Marcas da Solidão

Kaline Bogard

E foi então que um pequeno detalhe superou toda a alegria pela boa notícia, despertando curiosidade em Shino.

— "Eles"? — deu ênfase ao plural usado pela médica.

Como se fosse possível, o sorriso de Sakura aumentou.

Sim — o apertão no ombro de Shino se intensificou. Um gesto de pura alegria — Seu companheiro e o filhote. Parabéns, Alpha Aburame. Você vai ser papai.

— Que bom — o Alpha sussurrou — Que bom.

E ficou claro que Shino não soube lidar com a revelação. Fato evidenciado quando ele precisou se sentar novamente. O estado consternado trouxe diversão e preocupação ao pequeno grupo de amigos. Principalmente quando Shino se virou para Ino e indagou:

— Sakura disse que eu vou ser pai?

A Beta até tentou ficar séria. Mas não conseguiu. Ela virou o rosto para o lado, abafando a risadinha, o que resultou em um som muito estranho escapando. Deu uns tapinhas camaradas no ombro do amigo.

— Parabéns! — Ino cumprimentou com animação. Felicidade emanando em ondas.

Sasuke torceu o nariz.

— Se você sai na chuva sem uma sombrinha, você vai se molhar — falou arrogante. Ele já esperava por algo assim desde o segundo jantar, logo após Kiba ter sido marcado. Naquela época a energia dele estava diferente, havia um fluxo convergente, como se direcionado para o próprio corpo. Um tipo de... preparação.

Shino ignorou a alfineta. Ordenou para Ino:

— Providencie um filho também. Meu filhote vai precisar de um bom chefe de segurança.

A mulher desistiu de vez. Sentou-se ao lado de Shino, cruzou os braços sobre os joelhos e apoiou a testa neles. Riu divertida. E chorou. A emoção era forte demais para controlar o que sentia.

— Pelo menos não desmaiou — Sakura falou divertida — Fico feliz por vocês. E pela chance de acompanhar a gestação de um Ômega macho. Pensei que nunca veria esse milagre.

Sasuke torceu o nariz para a indireta.

— Parabéns — Hana desejou. Tinha ficado um tiquinho preocupada com a reação do Alpha, mas viu que foi apenas resultado da surpresa. O homem estava feliz. Fazia planos a longo prazo! E... já se referiu ao filhote como um futuro garoto. Impressionante.

— Por que não veio contar antes, Testuda?! — Ino indagou, secando as lágrimas que deslizavam pelas bochechas — Quase matou a gente de preocupação!

— Sinto muito por isso, Cara de Porco, eu estava ocupada salvando vidas.

A troca de farpas só faltou terminar em rosnados. Mas Shino compreendia a atitude de Sakura. Um segundo podia fazer toda a diferença para quem estava gravemente ferido. Aguardar foi doloroso, mas as ótimas notícias aliviaram qualquer sofrimento.

— Obrigado. Posso vê-lo?

— Claro — Sakura anuiu — Venha comigo.

Ambos foram para o interior do hospital. O pequeno grupo ficou para trás, sabendo que a liberação não se estendia a eles.

Sasuke suspirou.

— Pensei que a nossa geração acabaria aqui — falou baixinho.

— Também pensei — Ino já não sorria, embora algumas lágrimas silenciosas deslizassem pela face pálida — A vida é engraçada.

— Nem sempre — o Ômega sentou-se ao lado dela — Nem sempre.

As mulheres concordaram com a afirmação pessimista. A vida trazia bons e maus momentos, claro. Todos ali experimentaram o melhor e o pior. Justamente por isso sabiam valorizar momentos de felicidade como aquele.

Enquanto seguiam pelo corredor, Sakura explicou a situação:

— O jutsu não teve grandes consequências porque você agiu bem a tempo. Ômegas são criaturas muito sensíveis ao ambiente, por isso quando seu companheiro se viu frente ao perigo usou toda a energia para envolver o bebê e isso o esgotou. Ômegas não se recuperam tão fácil quanto Alphas, então Kiba dormiu para repor o chacra. Não vi necessidade de dar remédio para acelerar algo que aconteceria naturalmente.

