Marcas da Solidão
Kaline Bogard
As manhãs do casal ganharam uma nova configuração. A chegada de Hana fez com que o irmão a visitasse todos os dias, levando guloseimas para dividirem enquanto conversavam e colocavam a casa em ordem em definitivo.
Por duas vezes Hana foi jantar na casa principal, numa forma de se aproximar também de Aburame-sama (ou apenas Shino, como ele preferia ser chamado pela família do companheiro). Chegou a dormir uma vez por lá, pois Kiba queria mostrar a arte do shodo, em que estava cada vez melhor, mostrar o que aprendeu de autodefesa, de etiqueta! Se empolgou tanto que ficou tarde e Hana pousou aquela noite.
A aceitação da Beta no vilarejo foi imediata. No começou causou comoção e curiosidade. Era a irmã do Ômega! Então os camponeses arrumavam qualquer desculpa para ir até a casa dela conversar.
"Meu cachorro está com dor de barriga".
"Meu gato é muito agressivo".
"As galinhas andam viçosas, estão em época de chocar".
"Ano passado tivemos uma infestação de carrapatos, seria bom prevenir".
Hana se divertia. Era bem sociável, traço de personalidade semelhante ao de Kiba.
Não se importava em atender os animaizinhos domésticos e suas patologias inexistentes. Por enquanto não havia muito que fazer. O Alpha já estava negociando a expansão para o ramo pecuário, mas a adaptação demandava tempo, mudanças no feudo e investimentos a longo prazo. Shino era um homem previdente, não apressava nada. Queria qualidade e que fosse tudo bom para todos.
Ele a convidou para irem até a vila vizinha, conhecer os exemplares de novilho. A opinião dela como especialista em saúde animal teria um peso duplo na hora da compra.
Era um planejamento de vida que envolvia centenas de shifters. E Shino estava na rotina acomodada de somente plantar arroz para a alimentação do feudo e para as negociações monetárias. Não apressaria nada que resultasse em consequências ruins para o seus protegidos.
O final da primavera foi comemorado por todo o feudo. As mudas de arroz começaram a despontar no charco, verdinhas e viçosas. Se continuasse assim, seria boa safra como todos os anos. A diferença é que daquela vez os camponeses se sentiram no direito de comemorar. Um modesto Hinamatsuri, feito no terreno entre a casa feudal e o vilarejo.
Música, bebida, risos.
A noite estava ótima, começando a ganhar o ar mais quente, característico do verão. Havia uma boa lua no céu, um sorriso em crescente cercado de estrelas. Era possível ver grupos de vaga-lumes voando aqui e ali. Muito em breve as cigarras sairiam da terra para executar a canção de suas breves vidas.
Tudo era harmonia.
Shino, como acabou virando tradição, sentou-se perto de uma fogueira, ladeado pelos responsáveis de cada terreno e dividindo rodadas de sake. Dando olhadas constantes para o companheiro, para ver como ele interagia, seguido de perto por Akamaru. Não que fosse um problema, pelo contrário. Mesmo escondido como Beta, a relação de Kiba com os outros shifters foi boa. Era tão sociável, que ao não sentir medo ou ameaça, permitia que um pouquinho desse lado aflorasse. Mas não muito! Quando se notava tagarela, ele dava um jeito de se controlar. E agora não precisava mais! Podia se permitir ser espontâneo, sem preocupação por chamar atenção em uma sociedade que não conhecia e que temia, pois seus parâmetros remetiam ao costume de prender shifters da sua casta em distritos terríveis, vastos em castigos e humilhações.
Desde que chegou em Konoha e se alojou naquele feudo, Kiba foi acometido por um sentimento que nunca experimentou. Que não sabia como nomear, e que só agora compreendia em sua totalidade.
Ao chegar ali, foi cercado pela presença do Alpha. E essa presença lhe trouxe segurança. Por isso relutou em ir embora e permitiu que estadia planejada curta se entendesse em seis afáveis meses.
Nunca se sentiu seguro antes. Quando teve aquela sensação, não queria abrir mão dela.
Era essa segurança que o permitia ser ele mesmo. Correr com as crianças, gargalhar com as histórias engraçadas que contavam em volta da fogueira, aprender a beleza das artes: as músicas, as danças. Aproveitando um convívio social sadio, que nem em sonhos achou possível existir.
Que maravilha poder parar na frente de uma mesa de doces, encher as mãos com daifuku, recheados de pasta de feijão e morango, e ir dividir com a irmã. E com Ino, que estava conversando com Hana, perto de um rapaz tocando biwa. Akamaru latia as vezes, esperançoso de ganhar algum doce.
As duas mulheres acabaram se aproximando bastante, com Ino precisando trocar detalhes sobre a compra de gado em ela. E uma amizade começou a surgir entre as Betas.
