Marcas da Solidão

Kaline Bogard

O reencontro foi emocionante.

Mais até do que a primeira vez em Sunagakure, pois agora não havia estupefação para tolher os movimentos. O abraço foi apertado e saudoso.

— Hana-nee! — Kiba nem esperou a comitiva chegar à casa, para correr ao encontro dela, que desmontou e o esperou de braços abertos. Akamaru tentando acompanhar com as perninhas curtas e latidos agudos.

— Olá! Eu disse que viria, não disse? Olá, Akamaru!

— Disse! Você disse!

Shino observou sentado na varanda, apreciando a felicidade que vinha de seu companheiro. Soube disso quando Ino o chamou mais cedo, para resolver assuntos do feudo. A chegada de Hana foi notada pelos Betas que faziam patrulha nos limites das terras Aburame. A intuição do garoto estava certa. Fosse uma característica Ômega ou não, era de se admirar.

Acenou para a mulher, grato por ela ter cumprido a promessa. Hana devolveu o cumprimento, antes de voltar a atenção para o irmão.

— Quer entrar e descansar um pouco? Ou quer ver a casa que o pessoal construiu para você?! — Kiba não se continha de animação. Finalmente teria a chance de conversar com sua irmã mais velha! A vontade e em paz!

— Obrigada, Kiba. Prefiro ir ver meu novo lar, começar a organizar. Você me ajuda?

— Claro! Nem precisa perguntar uma coisa dessas! — virou-se para Shino e acenou antes de gritar: — Eu já volto, tá bom?! Fica aqui com o Shino, Akamaru!

Shino acenou com a cabeça. Observou Hana voltar a montar e ajudar o irmão a subir na garupa do cavalo. Então um shifter veio pelo lado da lateral da residência, andando apressado até os outros. Era Kimimaru, servo de Kiba. Ele estava atento e pensou que poderia ser útil para seu senhor! Viu ainda o companheiro falar algo para o Beta no cavalo ao lado, o homem aceitou o pedido como se fosse uma ordem e ajudou Kimimaru a montar atrás do cavalo em que estavam. E assim o grupo retomou marcha, dessa vez rumo ao vilarejo onde os camponeses moravam.

Intercalou o olhar entre eles e o sol que declinava no horizonte. Faltava um bom par de horas para a tarde acabar. Talvez conseguissem adiantar a mudança.

Enquanto trotavam, Kiba passou os braços pelo corpo de Hana e encostou o rosto nas costas dela, fascinado pelo que sentia, a força de um elo de sangue, primeira vez que tinha tal experiencia. Começou a chorar sem perceber, umedecendo o tecido da blusa que ela usava. Ficou um pouco envergonhado, se achando chorão. Isso até algo pingar nos braços que envolviam a cintura da irmã. Eram as lágrimas de Hana, que também chorava, deslizando silenciosas pelas marcas vermelhas em sua face.

Hana ficou encantada com a casinha. E com o grupo de shifters que começou a segui-los assim que entraram no vilarejo. Muitas crianças, algumas mulheres e idosos. Os trabalhadores não voltaram das plantações, então eram poucos homens adultos por ali.

Sacou logo que a energia de seu irmão atraia aquelas pessoas, e ela nem podia julgá-las. Teve contato com a pura essência de Kiba pela primeira vez, e foi surpreendida por algo sem precedentes. Muito adverso do companheiro do Kazekage. Ali a energia era rústica, não lapidada por conveniências sociais.

— É perfeita! — ela exclamou ao apear. Kiba estufou o peito, achando que Hana falava da casa. E ela até falava, mas não exclusivamente.

— Pessoal, essa é a minha irmã! Por favor, cuidem bem dela! — o Ômega falou para as pessoas que assistiam a cena. A concordância foi geral.

Vários se ofereceram para ajudar a levar as coisas para dentro da casa. Não era uma grande mudança. Roupas, utensílios, material para tratar animais.

— Você não trouxe nenhum bichinho? — Kiba perguntou. Nos braços, uma das sacolas cheias de roupas.