Shino ergueu as duas sobrancelhas. Kiba só estava dormindo esse tempo todo para restaurar a energia? Aquilo era tão a cara dele...

— Parabéns, meu amigo — médica falou suave — Estou muito feliz por você. Mesmo.

Desde que Sakura atendeu ao chamado do feudo, naquele primeiro momento em que a essência Ômega foi libertada, ela notou as nuances que envolviam a relação deles, ainda no comecinho... mas com contornos claros. E desde então vinha torcendo por um desfecho como aquele.

O grupo de amigos sofreu um golpe no passado do qual a maioria se recuperou a sua maneira. Exceto Aburame Shino. O homem vivia preso à culpa, simplesmente estagnando a vida e confinando-se no feudo. Ele merecia exorcizar os fantasmas que o assombravam. Ele merecia sair da solidão auto imposta e seguir em frente.

— Obrigado — Shino respondeu com simplicidade.

— Vou recomendar que seu companheiro passe a noite aqui. Amanhã pela manhã estarão liberados.

— Ficarei aqui essa noite — decidiu taxativo, sem nem cogitar uma recusa.

Sakura balançou a cabeça concordando.

— Você e todo o seu feudo, né? Seus Betas cercaram o hospital e estão de olho em cada shifter que entra e sai do prédio. Naruto nem tentou tirá-los. Ele sabe que não vai conseguir, preferiu evitar o constrangimento.

Shino sentiu gratidão pelos camponeses que tinha sob proteção. Compreendia a atitude deles, de querer proteger não apenas o Alpha, mas o Ômega responsável por trazer luz de volta ao feudo. Captava a presença deles desde que chegaram, junto com fragmentos de preocupação e raiva. O vínculo que unia o feudo não tinha suas bases no sangue, mas era tão poderoso quanto a ligação sanguínea. Às vezes até mais.

Pensar nisso o lembrou de algo.

— E o acônito? Posso tirar? — Shino indagou à amiga e médica. Kiba ainda estava com o cordão no pescoço, pois não sentia a essência do Ômega. Isso dava uma sensação de vazio imensurável.

— A vontade — Sakura sorriu — Se teme algum inimigo oculto, não se preocupe. Creio que nesse instante nenhum prédio no País do Fogo é mais seguro que esse hospital. Pode revelar a presença de seu companheiro. Seus Betas precisam dessa garantia tanto quanto você. Estarei por aqui, prestando assistência ao outros feridos. Me chame caso precisem.

Sakura despediu-se ao parar na porta do quarto. Não pretendia entrar, dando toda a intimidade para o casal se reencontrar depois do susto.

Shino parou embaixo do batente, olhando para seu companheiro recostado na cama e recoberto por um lençol branco. Kiba admirava a paisagem do lado de fora da janela, o pátio interno do hospital todo gramado, com alguns canteiros de flores bem cuidadas.

— Olá — falou se anunciando, apesar de saber que sua presença já tinha sido sentida.

— Yo — Kiba virou-se para ele. Estava sério.

Shino suspirou e aproximou-se da cama. Havia uma cadeira à cabeceira, entretanto preferiu ficar de pé.

— Como se sente?

— Muito bem — ele estendeu a mão, num pedido mudo para que Shino a segurasse — Obrigado por me salvar. Sakura me explicou tudo — já mostrou intimidade com a médica facilmente, ainda que ela tivesse em uma posição de respeito e fosse mais velha.

— Ótimo.

— Você está bem? Recebeu todo aquele impacto... — lamentou. A médica tinha lhe explicado sobre o ataque e os inimigos infiltrados. Sentiu-se um pouco culpado pela situação, mas logo entendeu que não tinha culpa se aquelas pessoas sem escrúpulos desejavam vingança. Eles eram maus por natureza. Não podia se culpar por isso. Lamentava pelos shifters inocentes que perderam a vida e se feriram. Queria justiça por essas vítimas.

