Marcas da Solidão
Kaline Bogard
Aburame Shino gostava de cumprir as missões da Academia Ninja de Konoha. Graças a isso viajou para vários países, conheceu culturas e shifters por todos os lados. Mas quando a febre assolou Konoha e fez várias vítimas, levando seu pai entre elas; nem pensou duas vezes. Desligou-se oficialmente do time e assumiu o feudo.
A vida adulta foi chegando para todos os seus amigos. Naruto continuou com as missões, como parte do treinamento para um dia se tornar Hokage. Sakura conseguiu um posto no hospital. Ino aceitou o convite para se tornar a chefe da segurança da família Aburame. Hinata e Sasuke faziam viagens ocasionais, para manter o equilíbrio no país. Konoha tinha três Ômegas, um número que não alcançavam em muito tempo.
Shino completara apenas vinte e três anos, mas a personalidade séria e focada já dava sinais de que seria um bom senhor feudal, como seu pai tinha sido antes dele.
A vida parecia seguir seu curso, quando se descobriu um esquema envolvendo a Akatsuki e o tráfico de Betas para uso em torturas, treinamentos de jutsus proibidos e outras crueldades só para satisfazer o prazer de Alphas sádicos que se divertiam com o sofrimento alheio.
Conflitos estouraram em todos os países. O esquema envolvia muita gente. A custo derrotaram a máfia poderosa e libertaram incontáveis prisioneiros. Houve um preço: o Hokage perdeu a vida, junto a sua esposa. O controle de Konoha foi entregue a um líder provisório. Naruto e Sasuke saíram em jornada para que o Ômega pudesse ajudar na cura dos Betas resgatados.
Aos poucos tudo foi se acalmando, a paz parecia se estabelecer de vez.
Até que, em uma das idas de Shino até a vila; ele descobriu que, por baixo da tranquilidade aparente, pessoas próximas e queridas enfrentavam tribulações apenas por querer seguir o que mandava o coração.
No caminho entre o feudo e a vila, ele encontrou-se com Hyuuga Hinata. Ambos estavam um tanto afastados, mas a amizade permanecia forte. A Ômega vinha apressada, acuada; para surpresa de Shino, fugia a pé desde a casa da família.
Explicou assustada que seus pais descobriram sobre a gestação. Esperava um filho de Neji e a reação deles foi a pior. A ameaçaram com um aborto para extirpar a prole que sujou o sobrenome Hyuuga, cujo nascimento punha em risco o compromisso com o futuro Hokage.
A briga fenomenal, que reuniu vários nichos dos Hyuuga, alcançou nível de agressão física, mas Neji um dos Betas mais fortes do Clã. Conseguiu enfrentar os familiares e abrir uma brecha para que Hinata fugisse. E a pobre garota foi direto ao único amigo em Konoha que podia fazer frente à sua família.
Os Hyuuga possuíam influência inegável, donos dos criadouros de peixes que eram parte do sustento em Konoha e vilas vizinhas. Mas os Aburame cultivavam o arroz, cereal base para cada família, cada shifter no país, inclusive em outras nações. Não podiam comparar o poderio das duas famílias.
Hinata explicou tudo e pediu abrigo. Shino nunca negaria estender a mão para uma amiga. A levou para a própria casa e a acolheu, prometendo que ali estaria segura.
No dia seguinte, a notícia devastadora. Neji pagou o preço pela afronta à família. A lei do "olho por olho" prevalecia na sociedade shifter quando o assunto era desavenças familiares. A informação veio do hospital: o rapaz garantiu que Hinata escapasse, mas não garantiu a própria vida. Se tivesse sido levado um pouco mais rápido, talvez...
Shino e o resto de Konoha não chegou a saber dos detalhes sobre o que aconteceu aquele dia na casa dos Hyuuga, mas pelo estado em que Neji ficou, tais detalhes eram dispensáveis.
Hinata sofreu com a perda. Já era uma garota frágil por nascimento, muito além do comum à casta. A tristeza lhe tirou as forças e parte da saúde. Foi ao assistir sua amiga definhar, que Shino ofereceu o vínculo. Em caráter provisório, para que sua força Alpha a ajudasse a passar pelo pior. Hinata aceitou, pelo bem do filhotinho que carregava, única prova da existência de Neji e do amor que compartilharam.
O vínculo foi feito, ligando não apenas o Alpha e a Ômega, mas unindo-os a pequena vida que florescia. Ainda indetectável para outros, senão Ômegas.
Os meses foram passando. Hinata tornou-se mais forte. O bebê começou a desenvolver o próprio chacra e a ligação com Shino ficou mais intensa. O jovem senhor feudal sentiu que podia acolher aquela criança mesmo depois de seu nascimento. Deixou claro à Hinata que ela seria bem-vinda para continuar ali, como família. Eram jovens, se aproximando dos trinta anos, podiam oferecer um lar estável à criança que perdeu o pai sem o conhecer, de um jeito violento e covarde.
A gravidez da Ômega trouxe animo novo ao feudo. Naquela época, uma década atrás, as leis de controle e proteção a casta já eram rígidas, mas não como nos dias atuais. Ela viver com Shino era algo que o Conselho aceitaria sem problemas. Além disso, havia o Ômega Uchiha, que podia se unir ao Hokage e manter a tradição. Os dias na casa Aburame passaram amenos, cheios de paz.
A perda de Neji foi lamentável, algo do qual Hinata nunca se recuperou. Mas ter o bebê em seu ventre e a ajuda de Shino foi o amparo que ela precisava para seguir em frente, alheia ao fato de que sua família nunca esquece. E nunca perdoa.
