Marcas da Solidão

Kaline Bogard

O jantar na casa do Hokage mal teve tempo de impactar na vida do casal. No dia seguinte ao encontro, aconteceu a reunião de homenagem aos ninjas que partiram em missão. Não podiam comprovar com certeza a morte do segundo, embora os indícios direcionassem à pior conclusão.

Seguindo orientações de Ino, alguns Betas do feudo arrumaram um improvisado tablado no terreno que separava as primeiras plantações da casa principal. Moradores em peso vieram se sentar a frente, aguardando o que quer que fosse acontecer.

Sabiam que as notícias seriam ruins.

O dia havia se desenrolado lindo, ensolarado e quente. Agora, com os raios dourados do poente tingindo o horizonte, se reuniam para uma solenidade. Anoitecia, o ar estava abafado. Não seria de se estranhar se a noite viesse acompanhada de uma chuva.

Apesar do dia típico da estação, havia certa tristeza no ar. A atmosfera pesada deixava todos arredios de preocupação. O Ômega estava triste, isso era nítido graças ao elo que unia os moradores daquele feudo. Já sabia os resultados da investigação ordenada por Shino, que lhe contou sobre o pergaminho recebido tão logo voltaram de Sunagakure.

A espera não foi muito longa. Aburame Shino tomou seu lugar sobre a baixa construção de madeira, sentando-se com Kiba ao seu lado. O garoto levava os olhos vermelhos, era nítido que chorara.

Tal imagem tocou o coração daqueles Betas. As mulheres desejaram aproximar-se a tirar a tristeza do semblante de quem lhes fez tanto bem. Os homens, sentiram ganas de armar-se com suas enxadas e ancinhos, instrumentos do trabalho no dia a dia, e sair a caça de quem poderia ter causado aquele desanimo.

Então Ino adiantou-se e parou no limite da borda do tablado. Silêncio se espalhou e calou os leves murmúrios, até mesmo os filhotinhos sentiram a solenidade da ocasião.

A Beta respirou muito fundo. Olhou brevemente para cada um de seus companheiros de morada, demonstrando respeito e seriedade. Ia lhes dar uma triste notícia. Não era uma posição fácil, embora constituísse seu dever como chefe da segurança, braço direito e melhor amiga do Alpha daquele feudo.

— Nós temos vivido na paz — começou a dizer. Parou dois segundos, para respirar fundo outra vez e, assim, permitindo que suas palavras entrassem na mente daqueles shifters — Nós temos vivido na paz. E esquecemos o que é enfrentar uma guerra. Durante a guerra experimentamos medo, insegurança e dor. Porque vidas se perdem, vidas importantes de pessoas que amamos.

Calou-se muito consciente dos olhares que recebia. Uma nuvem mais escura foi se aproximando com lentidão, trazida pelo vento inesperado que começou a soprar. Não forte demais para incomodar, apenas o suficiente para mover as nuvens alto lá no ceu. Havia feito muito calor naquele dia, era de se esperar que chovesse ao findar a tarde.

— Não estamos em guerra. Nem espero que entremos em uma. Mas alguns de nós precisaram reassumir deveres esquecidos em tempos de paz. E para garantir a segurança de nosso Alpha, Aburame Shino e nosso Ômega, Inuzuka Kiba, dois bravos ninjas arriscaram a vida sem medo e sem hesitar. Eles saíram em viagem e jamais regressarão para o lugar a que chamavam de lar.

Nesse ponto, olhou para a jovem Kurenai, que segurava uma bebê nos braços, sentada entre os Betas, que sabia ser a esposa de Asuma, um dos Betas que perdeu a vida na investigação. O outro, um ninja de meia idade não deixou parentes vivos, apenas os amigos com os quais convivia no dia a dia.

— Mesmo que não regressem, tal sacrifício nunca será esquecido. Mais do que nossa gratidão e nosso reconhecimento, Sarutobi Asuma e Morino Ibiki tem o nosso amor. Nós os amamos e os acolheremos para sempre em nossos corações, ainda que seus corpos descansem longe daqui, suas almas e o legado que eles protegeram permanecerão em cada um de nós, pois...

Ino calou-se.

Uma onda de tristeza e culpa se espalhou pelo feudo. E foi tão forte e densa, que apertou-lhe a garganta e a impediu de continuar o discurso. Não precisou olhar para trás para entender que Kiba estava chorando. E se sentindo culpado pela morte dos ninjas que foram espionar o distrito em que cresceu.

Nem podia ser diferente. Era Kiba, afinal de contas. Concluía tudo com precipitação e não conseguia se conter. Tanto ela quanto Shino tentaram acalmá-lo ao mostrar que os ninjas morreram com honra, cumprindo o dever para o qual nasceram, garantindo assim um novo renascer na roda do carma.

Mas eles morreram, não morreram?

