Marcas da Solidão
Kaline Bogard
Rotina.
Aburame Shino gostava de rotina. Porque rotina tornava as coisas controláveis, previsíveis. Seguras. Indicava a vida entrando nos eixos, ainda com leve tristeza pela perda de dois ninjas, mas também seguida por forte superação.
Ter Inuzuka Kiba ao seu lado, fez o termo "rotina" ganhar aspectos completamente novos. Pois com ele fazia as mesmas coisas. Mas nunca era igual.
As aulas continuaram. Aulas práticas de etiqueta (a parte prática era a favorita de Kiba), aulas de equitação e aulas de autodefesa.
A hora do shodo era especial para Shino. Era quando Kiba parecia outra pessoa. Ele levava a técnica muito a sério. Se concentrava para valer, às vezes a ponto de criar uma ruguinha charmosa entre as sobrancelhas.
O traço dos ideogramas era selvagem, forte. Fruto dos movimentos rápidos e precisos do pulso. Uma obra e tanto.
Tinha seus momentos de paz, mas os realizava na varanda da frente, de modo degustar os adorados chás e aproveitar a calma, enquanto assistia seu companheiro brincar com o cachorro na grama verde, tendo de fundo o som de risadas divertidas e latidinhos de filhote.
Continuava tirando um tempo para meditar. E Kiba o acompanhava sempre, decidido a aprender a arte da meditação e reflexão. Contudo o garoto acabava dormindo sentado, invariavelmente. Ao acordar, se gabava de como mergulhava na própria mente a ponto de entrar em transe. Se ofendia um pouco capitando divertimento pelo vínculo. Shino tentava disfarçar com a face séria, todavia era impossível não se divertir pelas galhofas arrogantes quando a verdade era muito adversa!
A rotina ganhou um aspecto novo.
Às vezes iam até o vilarejo, inspecionar o andamento da construção da casa de Hana. Dez Betas foram liberados do plantio e trabalhavam na obra. A casinha seria simples, exatamente como as demais ao redor. A única coisa que Kiba pediu foi um espaço extra para que a irmã pudesse cuidar dos animais. Quando entrou em reta final, a ansiedade de Kiba alcançou níveis impressionantes. Só faltava Hana chegar!
A parte do dia que conseguia agradar a ambos era, sem dúvida, a parte da noite. Quando se recolhiam ao quarto que agora não era mais o quarto de Shino. Era o quarto do casal. E lá dentro a intimidade aflorava. Shino, que pensou não ser capaz de acompanhar a energia de Kiba, se descobriu muito enganado. A essência Ômega renovava o Alpha a cada dia, garantindo assim, noite quentes de amor.
O assunto "filhotes" não veio a tona novamente, desde que incitado por Uchiha Sasuke. Foi um acordo silencioso, feito mais pelas partes animais do que pelo lado racional. Tinham vivido assim desde que se encontraram. As semanas se passavam, mas ainda era pouco tempo. Estavam se conhecendo, que tudo acontecesse naturalmente.
O que tiver de ser, será; lema que funcionava muito bem naquela relação.
Numa tarde de quinta-feira, Kiba estava inquieto. A ponto de errar a grafia do próprio nome duas vezes, antes de perder a paciência.
— Que caralho do inferno — resmungou irritadiço.
— Não consegue se concentrar?
— Não. To com um treco engraçado. Tipo uma intuição. Será que vai acontecer alguma coisa?
Shino suspirou.
— Acredito que não — sua intuição, muito mais refinada desde que marcou o Ômega, teria avisado de algum perigo. Seu Alpha era uma criatura precavida e atenta.
Kiba fez um bico. Abandonou o pincel de vez.
— Se você diz...
A alfinetada não causou grandes efeitos. A chegada discreta de um servo interrompeu o diálogo. O homem reclinou-se de leve e disse que Yamanaka-san queria falar com Aburame-sama e requisitava a presença dele.
— Quer vir comigo? — Shino perguntou para o companheiro.
— Não — Kiba estava mal-humorado. Sua intuição nunca falhava! Não era apropriado subestimar assim — Vou ficar por aqui mesmo.
Shino ergueu uma sobrancelha. Não devia achar aquela visão assim tão fofa, mas o Ômega emburrado era uma gracinha de se ver.
— Tudo bem, logo estarei de volta.
— Vá com cuidado — apesar de tudo, Kiba respondeu do jeito certo.
Com a saída do Alpha, ele tratou de ir para um dos lugares que mais gostava: a cozinha. Daquela vez sua presença não causou muito reboliço. Pediu licença e foi sentar-se a mesa. Já era comum que entrasse ali quando Shino se ausentava para resolver alguma questão ligada ao feudo. Chegou a participar de duas reuniões, mas era muito tedioso e Kiba perdeu qualquer interesse no assunto.
Chiyo-san, a responsável pelas servas da casa, estava supervisionando os preparativos para o jantar. Ela sorriu para o garoto. Gostava quando ele vinha ali, gostava da simplicidade e do jeito fácil de tratar. Quantos feudos podiam se gabar de ter um Ômega que entrava na cozinha e dividia uma refeição com os servos?! Pelo que os boatos diziam, o companheiro do Hokage era uma criatura intratável.
Como não se alegrar por Aburame-sama? Um Alpha justo e generoso, cuja vida imputou um golpe cruel, do qual todos os moradores acreditaram que ele não se recuperaria; e agora reconhecia um Ômega tão peculiar.
— Aqui, Kiba-kun — a velha mulher estendeu uma tijelinha de cerâmica repleta de morangos cobertos com mel. O tratamento pessoal foi pedido pelo próprio menino. Gostava de "Inuzuka-sama", claro. Mas ali, com os shifters que considerava mais do simplesmente servos, preferia abrir mão da informalidade.
