Marcas da Solidão

Kaline Bogard

Eventualmente Kiba recebeu as visitas da irmã mais velha, de Ino e de Sasuke, ainda que o Ômega fizesse questão de deixar claro que não estava preocupado com ele e sua presença era representativa do Conselho de Konoha, principal responsável por tal desfecho.

Todos fingiram que acreditaram na postura "oficial".

Kiba reclamou muito que seria uma longa noite, pois estava descansado e não ia dormir tão fácil. Claro, caiu no sono enquanto monologava com Shino e só foi despertar no dia seguinte. O Alpha não se surpreendeu de todo. E, por sua vez, não achou a noite longa; enquanto vigiava o sono do companheiro. Mesmo a presença adormecida era encantadora de observar. Nem viu as horas passar, absorvido em todas as mudanças que sua vida sofreu no curto período daqueles meses. E em tudo o que haveria de mudar, agora que a união entre dois companheiros resultou em uma família de três...

Pela manhã, Sakura veio cumprir sua promessa. Enquanto assinava a alta de Kiba (que tomava o café da manhã), deu uns poucos informes sobre a situação em geral. Tinham tantos feridos que os leitos estavam todos lotados. O esquadrão ANBU interrogou o prisioneiro com cuidado, encontrando o esconderijo dos ninjas e os planos de ataque. Aparentemente não restou nenhum inimigo em Konoha, além de Hidan. Mas Sakura só sabia por alto de tudo aquilo, não tinha detalhes.

Ino apareceu cedo com Hana, trazendo uma muda de roupa, para que o casal pudesse trocar o kimono. Avisou que Naruto marcaria uma reunião no feudo Aburame para relatar todas as minúcias do caso. O Hokage acreditava que não existia perigo imediato, mas deixou claro que continuavam investigando sem descanso. Ainda existiam membros da Akatsuki a solta.

Kiba ficou aliviado que o broche herdado da mãe continuou firme na roupa e poderia ser levado de volta para guardar na preciosa caixinha de chá. Já o leque foi perdido no ataque, o presente que Shino lhe deu de aniversário. Todavia o Alpha espantou a tristeza garantindo que escolheria um leque ainda mais bonito para repor, promessa que devolveu o sorriso a Kiba.

E assim, depois de grande preocupação, estavam liberados para voltar ao feudo.

Na saída do hospital, reencontraram os camponeses que esperavam com ansiedade. Os responsáveis por cada terreno se aproximaram para cumprimentar o Alpha e transmitir os desejos de boa recuperação. Danzo-san mostrou a carruagem que tinham recuperado no dia anterior, intacta do ataque, pois foi estacionada longe de onde seria o festival já que os arredores estavam tomados pelos participantes.

Shino ajudou Kiba a entrar no veículo. Não que o Ômega estivesse debilitado nem nada, foi apenas um cuidado que deixou o garoto meio emocionado. Era tão bom ter alguém que o cuidasse depois de dezenove anos dando um duro danado apenas para conseguir sobreviver com alguma dignidade... quis aproveitar a sensação um pouquinho!

A comitiva se pôs a caminho. Um grande grupo de shifters, a carruagem com Alpha e Ômega, Ino e Hana montadas em belos alazões e um carroção puxado por quatro pequenos burros, que levava os camponeses mais velhos e as mulheres com filhotes pequenos.

A medida que seguiam pela vila, afastando-se do centro de Konoha, notaram a comoção. Pessoas indo e vindo, carregando material para reconstruir o estrago causado. Unidos para se recuperar do ataque traiçoeiro que visava o Ômega que já consideravam como morador daquela vila. Os feridos recebiam cuidados e se recuperavam. Os mortos seriam pranteados, possivelmente em um grande memorial futuro. Agora era hora de focar no estrago físico.

Logo a grande comitiva alcançou a estrada, avançando para longe da vila. O sol estava quente, mas não vinha inclemente. Parecia colaborar com eles, ao não esquentar como o padrão daquele fim de verão.

Um grupo massivo de shifters caminhando sem pressa. A carruagem que antes ia a frente, agora estava rodeada pelos homens e mulheres que viajavam a pé. Um feudo inteiro agindo como escolta.

A escolta que o Alpha não teve, dez anos atrás, ao percorrer a estrada deserta.

Naquela época, os integrantes de seu feudo acreditaram que não deviam se envolver no problema contra os Hyuuga. E abandonaram seu Alpha para que resolvesse tudo sozinho, carregasse a responsabilidade sozinho.