A pergunta cheia de dor voltou a mente de Ino e ela perdeu o fio da meada. Olhou novamente para os Betas, divisou traços de sofrimento e tristeza, porque eles também foram envolvidos na agonia que o Ômega sentia.

Se a alegria de Kiba os alcançava e renovava suas forças, então o oposto natural também se mostrava verídico. Na verdade, o céu escurecendo e o ressoar do primeiro trovão foram tão coincidentes a cena, que pareceu que até a natureza se solidarizou a tamanho sofrimento.

— Sinto muito — Kiba disse de onde estava, sentado ao lado de Shino. Foram palavras ditas em tom sussurrado, mas cada shifter presente ali o escutou, o sentiu — Foi minha culpa. Eu...

A esposa de Asuma levantou-se. Em seus braços, a bebe começou a chorar. Ninguém soube o que esperar de tal ato que poderia ser considerado ofensivo.

Ino olhou dela para Shino, aguardando alguma ordem, mas o Alpha não disse nada. Ele esteve tempo demais envolvo em silencio e solidão. Justo por isso sabia o peso que cada palavra poderia ter. E Kiba era tão expressivo, tão comunicativo... talvez deixar o memorial seguir tal rumo não fosse errado.

Poderia perdoar a Beta caso ela extravasasse sua dor. Porque já conhecia Kiba o bastante para saber que o Ômega também a perdoaria.

Apesar de toda apreensão, quem falou primeiro foi o próprio Kiba:

— Se eu não estivesse aqui sua filhotinha teria a chance de conhecer o pai — ele ficou em pé e aproximou-se da beira do tablado, parado ao lado de Ino — Me perdoe.

Kurenai apertou a criança que chorava em seus braços e tentou sorrir. Não conseguiu.

Apesar disso, algo fluiu da mulher e atingiu Kiba, surpreendendo-o.

— No dia em que meu marido partiu ele não cabia em si de alegria — disse — Ele foi escolhido pra uma importante missão, mas não pode me dar detalhes. Eu sabia que era perigoso, Asuma também sabia. Nós nos despedimos e ele se foi. Sarutobi Asuma morreu para proteger nosso senhor e seu companheiro. Proteger nosso Ômega e nosso feudo. Minha filha irá conhecer o pai, porque cada um de nós irá contar para ela sobre o herói corajoso que lutou sem medo. Não tem nada do que se desculpar, Kiba-sama! Isso é família. Nossa família.

Shino sentiu a tensão abandoná-lo. Apesar de permitir que a cena se desenrolasse, não queria que Kiba saísse ferido, claro. Só seguiu o instinto Alpha que o fez confiar em seus Betas. E a confiança foi recompensada. Havia uma ligação entre eles, mas também hierarquia. Havia papeis sociais a serem desempenhados e ali se pontuava o ato final de dois dos atores. Dois atores que passaram brevemente pelo palco da vida, vivendo e morrendo com honra. Não haveria julgamentos, nem cobranças.

Era momento de chorar a dor, honrar os mortos e permitir que a vida seguisse em frente com todas as suas consequências.

— Obrigado... — Kiba sussurrou emocionado.

Algo indizível pareceu ser varrido com o vento leve, dissipando-se para além daquela reunião.

Ino não sentiu mais a agonia pesada que comprimia seu peito. Acreditou até que poderia continuar com o discurso, porém a Beta em pé junto aos outros shifters não havia terminado:

— Se... se permitir que eu chegue perto... Kiba-sama poderia... — não sabia bem como pedir aquela essência que envolvia e acalmava, de um jeito que só os Ômegas eram capazes.

— Claro! — Kiba compreendeu fácil.

Não esperou nem um segundo antes de dar o pequeno passo para fora do tablado, enquanto a Beta vinha em sua direção, assistida pelos demais shifters, por Ino e pelo Alpha.

A certo ponto a mulher parou de caminhar, calculando que já estava a uma distância aceitável do Ômega. Mas para surpresa de todos, ou talvez nem tanto, Kiba não interrompeu os passos até estar perto o bastante para abraçar mãe e filhotinha, transmitindo todos os seus sentimentos, todo o conforto que poderia ofertar.

Mal percebeu quando a primeira criança se ergueu e veio abraçar suas pernas, atraída pela energia irresistível. E mais uma e outra, sendo os pequeninos muito mais ousados e corajosos do que os adultos. Ou porque, quem sabe, a energia que chegava aos mais velhos era suficiente, eles não precisavam sair do lugar para aproveitar a sensação.

— Obrigado — Kiba colocou naquela palavra o que, em verdade, quem sentia era a jovem Beta, que pediu algo humilde e recebeu em troca o que nunca sequer sonhou — Obrigado...

O agradecimento falhou no final, pois o Ômega chorou.

Cada Beta ali presente chorou.

E, no instante em que a chuva pesada caiu, o próprio feudo chorou.