Marcas da Solidão
Kaline Bogard
Diferente dos jantares anteriores, naquela noite Naruto não os levou para a sala da lareira, para um momento social antes da refeição. Os três shifters foram direto para o escritório que ele mantinha em casa. Um cômodo com forte influência estrangeira, onde a escrivaninha grande e pesada dominava. Belas estantes repletas de livros e pergaminhos cobriam duas das paredes.
— Fiquem a vontade — Naruto indicou as cadeiras postas a frente da escrivaninha, onde Shino e Kiba se sentaram. Em seguida ele foi até um pequeno bar de canto e voltou com uma garrafa cheia de líquido âmbar escuro e três copos. Colocou sobre a mesa e serviu doses generosas.
Foi nesse instante, com um excelente timming, que Sasuke entrou no escritório. Trazia uma bandeja com um bule e uma xícara decorada. Não cumprimentou ninguém, mas enviou um olhar tão feio para o Hokage que afastou a vontade dos três de serem educados.
Em silêncio tirou o copo de uísque da frente de Kiba e o serviu com chá verde morno, antes de deixar a chaleira sobre a mesa e sair da sala. O clima ficou estranho. Os dois anfitriões pareciam ter brigado.
— Me desculpem por isso — Naruto suspirou — Sasuke está com um péssimo humor, não concordamos em algumas coisas — não deu detalhes. Nunca esperou que o lado Ômega do companheiro afloraria daquele jeito! Também não comentou que ele enfiou na cabeça que os visitantes estavam a meio caminho de aumentar a família. Insistia na infalibilidade da intuição, por isso veio com a dose de chá, logo imaginando que Naruto ia servir os visitantes com bebida forte. Era seu costume sempre que usava o escritório para reuniões.
— Tudo bem — Shino não deu importância ao fato. Aprendeu sobre as consequências de se intrometer nos problemas alheios. Nem toda situação era adequada para palpites de terceiros, ficou grato por Naruto não entrar em pormenores.
— Se quiser provar — Naruto insinuou para Kiba, mostrando o copo que Sasuke afastou.
— Não. Vou ficar com o chá — apesar de estar louco para saber que gosto tinha aquela bebida (o cheiro era ótimo), Kiba entendeu fácil que o gesto de Sasuke era um gesto de preocupação. Não fazia ideia do porquê, apenas aceitou a gentileza incompreensível.
Naruto respirou fundo e recostou-se na cadeira de alto espaldar.
— A missão foi um sucesso — começou, ganhando atenção dos dois — Eu nunca vi nada igual.
— Um sucesso? Eu esperava comoção maior da população. Ou...
— Não — Naruto cortou — Estamos contendo as informações. Nada foi divulgado ainda, minha intenção é fazer um pronunciamento em breve. O conselho está se preparando para o impacto dessa missão. E não conseguimos prender todos os envolvidos. Bom, estou me adiantando. Foi uma operação complexa. Meu medo foi que os seus ninjas tivessem colocado Soragakure de sobreaviso. Então tivemos que agilizar a missão para evitar que eles estruturassem defesas intransponíveis. Soragakure é um país pequeno, mas é um estado soberano. Invadi-lo poderia deixar outros países melindrados. Mas descobrimos que é um país fantasma. Os moradores migraram a muito tempo, existem muitas vilas desertas. Por isso a Akatsuki encontrou um bom quartel. E, aparentemente, era comum que um ou outro Alpha que já conhecia o esquema tentasse burlar as regras e roubar um Ômega. Eles trataram seus ninjas como um caso desses, não pensaram que já estavam na nossa mira.
— Mesmo com Kiba tendo fugido? Uma testemunha?
— Isso foi há quase dois anos. Eles ficaram de sobreaviso nos primeiros meses. Depois deduziram que fuga dele não traria grandes consequências. Talvez concluíssem que ele morreu antes de alcançar a sociedade — deu um gole na bebida — Trabalhamos em conjunto com Sunagakure e Iwagakure. A operação coordenada fechou o cerco em Soragakure e, ao mesmo tempo, em suspeitos que avaliamos trabalhando nos hospitais. Aqui em Konoha colocamos dois médicos sob custódia. Eles já confessaram — suspirou.