— Obrigada — Hana sorriu ao aceitar a oferta.
— De nada — Kiba meio que cantarolou ao ritmo da melodia.
— Credo, moleque. Engole isso pra falar — Ino torceu o nariz, também pegando um bolinho. Àquela altura já estava afeiçoada demais ao Ômega para falar com ele usando toda a liberdade, semelhante a como agia com Shino. A única diferença estava na natureza do tratamento. Com Shino, sua prerrogativa era a amizade de longa data. Com Kiba, era a abertura que o garoto dava. Era tão jovial, que os outros reagiam à altura.
Ele lançou um olhar de tédio na direção da Beta e passou a mastigar o daifuku com a boca bem aberta, ao máximo que a mandíbula permitia, só pra irritar.
— Que peste — Ino resmungou.
Hana apenas riu, condescendente. Demoraria muito tempo para ela sair do encanto, da felicidade de encontrar o irmão e conviver com ele dia-a-dia, envolta naquela essência Ômega indescritível. Acharia qualquer gesto dele uma lindeza! Até os ausentes de educação.
— O takenoko tá quase pronto — apontou na direção de um fogareiro — Já comi muito broto de bambu, mas preparado assim nunca provei — estava ansioso.
— Vou provar. Em Sunagakure a culinária é bem diferente — sem dúvidas Hana não podia reclamar da fartura. Sunagakure passava por bons momentos desde que o novo Kazekage assumiu o posto, porém o que tinha a disposição no deserto era muito distinto.
— Eu pego pra vocês! — e lá se foi o Ômega com as mãos ainda segurando alguns daifuku restantes, para babar em pé na frente do grande tacho que cozinhava o prato principal.
As duas assistiram a debandada. Ino balançou a cabeça.
— Como é empolgado com comida! — comentou.
— Acontece muito com criaturas que passaram fome na vida — Hana explicou, o olhar distante. Demorou meio segundo para compreender como a frase soou — Oh, me desculpe. Não quiser ser grosseira...
— Tudo bem — Ino riu — Uma vez Inuzuka, sempre Inuzuka. Seu irmão tem a língua bem afiada também. Mas já percebi que não é por maldade.
— Ele não me contou a história completa. Acho que nem vai contar. De vez em quando escapa alguma informação e eu vou juntando as peças — suspirou — Sinto muito que a vida tenha seguido esse rumo. Eu queria ter estado ao lado do meu irmãozinho, protegê-lo...
— Você não fazia ideia.
— Nenhuma. Eu tinha doze anos, perdi o chão quando o médico me deu a notícia. E a morte do shifter interrompe a bilateralidade do vínculo. Naquela situação eu não poderia confirmar se era o corpinho do meu irmão ou não. Claro, algo assim não passaria pela minha cabeça. Que os bebês estavam trocados. Quase dezenove anos atrás, parece tanto tempo...
— Sei bem o que quer dizer.
— Mês que vem é o aniversário dele. Pensei em preparar algo para comemorar, mas acredito que Shino vá fazer algo muito melhor.
— Não seja boba — Ino ralhou — Se você cuspir numa folha e entregar pra ele, aposto que será como o melhor presente do mundo. Não tem como comparar as relações. E... vou comentar isso com Shino. Talvez ele não saiba a data exata do aniversário de Kiba.
— É sete de julho — Hana revelou — Nunca esqueceu esse dia. Meu irmão nasceu. E morreu.
Ino silenciou. Assistiu as Betas que cozinhavam o takenoko separar pequenas porções para Kiba experimentar. Depois lanceou o resto do humilde Hanamatsuri. Demorando um pouco mais sobre Shino, rodeado por seus Betas, a face indiferente mais relaxada do que ela já viu naqueles últimos dez anos. Talvez um pouco antes até, desde que começou o drama da família Hyuuga e ele se viu impotente para ajudar uma querida amiga que tinham em comum. Ou protegê-la.
O peso da culpa lhe rendeu o isolamento auto imposto.
Demorou. Mas as correntes que o prendiam, fazendo-o arrastar o passado tal qual uma âncora, se partiram. Ou melhor, foram arrebentadas por um Ômega e sua bagagem recheada de uma história de contos de fada.
— Conto de fadas — ela sorriu torto. Apenas para ficar séria em seguida. Histórias assim não costumavam terminar com "final feliz" para todos os personagens. Na verdade, o mais conhecido de todos terminava com a princesa abandonando a família e voltando para sua casa na lua.
— Que disse? — Hana perguntou.
— Nada. Não foi nada.
A outra Beta não insistiu.
O festival continuou por mais algumas horas, antes que os shifters debandassem. A primavera, estação que significava renovação, chegava ao fim. Logo seria verão, nova etapa na vida de todos no feudo.
Mal sabiam aquelas pessoas que uma grande provação ainda estava por vir.
