para o lago — To tentando entender toda essa história maluca, sabe? Entender que eu cresci numa prisão ilegal e que todos que viviam comigo eram usados sem saber que existe uma vida diferente daquela. E...
— E...?
— O pior de tudo. Haku-san... pelo que o Naruto disse, Haku-san morreu, foi morto por alguém. Pensei que ele estaria numa vida um pouco melhor...
— O que você pode fazer por ele?
A pergunta intrigou Kiba. Ele acabou de dizer que Haku-san estava morto. Como poderia fazer algo por ele? Talvez um altar? Pedir aos deuses que tivesse um bom descanso? E isso adiantava de alguma coisa?
— Nada — respondeu com os olhos ardendo — Não posso fazer nada!
Hana balançou a cabeça. Estendeu o braço e segurou com carinho no queixo de Kiba, fazendo-o erguer o rosto que tinha abaixado para ocultar as lágrimas.
— Errado — ela afirmou com suavidade.
— Errado? E o que eu posso fazer por Haku-san?
— Viver, Kiba. Você pode viver por ele.
— Viver? — o garoto soou confuso.
— Sim. Viver. Você pode sorrir muito, e chorar em quantidade igual. Você pode aprender coisas novas e ensinar aos outros. Pode transformar o mundo ao seu redor e fazer tudo da melhor forma possível, pode errar e se corrigir. Tentar, acertar e crescer. Tudo isso porque Haku-san lhe deu uma chance. Não é incrível?
— Hana-nee!
— Todos os dias recebo visita de shifters. Eles trazem seus bichinhos de estimação, mas é só uma desculpa para poder conversar comigo. Então eles me dizem como você mudou o feudo em tão pouco tempo. Como a alegria voltou e as boas energias estão em cada pedacinho de terra... tudo se transformou. Você afastou as sombras desse lugar. E tirou o Alpha da solidão.
— Sou meio foda, né? — ali estava um pálido reflexo da arrogância que o garoto sempre demonstrava.
— Não — Hana sorriu largo — Você é foda pra caralho!
O palavrão não combinava nada com a irmã! Na verdade, Hana nunca tinha dito palavras de baixo calão... foi tão esquisito que Kiba riu. O som cristalino aqueceu o coração da Beta. E do Alpha que acompanhava a conversa da sala ao lado.
— Acha que Haku-san ia querer mais do que isso?
— Acho que não — ele respondeu.
Hana sorriu. Aproveitou que ainda segurava o queixo do irmão para mover o polegar e secar uma lágrima que deslizou, a despeito do riso de antes, um gesto cuidadoso para não borrar as marcas do clã.
— Pode chorar, irmãozinho. O quanto achar necessário. Lembre-se apenas que a dor não dura para sempre, a não ser que você a cultive. E que existem pessoas que amam o seu sorriso, tanto quanto amam suas lágrimas. Mas é o seu sorriso que ilumina o dia. Queremos vê-lo outra vez. Cada vez que sorrir fará o sacrifício de Haku-san ter valido a pena.
— Hn! — ele acenou com a cabeça, emocionado.
Hana ficou satisfeita. Enfiou a mão na manga do kimono que vestia e fitou um pacotinho pequeno.
— Feliz aniversário.
Kiba ficou olhando para o presente que Hana lhe estendia.
— Hoje é o meu aniversario? — entendia bem o conceito. Alguns Alphas comemoravam o aniversário em Gin-Io, ocasião em que mais de um Ômega era requisitado pela mesma pessoa. Só não imaginou que Ômegas pudessem comemorar também.
— Sim. Antes eu fazia oferendas no altar para você. Poder te dar um presente é muito, muito melhor.
— Obrigado! — ele aceitou, curioso e feliz. Abriu o pacotinho. Era um pequeno broche, representeando uma flor de cerejeira, o tom rosa vinha contornado com detalhes em ouro. Era simples, mas lindo.
— Mamãe me deu quando fiz dez anos — Hana pegou o objeto e o prendeu no kimono do irmão — Ela me disse que teve trabalho para escolher. Mamãe nunca foi uma mulher de delicadezas. Quero que fique com ele.
— Tem certeza? — o valor emocional daquele pequeno objeto era incalculável. Sua mãe o escolheu pessoalmente!
— Absoluta — garantiu antes de se inclinar e puxar o Ômega para um abraço apertado. A sensação de ter o irmão nos braços sobrepujando qualquer pensamento a respeito de castas. Naquele momento era o garoto com quem Hana tinha laços de sangue. Sua única família, que recuperou quando já havia aceitado que seu destino era passar por esse mundo sozinha.
— Obrigado — Kiba retribuiu o abraço.
— Haku-san terá minha gratidão eterna. Ele veio e cumpriu seu destino. Mas você ainda tem uma caminhada pela frente, irmãozinho. Encontrará muitas dúvidas, muitas perguntas em respostas e respostas que não desejava para as questões que formular. Terá motivos para sorrir e motivos para chorar. A vida é assim.
Kiba não disse nada, apenas aceitou o conforto que encontrou nos braços da irmã mais velha. E na presença de seu companheiro, forte e impossível de se ignorar, ali pertinho desde que a conversa começou.
Como já ouviu mais de uma vez: aceitou o conforto, pois coisas boas a gente só aceita.
Naquela noite o cheiro de incenso dominava toda a casa. Hana despediu-se ao cair da tarde, depois de partilhar o almoço, deixando o casal sozinho para que comemorassem a data especial.
Os servos notaram que o Ômega pareceu mais animado depois da visita de sua irmã. E aos pouquinhos o sorriso se tornava mais espontâneo!
Sinal que precisavam para continuar com os planos de uma boa ceia.
E que ceia.
As servas capricharam. Trouxeram um banquete para a sala das cerejeiras. A mesa farta incluía sushi de salmão com molho picante, berinjela com molho misso, harasume preparado com macarrão finíssimo ao ponto e calda de gergelim, nabo em conserva e espinafre japonês. Uma travessa enorme de onigiri instigava o apetite. Havia também arroz branco cozido e cerveja de arroz vermelho. E, o mais importante, carne assada com batatas, prato estrangeiro que o Ômega adorava.
— Obrigado pela comida! — agradeceu antes de se servir.
— Obrigado pela comida — Shino o imitou. Naqueles dois dias, era a primeira vez que via o companheiro demonstrar tanto apetite. O apetite normal que sabia que ele tinha. Ainda estava triste, mas se recuperava. A visita de Hana fez muito bem, trouxe reflexões e outro lado da moeda que Shino não conseguiu levar ao Ômega. Talvez por uma questão de laço sanguíneo, talvez por uma falta de jeito mesmo. Ele era um homem ponderado quando o assunto eram sentimentos.
Enquanto Kiba atacava a comida com voracidade, Shino conseguiu relaxar. Ainda captava tristeza e pesar através do vínculo, muito mais fraco e distante do que até então. Talvez a mágoa pelo sofrimento no passado nunca sumisse. E Shino era especialista nisso. Mas estava diminuindo, estava se curando e, graças aos deuses, libertando o coração de seu jovem Ômega.
Naquela noite, no feudo Aburame, não houve a festa tradicional para comemorar a data, porque ainda sentiam certo pesar pairando no ar, desaparecendo rápido sim. Mas ainda forte demais para alardes de alegria. Apesar disso, todas as casas queimaram incenso em agradecimento aos céus e se permitiram esbanjar um pouco na ceia familiar, para comemorar o aniversário de Inuzuka Kiba.
