Marcas da Solidão
Kaline Bogard
Sentados na recepção do hospital, Shino e Ino assistiram o movimento crescer conforme as equipes voltavam com as vítimas resgatadas. Também captaram presenças conhecidas, várias delas. E o Alpha logo reconheceu os camponeses de seu feudo se reunindo ao redor do prédio a espera de notícias. Ficou aliviado que a maioria parecia bem. Reconheceu dois ou três shifters feridos que foram levados para a parte interna do hospital. Os demais não foram atingidos.
Algum tempo depois Hana veio sentar-se com eles. O braço enfaixado e preso por uma tala, e o curativo na testa eram únicos sinais de que esteve tão perto do perigo.
Silenciosamente, alguns membros do esquadrão ANBU chegaram e se espalharam pelo hall, reforçando a segurança. E Uchiha Sasuke entrou no lugar.
Sua essência Ômega se espalhou e envolveu todos os shifters que esperavam por atendimento, assim como por notícias de algum parente ou amigo. Foi acalentadora, acalmando os Betas mais nervosos. Sua presença surpreendeu a maioria, muitos daqueles homens e mulheres conheciam o companheiro do Hokage e o viam de longe, tê-lo assim perto era a primeira vez. Muitas das vítimas eram visitantes trazidos pela curiosidade ao festival, experimentavam algo que sequer podiam mensurar.
Caminhou altivo até Shino, Ino e Hana; a expressão de desagrado no rosto não enganava ninguém, pois sua energia dizia justamente o contrário. Sasuke estava preocupado com todos.
— Como ele está? — perguntou para Shino.
— Ainda não temos notícias.
Sasuke não disse nada. Encontrou com Naruto rapidamente, antes de vir para o lugar onde sua presença seria mais útil. Não tiveram tempo de conversar muito, e foi providencial. Ou teriam brigado feio. Sasuke foi contra a ideia desse festival e dessa homenagem desde o começo, lhe pareceu idiota expor o jovem Ômega a todos os olhares quando o caso estava tão recente e vários criminosos ainda em fuga. Naruto garantiu que o evento teria toda a segurança necessária.
Agora encaravam os resultados.
E Sasuke não queria pensar que o Hokage tinha usado aquilo como isca para a emboscada que prenderia inimigos importantes. Aquele tal de... como era o nome que ouviu um ANBU relatar? Hidan...?
Não. Naruto nunca faria algo assim.
— Você está bem? — Ino perguntou, preocupada com a expressão subitamente séria de Sasuke.
— Sim. Estávamos chegando ao festival quando o ataque aconteceu — ele respondeu.
— Não — a Beta explicou — Sobre sua energia. Não está usando demais aqui no hospital? Fazia tempo que não precisávamos de um Ômega para algo assim tão terrível.
Sasuke balançou a cabeça.
— Essa é a função de um Ômega. É igual a quando um Alpha se regenera rápido para continuar a luta. Isso não o afeta, porque é inerente a casta — olhou para Hana, como se a notasse pela primeira vez — É a irmã daquele moleque?
Perguntou o óbvio. Hana tinha as marcas do Clã Inuzuka na face, borradas; porém reconhecíveis.
— Prazer em conhecê-lo — a mulher meneou a cabeça com respeito. A energia daquele Ômega era tão diferente da de Kiba... era acolhedora sim, e doce. Surpreendentemente doce. Enquanto a de seu irmão era rústica e pura; a do Uchiha era... não sabia explicar!
Ele meneou a cabeça, sem dar grande importância. Acabou sentando-se na cadeira vaga ao lado de Shino. Tinha a intenção de levar sua essência ao hospital e ajudar a acalmar os shifters trazidos para atendimento. E, ao mesmo tempo, aguardar notícias junto aos amigos.
Eventualmente Naruto veio juntar-se a eles.