— E os distritos?
Naruto encheu seu copo e o de Shino.
— Kakashi me mandou um relatório completo. Os distritos são reais — girou o copo agitando o uísque. Não sentiu coragem de revelar que, de acordo com as palavras de Kakashi, o cenário era bem pior do que esperavam — Tem muita papelada arquivada no quartel da Akatsuki. Prendemos Pain e seus principais homens. Alguns fugiram, mas já estão sendo caçados. Conseguimos resgatar quase cento e cinquenta Ômegas, entre homens e mulheres. Crianças.
Parou a narrativa e massageou a nuca. Revelar para a população toda aquela informação... seria... de um impacto incalculável.
— Cento e cinquenta... — Shino virou um longo gole na bebida. Kiba não pareceu impressionado. Ele sempre viveu junto a muito Ômega, o conceito de raridade era algo que ele entendia bem, mas não sentia da mesma forma que aqueles dois Alphas.
— Começamos a estudar os papeis. Kakashi me disse que tem uma lista de Alphas que pagavam para usufruir os distritos. São nossos próximos alvos. Há também pergaminhos rústicos controlando a entrada e a saída de Ômegas, ainda estão trabalhando para entender tudo. Chega a ser doentio, imagina que "Requisição Definitiva" era a camuflagem para a morte de alguém? Se um Alpha passava dos limites durante a sessão, diziam para os outros Ômegas que essa vítima foi requisitada em definitivo, por isso não voltaria — a revolta de Naruto era sem precedentes.
Demorou meio segundo para que Kiba entendesse aquela revelação.
Shino sentiu a dor fluir pelo vínculo, tão intensa, que ele passou um braço pelos ombros do garoto e o puxou de encontro ao corpo. Sabia o que ia pela mente dele. Todos aqueles conhecidos, que não voltaram e que acreditavam estar numa vida um pouquinho melhor, na verdade... e Haku-san... nunca o agradeceria. Nunca o reencontraria.
Nem que Kiba pudesse teria segurado as lágrimas.
Por longos segundos seus soluços foram o único som na sala. E a tristeza pontuada em cada lágrima ficaria impregnada para sempre na memória dos dois Alphas. Aquela foi a razão de uma das piores brigas que Naruto teve com seu companheiro. Sasuke foi contra a presença de Kiba na reunião, momento em que estaria exposto a grande carga emocional!
Naruto defendeu que aquele garoto era o principal interessado em participar. Tinha mais do que direito de estar ali.
— Não sei se teremos todas as repostas — Naruto disse um tempo depois, quando o pranto se abrandou — Talvez não possamos descobrir de onde cada um dos Ômegas veio, para devolver ao lar, mas tenho esperança que com os bebês e as crianças menores seja mais fácil. O nascimento deles é recente, os médicos mostraram boa vontade em colaborar com a investigação. Descobrimos inclusive como sabiam que o bebê a nascer seria um Ômega.
— Antes do nascimento? — Shino franziu as sobrancelhas.
— Sim. Orochimaru, já ouviu falar? — indagou, quando o outro Alpha balançou a cabeça, continuou: — Quando era vivo, ele desenvolveu um jutsu, que foi usado mesmo depois que ele morreu. Essa técnica aplicada em uma pessoa prestes a dar a luz, reage retardando o parto. As dores permanecem com intervalo espaçado, ao invés de reduzido. Mas só se o filhotinho for um Ômega. Se for um Beta ou Alpha, o nascimento prossegue sem interrupções. Os médicos acompanhavam gestantes alvo por meses, no mês previsto para o nascimento, traziam alguém gestante de Sunagakure com tempo equivalente. Estando o bebê da troca pronto ou não, induziam o parto para acontecer em simultâneo.
Shino, que acariciava as costas de Kiba com carinho, pareceu incrédulo.
— Não é muita coincidência? Ter bebês prontos para nascer ao mesmo tempo assim?
O Hokage balançou a cabeça.
