Marcas da Solidão

Kaline Bogard

Shino terminou o longo relato sentindo-se exaurido. Já não machucava tanto quanto antes, não havia aquela dor visceral, apenas um sentimento de tristeza nostálgica. As palavras escaparam com mais facilidade do que pensou. A mente divagou junto com a narrativa, mas não se perdeu entre as imagens de dor. Havia uma âncora o prendendo a realidade, edificada em cada pequeno detalhe que seus sentidos captavam como um porto seguro: a pele quente e desnuda, de encontro à sua. A atenção que emanava do Ômega e era o incentivo que tornou aquilo possível. A essência preocupada que o acalentou, enquanto o aroma de morangos se tornou proeminente, naquele contexto veio sem intenção de seduzir o Alpha. Trazia paz, tranquilidade, apoio incondicional.

Engraçado. Fantástico. Impressionante.

Shino acreditou que nunca seria capaz de contar aquilo para alguém. Tanta coisa poderia ter sido diferente, apenas se Hinata tivesse esperado um pouco mais. Um erro, uma decisão equivocada e a vida de centenas foi mudada para sempre.

Entre essas mudanças talvez viesse um futuro em que nunca tivesse encontrado Inuzuka Kiba, seu companheiro reconhecido que chorava quietinho deitado em seu peito, condoído pelo que ouviu.

A tímida luz do luar entrava pela janela aberta. A chuva trouxe certo refresco durante a tarde, porém a noite voltou a esquentar. No céu, não podia enxergar graças à posição do futon no aposento; a lua alcançava seu quarto minguante, cujo brilho diminuía gradualmente até que se tornasse nova, e fosse uma mancha sobressalente entre as estrelas.

Shino não queria seguir por esse caminho. Não queria ponderar os "talvez" que jamais se concretizariam. Perdeu Hinata e a filhote a que ela deu à luz, e precisou de longos anos para conseguir dormir, atormentado por essas dúvidas. Não precisava de reflexões que o fizessem questionar a felicidade que adquiria porque a longa caminhada que o levou ao hoje e ao agora, teve início com a perda de duas importantes criaturas. O feudo o acompanhou no luto, de comum acordo. Como poderiam comemorar? O Alpha afundou na tristeza, sem ânimo para voltar ao que era antes, pois nunca seria como antes. Jamais.

Shino sufocou lentamente sob o peso da culpa. Suas palavras exatas para Hinata foram: vou proteger você. Não "vou proteger você enquanto estiver no feudo". Seu feudo era seguro, os Hyuuga jamais arriscariam invadi-lo e manchar ainda mais o estimado sobrenome. Devia ter previsto isso, mas a juventude costuma pecar justamente pela falta de experiência. Shino deu sua palavra de honra e não a cumpriu. Que espécie de Alpha era? Incapaz de proteger a fatídica promessa?

E então, quando menos esperava, a luz. Trazida inesperadamente. Uma surpresa encantadora. A mensagem dos deuses da fortuna: ainda que se esconda, ainda que fuja; nossa boa sorte pode alcançar você.

Teriam os deuses decretado que o castigo auto imposto era pesado demais e já passava da hora de Aburame Shino dar um passo a frente, levando seus servos, camponeses e ninjas com ele?

Acreditou que sim.

Ia apenas aceitar o que ditava o destino, conforme suas próprias palavras.

Ia apenas aceitar.

— Então desafiei o chefe do clã para uma batalha. Ele usava uma espada de prata, por isso perdi a visão de um olho, ele perdeu a vida.

E o clã foi obliterado. Quem clamou justiça foi a própria sociedade. A breve frase teve o efeito de fazê-lo reviver o duelo. Do jeito que falou, parecia ter sido um confronto fácil. E não foi.

Hyuuga Hisashi se mostrou um oponente a altura. Que lutou com a ferocidade de alguém que deseja lavar a honra acima de qualquer coisa, nem que para isso perdesse todos os membros da família. Prova maior disso, estava imputada na face de Shino, herança trazida pelo golpe que quase o cegou por completo.

O resultado foi favorável a Shino apenas porque a sensação de ter a vida de Nadeshiko se esvaindo enquanto a levava nos braços foi impulso mais do que suficiente. Não havia raiva ou ódio. Apenas rancor.

Rancor contra o oponente. Rancor contra a sua incapacidade em manter uma promessa.

Aburame Shino venceu o inimigo e não hesitou em tomar-lhe a vida como exigia o milenar "olho por olho". Os remanescentes do Clã não tiveram sorte diferente.

