Marcas da Solidão
Kaline Bogard
O dia da homenagem a Kiba começou cedo. Como seria um dia histórico, os servos e camponeses receberam permissão para suspender os trabalhos e ir assistir as festas. Um verdadeiro matsuri comemorativo.
Quando acordou, Kiba aceitou ajuda de Kimimaru para fazer a barba. Ele não tinha prática nenhuma com a navalha e às vezes se cortava. Quando seus hormônios dessem um ponto final à fase de desenvolvimento e seus pelos começassem a engrossar, pensava seriamente em manter um cavanhaque ao estilo de alguns samurais. Mas no momento atual era impensável, quando tentou deixar a barba crescer se arrependeu: ainda era rala demais. Ficava horrível e nem um pouco charmosa.
Depois se juntou a Shino, que nunca ficava um dia sequer sem ser barbeado. Podia não ser vaidoso, mas essa era uma de suas preocupações com a aparência. Juntos, dispensaram os servos e trocaram de roupa no quarto das acácias.
Usariam trajes formais, mas não cerimoniais. Kiba foi bem eloquente (talvez até demais) quando viu o sokutai que queriam que vestisse! Um kimono com quilos de camadas, mangas quase arrastando no chão! Num dia quente de fim de verão? Não ia ficar nem um pouco a vontade naquilo! Nem se mexer direito ia conseguir.
Shino não insistiu. Achava que combinava pouco com seu companheiro.
O broche de flor de cerejeira foi preso no lado esquerdo do kimono azul marinho de Kiba, numa forma de ter junto a si, em um momento importante, a mãe que nunca conheceu. Ainda teve o cuidado de usar a proteção do acônito, para camuflar sua presença.
Não era com a finalidade de simplesmente se esconder. Mas como era o homenageado do dia, não queria chegar chamando a atenção. Sua intenção era passear pelo matsuri, aproveitar as atrações com calma e sossego. Coisa que não conseguiria se a população logo soubesse que ele era o Ômega que revelou todo o esquema da Akatsuki. Por tal motivo evitou pintar as marcas do Clã.
Preferiram ir de carruagem até o centro de Konoha, mais rápido e menos cansativo no sol da manhã. No caminho encontraram Hana, que seguiu com eles, montada em um alazão.
Como já esperavam, o local estava lotado. A curiosidade em ver o herói que ajudou a resgatar mais de uma centena de Ômegas, que traria maior equilíbrio ao mundo, era gigantesca. Atraiu a população de Konoha em peso, assim como de muitas vilas do País do Fogo.
A segurança também estava reforçada. Ninjas do esquadrão ANBU circulavam por todos os lados, controlando o fluxo da multidão. O que não dispensou Shino de trazer seus próprios ninjas, claro. Ino estava por ali, também vigiando a ambos, conforme seu posto exigia.
A cerimonia de homenagem estava marcada para as três horas da tarde, isso dava tempo para que o casal passeasse e se alimentasse antes de se apresentar oficialmente aos organizadores do evento. Não tinham pressa, ainda não captaram a presença de Sasuke nem de Naruto. Quando eles chegassem ao evento iriam ao encontro do Hokage e seu companheiro.
Havia muitas barraquinhas de guloseimas, principalmente de daifuku com os mais variados recheios. Takoyaki e onigiri também havia aos montes. E muitas delícias que Kiba ainda não tinha visto nem provado!
Fizeram um "desfile sagrado" indo de barraca em barraca. Começaram pelo tenmusu, e Kiba se apaixonou pelo bolinho de arroz com camarão empanado, que fez questão de dividir com a irmã. Ficou olhando os espetos de kiritanpo, em dúvida se provava ou não. Decidiu rápido: comida era comida! Nunca conheceu nada comestível que tivesse gosto ruim. Não se arrependeu. A pasta de arroz assado estava crocante e deliciosa, com forte sabor de misso. Na hora que pediu uma porção dupla de echizen no capricho, Shino começou a se preocupar que tivesse uma indigestão! Como cabia tanto naquele corpo esbelto?!
— Minha digestão é muito rápida — Kiba explicou a dúvida que lia no rosto do Alpha — O tempo que a gente fica na fila é o suficiente pra digerir tudo e abrir espaço pra mais comida!
— Meu irmão está em fase de crescimento — Hana riu. Ela sabia do desejo de Kiba em ficar mais alto que seu companheiro...
Os três entraram no final de outra fila.
Sim, muita gente se reuniu para aquela festa. Isso significava esperas imensas para tudo. Se ele estivesse sem o acônito, conseguiria vantagens claro. Mas não poderia passear assim tão a vontade, como se fosse apenas um Beta na multidão. Shino estava controlando sua presença Alpha, sempre muito discreto. Preferia enfrentar as filas, conversar com o companheiro, provar na pele a diversão. Depois, quando chegasse o momento certo, ele iria receber a homenagem e ser chamado de herói. Todos iriam reconhecer seus feitos e sua coragem.
Quando escapou do distrito, quase dois anos atrás, Kiba não fez por glória ou por nada do que estava acontecendo ali. Só tinha em mente encontrar a família e viver de modo melhor, sem as humilhações diárias que sofria nas mãos dos Alphas.
A caminhada foi longa. Por vezes teve que engolir o desânimo e a desesperança, fingindo ser forte o tempo todo, pois se fraquejasse um segundo que fosse...