— Os insetos atenuaram. É uma técnica do Clã Aburame — explicou. Graças ao escudo de insetos, não se feriu e foi capaz de proteger o Ômega. Perdeu toda uma geração de bichinhos, teria que renovar o contrato com novas espécies. Mas isso era tarefa para quando voltassem para casa.

— Você soube...? — Kiba deixou a questão no ar. Os olhos inquietos sondavam cada aspecto da face de Shino em busca de um sinal sobre como o Alpha reagia em relação às novidades.

— Soube.

— E...? — Kiba não resistiu. Queria descobrir como o companheiro se sentia a respeito do filhotinho. Eles nunca conversaram sobre aquilo, nem quando Sasuke insinuou durante um dos jantares. O assunto caiu no esquecimento e eles viveram como se tal possibilidade não existisse na relação deles — Está feliz?

O Alpha deu um apertão de leve na mão que segurava e a levou até o rosto, para depositar um beijo carinhoso e cheio de devoção.

— Eu estou muito feliz — garantiu — Minha parte Alpha esperava por isso, vejo agora. Racionalmente foi uma surpresa, porque eu já tinha desistido de ter filhos. Você pode sentir como me sinto.

Kiba arregalou os olhos. Tinha mergulhado na preocupação tão a fundo, que nem se lembrou do vínculo. Prestando atenção notava os fragmentos de alegria. Nada efusivo, porque Shino não era de manifestações contundentes de humor. Contudo, a felicidade era profunda e inegável.

— Desculpa — ele abaixou a cabeça — Eu... eu fiquei muito feliz com a notícia. Sei que os Alphas não são como os de Gin-Io e... mas... não consigo só esquecer tudo o que eu vivi. Filhotes são lindos, mas sempre tiravam os bebês dos Ômegas e...

Shino soltou a mão, inclinou-se e o abraçou com força.

— Ninguém vai tirar nosso filho, eu prometo. Nunca foi fácil para mim demonstrar emoções, porque é assim que o Clã Aburame cria seus herdeiros. Tenha paciência comigo e com esse meu defeito.

Kiba sorriu aliviado.

— Não é defeito. Acho que se nós dois fossemos exagerados como eu... a gente ia brigar e não ia se dar tão bem. Não vejo isso como um defeito, é mais um charme que eu gosto muito e... CARALHO! — afastou-se um pouco do abraço — Eu ia dizer que te amo, mas aconteceu aquela confusão toda e nem consegui.

Shino limpou a garganta.

— O quê?

Kiba sentiu o calor subir pelo pescoço, cobrir seu rosto e tingir as orelhas.

— Amo você — repetiu olhando fundo nos óculos de lente escura, soando envergonhado; porem firme — Amo você e já amo esse Aburamezinho que você botou na minha barriga!

O Alpha retomou o abraço meio desajeitado. Ondas de carinho e bem-querer o sufocaram. Como chegou a sentir uma vez no passado, ao presenciar o milagre do nascimento de um bebê. Mas agora tal sentimento vinha em intensidade totalmente diferente. Era o sentimento que o ligava ao companheiro escolhido.

— Eu também amo você — confessou rouco, a mão indo tirar o cordão de acônito, desejoso daquele garoto. No segundo em que a presença familiar se libertou, os lábios se tocaram, saudosos, afoitos. As essências de Alpha e Ômega se misturaram, se envolveram e se propagaram, escapando do confinamento do quarto, chegando até os amigos na recepção, assim como uns poucos shifters que esperavam notícias dos entes queridos; e foram além. Ultrapassando os limites do hospital e alcançando os camponeses do feudo atentos à segurança do casal.

Enquanto se beijavam, Shino e Kiba ouviram os gritos da multidão ao redor do hospital em júbilo e comemoração. Mas, acima de feudo, sentiram a onda de alegria que emanou daqueles Betas, ao terem a confirmação de que tudo estava bem. As três castas novamente reunidas depois de um breve (porém assustador) interlúdio, como os elos fortes de uma corrente invisível. Não daquelas feitas para aprisionar, mas os elos irrompíveis que trazem a união.