— Não — Hana respondeu — Eram todos nativos do deserto, preferi vender todos e mantê-los por lá. Podem colocar tudo no canto, depois eu organizo melhor. Obrigada.

Orientou os Betas que iam e vinham, baldeando os pertences de Hana. Kimimaru se mostrou muito bom em organizar os shifters e orientá-los na tarefa. Graças a ele agruparam por tipo: roupas em um canto. Tudo da cozinha no outro canto. E assim com cada pequeno item.

— Trouxe alguns presentes para você e para o Alpha Aburame — Hana contou — Foram até Suna, mas eu acho que não conseguiram fazer turismo, não é?

— Não mesmo! — Kiba respondeu empolgado.

Logo não restou mais carga sobre os cavalos. Os Betas da caravana perguntaram a Kiba suas próximas ordens, e o garoto ficou meio perdido. Hana insinuou que foi uma longa e cansativa viagem. Kiba pegou a dica sutil e disse que eles estavam livres para descansar. E os cavalos também. Pediu que deixassem apenas o que Hana cavalgou, assim ele teria com o que voltar para a casa principal.

Pouco a pouco as mulheres foram para suas casas, estava entardecendo e os companheiros voltariam com fome! Levaram a maioria das crianças com elas. Algumas poucas ainda ficaram por ali, rodeando a casa junto com alguns idosos. Talvez a presença de um Ômega nunca deixasse de maravilhá-los.

Kimimaru se ofereceu para conseguir um pouco de água do poço para eles. Saiu, permitindo que os dois irmãos ficassem sozinhos. Privacidade pela primeira vez desde o abençoado reencontro.

— Eu to muito feliz que você veio. Sinto muito só que abandonou tudo em Sunagakure por minha causa.

Hana balançou a cabeça. Tocou o triangulo vermelho do lado esquerdo do rosto com a ponta dos dedos.

— Larguei alguns bens materiais. Mas isso aqui eu nunca vou abandonar. Quer ouvir algumas histórias do passado? Ou prefere que eu conte como foi a viagem?

Os olhos de Kiba brilharam.

— Quero saber tudo! Mas... começa com umas histórias do passado? Quero saber mais sobre a mamãe.

Hana sorriu triste. Entendia bem o desejo de descobrir mais sobre a família e a própria pessoa que lhe deu a vida.

Começaram arrumando o quarto, enquanto a voz calma de Hana narrava a vida antes de Kiba nascer, também estendendo um futon e levando as roupas. Organizando assim, Hana teria um lugar para dormir e descansar da viagem.

A certa altura Kimimaru voltou e os irmãos entenderam a demora do rapaz. Ele estava ajudando algumas mulheres a preparar um lanche. Quando conseguiu várias guloseimas dentro de uma cesta, correu para oferecer ao seu senhor e à nova moradora do vilarejo.

— A esposa do Danzo-san disse que Hana-sama pode tomar banho na casa dela! E pode dormir lá também.

— Nada de "sama" — ela dispensou. Nisso era parecida com Kiba: formalidades não combinavam consigo — Aceito o banho. Mas não anoiteceu ainda, vou continuar arrumando mais um pouco.

Fizeram uma breve pausa para provar a comida. Vários onigiris e chá verde morno. Foi mais uma oportunidade para Hana compartilhar suas lembranças com o irmão que ouvia tudo avido, insaciável.

Falou sobre a mãe. Comentou sobre não ter memórias sobre o próprio pai, que faleceu em missão quando tinha apenas quatro anos. Mas tinha bons fatos sobre o pai de Kiba, a quem Tsume amou brevemente, sendo o homem uma espécie de "embuste folgado e sangue-suga" (palavras da própria Tsume) que foi posto para correr poucos meses depois do início da convivência. Era um Beta divertido e brincalhão, mas pouco dado ao serviço e as responsabilidades, apegado demais ao sake e desprendido demais do dinheiro alheio.