O Hokage parecia cansado. A figura de autoridade chamou tanta atenção quanto seu companheiro. Mas ele seguiu até o grupo de amigos e parou próximo a eles.
— Yo — cumprimentou.
Shino balançou a cabeça.
— Como está a situação?
— Controlamos. Então tudo saiu do controle de novo. E controlamos mais uma vez — ele coçou a nuca — Seus Betas estão em peso aí fora, Shino. Mas eles me deram um trabalho danado.
— O quê? — Shino não entendeu.
Naruto suspirou, preparando-se para explicar.
— Temos mais de cem mortos e pelo menos o dobro de feridos. O jutsu que eles lançaram foi tenebroso, é um jutsu proibido que usou a vida de três ninjas como sacrifício. Prendemos dois subalternos e Hidan, um dos lideres da Akatsuki.
— E em que parte meus Betas deram trabalho? — Shino ajeitou os óculos no rosto.
Naruto sorriu um tanto triste.
— Eles lincharam os dois subalternos. Conseguimos levar Hidan para um lugar seguro, mas os outros dois criminosos... — mirou ao redor, notando que algumas pessoas prestavam atenção no grupo peculiar — É a lei do olho por olho. Fizeram mal para o Alpha e o Ômega do Pack, a parte animal tomou o controle dos seus Betas e nós não evitamos o pior.
— Que porra, Naruto. E agora? — Ino ficou apreensiva.
— Agora, nada — o Hokage soou pesaroso — Poderíamos obter informações dos prisioneiros, mas a parte animal de um shifter é metade de sua força de vontade. E essa parte não raciocina. Diante do perigo imediato para a figura de autoridade, os Betas reagem. Nesse contexto não existe punição ou retaliação. Por sorte conseguimos tirar Hidan do local e acalmar os ânimos. Vamos interrogá-lo assim que cuidarmos de todos os feridos. Tenho homens fazendo varreduras por toda Konoha, mas não espero ninguém mais além desses cinco ninjas e de Hidan. Como seu companheiro está?
— Sakura o levou para tratamento. Ainda não sabemos de nada — então se lembrou da parte social — Está é Inuzuka Hana, irmã de Kiba.
O Hokage sorriu de leve.
— Prazer — acenou com a mão.
Hana sorriu pequeno de volta. Era uma honra, mas a ocasião trazia apreensão.
— O prazer é meu.
— Um deles fingiu ser enfermeiro. Ele tentou levar Kiba — Shino revelou com rancor.
— Hidan. Acredito que esse plano foi feito para se vingar, porque o esquema perfeito deles foi descoberto. Tive medo de algo assim, por isso reforcei a segurança, mas não previ o jutsu proibido. Essa minha inocência custou caro.
O Hokage sentia culpa, isso ficou claro. Aliviou Sasuke, que recebeu um olhar estranho do companheiro. O Ômega entendeu que Naruto não usou Kiba como isca. E o Alpha compreendeu que Sasuke levava aquela desconfiança secretamente. O clima entre eles ficou estranho.
E o assunto morreu. Naruto pediu licença e saiu, ainda tinha muito o que resolver por causa daquele ataque. Tirou uma pausa para ver como seus amigos estavam, mas as obrigações exigiam sua presença.
Sasuke ficou por ali. Ao contrário do Hokage, seu dever era com o povo que sofria no hospital, dando suporte aos que padeciam e aos que pranteavam perdas dolorosas.
Pouco a pouco a recepção foi se esvaziando. A equipe de funcionários, treinada por Sakura, era muito competente. Cuidou dos feridos leves, depois de dar prioridade aos mais graves. Alguns ainda relutaram em ir embora, não era todo dia que se podia estar tão perto de Uchiha Sasuke! Mesmo que essa oportunidade viesse de um acontecimento triste, queriam aproveitar.
