Marcas da Solidão

Kaline Bogard

O pronunciamento do Hokage foi o maior escândalo que o país já viu. Superou até mesmo o famoso caso "Kyuubi". Pois a população descobriu que a organização Akatsuki desviava os nascidos Ômega para uso proibido. As consequências de tal crime poderiam resultar na extinção da raça shifter. Foi inconcebível pensar no que as pessoas eram capazes de fazer para saciar a ganância. Tudo por dinheiro.

Os efeitos da missão afetaram menos o feudo do que Shino temeu a princípio. A revolta se espalhou entre seus servos e camponeses, mas eles tinham a presença de um Ômega vinculado ao Pack, suas reações vinham em doses equilibradas. Diferente do resto da nação. Foi preciso tirar os médicos da prisão e levá-los para um lugar seguro, pois a população começou a falar em linchamento.

A maior parte das novidades era trazida por Ino.

O feudo era afastado o bastante para garantir a manutenção da paz, que Shino temeu estar em risco quando Naruto revelasse tudo.

O casal continuou com sua rotina, com as aulas, as visitas na casa de Hana. E acrescentou hábitos novos. De vez em quando iam aos campos tratados que começaram a ganhar ares de pasto, com o capim rompendo a terra, verdinho e viçoso. Não poucas vezes conversaram com os camponeses que se tornariam pastores. Ou melhor, o termo correto era "vaqueiros". Os Betas se enchiam de orgulho, por receber tanto interesse do Alpha e seu companheiro. Servia como incentivo para se dedicar mais!

Também visitavam os currais. As obras estavam quase finalizadas, antes do fim do prazo dos seis meses, o que era ótimo. As acomodações do gado eram fundamentais para garantir o sucesso do novo empreendimento.

No decorrer daqueles dias, Shino passeou bastante com Kiba, redescobrindo recantos das terras que mal se lembrava. Sua intenção era mostrar ao companheiro toda a propriedade que agora também pertencia a ele.

Um dos melhores momentos foi passar pelo rio que entrecortava a floresta, fonte de onde desviavam a água que irrigava os campos de arroz. Era um cenário aprazível, apesar de dominado pelo descuido. A antiga ponte que o acompanhava estava caindo, apodrecida em algumas partes.

— Que lugar lindo — Kiba exclamou a primeira vez que foram até o recanto perdido.

Desceu do cavalo, chateado por não ter levado Akamaru. O filhote ia adorar correr por ali!

— Costumava ser mais bonito — Shino apeou, permitindo que seu alazão fosse pastar junto com o de Kiba.

O mato cresceu demais, a floresta estava mais selvagem do que quando brincavam por ali. Lembrou-se de bons momentos correndo com Ino, Naruto, Sakura, Hinata e Sasuke; quando ainda eram crianças e o mundo era o reino encantado que iriam conquistar.

Dedos quentes se enroscaram nos seus, trazendo-o de volta ao presente.

— Você ficou triste... — Kiba sussurrou.

— São apenas velhas memórias.

— Quer ir embora?

— Não — Shino balançou a cabeça. Soltou a mão e passou um braço por trás dos joelhos do companheiro, a outra mão o segurou pelas costas, de modo que o erguesse no melhor estilo princesa — Prefiro fazer novas memórias.

— Oe! — Kiba até tentou protestar.

No segundo seguinte mergulhavam nas águas geladas do rio, com kimono e tudo o mais! Um gesto espontâneo e atrevido que não combinava com Shino, mas que fez Kiba muito feliz. O gueta escapou de seus pés e perdeu-se levado pela correnteza. Não deu grande importância. Os braços do Alpha não o soltaram em momento algum, pelo contrário. Tão logo emergiram ele foi puxado mais para perto, aproveitando a oportunidade para tirar os óculos de lente preta que escorregaram pelo rosto do companheiro e jogá-los a salvo na margem.

O beijo não foi totalmente inesperado. Aqueceu os corpos molhados, queimando por dentro.

Novas lembranças certamente seriam feitas ali, substituindo as antigas manchadas de sépia. Shino não era mais uma criança sonhadora, brincando de dominar o mundo. Voltava ali como homem feito, conquistador de algo muito melhor: o universo inteiro que constituía a alma daquele Ômega.

Outro hábito comum eram os piqueniques que faziam no campo. O preferido de Kiba era o campo de girassóis. As plantas cresceram de sementes trazidas pelos pássaros e se espalharam por um longo espaço de terra, brutais e impressionantes.

Kiba ousou invadir o campo uma vez, correndo junto com Akamaru. Mas as flores eram altas demais! Eles se separaram durante a farra e Kiba se perdeu no meio das flores. Precisou ser resgatado pelo Alpha, que intensificou sua presença de modo a orientá-lo sobre qual direção seguir.

— Que susto! — ele berrou quando saiu do meio das flores e reencontrou o companheiro. Amakaru já estava do lado de fora, bem seguro — Você me abandonou lá, traidor!

O bichinho latiu e abanou o rabo. Certamente um pedido de desculpas não muito sincero.

Depois disso, Kiba desistiu de arriscar-se a correr no meio das flores. Elas eram lindas e enormes! Mas perder-se e ficar totalmente desorientado assustava um bocado. Por sorte Shino estava ali, servindo como o melhor farol que poderia querer, sempre indicando onde era seguro, o ponto para o qual deveria voltar.