Kiba riu em algumas partes do relato. Se emocionou em outras. Sempre devorando onigiris entre uma coisa e outra. No geral, gostava mas de falar do que de ouvir. Mas ali, acompanhando as palavras ternas que Hana lhe dizia, nem piscar direito piscava. Tinha quase dezenove anos em atraso. Deu a impressão de querer por tudo em dia naquele fim de tarde.

Ao final da rápida pausa, Kimimaru foi devolver os utensílios. Hana e Kiba retomaram as tarefas. Assim o trabalho rendeu muito mais do que o esperado. O quarto ficou todo pronto para o uso. Hana sentou-se no futon, o cansaço batendo forte.

Kiba correu para deitar-se com a cabeça sobre o colo dela.

— Tem certeza que não quer dormir na casa principal hoje? Não vai se sentir sozinha aqui?

A mulher riu.

— Com todos esses Betas vindo espiar de tempos em tempos? Duvido.

— Eles ficam curiosos. Esse lance de Ômega ser raro ainda me espanta. É engraçado. Outro dia Shino e eu fomos na casa do Hokage jantar e o pessoal da vila ficou espiando pelas janelas.

— Casa do Hokage?

— Ele e o Shino são amigos de infância.

— Ainda não sei quase nada sobre você, irmãozinho — Hana começou a fazer cafuné nos cabelos castanhos bagunçados.

Kiba piscou mais longo.

— Não tem muito o que dizer. Só depois que eu vim aqui e comecei a viver fingindo que era um Beta. Foi aí que minha sorte mudo que vale a pena contar. Eu quero ouvir suas histórias, todas elas.

— É igual ao que eu penso sobre as suas histórias.

— Faz sentido — bocejou — Então eu conto tudo. Não, tudo não. Tem coisas que não vou conseguir falar, mas o que eu conseguir prometo que farei.

— Combinado — Hana sorriu. Kiba não viu o gesto da irmã. Ele tinha acabado de adormecer.

E foi essa a cena que Shino encontrou ao pedir licença e entrar na humilde residência, indo atrás da presença do Ômega que repousava no quarto.

— Veio buscar seu companheiro? — Hana gracejou. Assistia Kiba dormir, incapaz de fazer outra coisa. Estava encantada não apenas pela essência Ômega, mas por ser o seu irmãozinho ali. Estava cansada, desejava um banho... porém, o desejo por apenas embalar o sono daquele garoto era muito mais forte.

— Não — Shino respondeu antes de ir sentar-se no chão encostado em uma das paredes do quarto — Vou esperá-lo acordar.

Hana ficou em silêncio por alguns instantes. Mas acabou sorrindo. Um Alpha peculiar para um Ômega peculiar. Ficou claro que Shino não aguentou muito tempo longe do companheiro. Todavia, não queria chegar ali e levar o garoto embora, tirando-o do reencontro tão esperado. Mesmo que estivesse adormecido, aproveitava o colo da irmã mais velha, de quem foi afastado do convívio logo ao nascer.

— Obrigada. E parabéns pela Marca — era uma Beta, mas sensível o bastante para captar a mudança na relação de Alpha e Ômega.

Aquele agradecimento trouxe toda a sinceridade de Hana. Por Aburame Shino ter acolhido seu irmão e o escolhido como companheiro. Por descobrir sua localização em Sunagakure, levando e trazendo Kiba em segurança. Por aceitá-la no feudo, sendo uma desconhecida e tendo como garantia tão somente a ligação de sangue com Kiba.

Gratidão por ter permitido que Betas treinados ficassem para trás para ajudá-la e acompanhá-la na viagem até Konoha. Por lhe ceder uma casa e trabalho.

Por apresentá-la ao renascente da família Inuzuka, o irmãozinho que julgou ter perdido.

Aburame Shino acenou com a cabeça, aceitando apesar de não achar merecer. Fez tudo isso para a agradar seu companheiro, não simplesmente por causas humanitárias. A alegria de Kiba era a sua alegria.

Motivo egoísta demais para qualquer tipo de agradecimento.