Ele acreditou que todos os Alphas eram farinha do mesmo saco. E evitou todos no caminho, usando os recursos que tinha. Providência que visava apenas à proteção, mas que o fez encontrar-se com Shino.
Aquele Alpha que não precisou fazer nada além de parar o cavalo nos campos de arroz, no primeiro dia da primavera. Um homem que descobriu Kiba apesar do disfarce que achou perfeito e o manteve seguro dos outros Alphas.
Desde o começo, desde o primeiro encontro, algo diferenciava Aburame Shino. E esse algo se refletia no feudo, no aconchego que sentiu morando ali, escondido entre os camponeses, na inexistente vontade de ir embora, ainda que pensasse na família todos os dias.
Se prometia que continuaria a busca em breve. E esse "breve" virou meses, metade de um ano. E esse "breve" virou o resto da vida. Os planos eram de ficar ali, junto com Shino, até o fim de seus dias, como companheiros vinculados que eram.
Ele estava feliz.
Nunca parou para pensar na sorte que teve, ou talvez aquele não fosse o termo mais adequado. Sorte ou benção dos deuses, um pouco de felicidade depois de tudo o que sofreu. A maior parte das pessoas leva uma vida normal desde que nasce. E outros, marcados pelo destino, precisam lutar por essa felicidade, abrir caminho em meio à dor e sofrimento, para encontrar um sentido em estar vivo.
Servir de saco de pancadas de Alphas não podia ser a razão de sua existência. Kiba nunca se conformou com isso. No começo a rebeldia e o atrevimento lhe rendiam surras memoráveis. Aprendeu da pior forma que baixar a cabeça e aceitar as regras da sociedade era questão de sobrevivência. Precisava estar bem e inteiro, caso quisesse fugir de lá.
Quando entendeu isso, deixou de revidar. Os responsáveis pelo distrito acreditaram finalmente ter quebrado o espírito do maior encrenqueiro de Gin-Io. E esses criminosos não podiam estar mais longe da verdade.
Kiba nunca permitiu que dobrassem sua força de vontade. E aprendeu a proteger a força do seu corpo. Pois essas eram suas duas únicas armas no mundo, as ferramentas que lhe dariam a liberdade.
Tanta coisa aprendeu naquela jornada, na busca de algo que fizesse sua vida valer a pena.
Encontrou um companheiro. Encontrou família. Encontrou amigos.
Aprendeu coisas que jamais imaginaria nem em seus mais puros sonhos. Descobriu a pintura, a música. O respeito. O amor.
O garoto que só conhecia tristezas e humilhações alcançou um lugar para chamar de seu. Um bom lugar. Sem hierarquia, sem dominação, sem predomínio ou superioridade entre os pares.
E esse lugar incrível era ao lado do Alpha que lhe estendia uma porção de manju. Sabia que Kiba gostava daquele doce, quase tanto quanto do daifuku recheado com morango. Hana também segurava alguns.
— Obrigado! — o Ômega sorriu feliz.
A fila ali tinha sido menor, mas ele se perdeu em pensamentos nostálgicos. Normalmente não era típico da sua personalidade. Talvez fosse o ar de "final feliz" que reinava. Pessoas felizes, muitos Betas passeando por ali, crianças correndo e idosos conversando. As barraquinhas estavam enfeitadas com dragões e flores de papel. Tudo muito colorido e lindo.
Observou o doce apetitoso e então mirou Shino, fundo nos olhos que sabia estarem por baixo dos óculos escuros e que sentia fixos em si, com interesse lisonjeiro. O coração bateu forte e rápido.
Aquele tempo todo de felicidade e Kiba finalmente entendeu a palavra que ouviu em Gin-Io, mas que nunca lhe fez o menor sentido. Palavras que cresceu ouvindo os Ômegas mais velhos sussurrarem a noite, quando achavam que todos estavam dormindo; como se fosse a magia que os livraria dos grilhões.
Amor.
Aquilo que sentia pelo Alpha era amor. O tipo de amor que fazia as pessoas suspirarem e devanearem. Shino, uma vez na viagem à Suna, disse que o amava. Mas Kiba nunca retribuiu a declaração em voz alta. O vínculo tornava claro que o sentimento era mútuo, conquanto por em palavras era importante.
Deu um passo a frente, aproximando-se do Alpha. Teve que olhar para cima, pois a irritante diferença entre as alturas ainda existia. Por pouco tempo (de acordo com seus planos), mas estava ali.
— Shino, eu... — ia revelar suas conclusões. Confessar que compreendeu o forte sentimento que nasceu naquele dia de primavera, que parecia distante anos no passado, porque muita coisa aconteceu em consequência ao encontro que devia ser predestinado.
Contudo, as palavras nunca vieram.
A expressão de Aburame Shino se tornou tensa.
Um segundo.
Ele teve um segundo de forte intuição, daquela intensidade que apenas Alphas extraordinários são capazes de alcançar. O perigo estava ali. Perto. A espreita.
A parte Alpha tomou o controle, se projetando com força e agressividade tal, que chegou a tirar os sentidos de alguns Betas das proximidades. Hana gritou algo.
Não se importou com eles. No segundo crucial, Shino viu apenas seu Ômega e a confusão assustada que sua face revelava. Naquele instante que fez toda a diferença, Shino o abraçou com força, para protegê-lo enquanto jogava ambos ao chão.
Quando esse segundo sobrenatural se passou, o jutsu proibido veio obliterando e devastando tudo.