— Obrigado! — agradeceu, mas não pareceu animado com a fruta preferida.
— Aconteceu alguma coisa? — Chiyo perguntou. E a questão fez a magica de reunir todas as servas curiosas ao redor do Ômega.
— Não. Não ainda... — suspirou dramático, abocanhando metade de um morango.
— "Ainda"?
— Sabe quando a gente tem a intuição de que alguma coisa vai acontecer? To sentindo isso desde cedo, mas o besta do Shino não me levou a sério — mastigou a outra metade com certa fúria.
— Alguma coisa ruim? — uma das servas perguntou.
— Não tenho certeza, pode ser alguma coisa boa.
Chiyo foi tomada por uma euforia atípica. Será...? Será...?!
— Como tem se sentido, Kiba-kun?
— Muito bem, obrigado. E a senhora?
A mulher riu encantada.
— Bem, estou bem. Eu perguntei no sentido de ter notado alguma coisa estranha com o seu corpo? Ou... alguma sensação esquisita, além dessa intuição?
Kiba pensou um pouco.
— Não. Me sinto muito bem de verdade. Acha que eu vou ficar doente? — mordeu outro morango. Uma serva lhe estendeu um refrescante chá de pêssego. Aceitou com um sorriso. Estivesse doente ou não, aquilo não afetou-lhe o apetite.
A serva mais velha puxou uma cadeira e sentou-se ao lado de Kiba. Tinha um sorriso afável no rosto.
— A intuição de um Alpha em relação ao companheiro é muito forte. Se fosse acontecer algo ruim, Aburame-sama não seria displicente — ela disse com gentileza.
— Sei disso, mas... ele também não precisava agir como se não fosse nada. A minha intuição é poderosa, mais poderosa até do que a do Hokage. Foi ela que me fez chegar até aqui.
As servas se entreolharam. Boatos corriam de boca em boca, especulando sobre o passado de Kiba. Tudo o que importava era que Aburame Shino o aceitou, todavia, tal acolhimento não isentava as pessoas de sentirem curiosidade. E tal se aguçava por saber que talvez o garoto que conquistou o coração de todos tivesse sido judiado na infância. Chiyo e os outros se revoltavam só de pensar.
— E o que a sua intuição diz?
— Que vai acontecer algo. Tenho certeza que vai. Mas não é algo que me dá vontade de escapar daqui, porque tem esse tipo de instinto, meio de sobrevivência — pensou um pouco — Ah, agora eu não preciso escapar se tiver uma intuição ruim. Posso enfrentar junto com o Shino, não é?
— Com certeza — Chiyo sorriu. O funcionamento daquele garoto era muito simples. Ela percebeu fácil que ele entendia as coisas no tempo dele, não no tempo que as pessoas esperavam. Para qualquer outro estaria óbvio desde sempre que o companheiro Alpha estaria do lado para o aproveitar o bem e para o enfrentar o mal. Kiba só descobria esse aspecto da relação naquele momento, naquela conversa.
Kiba comeu mais alguns morangos. A mente divagava refletindo as possibilidades. As servas ainda borboleteavam ao redor dele, esquecidas da ceia que começavam a preparar. Era tão bom ficar assim tão perto de um Ômega!
— É. Alguma coisa vai acontecer. É esperar pra ver — falou em um tom profético que não combinava em nada com ele. Foi um custo para as servas segurar a vontade de apertar aquelas bochechas pintadas de vermelho.
Depois daquilo, Kiba saiu da cozinha bem mais animado. Comer era algo que deixava qualquer um feliz!
Com a saída dele, as servas ficaram em polvorosa. Mil palpites explodiram, sobre "o que iria acontecer". E a aposta da maioria tinha a ver com vida nova naquela casa. Foi impossível não se empolgar.
E, numa ironia do destino, a decepção foi tão grande quanto a euforia. Quando "aconteceu o que tinha que acontecer" e não era nada relacionado com vida nova na casa. Era vida nova no feudo...
Kiba foi sentar-se na varanda da frente, as pernas balançando do lado de fora do assoalho de madeira, onde ficou arremessando um galhinho para Akamaru ir buscar. Seu servo veio sentar-se mais atrás, atento as necessidades do jovem amo.
Pouco tempo depois, Aburame Shino voltou de suas obrigações. Ele sentou-se ao lado de Kiba e estendeu uma caixinha longa e fina na direção dele.
— Você tinha razão, sua intuição é apurada. Um presente para pedir desculpas por não levá-lo a sério.
Kiba olhou do companheiro para a caixa. Aceitou, curioso. Arregalou os olhos ao descobrir um leque ogi ricamente trabalhado.
— Que lindo! — pegou o presente e já começou a se abanar — Obrigado! Isso quer dizer que eu estava certo? E o que foi que aconteceu?
Shino balançou a cabeça, sem querer responder. O motivo pelo qual foi chamado, era diretamente ligado ao Ômega. E demorou pouquíssimo tempo para que Shino sentisse que algo ia acontecer. Mas ele captou de um jeito diferente, do jeito Alpha e senhor do feudo.
Nesse momento a mesma intuição voltou aguda. Kiba virou-se na direção dos terrenos que separavam a casa das plantações. Viu o pequeno grupo de Betas avançando a trote, parecendo cansados, mas felizes de voltar para casa. Estavam longe demais para divisar detalhes, mas nem precisava.
Kiba sentiu os olhos marejarem ao reconhecer a figura que cavalgava ao centro.
Inuzuka Hana.
Ele não podia ver ainda, mas a mulher vinha sorrindo.