No lado de fora, a presença dos Betas do feudo Aburame seguia sem esmaecer. Todos queriam notícias do garoto que mudou a vida que levavam, que veio trazendo alegrias e cores novas! Precisavam sentir aquela energia vibrante e jovial a que se apegaram e, em poucas horas de ausência, já fazia uma falta imensurável!
Mas respeitavam a seriedade da situação. Ficavam do lado de fora do hospital, reunidos em pequenos grupos, para não tumultuar e não atrapalhar o socorro a outras vítimas.
O dia que deveria ser de alegrias e comemorações, foi chegando ao fim. O choque da população de Konoha cedeu espaço e os shifters saíram da letargia. Parecia inacreditável: o dia começou bem, houve a reviravolta de um ataque traiçoeiro, vitimas, mortes, linchamento...
Logo se deram conta de que precisariam reconstruir várias coisas destruídas pelos bandidos. Tirariam aquela noite para prantear as perdas e cuidar dos feridos. No dia seguinte a vida seguiria seu curso, com os moradores ainda mais unidos, seus laços se tornando mais fortes do que antes.
Assim era Konoha.
Assim era o País do Fogo.
Os inimigos tentaram aplicar um golpe traiçoeiro. As consequências foram pesadas, mas não tão terríveis quanto poderiam ser.
Exceto para Shino, que não se aguentava de angústia. Não conseguia sentir seu companheiro. Seria pelo acônito que ele usava no pescoço? Ou sua situação piorou? Shino estava ao lado dele. Pôde agir rápido e fazer seu melhor para protegê-lo. Não permitiu que nem um arranhão o machucasse. Diferente de dez anos atrás, ele estava no lugar certo, na hora certa.
E, nesse caso, por que aquilo estava acontecendo?
Só queria vê-lo de novo. Ver aquele sorriso enorme, ouvir a voz cordial que transbordava de sede de viver.
Não. Mais do que querer, ele precisava ter tudo aquilo de volta à sua vida.
Nem a presença de seus amigos aliviava a tensão. Tinha Ino, Sasuke e Hana sentados ali, ao seu lado. Mas tudo que o Alpha queria era seu Ômega. O companheiro que escolheu para passar o resto da vida consigo.
E quando a aflição de Shino não podia mais aumentar, ou assim ele pensava, Sakura veio pelo corredor que levava à parte mais interna do hospital. A noite vinha encontrá-los, a recepção já quase vazia àquela hora. Os shifters que receberam cuidados médicos e foram liberados, partiram para conferir o tamanho do estrago e ver por onde recomeçar a vida. Os mais graves, permaneceriam internados para os devidos cuidados.
Shino ficou em pé, assim como Ino e Hana. Sasuke demorou um pouco mais, porém acabou se erguendo com toda a classe, disfarçando o interesse em saber como o outro Ômega estava.
Pelo sorriso enorme de Sakura, todo o temor foi afastado.
— E então? O que houve? — Shino se adiantou um passo, sem aguentar mais um segundo sem informações do companheiro.
— Não se preocupe, Shino — Sakura o tocou no ombro, com carinho — Eles estão muito bem. Quando você me descreveu o ataque, eu já entendi o que aconteceu. Não foi nenhuma consequência direta do jutsu, mas um efeito remanescente.
O Alpha relaxou os ombros. A tensão abandonou seu corpo, ele fechou os olhos sentindo um conforto avassalador. Ino e Hana se abraçaram num impulso, com a chefe de segurança tomando cuidado com o braço imobilizado da outra Beta. Mesmo Sasuke se permitiu dar um sorrisinho mínimo como demonstração de alívio.
E foi então que um pequeno detalhe superou toda a alegria pela boa notícia, despertando curiosidade em Shino.
— "Eles"? — deu ênfase ao plural usado pela médica.
Como se fosse possível, o sorriso de Sakura aumentou.
— Sim — o apertão no ombro de Shino se intensificou. Um gesto de pura alegria — Seu companheiro e o filhote. Parabéns, Alpha Aburame. Você vai ser papai.