Konoha inteira sentiu na pele o peso pela morte de uma Ômega. Foi impossível conter a fúria dos aldeões, tão impossível quanto impedir o linchamento. Todavia, os Hyuuga não impuseram resistência. Um a um foram caindo, pagando o preço pela justiça.

E acabou assim, tão tragicamente, um dos maiores Clãs de Konoha.

— As pessoas fazem tantas maldades — Kiba sussurrou.

Shino recomeçou a acariciar as costas do companheiro. Kiba podia dizer com toda propriedade, pois sofreu na pele o pior lado da sociedade. Ao contrário de Shino, ele não se escondeu, nem evitou enfrentar os problemas. Era algo que podia usar como exemplo de vida.

E estava usando, afinal de contas. Teve na já saudosa estação da primavera mais festivais no feudo do que pelo período de dez longos anos. Aquele garoto chegou como um viajante gatuno, escondido em frágeis mentiras. E clamou um lugar no coração de todos.

No coração do Alpha.

O abraçou com força, querendo que as lágrimas do Ômega parassem. Shino pranteou a filhotinha perdida uma única vez, mas sua alma lamentou por Hinata e Nadeshiko todos os dias subsequentes. Bastava de sofrimentos.

Falando em sofrimento, a morte de Hinata pareceu jogar uma maldição sobre a sociedade. Depois disso nunca mais nasceu algum Ômega no País do Fogo. As leis de proteção à casta se tornaram mais duras, mais pesadas. Os passos deles mais controlados, a liberdade diminuiu. A ação cruel dos Hyuuga plantou sementes cujos frutos eram colhidos ainda nos dias atuais.

Aqui colocava apenas um adendo. Agora descobriam que a ausência de Ômegas talvez não estivesse assim tão ligada ao desejo dos deuses. Pois o garoto em seus braços surgiu trazendo a ponta de uma meada que, desatada do jeito certo, responderia a questão de tão poucos nascidos naquela casta. Aquele garoto foi tirado da família e levado para longe. E quantos mais? Quantos outros Ômegas se desviaram pelas mãos de shifters sem escrúpulos? Descobririam em breve, quando a operação em conjunto que Konoha realizava com Sunagakure obtivesse resultados.

— Obrigado por me contar — Kiba sussurrou. Através do vínculo sentiu momentos de tensão, tristeza, mágoa e rancor. O rancor acompanhou Shino desde a primeira silaba que escapou de seus lábios. Não foi fácil para o Alpha compartilhar. Todavia, a confissão veio quando ele achou ser o momento certo.

Esse era o último ponto para que o casal ficasse completamente livre de quaisquer amarradas, de qualquer obstáculo que os prendesse ao passado.

Não esperava que o que aconteceu simplesmente desaparecesse, como água que limpa uma mancha; e dali para frente vivessem em um mar de rosas. Mas conseguir expressar e compartilhar seu passado com o companheiro foi um grande passo na relação. Sem que Kiba o pressionasse ou cobrasse respostas que não estava preparado para dar.

Ambos entendiam isso.

Porque, como Kiba já disse uma vez, como já falou para Hana, ele também tinha experiências que não queria contar. Fosse por vergonha, por um forte senso de humilhação, quem sabe medo irracional e injustificado de ser julgado... Kiba fez o que foi preciso para sobreviver. Para resistir aqueles quase dezessete anos em Gin-Io, distrito que aprisionou não apenas sua infância, mas que guardaria as piores coisas que sofreu. Que assistiu. Seu desejo era que o ruim de Gin-Io permanecesse em Gin-Io.

E era por ter essa certeza que não podia cobrar nada de Shino. Seria hipócrita se exigisse revelações do companheiro quando ele preferia manter a parte mais feia do passado em seu lugar de direito: no passado.

Shino abrir o coração e desnudar tudo para o Ômega foi uma das maiores demonstrações de confiança que jamais esperou. Não tão cedo, na relação que se construía entre eles.

Sobre as brechas na história do garoto, Shino intuía que eram sombras que ele ainda não queria ou não podia revelar. Sabia que o jeito dele era aquele: entregando migalhas feias do distrito em que cresceu. Era como se contasse o que era relevante para o momento. Aos pouquinhos, em um paralelo às singelas peças que completavam um tabuleiro de shogi, a história seria desvendada por completo. Shino não tinha pressa. A intenção era viver o resto de seus dias com Kiba ao seu lado. Ouviria fragmentos do que ele enfrentou e remendaria o passado do Ômega, tal qual uma colcha de retalhos.

E, obviamente, essas peças de artesanato eram as que ficavam mais bonitas.