O parto foi um momento marcante. Quando a mulher sentiu as dores, Shino reuniu alguns Betas e partiu para o hospital, onde passou longas horas de espera enquanto realizavam a cesariana, procedimento que Sakura julgou mais seguro.
E então a notícia.
Era uma menininha. Uma Beta pequenina, de cabelos negros ralinhos e olhos característicos do Clã Hyuuga. Shino recebeu liberação para entrar no quarto. Viu o sorriso cansado de Hinata e teve a chance de pegar a criatura minúscula, aquele pesinho cheiroso, irradiando vida e curiosidade pelo mundo que recém a acolheu. Não era o pai biológico, mas um vínculo surgiu entre eles, instantaneamente.
Nadeshiko foi o nome escolhido, na certeza de que ela cresceria e se tornaria uma linda mulher.
Por três dias Shino alternou entre Konoha e seu feudo, porque não podia dormir no hospital. E Hinata precisava se recuperar do procedimento cirúrgico antes de receber alta.
Alta que veio trazida por Sakura, numa bela manhã de outono. Junto com o aviso de que já tinha informado a Shino, através de um mensageiro. Logo o Alpha estaria ali para buscá-la.
Mas Hinata não esperou.
"Por que você não me esperou?", foi a dúvida que martelou a mente e o coração de Shino por dias, meses, anos. Nunca encontrou uma resposta, tendo que lidar com as consequências de uma escolha errada, num momento errado.
Talvez a segurança de ter um vínculo provisório com um Alpha. Ou a paz dos últimos meses...? Quem sabe a segurança que Shino deixou no hospital, cinco Betas bem treinados protegendo Hinata e Nadeshiko.
Fosse qual fosse a resposta, ela se perdeu com o seguir dos acontecimentos.
Shino cavalgava em direção a cidade, seguido de perto pelo cocheiro. Estava satisfeito, o quarto do bebê terminou de ser arrumado pelas servas, que aguardavam o retorno de Hinata e da filhotinha com ansiedade; quando ele sentiu. O Beta que dirigia a charrete sentiu. Sakura, no hospital sentiu. Assim como toda Konoha, até mesmo Naruto e Sasuke, do outro lado do País do Fogo, tiveram a incômoda intuição de que algo ruim aconteceu.
Cada Alpha e cada Beta soube o instante exato em que a Ômega perdeu sua vida.
Ômegas representam harmonia na sociedade shifter. E há um vinculo superior unindo os shifters de uma comunidade. Não tão íntimo quanto o que existe entre companheiros, ou entre os membros de um Clã. É mais como a consciência de que ninguém vive isolado, que algo superior os liga e os une. A morte violenta de uma Ômega abalou o parco equilíbrio, fazendo a balança pender. De algum modo todos intuíram o pior.
E perceberam além: sabiam que um passo decisivo rumo à extinção da espécie fora dado naquela afável manhã de outono.
Shino açoitou o cavalo, esquecido de qualquer piedade. Largou um atônito cocheiro para trás e cavalgou veloz rumo a Konoha, mas não precisou ir tão longe. Afastou-se pouco dos limites de sua terra e encontrou uma cena de terror. A cena que povoaria seus pesadelos por longas e incontáveis noites.
Seus Betas estavam caídos, todos colocados lado a lado ao largo da estrada de terra. Amarrados, mas vivos. Podia senti-los. Os olhos detectaram dardos caídos no chão. Demorou menos de um segundo para entender tudo: uma emboscada na estrada. Os Betas pegos de surpresa, foram postos fora de combate por remédios tranquilizantes. Inimigos agiram e partiram sem deixar rastros além daqueles dardos, uma prova de que o Clã agiu e alcançou o desejo de lavar a suposta honra manchada.
Como os Hyuuga descobriram? Estariam vigiando Hinata esse tempo todo, só esperando uma oportunidade para agir? Importava isso agora?
Observou a amiga de infância caída no meio da estrada, afastada da carruagem que a levava como se interrompida numa tênue tentativa de fuga. O kimono rasgado nas costas revelava o golpe traiçoeiro e mortal. Mas não o único. Por alguns segundos, o Alpha ficou parado, apenas observando, em um estado de estupor soberano. Incapaz de processar a grandiosidade do mal que se desenhava naquele quadro.
Até que uma energia fraquinha lhe tirou da paralisia. O chacra infantil, minúsculo que desparecia lentamente o fez recuperar a frieza de ação. Nadeshiko ainda estava viva! Rapidamente se aproximou do corpo de Hinata.
Foi doloroso ter que afastá-la para poder resgatar a criança que ela segurava com os dois braços, que tentou proteger do golpe derradeiro. Criança que brilhou nesse mundo por poucos dias, e mal teve a chance de conhecer todas as suas maravilhas. O rastilho de energia desesperou Shino. Ele projetou sua presença Alpha, toda sua essência tentando fortalecer a filhotinha. Já era tarde para a mãe dela, que a tragédia não se consumasse ainda maior; esquecia-se de que só funcionava dessa maneira entre Ômega e Alpha. O elo com Betas reagia diferente.
Mas ele tentou. Se ter nascido Alpha valesse alguma coisa, implorava que fosse ali, naquele momento, salvando a criança que aprendeu a amar e já considerava sua família. Sofreu na pele, da pior forma possível, a percepção de que os deuses nem sempre atendem nossas preces.
"Por que, Hinata...?"
Aburame Shino chorou. Pela primeira e única vez.
Na solidão daquela estrada, abraçado ao corpinho frágil cuja curta e preciosa vida se findou.
"... você não me esperou?"