Mas sozinho, um Alpha é só um shifter.

Aliado a seus Betas, torna-se uma força quase imparável. Ao menos capaz de lutar e se defender de acordo. Todos ali aprenderam uma lição que perdurou a década solitária, onde o feudo viveu sob a sombra da tristeza.

Mas a cura vem. Não quando a mente pede, sim quando o coração está pronto. E a cura daquele feudo, enfim, chegou.

Uma vozinha tímida começou sem aviso prévio. A criança que ia segurando a mão da mãe, no meio dos viajantes, puxou a cantiga que ouvia os pais cantando quando tinha a chance de ir às plantações, cantiga que conhecia desde que nasceu. Uma segunda criança a imitou. E um adulto.

De repente o feudo inteiro estava cantando. E seguindo em frente.

Dentro da carruagem, o casal ouviu o coral empolgado. Kiba sorriu, também reconheceu a música que aprendeu a cantar naqueles seis meses em que viveu escondido. Suspirou, aproveitando o conforto do ombro do Alpha em que estava encostado, envolvido não apenas pelo calor do corpo daquele homem, mas pela presença altiva, que se tornou mais forte em resposta a manifestação dos Betas em derredor.

— Vamos ficar um tempo no feudo, sem vir a Konoha — Shino sussurrou. A grande mão deslizando pela barriga do companheiro, por cima do kimono. Estava maravilhado com a ideia de ser pai. Seu lado Alpha queria sair de controle, impondo a forte presença tamanha a alegria e o orgulho que sentia. Pensou que nunca teria a oportunidade, por falhar em uma promessa vital. Mas os deuses mostraram misericórdia e, ainda que se escondesse de tudo e de todos, fizeram com que tamanha felicidade o alcançasse.

Seu pedido era uma precaução. No próprio território, garantia a segurança de duas vidas mais preciosas que a sua própria. No feudo, nenhum inimigo conseguiria chegar tão perto de lhe tirar o companheiro quanto na festa de homenagem.

A decisão de ficar na propriedade, dessa vez, não tinha intenção alguma de confinamento ou isolação. Pelo contrário. Os planos de Shino envolviam passeios nos recantos esquecidos, convívio com os Betas do vilarejo, as aulas que pretendia continuar ministrando ao Ômega.

Konoha entrava em um processo de reconstrução. Algo similar ao que vinha acontecendo desde que Shino parou em frente a uma de suas plantações, incomodado por um "Beta" que destoava do contexto. Daquele momento em diante, deu-se inicio a um processo de reconstrução. Ou, pensamento que se encaixava melhor: o abençoado processo de cura. Aburame Shino curou o coração, redescobrindo a alegria de viver que não sentiu por um longo período.

E Kiba entendeu tudo isso. Sentiu isso.

A decisão do Alpha não veio para prendê-lo em cativeiro como acontecia em Gin-Io, uma privação da liberdade na qual acordava todos os dias já se preparando para as usuais humilhações. Ele sentia pelo vínculo o forte desejo de proteção e bem-cuidar, e coisas boas que não sabia muito bem identificar, porque nunca sentiu antes. Sensações intensas remetendo à esperança e ao futuro.

— Tudo bem — respondeu colocando a mão por cima da mão do Alpha. Podia muito bem preencher os dias na mesma rotina que vinham criando nas últimas semanas. Os dias ocupados passavam rápidos, divertidos, aprazíveis.

Emocionou-se pela mudança evidente no comportamento de Shino. O senhor feudal que tinha fama de solitário, isolado do convívio social excetuando-se o mínimo necessário para sobreviver. Tais escolhas derivavam de uma perda imensurável que o empurrou para a solidão.

Kiba teve sua própria experiência com a solidão, imposta pelo medo e autopreservação. Sabia que ela crivava marcas invisíveis, dolorosas e inapagáveis. Porém, não era sua intenção purificá-los das experiências. Tristes ou não, foram tais experiências que crivaram o alicerce do caminho que os fez se encontrar.

O garoto aprendeu que tudo na vida deixa marcas: boas, ruins, dolorosas, inesquecíveis, lindas. Que influenciam outras pessoas alimentando o carma do destino.

E o filhote que levava na barriga era a maravilhosa marca do amor.


Notas finais do capítulo:

E aí: valeu a pena?!

Obrigada pela companhia