— Ômegas são muito férteis. O distrito feminino... — calou-se, incapaz de reproduzirem voz alta o que leu no relatório — Somando os distritos, calculo uma margem segura de ao menos dois partos por mês. E Ômegas não nascem tão fácil. Veja, o esquema da Akatsuki só entrava em ação quando o jutsu de Orochimaru identificava um.
Shino compreendeu. Era um esquema cruel, mas organizado. Não negava isso.
— E agora?
— Agora — Naruto respondeu — Teremos uma conferencia entre os Cinco Grandes Países, vamos discutir o destino desses Ômegas, o que fazer com a Akatsuki e os Alphas que participavam como clientes do distrito, e apresentar o caso à sociedade. Não alimento esperanças de devolver todos às suas famílias ou sequer de descobrir de onde cada um veio. Exceto os que nasceram dentro dos distritos, há várias crianças Ômega nascidas no cativeiro. Mas garanto que o futuro deles será o melhor possível. Também não posso prometer que saberemos todos os detalhes sobre sua história, Kiba. Isso aconteceu a quase dezenove anos, os registros não parecem tão específicos a esse ponto.
Outro golpe impiedoso no coração de Kiba. Tinha a esperança secreta de que um dia descobrisse tudo sobre si. A morte da mãe era acidental ou não? E como a manta com o seu nome ficou consigo até chegar em Gin-Io no distante leste, mesmo manchada com sangue e sendo uma pista primordial sobre seu passado?
As lágrimas ainda desciam, manchando as marcas do clã. Marcas que Haku-san disse que tinha na face, ao chegar no distrito recém-nascido e... e... e...
— Caralho — ele exclamou com o rosto escondido no peito de Shino. Os Alphas silenciaram para ouvir o que tinha a dizer — Então pode ser que o bebê que ficou no meu lugar era filho de Haku-san? Por isso ele sabia das marcas, do nome na manta... ele me disse que eu cheguei em Gin-Io com tudo isso, mas não faz sentido, não é? Que essa Akatsuki me deixasse ter qualquer ligação com minha família de verdade... mas... nenhum outro Ômega nunca falou sobre troca de bebês... acho que também não sabiam.
Naruto pensou na teoria por alguns segundos. Mas foi Shino quem falou primeiro:
— Supondo que Haku-san foi o escolhido da vez e levado para dar a luz junto com Inuzuka-san. Algo no plano dá errado e ele descobre sobre o esquema; mas, de alguma forma, mantem segredo que descobriu. Apenas revela para Kiba anos depois, por alguma razão.
Remorso? Vingança contra a Akatsuki? Era a teoria certa? Ou estaria muito distante da realidade?
Talvez nunca soubessem.
— E os filhotinhos Beta que nunca voltaram? — Kiba soou abafado com o rosto apoiado no kimono de Shino — Alguns eram trocados por Ômegas e foram para outras famílias. Mas tem um monte que nunca voltou.
— Estou compartilhando apenas um resumo — Naruto suspirou, enchendo o copo pela terceira vez. A resposta para aquela pergunta era aterradora. Soragakure tinha um cemitério grande demais para uma nação tão pequena — Ainda há muito o que verificar, muitos shifters a prender, muito o que corrigir. Espero que Kakashi volte com mais detalhes. Achei justo contar a vocês antes, pois se não fosse por Kiba, Soragakure continuaria sendo apenas nome um mapa e a falta de nascimento dos Ômegas, apenas o castigo dos deuses. A sociedade tem uma divida impagável com você.
Kiba mordeu os lábios, ainda incapaz de afastar-se dos braços do companheiro. Precisava se conformar com aquilo. Não teria todas as respostas às suas dúvidas e anseios, porém da sua ação corajosa de fugir de Gin-Io e batalhar por um futuro melhor, o continente inteiro seria transformado.
Conseguiu libertar os outros Ômegas e tirá-los daquela vida de humilhações. Sua decisão arriscada garantiu que algo assim nunca mais aconteceria. Então tudo bem se não soubesse de toda a verdade. O resultado alcançado compensava e equilibrava a balança.
Tinha razão: sozinho não conseguiria mudar o país em que cresceu. Mas, sozinho, conseguiu dar o passo decisivo para mobilizar pessoas fortes e importantes; essas sim, capazes de mudanças que pareciam milagres.