Novas memórias foram feitas, claro. E dessa vez bem engraçadas. Kiba decidiu que fazer amor no rio era melhor e mais agradável do que no chão do campo de girassóis... onde o risco de levar umas picadas de formiga era muito maior.

O verão passava da metade quando tiveram novidades animadoras sobre o caso de Gin-Io e suas repercussões.

Foi durante uma das visitas de Ino, quando ela veio apresentar o relatório semanal e encontrou Shino e Kiba meditando na sala das orquídeas.

Meditando não era o termo ideal aplicado à cena. Shino estava sentado em uma confortável almofada perto das grandes portas internas que se abriam para o jardim dos fundos. Kiba estava deitado no chão, com a cabeça sobre o colo do Alpha, aproveitando um gostoso cafuné, enquanto se abanava com o leque que ganhou de presente.

— Yo — Ino cumprimentou. Tinha parado por dois segundos à porta, admirando o casal com certa emoção. Era algo singelo, mas que ela já havia desistido de flagrar naquela residência. Agora havia amor, havia carinho, risos e até mesmo lágrimas, aprazíveis no novo contexto. Havia vida ao redor do grande amigo de infância. Toda a solidão que escurecia o feudo desapareceu. Inuzuka Kiba foi como os fulgurantes raios da alvorada, que dissipam a nevoa e trazem a promessa de um belo dia.

— Olá — Kiba respondeu preguiçoso, os olhos fechados e a mão indo e vindo lentamente, tentando se refrescar do calor.

— Olá — Shino também respondeu.

A Beta foi sentar-se perto da porta, lançando um breve olhar para o jardim.

— Tenho novidades. Naruto mandou um memorando.

— Sobre o caso do meu país? — Kiba abriu os olhos e prestou atenção.

— Sim! — ela respondeu — Todos os Ômegas estão recebendo cuidados médicos. As autoridades implantaram uma equipe de ressocialização. A intenção é prepará-los para viver em sociedade, apresentar todos os países e deixar cada um escolher onde quer morar. Foi a parte mais complicada de se chegar a um acordo, os registros da Akatsuki são vagos sobre origens. Não será fácil descobrir efetivamente onde cada um nasceu...

— Que foda isso — Kiba falou baixinho. O carinho em seus cabelos servindo como melhor consolo.

— Escolher para onde ir é um grande passo — Ino retomou a narrativa — Antes eles não podiam sair do distrito. Agora vão começar a tomar as rédeas dos próprios destinos. As crianças não preocupam tanto, porque filhotes se adequam fácil. Os adultos estão mais condicionados às restrições, para eles será mais complicado se adaptar.

— Eu escapei no tempo certo! Nem jovem demais pra sobreviver, nem adulto demais para só aceitar o sistema — Kiba contou vantagem.

— Naruto tem alguma perspectiva sobre quantos virão para o País do Fogo? — Shino indagou.

— Investigando extraoficialmente, ele imagina que ao menos uns dez. Dez Ômegas no nosso país. Penso que com isso Iruka-sensei poderá parar de viajar tanto e estabelecer-se em Konoha. Teremos três Ômegas na vila. Faz muitos anos desde que vimos tantos fixos em único lugar. Pelo que Naruto colocou no memorando, o Kazekage tem altas expectativas. Dois dos filhotes, duas femeazinhas, nasceram em Sunagakure de acordo com os médicos envolvidos no esquema. Ele está contando que conseguirá o interesse de pelo menos mais quinze Ômegas para o País da Areia.

— Um ótimo resultado — Shino analisou a situação. Com o bom término daquela missão todos sairiam ganhando. E os vilões receberiam a punição, pelo menos a maioria deles! Já que alguns conseguiram escapar.

— Até os países pequenos serão beneficiados. A ilha Benisu, o País das Chaves e outros países que nunca tiveram um Ômega e precisavam se contentar com visitas oficiais de Ômegas estrangeiros a cada dois anos, tem a chance de que algum escolha morar por lá. Se nenhum Ômega quiser morar em um país pequeno, mesmo assim, a frequência das visitas oficiais pode até triplicar.

— Que bom — Kiba sorriu largo.

Ino correspondeu ao gesto. Sim, era ótimo! O memorando ainda dizia que a caça aos criminosos seguia feroz. Mais médicos foram detidos. Grande parte dos Alphas que pagava para ter acesso aos Ômegas foi presa e perdeu todas as posses. Até os mais ricos, que tentaram usar a influência do dinheiro para escapar da lei... naquele caso não houve dinheiro que comprasse a impunidade. A opinião pública estava inflamada. A revolta era incontrolável. Os poderosos senhores deviam agradecer por sair com vida, pois a população sedenta de justiça clamava resolver tudo usando a lei mais antiga de todas: olho por olho.

— Ah! — A Beta arregalou os olhos — Quase me esqueço! Naruto mandou um convite. Ele disse que o Conselho de Konoha e todos os países serão eternamente gratos ao corajoso Inuzuka Kiba. E eles querem fazer uma homenagem para mostrar a gratidão da nação. O que acha, Kiba? Quer subir no palco e ser a estrela de Konoha?